Desejar

2 Brain Damage


Notas iniciais
Feliz ano novo galera! Como foi a virada de vocês? Eu espero que tenha sido tudo tranquilo ^^ Conforme o prometido, aqui está o novo capítulo o/ Tem mais algumas explicações nele, mas já aviso uma coisinha básica: esperem drama. Só que eu prometo pra vocês que essa fic vai ter fim feliz, tá bão? :D Espero que gostem :D Ah, e relevem os erros, reli isso tantas vezes que é capaz que eu tenha deixado passar alguma coisa. xP

DOIS

Brain damage

And if the dam breaks open many years too soon

And if there is no room upon the hill

And if your head explodes with dark forebodings too

I'll see you on the dark side of the moon

[...]

You raise the blade, you make the change

You re-arrange me 'till I'm sane

E se as rupturas da represa abrirem muito rápido

E se não houver nenhuma casa em cima da montanha

E se sua cabeça explodir com mau presságio também

Eu verei você no lado escuro da lua

[...]

Você levanta a lâmina, você faz a mudança

Você me refaz até eu ficar são

(Pink Floyd — Brain Damage)

Aqui é da residência de Itachi e Sasuke Uchiha, por favor, deixe o seu recado após o sinal”. Durante os próximos três segundos o sinal tocou e a mensagem foi transmitida. “Sasuke seu idiota! Não seja ainda mais babaca do que você já é! Seja homem, pare com isso e venha falar comigo! Vamos resolver isso de um jeito civilizado, mané!”.

Deseja apagar a mensagem?

Ele não deletou. Primeiro, porque não era uma mensagem para ele; segundo, o silêncio da casa era opressor. Fazia dois dias que ouvia aquela voz estridente e rouca dizer as mesmas palavras pela manhã, na hora do almoço, na hora da janta e após chegar da universidade. Itachi não conhecia aquela pessoa, só sabia o nome do garoto e que ele estava atrás do “bastardo que namorava sua irmã” para tentar ajudá-lo com alguns “problemas” e ter alguma informação da irmã. O garoto disse que lhe avisaria se tivesse alguma notícia de seu irmão, mas até agora nada.

Itachi amava Sasuke, entretanto às vezes sentia muita vontade de esganá-lo. Seu irmão nunca o apresentou a nenhum amigo, nem a suposta namorada ou qualquer outra pessoa com quem parecesse se importar. Pior que isso: Sasuke tomava sabe-se lá quantas pastilhas de ecstasy, ficava eufórico e se declarava para ele. Como se fosse a coisa mais normal do mundo o irmão mais novo ficar apaixonado por seu irmão consanguíneo mais velho.

Digno de uma peça shakspereana moderna.

Só de relembrar a declaração de dois dias atrás Itachi se sentia nauseado, o estresse que passara nos últimos dias fizera com que ele tivesse uma crise de gastrite nervosa. As contas chegando, uma demissão em massa pairando sobre sua cabeça, a maldita monografia e agora isso.

E seu irmão se importava? Nenhum pouco.

Talvez fosse sua culpa, por não ter tido tempo para cuidar do irmão após a morte dos pais. Mas ele, sozinho, precisou manter a subsistência da casa, manter Sasuke em uma escola, ter roupas, pagar as contas da quitinete onde moravam; toda a responsabilidade ficou nos seus ombros.

A falta de vigilância resultou em Sasuke caindo no mundo das drogas. Inicialmente um baseado de maconha aqui e ali, Itachi lembrava que uma vez ele e o irmão fumaram um baseado encostados no sofá. Ele ficou tão mole que quando se levantou tropeçou nos próprios pés e caiu de bunda no chão. Seu irmão prometeu que não passaria daquilo; foi uma mentira.

Pelo pouco que soube, seu irmão era viciado em “bala”* e “doce”*, basicamente ecstasy e LSD (1**), e conseguia a droga através de pequenos furtos que fazia na escola. Era em momentos como aquele que Itachi pensava: “onde foi que eu errei?”. Tudo, absolutamente tudo o que fazia era por Sasuke.

Seu irmão era a única coisa que realmente lhe importava. Seus sonhos, seus objetivos, tudo poderia ser colocado de lado, se Sasuke assim quisesse. Então, por quê?

E quando ele pensava nisso ele fatalmente descobriria que não havia uma resposta para aquela pergunta. Coisas ruins acontecem o tempo todo. A mariposa do azar sempre escolhia alguém em quem iria pousar, dessa vez parou na sua casa, de novo. Não é como se ele ou seu irmão não tivessem passado por uma crise familiar antes. Na época eles ainda tinham o pai.

Mas agora ele estava sozinho. Bom, nem tanto. Ele tinha Shisui, mas seu tio estava indo viajar para comemorar a lua de mel (após uma semana de espera depois do casamento). Ele simplesmente não poderia ligar e dizer tudo o que acontecia com Sasuke, até porque seu irmão era sua responsabilidade.

Ele jogou as chaves no sofá e foi até a cozinha, averiguando que tinha exatamente quarenta e cinco minutos para comer, tomar banho e ir ao trabalho. Todos estavam por um fio na loja, já que havia boatos de que um dos sócios dera um calote no outro e demissões em massa estavam previstas; Itachi não queria dar-lhes motivos para ser dispensado.

Felizmente, não trabalhava muito longe de casa e, como ele tinha apresentado a monografia, estaria livre da universidade àquela noite e poderia procurar por Sasuke. Talvez ele até devesse tentar ligar para o amigo de Sasuke e saber que lugares seu irmão frequentava.

Era uma vergonha não saber disso, mas não alterava a verdade.

A geladeira estava praticamente vazia, havia leite, água, alguns poucos ovos, meio tomate e meia cebola. Grande. Não tinha nada pronto e ele realmente precisava comer alguma coisa, na noite anterior ele não jantou e naquela manhã não tinha tomado o desjejum. Decidiu fazer uma omelete simples com os ingredientes que dispunha e aquilo teria que bastar.

Após comer e lavar a louça, Itachi foi até o seu quarto e encontrou o irmão sentado sobre a sua cama. Sasuke estava mais magro, a camisa branca que usava estava encardida, a barra do jeans estava suja com poeira, mas tirando isso o outro parecia estar bem.

–Sasuke, graças a Deus! Onde é que você esteve? — um alívio enorme tomou conta de Itachi, só para ele perceber que seu irmão chorava. — O que...?

Grandes lágrimas escorriam pelo rosto alvo de Sasuke, os olhos negros estavam ligeiramente avermelhados e havia algumas olheiras negras abaixo destes, nada que comprometesse a aparência bonita de seu irmão, mas ainda assim lhe davam a impressão de que Sasuke envelheceu pelo menos uns cinco anos nestes dois dias de afastamento.

Uma lembrança lhe veio em mente, uma imagem mental do Sasuke de sete anos, um menininho de pele bem clara, com um sorriso grande, mesmo que faltasse um dos dentes da frente. O cabelo que era naturalmente arrepiado estaria macio ao toque, e sempre daria um ar doce ao menino. E agora o que Itachi via era apenas um leve vestígio daquela criança: os cabelos ainda eram naturalmente arrepiados, mas estavam sebosos e embaraçados, a pele ressecada, e já não havia qualquer sorriso.

Itachi sentiu seu coração afundar com aquela visão, pois ver Sasuke daquele jeito doía tanto quanto ver sua mãe e seu pai dentro do caixão. Novamente uma lembrança desagradável lhe veio em mente, sem que ele pudesse controlar; até que ele viu a navalha no colo de Sasuke. Onde raios o irmão conseguiu aquilo?

–Nii-san... Você me ama?

Itachi gelou. Desde o dia em que Sasuke disse qual era a droga na qual era viciado, ele pesquisou os efeitos. Tanto a bala quanto o doce costumavam ter efeitos colaterais psicológicos, a primeira podendo causar depressão grave e a segunda... Itachi nem queria pensar na tal da bad trip. Os sintomas dependiam de organismo para organismo, bem como da qualidade e quantidade da droga. Itachi não tinha ideia de quais sintomas assolavam seu irmão, mas se Sasuke estivesse com alguma crise depressiva, então talvez pudesse tomar uma atitude drástica, talvez até mesmo o suicídio.

Tudo isso fazia com que a resposta a pergunta feita fosse ainda mais complicada.

Sasuke o amava, ou dizia lhe amar. Mas o sentimento que Itachi nutria pelo irmão decididamente não era o mesmo que Sasuke. Seu irmão o desejava e Itachi apenas amava Sasuke porque ele era seu irmão. Ele amava Sasuke como um pai provavelmente ama o filho, já que ele sozinho criou o outro desde os doze anos. Era impossível para ele ver Sasuke com outros olhos.

O que ele deveria responder?

–Você não me ama... -sussurrou Sasuke.

Itachi fez um gesto negativo com a cabeça e se sentou ao lado de Sasuke. Não era ausência de amor. Ele amava o irmão, só não como o outro queria. Para Itachi, Sasuke era mais que seu irmão: era o seu mundo. Toda sua vida gravitava ao redor do outro, porque Sasuke era sua responsabilidade. Itachi sabia que amava seu irmão incondicionalmente porque absolutamente nada nesse mundo era maior do que o que ele sentia pelo irmão, ele poderia até abdicar da própria vida pelo outro; mas não conseguiria desejá-lo.

–Não, eu amo você, Sasuke. -disse ele, dando um pequeno peteleco na testa do mais novo e deixando um sorriso brotar em seus lábios. -Eu amo você patinho.

Sasuke choramingou e mais algumas lágrimas rolaram pelo seu rosto. Itachi faria qualquer coisa para que o mais novo voltasse a ser como era antes, mas infelizmente ele não poderia fazer isso. Não sozinho: Sasuke também precisava querer sair desse mundo.

–Então por que você não me beija? -inquiriu o mais novo com a voz fanha.

Itachi deixou seu sorriso morrer, enquanto seu peito ficava pesado e um suspiro contrariado escapava do seu controle. Sasuke o encarava fixamente, o rosto traçado pelas lágrimas. Como poderia rejeitar o irmão sem feri-lo? Como dizer que o amava sem que o outro mudasse o sentido das suas palavras? Como poderia dizer sem machucá-lo?

Mais do que qualquer outro sentimento de dúvida, Itachi temia pela navalha que o mais novo segurava. Como é que seu irmão tinha um treco daqueles? A lembrança dos pequenos furtos que seu irmão fazia pelo vício lhe veio em mente e isso não o ajudou a se acalmar, pois se os furtos não adiantassem mais, então seu irmão passaria a roubar pessoas inocentes para continuar se drogando.

De repente, “desespero” pareceu uma palavra simples demais para definir seu medo naquele momento.

–Sasuke, me dê essa navalha, sim? -pediu Itachi tentando desviar do assunto.

–Se eu te der, você vai me beijar? -Sasuke o encarou com olhos subitamente infantis e Itachi mais uma vez se viu teleportado no tempo, conseguindo enxergar seu irmão no alto dos sete anos de idade, perguntando-lhe se poderiam brincar no parquinho mais tarde.

Ao Sasuke de sete anos, Itachi disse “não”. E novamente teria que dar a mesma resposta ao Sasuke de dezessete anos que lhe pedia um beijo. Mas antes que dissesse, sua resposta transpareceu em seu olhar, pois seu irmão estreitou os olhos, fazendo mais lágrimas rolarem enquanto segurava a navalha com firmeza, fazendo com que o coração de Itachi desse um solavanco.

–Sasuke, não torne as coisas mais difíceis! -pediu Itachi com medo pela sua própria integridade física pela primeira vez desde que encontrara o irmão em casa.

Em seguida ele se sentiu um lixo por pensar assim; Sasuke poderia se ferir com aquilo. Se seu irmãozinho estava em uma crise depressiva após o uso de entorpecentes, ser rejeitado poderia fazer com que a ideia de suicídio soasse tentadora demais. E Sasuke tinha uma navalha bem ali e poderia cortar os pulsos na sua frente!

–Você não vai me beijar! -disse Sasuke enxugando o rosto sem nenhum jeito, enquanto direcionava a navalha em sua direção. -VOCÊ NÃO ME AMA!

Itachi inspirou profundamente e seu coração deu um solavanco desagradável, enquanto se corpo ficava tenso e o pavor crescia em proporções alarmantes dentro de si. Ele tentou demonstrar que estava calmo mesmo com a navalha encostada no seu peito; não havia como Sasuke errar se quisesse apunhalá-lo. Mas ele quis acreditar que seu irmão não queria lhe fazer mal algum e estava apenas sofrendo com os efeitos colaterais após o uso dos entorpecentes. Se ele relembrasse ao outro que eram irmãos e que ele verdadeiramente o amava, então Sasuke cairia em si. Eram sangue do mesmo sangue, nem Sasuke poderia fugir a isso.

–Acalme-se, Sasuke. -pediu ele com a voz calma, percebendo que a navalha tremia em sua direção. -Eu amo você...! -murmurou Itachi olhando nos olhos do mais novo. -Só não... Só não do jeito que você quer...

–MENTIROSO!

Tudo foi muito rápido. Por puro reflexo, Itachi conseguiu agarrar a mão de Sasuke que segurava a navalha e conseguiu evitar uma apunhalada próximo do coração. Seu irmão se debatia muito, mesmo que ele segurasse ambos os braços do outro, o caçula não soltava a navalha de jeito nenhum. Lágrimas embaçavam o rosto de Sasuke e Itachi só conseguia pensar “por que é que tem que ser assim?”.

–ME SOLTA! -bradou Sasuke.

Itachi não largou e seu irmãozinho lhe deu uma cabeçada, que lhe fez vacilar no aperto, mas foi o suficiente: a mão que segurava a navalha foi liberada e a lâmina perfurou a lateral do seu corpo, fazendo-o grunhir com a dor. Ele abriu os olhos, percebendo que a realidade conseguia ser ainda mais dolorosa que a ferida. Sasuke o olhava com as iris alucinadas pela dor e principalmente pela raiva, fazendo-o pensar que aquilo era culpa sua. Como ele pôde deixar as coisas chegarem até aquele ponto?

Sasuke lhe empurrou, fazendo-o deitar na cama e apertou sua ferida, fazendo-o morder os lábios para evitar um grito, só que seu irmão aproveitou para lhe apunhalar próximo do seu ombro esquerdo.

“Eu preciso fugir!” Itachi pensou tomado pelo desespero. Sasuke ia lhe matar! Seu irmãozinho queria lhe matar e ele sabia, tinha certeza, que quando Sasuke saísse da depressão causada pelo uso da droga ia se arrepender disso. Ele precisava fugir! Usando da adrenalina que só as pessoas tomadas pelo pânico têm, Itachi empurrou o irmão e tentou se levantar. Ele rapidamente se colocou de pé, ignorando a dor e os cortes tentando ir até a porta do quarto, mas Sasuke se recuperou logo, pegando-o pelo ombro machucado e lhe fazendo virar a tempo de ver a lâmina riscar ambas as fases de seu rosto, perfurando a iris.

–AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHH! -gritou ele caindo de joelhos no chão.

–Nii-san...? -a voz fraca de Sasuke chamou sua atenção e algo caiu no chão, provavelmente a navalha. Em seguida o caçula ficou de joelhos a sua frente.

O sangue morno estava sujando suas roupas, escorrendo pelo seu rosto e o cheiro férreo estava lhe dando ânsia de vômito. O ferimento em seus olhos estava lhe deixando zonzo, e ele só conseguia enxergar esfumaçado, quando piscava, suas pálpebras ficavam sujas de sangue. Mãos firmes seguraram seus braços, sacudindo-o e fazendo seu ombro latejar e sangrar ainda mais.

–NII-SAN!

Após piscar, sua visão ficou um pouco menos embaçada, mas tentar enxergar ardia. Ele viu o vulto do seu irmão e via vagamente as lágrimas escorrerem pelo rosto do mais novo. Sua memória lhe pregou peças e ele viu seu irmão aos doze anos, logo depois do enterro da mãe deles.

–Vai ficar tudo bem, otouto... — ele murmurou enquanto guiava a mão direita até a testa do mais novo, dando-lhe um pequeno peteleco. -Eu não vou te deixar.

Ele fechou os olhos, tomado pela dor lancinante, tombando para frente; seu irmão o segurou pelos ombros e começou a gritar. Depois ele foi deitado no chão, ficando de olhos fechados, sentindo dor e a consciência fugir dele. Não sabia dizer quanto tempo ele ficou assim, nem para onde seu irmão tinha ido; tudo era um borrão. Ele ouviu Sasuke gritar com alguém pedindo socorro, dando o endereço da casa deles e a porta bateu; tudo ficou em silêncio e ele soube que seu irmão lhe abandonou.

Lágrimas começaram a se formar em seus olhos causando um novo nível de dor física, mas seu coração estava ainda mais machucado. Sasuke foi embora, talvez se drogar para esquecer disso. Saber disso doía mais do que as perfurações ou a dor em seus olhos! Seu irmão ia afundar ainda mais no vício! Seu irmão estava com medo.

Seu irmão tentou lhe matar...!

Era impossível sentir mais dor do que aquilo que sentia e ele não tinha forças para se mexer, seu corpo todo estava muito pesado e ele estava sonolento. Não sabia estimar o tempo, mas outros sons indistintos foram ouvidos, como o barulho da ambulância, a porta batendo, pessoas falando ao seu redor e mandando-o ficar acordado, embora ele estivesse morrendo de sono.

Tudo doía tanto que ele desejou morrer.

Essa ideia o apavorou tanto que ele conseguiu se controlar: foram só alguns cortes, só isso. Seu irmão estava com medo em algum lugar e ele precisava bancar o irmão forte e viver. Poder dizer que perdoava o mais novo porque ele verdadeiramente perdoava. O Sasuke que lhe machucou não era o Sasuke que era o seu irmão, era tudo culpa das drogas! E ele tinha a obrigação de viver e ajudar o irmão!

Mas havia o medo de algum dos cortes ter atingido alguma veia ou algum órgão no processo e ele sabia: Sasuke jamais se recuperaria se ele morresse ou ficasse cego. Porém, mesmo que isso ocorresse, Itachi deixaria claro para o caçula que eles ficariam bem, por isso ele não poderia morrer nem que quisesse! Sasuke acabaria em algum orfanato ou qualquer outra coisa assim! Não, Sasuke ainda tinha Shisui. Mas seu irmão estava envolvido com drogas! Ele tinha que ficar vivo para ajudá-lo! Ele não podia morrer!

A ambulância sacolejava pelo caminho e ele ficou feliz quando estacionaram, mas logo o cheiro de desinfetante ficou misturado com o cheiro do seu sangue. Ele se forçou a continuar pensando para ignorar a dor, o sono e o cheiro, Itachi tinha a consciência de que foi ferido pelas mãos do seu irmão mais novo, alguém certamente investigaria isso, na verdade, as pessoas no carro lhe perguntaram como é que ele se feriu. Alguém o colocou numa maca, havia tanto barulho que Itachi só queria mandá-los calar a boca, mas ele apenas fechou os olhos que estavam ardendo muito.

Não sabia estimar quando foi que a dor de cabeça começou, talvez enquanto algumas pessoas, ele não sabia dizer se enfermeiros ou médicos, estavam lhe remendando, talvez quando ele foi abandonado em algum lugar do hospital. Alguém do hospital lhe fez perguntas e ele as respondeu, dizendo seu nome e o nome de seus parentes. Ele perguntou por Sasuke, disseram que quando o socorreram não havia mais ninguém no local. A confirmação apenas fez doer ainda mais, onde é que seu irmão ia? Ele queria Sasuke ali! Inevitavelmente ele se lembrou do tio, mas àquela atura Shisui estava dentro do avião, partindo para a lua de mel.

Estava sozinho.

“Por que as coisas ficaram assim?” ele se perguntou antes de ficar inconsciente. O tempo devia ter passado porque sua dor de cabeça virou febre, ele escutou a voz do tio e da tia berrando com os enfermeiros porque ele estava no corredor, não em um quarto. Ouvir a voz de Shisui lhe fez ficar um pouquinho melhor, saber que o tio estava ali era reconfortante, ao menos alguma coisa boa naquele pesadelo. Ele já não sabia se estava acordado ou se estava dormindo, principalmente porque monstros começaram a surgir no seu campo de visão, mas só que ele não sabia se estava com os olhos abertos ou fechados. Shisui gritava como nunca antes ele tinha visto o tio gritar e isso, por si só, era assustador demais. O tio nunca, nunca erguia o tom de voz numa discussão.

Devia ser só um pesadelo. Suas pálpebras latejavam sem parar, e se fosse franco consigo mesmo, seus olhos incomodavam muito mais do que as perfurações. Sonhos doíam? Será que morreria? Ele estava com vontade de vomitar e estava absurdamente zonzo. Mas pensar em Sasuke fez com que ele voltasse a perceber que a maca onde estava era transportada para algum canto; ele abriu os olhos, mas não conseguiu enxergar muita coisa porque a luz machucava muito.

Ele tentou piscar para ver se melhorava, mas sua visão estava desfocada, mesmo assim viu um homem com cabelos loiros um pouco cumpridos demais ao seu lado, o homem viu que ele estava acordado com aqueles grandes olhos azuis e sorriu. O homem era surreal demais naquele cenário, ainda mais com aquele sorriso tão caloroso; Itachi quis agradar ao homem e se manteve acordado, observando-o atentamente pela fresta que conseguia manter.

–Está tudo bem. -disse um homem e sua voz era um tom barítono suave. -Eu vou cuidar de você agora.

Ele confiou no homem e apagou. Quando abriu seus olhos novamente, muito tempo mais tarde, tudo estava em um tom leitoso e ele sequer conseguia enxergar onde estava. Foi nesse instante que ele percebeu que estava cego.

Itachi chorou.

......................................

–Itachi, de verdade, você não tem mais idade para parecer um adolescente hormonal eminho. -comentou seu tio, abrindo a porta sem cerimônia nenhuma com um ruído alto da maçaneta e da dobradiça da porta.

Ele não queria abrir os olhos, se os mantivesse fechados, talvez Shisui apenas se sentasse no sofá e permanecesse quieto. Não que detestasse a companhia do tio, os dois tinham quase a mesma idade e cresceram juntos, Shisui era praticamente o seu irmão mais velho, mas ele realmente, realmente não queria acordar.

–Itachi, as pessoas quando dormem também respiram. -apontou o outro cutucando suas costas.

Sem escolha, Itachi se virou na direção do tio, fazendo a cama ranger, e abriu os olhos, esquecendo-se momentaneamente de que estava cego. Ainda assim, demoraria para que ele se acostumasse com o tom leitoso que via quando abria os olhos. Itachi tentou mascarar sua decepção ao abrir as pálpebras; foi inútil.

–Você vem com essa pra mim?–inquiriu Shisui, sua voz grave e retumbante soando pelo quarto. -Se você não ficasse tonto, eu daria um peteleco em você, rapaz.

Esse era um ponto consideravelmente positivo, ele odiava os petelecos que Shisui lhe dava. Não era como os que ele dava em Sasuke, sem colocar muita força, seu tio fazia questão de aplicar força o bastante para doer e ele odiava. Só havia uma coisa que Shisui fazia e que lhe irritava ainda mais do que os malditos petelecos: apertar a suas bochechas. E era exatamente isso que seu tio fazia no momento, já que o corte em sua bochecha direita já estava com a casquinha e bem menos inchado.

–Para com isso! -reclamou ele estapeando as mãos do outro e escondendo o rosto na palma das mãos. Ele quase mordeu a língua com aquela brincadeira, e o seu muito adorável tio ria com gosto. -Odeio quando você faz isso. Coisa mais besta!

–Não tenho culpa se você parece uma garota! Uma princesa da Disney!-retrucou Shisui em meio a uma gargalhada. -E você fica com alguma cor também, precisa pegar um pouco mais de sol, ou então você vai parecer a Morticia Adams!

Itachi ouviu dois estalos de dedos e imaginou que o tio estava parodiando a abertura do antigo seriado. Ele se deitou do lado oposto onde imaginava que Shisui estava; maturidade zero, ele sabia disso, mas esse era o incrível dom de Shisui Uchiha. Nem mesmo seu irmão ou qualquer outra pessoa na terra conseguia despertar aquele lado nele, exceto o tio.

–Sabe, você não vai se livrar de mim tão cedo, moleque. — Itachi escutou o som abafado da esponja do sofá ser comprimido pelo peso do tio, assim como um leve ruído metálico de um objeto grande sendo arrastado no chão.

–Você é tem vinte e seis anos.

–Mas sou casado! Sou praticamente um ‘senhor’ e você está na flor da juventude! -ponderou Shisui com a voz animada. -E isso tem diferença.

–Sei...

–Deixando a brincadeira de lado, como é que você está?

Não importava o quanto Itachi pensasse, a verdade é que não havia uma resposta boa o suficiente para aquela pergunta.

Fisicamente, ele ainda sentia ocasionais dores de cabeça, mas com a medicação, ela logo cessava. Graças a Deus, nenhuma das perfurações atingiu algum órgão e era só uma questão de tempo até o ferimento fechar, embora ele soubesse que ia ter umas cicatrizes bem interessantes por conta disso. E era certo que teria sequelas oculares.

Psicologicamente, ele já não sabia o que fazer. Ou se fica cego, ou se tem um irmão apaixonado por ele, ou se tem um irmão envolvido com drogas; nunca acontecia os três ao mesmo tempo, mas parece que ele tirou a ‘sorte’ grande.

–Como está o Sasuke? -resolveu perguntar. Era mais seguro.

–Esse é um ponto delicado. -respondeu Shisui em um tom sério e cauteloso. -Eu soube pelo seu médico que os policiais falaram com você, e você disse que foi uma briga acalorada e que você provocou, certo?

Itachi se virou em direção ao som da voz do tio, ouvindo a cama ranger com o seu peso. Ele particularmente não gostava do seu leito, seu quarto fedia aos medicamentos que tomava diariamente, quando não ficava impregnado pelo cheiro de fezes e urina, independentemente de quantas descargas desse. Abrir a janela era impensável porque havia uma construção ali perto. Pelo menos ele já não estava mais na UTI, o que significava que estava sem os malditos equipamentos para ajudá-lo a respirar e, principalmente, longe da frauda. Ele tinha certeza que as enfermeiras demoravam mais com ele só para observá-lo nu e aquilo era quase um estupro!

–Eles expediram uma notificação (2) para procurar Sasuke?

–Exatamente. Sasuke está sumido desde ontem, eu tinha pedido para ele ficar em casa comigo e com a minha esposa, mas ele sempre foi muito arredio comigo e não obedeceu. -explicou Shisui. -A próxima vez que eu vê-lo, vou colocá-lo no cantinho da disciplina.

–A TV a cabo está fazendo mal a você.

–A TV a cabo é o de menos. Ainda mais que você vai receber alta hoje. -comentou Shisui e Itachi ouviu alguns sons que não soube identificar onde o tio estava.

Era um sentimento agridoce, saber que receberia alta. Ele não aguentava mais aquele leito, mas também não teria visitas frequentes do seu médico favorito. Não era momento para pensar nisso. A sola do sapato de Shisui fazia um ruído particularmente alto, quando o outro pisava e logo as portas de um armário foram abertas com um ruído suave da madeira.

–E também está decidido: você vai sair daqui e vai morar lá em casa.

De todas as coisas que esperava ouvir do tio, essa era, com certeza, a última que esperava ouvir. Itachi tinha plena consciência que sua vida seria muito mais difícil agora que estava cego, mas também não queria ser um estorvo para os outros. Ainda mais que Shisui era um recém casado, já bastava ter estragado a lua de mel do tio ao ser hospitalizado as pressas.

E esse era apenas um de seus problemas, pois o hospital fazia mal ao seu bolso. Como é que iria pagar tudo isso? Ele ficou oito dias da UTI, passou por sei lá quantos exames, precisou de 3 bolsas de sangue, e ele estava quase a um mês hospitalizado.

Ainda precisava pensar em um meio de ajudar Sasuke a sair do vício por entorpecentes, talvez até investindo em tratamento clínico para tanto.

Eram tantos problemas que Itachi mal conseguia pensar em qual poderia resolver primeiro; nesses momentos o desespero quase o engolfava, porém ele sabia que não poderia se deixar derrotar, não antes de lutar. Para tudo existia uma solução, bastava que ele pensasse com calma e a encontraria.

–Shisui, eu quero continuar morando sozinho.

–Isso está fora de cogitação. -retrucou o outro. O som de novos passos foi intercalado com o ruído de um zíper se abrindo, o que indicava que o tio estava guardando seus pertences em alguma mochila.

–Shisui eu estou cego, mas ainda posso me cuidar!

–Não atualmente, rapaz! -retrucou o tio com veemência. -O seu apartamento precisa pelo menos de uma ou outra adaptação! Você tem que se habituar à cegueira e até se habituar você tem que estar acompanhado! Tem noção do susto que foi eu estar quase pegando um avião quando ligam do hospital dizendo que o meu sobrinho predileto estava quase morrendo?

Urg. Golpe baixo. Itachi não demonstrou o quão abalado ficou com essas palavras, mas Shisui era um ótimo leitor, pior, era a única pessoa viva capaz de lhe dar bronca e realmente constrangê-lo por isso.

–Chantagem psicológica é covardia.

–Não tem a menor importância se funcionar. -retrucou Shisui com um tom de voz divertido, um ruído alto de ferro se movendo chamou a atenção de Itachi.

Demorou um tempo até os dois voltarem a falar. Itachi ponderava as palavras do tio e sabia que não poderia ficar sozinho. Esses poucos dias em que ficou internado eram a prova disso, pois todas as atividades cotidianas eram terrivelmente difíceis para quem não enxerga. Todos os dias ele se machucava ao tropeçar ou dar um encontrão em um móvel, comer sua canja lhe fazia se sentir como um bebê de nove meses aprendendo a comer com colher. Era simplesmente terrível e demoraria um tempo até conseguir fazer algum progresso.

Mas o fato é que ele não conseguia se resignar a ficar daquela forma por muito tempo, ele queria se superar e voltar a ser como antes, mesmo que nunca mais voltasse a enxergar. Ele precisava estar bem física e psicologicamente para poder ajudar o seu irmão tolo, depois arrumar um emprego e continuar a sua vida da melhor forma possível.

–Ainda não quero morar com você.

–Então eu contrato uma babá pra você. -disse Shisui com azedume.

–Você não ousaria...!

–Está duvidando, é? -disse Shisui com aquele tom de voz.

Todas as famílias tinham um código, todo mundo tinha seu próprio tom e todas tinham suas peculiaridades. Shisui era irremediavelmente teimoso e, quando colocava alguma coisa na cabeça mergulhava fundo nisso. E se dissesse que ia contratar uma babá para ele, Itachi acreditava que o tio realmente faria isso, especialmente pelo tom utilizado na voz do outro. Saber disso o irritou em demasia. Era cego, não uma criança!

–E com que dinheiro você vai fazer isso? -contra-atacou. -Eu sei muito bem que você ainda está financiando o seu carro!

–Dou meu jeito, não se importe com isso agora.

–Eu tenho que me importar! -rebateu Itachi decidindo verbalizar outra de suas preocupações. -Eu nem tenho ideia de como vou pagar por esse tratamento!

A questão era bem simples: Itachi foi atendido às pressas, utilizando-se do sistema público de saúde. Lá, fizeram um rápido diagnóstico sobre o seu caso, porém, ele estava com várias lesões, mas o que mais lhe incomodou foram seus olhos. O descaso com ele foi tão grande que seus olhos infeccionaram, piorando ainda mais seu estado de saúde. Ele ficou no hospital público até que Shisui conseguiu agilizar uma papelada para que ele fosse transferido para um hospital particular, ainda naquele mesmo dia, onde lhe deram uma dose tão grande de medicamentos para controlar a infecção que ele passou alguns dias na UTI em estado grave. Grande sorte seu tio ser casado com uma enfermeira com bom convívio social em um hospital particular, não?

Entretanto, o estrago já tinha sido feito: suas córneas foram danificadas e agora ele só voltaria a enxergar após o transplante. Seu nome foi inscrito em uma lista, onde existia apenas quatrocentas e trinta e cinco pessoas na sua frente.

Desde que foi transferido a um quarto, Itachi permaneceu no hospital particular, ou seja, estava lá há exatos vinte e oito dias, sendo que oito deles foram passados na UTI; e que seriam contados de outra forma no cálculo total. Se contabilizasse a soma dos valores de todos os exames que passou, a fim de averiguar se havia algum dano em veias ou em seus órgãos, Itachi estimava que teria de desembolsar uns quarenta mil reais; talvez mais.

O combinado era que Shisui averiguaria o montante devido e teria uma conversa com ele, assim que ele recebesse alta. Itachi inspirou profundamente e se preparou para o golpe que receberia naquele instante. Houve um som do acolchoado do sofá sendo comprimido, assim como os sapatos de Shisui arranharam o chão, seguidos de um longo suspiro. Enquanto isso, seus pertences pareciam ser guardados em uma mochila, pelo que Itachi podia deduzir pelo som.

“Vai ser outra uma facada.” pensou Itachi, e seu cérebro trabalhava freneticamente em como pagaria tudo aquilo quando Shisui proferiu:

–Já está pago.

Itachi expirou com força e se esqueceu de inspirar o ar novamente, tamanha a surpresa com aquela informação. Estava... pago?

–Como é?

–Esse era outro ponto. -comentou Shisui se erguendo de onde estava sentado, produzindo um ruído alto no ferro. Itachi escutou passos pelo quarto e tentou orientar-se por aquele som. -Meu irmão, Madara, ele pagou tudo.

Itachi ficou verdadeiramente confuso. Ele sabia da existência de Madara, mas jamais falou com este tio. A família pelo lado de sua mãe era complicada e seus pais nunca entraram em detalhes sobre isso. O que ele sabia era que sua mãe tinha um irmão de sangue mais velho chamado Madara, e um meio irmão por parte de mãe, mais novo chamado Shisui. Quando sua avó morreu, sua mãe e Madara entraram com uma briga judicial pela guarda de Shisui e sua mãe ganhou.

Anos mais tarde, Madara foi o motorista que matou sua mãe atropelada. Na época, seu pai tentou arduamente condenar seu tio à prisão, porém Madara estava livre e o processo criminal continuava; um absurdo! Em seguida começou o processo de inventário (3) do patrimônio de sua mãe, ocorre que foi descoberto que ela tinha uma herança a receber da morte dos próprios pais, e este processo ainda não estava julgado, correndo como “segredo de justiça”. Seu pai deu andamento ao processo, mas como morreu onze meses após sua mãe, o seu próprio patrimônio acabou conexo com o processo de inventário da sua mãe, tornando tudo ainda mais complicado.

Ele e Sasuke tinham direito a herança, mas havia tantos empecilhos judiciais no processo que mesmo passando anos após a morte de seus pais, eles não receberam nada e precisavam conviver com o mínimo, sendo que o patrimônio da família deles era bem considerável.

Todos os empecilhos eram causados pelos advogados de Madara. A última coisa que soubera deste tio é que ele tinha viajado há uns anos atrás. Seu pai ainda estava vivo e tinha comemorado esse fato fazendo uma ceia inesquecível, seja pela quantidade de quitutes bons, quanto pela louça que ele lavou.

–Por que ele fez isso?

–Eu não tenho ideia. -respondeu Shisui. -Pelo o que seu pai falava, o meu irmão não dava ponto sem nó. Acho que tem alguma coisa aí, mas não sei o quê.

Itachi ficou muito quieto, apenas absorvendo aquelas informações novas. Se Madara pagou o seu tratamento, era uma despesa a menos. Então ele poderia sobreviver com o auxílio-doença (4) que lhe era de direito nessa situação, e tão logo ele fosse descartado pela loja onde trabalhava, então ele teria mais alguns meses para viver com o seguro desemprego (5), mas invariavelmente ele precisaria trabalhar. Até porque o defensor público disse que o processo estava suspenso por causa de recurso, pendente de julgamento. Para manter-se, manter o irmão e agora pagar um tio que nunca conheceu, ele teria que encontrar um trabalho para cegos, mas onde encontraria algo assim?

Dessa vez ele sequer conseguia enxergar os classificados! Itachi cortou essa linha de pensamento. Naquele instante, sua prioridade deveria ser integrar-se ao ambiente em suas novas condições, quando estivesse apto o bastante, se dedicaria totalmente à Sasuke. Arrumando um meio de pagar um tratamento clínico para viciados em entorpecentes.

–Entendo...

–Itachi... -comentou Shisui e Itachi sentiu o colchão da cama afundar um pouco e algo morno ficar próximo da sua perna direita. -Eu não entendo o meu irmão, mas ele ainda é da família, talvez queira ajudar você.

–Depois de vinte e dois anos me ignorando?

–Isso nós não sabemos. -comentou Shisui com a voz um tanto reflexiva. -Nós éramos muito jovens quando todas essas disputas idiotas aconteciam e certamente havia alguma coisa entre os três, seus pais e o meu irmão. -Itachi abriu a boca para perguntar, mas o tio foi mais rápido. -Não, eu não sei o que é, mas há alguma coisa.

Itachi ficou quieto, esperando mais alguma informação nova, em vez disso, Shisui colocou a mão sobre sua cabeça e acariciou seus cabelos, fazendo-o se sentir com nove anos de novo. Quando ele tinha algum pesadelo ruim e não queria aborrecer os pais, era a Shisui que recorria.

–Só me prometa que não vai tentar arcar com tudo sozinho, ok? -pediu Shisui. Itachi fez um gesto afirmativo com a cabeça. -Bom menino, agora vista essas roupas que separei. Vamos nos livrar desse quarto fedido a remédio e merda agora, rapaz!

–Certo.

–Acha que pode fazer isso sozinho? -perguntou Shisui, fazendo um ruído alto do ferro da cama enquanto se levantava em um pulo. -Tomar banho e se vestir?

–Sim.

–Esse é o meu garoto! -Shisui bagunçou os seus cabelos.

O tio colocou nas mãos de Itachi algumas roupas que pareciam estar dobradas. Itachi as colocou ao lado da cama e se levantou, provocando mais um rangido alto. Ele escutou passos se distanciando e em seguida o ruído da porta sendo aberta e fechada, o que indicava que seu tio estava confiando na sua habilidade para se banhar e se vestir sozinho.

Constatar isso fez com que ele se sentisse um pouco mais independente e mais feliz com a alta que recebeu; nos últimos dias todos lhe tratavam como se ele fosse uma criança de quase dois anos, recém-tirada da frauda. Literalmente recém-tirado da frauda, diga-se de passagem. “Maldita UTI” pensou Itachi com amargura.

Ele pegou as roupas, e começou a tatear pelo colchão, apalpando-o até que seus dedos encontraram a grade de ferro gelada da cama; essa era a parte fácil. A parte complicada começava agora, pois ele não tinha a menor noção de onde estava a parede e a porta do banheiro, só sabia que estavam próximos. Ele encostou a mão que segurava as roupas no colchão, enquanto ousava dar um passo para frente, tentando tatear a parede; nada. Ele deu mais um passo e sua mão mal conseguia ficar sobre o colchão e nada da parede. Mais um passo, nada de colchão e parede. Porém com mais uma passada e ele quase se estatelou na parede.

Uma vez encontrando a parede, Itachi concentrou-se em tocá-la até sentir a curva onde ficava o banheiro, seus dedos sentindo a diferença de texturas entre a tintura da parede e da porta de madeira encostada. Itachi pensou que tudo seria mais fácil se ele usasse um cabo de vassoura para ir se orientando, claro que faria um papel ridículo andando na rua com aquilo, mas facilitaria sua vida.

Itachi entrou no banheiro, ainda tateando a parede com as mãos, e arriscando conhecer o terreno com os pés, encontrando a pia e o vaso sanitário. Sua cabeça acidentalmente bateu de encontro a um suporte, machucando-o um pouco. Ele se virou, e colocou a roupa ali. Depois tirou o moletom e a camisa que vestia deixando-os no chão mesmo e tateou pela parede até conseguir entrar no box. Com o tato, ele conseguiu encontrar a torneira, ligou-a e começou a tomar o banho mais trabalhoso do mundo.

Era realmente exaustivo ter que basear-se pelos sons, cheiro e toque, mas ele conseguiu se sair razoavelmente bem, já que pelo cheiro ele deduziu onde estava o sabonete e o xampu. Fazia dias que não lavava seus longos cabelos, seria uma boa eles ficarem menos sebosos. Findo o banho e se sentindo mais revigorado agora que sabia que sairia daquele lugar definitivamente, Itachi enxugou-se e saiu do box com cuidado para não tropeçar nas roupas que deixou no chão.

Com alguma dificuldade, ele se vestiu, tomando cuidado em reparar, pelo toque, se não estava vestindo as roupas do lado avesso. Ele juntou as roupas que estavam no chão segurando-as junto da toalha, e, sem nunca deixar de tatear a parede, conseguiu sair do banheiro. Felizmente, ele já tinha escovado os dentes e agora estaria liberado para ir embora.

Sozinho, Itachi conseguiu ir até a cama e depois até a porta, milagrosamente sem se machucar com algum móvel no meio do caminho.

–Hei, você encontrou o caminho rapaz! -comentou Shisui com um tom de voz orgulhoso. -Me espera aqui que eu vou checar se a gente não ‘tá esquecendo... -Itachi mostrou as roupas e a toalha ao tio. -‘Tá eu vou guardar isso. Fique aqui.

Itachi sentiu o tio passar por ele, encostando a porta, e esperou. Não demorou muito e Shisui saiu do quarto, pedindo para que ele segurasse a barra da sua camisa.

–Você tem noção que eu posso me orientar pelo som, não?

–Você tem noção que este é um hospital grande e cheio de pessoas, não? -retrucou Shisui com a voz mal humorada próxima dele. -Itachi, não é querendo ser rude, mas tem um botão desligado nos seus olhos e você está na rua. Você pode se perder! Você precisa entender que agora receber ajuda não é uma questão de pena. Agora, segura a barra da minha camisa ou eu juro que se não fizer isso a gente vai andar por aí de mãos dadas, como se você fosse a minha linda esposa, entendeu rapaz?

–Sim. -“mamãe” completou Itachi em pensamento, enquanto segurava a barra da camisa do tio.

–Ótimo, filhote, agora vamos.

Telepatia, quem disse que era mito? Não Itachi. Ele seguiu o tio por um declive, e depois seguiram por um corredor longo, onde ocasionalmente Itachi ouvia Shisui falar “bom dia” a algumas pessoas. Ele estava um tanto perdido pela grande quantidade de sons, algumas portas dos quartos deviam estar abertas pelo ar condicionado que escapava, pelos sons das televisões ligadas, embora muitos barulhos fossem as vozes de pessoas conversando ou o ruído de alguns saltos andando pelo andar.

Havia também uma quantidade absurda de cheiros, o desinfetante que usavam no chão se misturava com o odor de remédios variados e de soro caseiro. E ainda havia um vestígio de cheiro de sangue e álcool, eventualmente havendo o cheiro de suor ou de perfumes das mais variadas fragrâncias, desde perfumes absurdamente doces até mesmo um ou outro perfume amadeirado.

Itachi precisava admitir: era um mundo novo.

Ele estava refletindo sobre isso quando Shisui parou, sem avisá-lo, fazendo com que ele trombasse contra as costas do tio e ouvindo um ruído quase musical, Itachi percebeu que estavam diante de um elevador. Shisui entrou nele e Itachi o seguiu.

–Olá Itachi-san, Shisui-san, estão indo embora? -uma voz agradável chamou sua atenção e imediatamente suas mãos suaram. Minato.

–Olá doutor, estamos sim! -disse Shisui com um tom de voz alegre. -Obrigado por ter liberado esse rapaz. Prometo que vou cuidar dele!

Itachi apreciou o som da risada do médico, tentando memorizar aquele som suave. O elevador parou em um andar, as portas se abriram permitindo que uma corrente de ar gelado do ar condicionado entrasse no elevador, mas ninguém entrou.

–Exatamente, cuide bem dele. Ele tem uma nova vida para aproveitar. -comentou Minato com gentileza. -Não se esqueça de marcar uma consulta quando puder, Itachi.

–Aos sábados, não? -inquiriu ele. A corrente de ar gelado cessou assim que as portas do elevador se fecharam. -Onde fica a sua clínica?

–Você tem alguma coisa para anotar, Shisui? -inquiriu Minato.

–Não, eu não tenho.

–Tudo bem, eu também vou à recepção e lá peço um dos bloquinhos das meninas para anotar. -resolveu o médico em tom agradável.

–Mas não seria um incômodo? -perguntou Itachi.

–Não, eu estou indo para lá. -respondeu Minato e havia um tom decididamente feliz em sua voz. -Meu caçula veio me buscar.

E toda a animação que Itachi sentiu esvaiu-se instantaneamente. Ele simplesmente não conseguia controlar a felicidade que era encontrar o médico, assim como não continha a tristeza à menção da família feliz que Minato tinha. Apaixonar-se decididamente deixava as pessoas patéticas. Se a paixão era infrutífera, isso as tornava ainda mais risíveis. Itachi se sentiu verdadeiramente frustrado naquele momento e seu tio sem noção, apenas incentivou o médico a continuar aquele assunto.

–Sério? Quantos anos ele tem?

–Dezessete anos. -respondeu Minato com orgulho. -Acabou de tirar a carteira provisória.

“É a mesma idade que o Sasuke” pensou Itachi tentando não se perder em pensamentos. Talvez se ele focasse a mente no irmão e tentasse encontrar um meio de livrá-lo das drogas, ele pudesse não prestar atenção naquela conversa. Mas era inútil.

–‘Tá brincando? -inquiriu Shisui com a voz tomada pelo espanto, Minato riu um pouco mais. Itachi queria cavar um buraco e se enterrar nele. -Você não parece ter mais de quarenta anos!

–É que eu casei aos dezesseis anos. — respondeu Minato com gosto. -Tenho vinte anos de casado, já.

Vinte anos de casado... Vinte anos de casado! Aquela conversa era uma tortura! Mas felizmente as portas do elevador se abriram e Itachi foi guiado para um corredor gelado, e ainda mais ruidoso que o outro. Ele percebeu que o assunto da conversa havia desviado para o recém-casório de Shisui, mas ainda assim ele não quis participar da prosa. Eles atravessaram um portal, levando-os a uma área mais quente, mais barulhenta e com mais odores humanos, como cheiro de nicotina, suor, café e perfumes.

–Hei pai! -disse uma voz alta e escandalosa que parecia estranhamente familiar a Itachi.

Ele ouviu passos rápidos e abafados vindo na direção deles, enquanto escutava o som baixo de alguma caneta ou lápis riscar sobre uma folha de papel. A pessoa que se aproximou ficou ao seu lado, Itachi podia sentir o xampu de camomila dos cabelos dela e um suave perfume, se fosse chutar, a pessoa devia usar um perfume chamado “musk”.

–Itachi-san, Shisui-san, este é o meu filho. -disse Minato.

Mas antes que Itachi soubesse o nome do garoto com cheiro de camomila, o mesmo interrompeu o pai perguntando:

–Ei, você por um acaso conhece um garoto chamado Sasuke?

–Filho! -repreendeu Minato.

E Itachi finalmente conseguiu se lembrar daquela voz. Era de uma gravação na sua secretaria eletrônica, que ele ficou ouvindo por dois dias enquanto esperava que seu irmão aparecesse em casa. Dois dias antes de ser atacado pelo caçula.

–Sim. Eu sou Itachi, o irmão do Sasuke. -respondeu Itachi com a voz agradável, mesmo que sentisse um peso invisível sobre seus ombros. Ele não sabia bem onde o outro estava, mesmo assim estendeu a mão. -É um prazer conhecê-lo pessoalmente, Naruto-kun.

Notas finais
.................................. Referências: (1) Ecstasy: Droga sintética produzida em laboratório, também conhecida como “bala”, é muito popular com jovens, principalmente em festas (comumente rave). É tipo um comprimido que faz com que o corpo libere uma alta dose de endorfina, substância que causa felicidade. Assim as pessoas ficam agitadas e mais felizes. Não é uma droga considerada pesada e raramente causa vício, então: “como é que o Sasuke foi se viciar nisso?”, relaxem, isso vai ser abordado nos próximos capítulos ^^ A escolha da droga não foi aleatória. LSD: Também conhecida como 'doce', é uma droga fabricada com origem em um cogumelo, seus principais efeitos são de causar alucinações no usuário durante algumas horas. É uma droga que deve ser usada em lugares mais calmos, já que a pessoa 'brisa'. O usuário vê as cores mais intensamente e pode ter uma “good trip” ou uma “bad trip”. No caso de uma bad trip, o usuário pode ficar com crises de pânico e traumas psicológicos intensos. O uso frequente de LSD pode, inclusive, fazer o usuário ficar com esquizofrenia. Mas muita gente ama essa droga pelas viagens que fazem. (2) Notificação: Documento expedido por funcionários públicos a fim de que algum particular compareça a uma instituição pública para prestar informações sobre determinado fato. (3) Processo de inventário: É um processo onde se reúne todos os bens patrimoniais de determinada pessoa que faleceu, a fim de depois ocorrer a partilha, isto é, a divisão desses bens entre os herdeiros. (4) Auxilio-doença: Benefício pago pela previdência social quando o trabalhador fica impossibilitado de trabalhar por mais de 16 dias, bastando que o trabalhador seja segurado da previdência social. (5) Seguro desemprego: Auxílio previsto aos trabalhadores desempregados, para que consigam garantir a subsistência da família enquanto procuram um novo emprego. …................. Yo, tentei diminuir um pouco mais as referências, mas não posso retirá-las completamente. Faz parte do meu estilo colocar vários detalhes e encaixar mais coisinhas XDDD Algumas perguntas foram respondidas com esse capítulo, né? Embora outras tenham sido feitas ahuahuahuahau Espero que vocês tenham gostado do cap e não tenham se decepcionado com ele. ^^ Até mais gente!