Desejar
4 99 problems
Notas iniciais
QUATRO
99 problems
Itachi trancou a porta da casa, tirou os sapatos e as meias, pendurou as chaves, jogou a mochila no chão e despencou no sofá, cobrindo o rosto com a mão. Que maldita professora! E que maldita prova foi aquela? Mesmo ele tendo estudado e tendo relativa facilidade para entender o assunto, a professora simplesmente não tinha o direito de cobrar aquele nível de questão, não quando seu nível de aula era ridículo.
Queria comer alguma coisa, tomar um bom banho e dormir, mas a música eletrônica alta que tocava no quarto dele estava deixando-o com dor de cabeça. Eram onze horas, Sasuke sabia que ele não gostava de barulho alto e ainda assim...
–Sasuke, abaixa esse som! -mandou Itachi sem se mover.
–Vem me fazer abaixar! -retrucou o mais novo com um tom de voz animado.
Com uma careta de desagrado, Itachi forçou seus músculos a se levantarem do sofá e foi até o quarto, abrindo a porta e vendo seu irmão mais novo dançando eufórico no mesmo ritmo da música, um sorriso alucinado no rosto do outro. Itachi suspirou.
–Vem dançar comigo, nii-san! -pediu Sasuke com um sorriso. O mais novo veio em sua direção, pegou sua mão e o puxou para o meio do quarto, depois começando a dançar colado ao seu corpo.
–Sasuke... -advertiu ele. Itachi já não era do tipo que dançava em situações normais. Naquele momento então seu humor estava para “assassine o bailarino”.
–Não seja chato! -disse Sasuke enlaçando o seu pescoço e inesperadamente pulando em seu colo. -Vamos nos divertir um pouco!
Itachi imediatamente amparou o corpo do irmão para que ele não caísse, tentando inutilmente manter o equilíbrio. Sasuke ainda rebolava contra o seu corpo e isso fez com que ele desse um passo para trás antes de seus joelhos vergarem e ambos caírem na cama de Sasuke, que aproveitava para bagunçar seus cabelos.
–Sasuke, o que você pensa estar fazendo? -perguntou Itachi, quando sentiu os lábios do irmão contra sua nuca.
–Você tem um cheiro tão bom... Dá até vontade de morder, nii-san. -Sasuke mal terminou de dizer isso e mordeu sua nuca com delicadeza, para depois lamber a região seguindo até sua orelha.
–Que foi isso, Sasuke? -perguntou Itachi exasperado tentando afastar o corpo do irmão de cima dele.
Sasuke não permitiu uma separação, apertou as pernas contra seus quadris, segurando firme a sua cabeça, para em seguida mordiscar o seu queixo com possessividade e em seguida, para sua incredulidade, capturar seus lábios em um beijo lascivo. Itachi arregalou os olhos quando a língua do irmão tentou invadir sua boca, o choque foi tão grande que ele conseguiu acordar do torpor e afastar Sasuke de si.
–SASUKE! -rugiu ele, tentando se afastar do irmão. -Por que fez isso?!
O mais novo apenas riu alto, ainda sentado, parecendo ensandecido por alguns instantes. Itachi observava Sasuke sem saber como agir diante daquelas reações tão pouco características do irmão.
–Você está adorável, nii-san! -comentou com um risinho doce. Itachi franziu o cenho. -Eu quero te fazer se sentir bem. — Sasuke aproximou seus corpos e Itachi sentia os dedos do irmão erguendo sua camisa enquanto o botão do seu jeans era aberto assim como o zíper. Uma sensação crescente de pavor crescia em seu peito. -Você não quer?
Sasuke capturou seu membro ainda oculto nas vestes, passando a acariciá-lo ritmicamente de um jeito tão brusco que era quase doloroso em vez de dar prazer. Itachi sentia tanto nojo e estava tão apavorado que fez a única coisa que poderia fazer: socou Sasuke com todas as suas forças, tirando o mais novo do seu colo e fazendo-o cair no chão. Imediatamente, Itachi fechou o zíper e o botão de sua calça, se levantando da cama com agilidade.
O mais novo rolava no chão rindo alucinadamente, com a mão no rosto onde ele atingira o soco. Itachi se arrependeu assim que viu um filete de sangue no canto dos lábios de Sasuke, mas também não era como se tivesse muita opção. O irmão parou de rir um pouco e se apoiou nos cotovelos, encarando-o com um olhar divertido.
–Gosta de algo mais violento? -inquiriu o mais novo com um sorriso travesso, assustando ainda mais Itachi. -Não tem problema! -Sasuke abaixou as calças e a roupa íntima, revelando uma ereção. Itachi desviou os olhos. -Eu também gosto assim, nii-san!
Itachi respirou fundo, tentando controlar a raiva e a decepção que sentia no momento. Era obvio o que acontecia ali no quarto. Ele ouviu o som de algo se aproximando e se virou para Sasuke, que engatinhava em sua direção. O mais novo estava próximo o bastante e Itachi o impediu de chegar até si colocando um pé no ombro esquerdo de Sasuke.
O mais novo sorriu de forma predatória, pegando o seu pé e passando a distribuir beijos na região, até engolir o polegar, observando-o de forma luxuriosa. Itachi precisou conter o acesso de risos quando Sasuke segurou a palma de seu pé, maldita cócegas que sentia na região. Com um chute de leve, ele escapou da investida do irmão, que sorria de leve.
Itachi caiu de joelhos no chão, colocou uma mão no ombro de Sasuke para afastá-lo e o encarou nos olhos.
–Sasuke, o que você tomou? -perguntou ele com a voz doce, mas ainda assim tomada pela decepção.
–Não seja idiota, eu não tomei nada, agora...!
Com delicadeza e a dose certa de firmeza, Itachi segurou os ombros do irmão, que tentava cortar a distância entre eles, mas Itachi conseguiu detê-lo, fazendo com que seus corpos mantivessem uma distância segura. Ele encarou Sasuke, vendo o irmão fraquejar diante do seu olhar.
–O que você tomou.
Sasuke não respondeu de imediato. Ele o encarou por muito tempo, até seus olhos ficarem lacrimejantes e sua expressão de luxuria ser substituída pelo desespero. O mais novo levou as mãos até seus cabelos, passando a puxá-los com força enquanto olhava para o chão de forma irritada e perdida. Itachi não sabia o que fazer, mas precisava ser forte pelos dois naquele momento. Sasuke começou a chorar descontroladamente, sacudindo de leve o seu corpo.
–Eu te amo! Eu te amo nii-san, não me odeie, por favor, não me odeie! -murmurava Sasuke entre o choro. -Eu te amo!
Mesmo não sabendo se era a hora certa, Itachi trouxe o corpo de Sasuke até o seu e abraçou o irmão, ignorando a semi-nudez do outro. Sasuke se deixou abraçar, ainda murmurando que o amava. Itachi sentia as lágrimas molharem sua camisa, mas não se importou, apenas abraçava Sasuke e olhava fixamente para a janela do quarto.
–O que você tomou?
–Umas balas. Só umas balas pra me sentir bem!
–Quantas você tomou?
Sasuke ficou em silêncio, abraçando-o apertado. Mais e mais lágrimas caíram, molhando sua camisa, não que ele se importasse no momento. Itachi esperou pacientemente. O que ele precisava saber é o que “bala” significava, e o que isso causava em seu irmão.
–Quantas? -repetiu Itachi em um tom de voz doce.
–Duas e meia. (1)
–Vai ficar tudo bem. -sussurrou Itachi, tentando acreditar no que disse. -Você acredita em mim?
–Sim... Eu acredito... -murmurou Sasuke soluçando baixinho. -Você me odeia?
–Eu nunca serei capaz de odiar você, patinho. -respondeu Itachi, afastando-se um pouco do irmão e dando um peteleco na testa de Sasuke. -Haja o que houver, eu sempre vou estar com você. Eu não vou desistir de você.
Sasuke fungou baixo e voltou a enfiar a cara no seu peito, passando os braços por suas costas, derramando ainda mais lágrimas. Itachi nada disse, apenas abraçou o irmão e ficou olhando para o céu através da janela do quarto, mas sua mente estava longe tentando responder apenas uma pergunta: O que faria agora?
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Cause was the heat of the moment
Heat of the moment
The heat of the moment shone in your eyes
Por que esse é o ritmo do momento!
Ritmo do momento
O ritmo do momento que brilhou em seus olhos
(The hit of the moment — Asia)
Itachi quase se sentia um Sam Winchester acordando em mais uma terça-feira horrível, onde veria seu irmão morrer outra vez, excetuando-se que não havia nenhum “Wise and shine, Sammy!” (2). Malditos carros de som!
Sua terça-feira começou horrível, após o pesadelo de ser aliciado pelo seu irmão mais novo naquela memória nojenta, ele ficou com uma terrível dor de cabeça, como há dias não sentia e, por isso, Shizune lhe deu uma dose cavalar do remédio receitado por Minato. E isso lhe fez dormir muito, e ele não tinha ideia de que horas eram, mas ainda estava grogue.
Ele vagamente ouvia o som do telefone, mas ninguém atendia e isso lhe fez pensar se estaria sozinho em casa. Todas as células de seu corpo lhe pediam para permanecer na cama, pois o telefone poderia parar de tocar. Entretanto, a esperança de que fosse Sasuke ligando era maior do que a preguiça e a torpeza do remédio. Com muito esforço, ele se levantou da cama, sentindo imediatamente o frio do piso de cerâmica sobre seus pés descalços.
Tateando pela cama, Itachi conseguiu chegar até a porta do quarto, sem tropeçar ou se bater em nada, um verdadeiro feito! Porém tudo mudou quando saiu dali. O telefone tocava estridente e ele deu três passos para frente, tateando o nada e seu pé se enfiou por baixo de um tapete (que ele nem sabia que tinha). E o desastre aconteceu: ele perdeu o equilíbrio, cambaleando às cegas, até cair sobre o sofá de mau jeito, justamente do lado onde recebeu a navalhada no ombro e bater a canela na mesinha, derrubando alguma coisa que quebrou no chão.
O maldito telefone ainda tocava. Itachi ignorou a dor no seu ombro, sentindo o curativo ficar úmido e sua canela machucada latejar, enquanto tateava pelo sofá, engatinhando nele, até conseguir tocar na mesinha que ficava ao lado, derrubando o que ele achava que era o abajur até conseguir atender o maldito telefone.
–Alô? -disse ele irritado com a destruição acidental dos móveis que ele ralou muito para comprar.
–Oh, eis a volta dos que não foram! -disse a voz rouca de Kisame do outro lado da linha. Itachi conteve um pouco mais a raiva e se sentou direito no sofá, acariciando onde bateu a canela. -Como estão as coisas Itachi?
–Oi Kisame. -disse ele em um tom ameno. -Tudo bem aí?
–Primeiro me diga: você 'tá bem?
–Na medida do possível. -respondeu Itachi com franqueza. -Agora responda.
–As coisas estão mudando muito por aqui. A empresa foi comprada e mudaram o objeto social disso aqui. -Itachi se aprumou no sofá. -Tem até um novo gerente e ele já sabe sobre você. –Kisame fez uma pausa. -Todos já sabem da sua nova condição.
Itachi se sentou ainda mais reto no sofá, um de seus pés pousando acidentalmente num caco particularmente grande do vaso que ficava em cima da mesinha, fazendo-o morder o lábio inferior com força e grunhir pela dor que sentiu. Ótimo, era tudo o que faltava: um pé furado.
–Itachi?
–Não foi nada. -disse Itachi, sentindo seu pé arder e algo morno escorrer por ele. -Então é certeza que estou demitido.
–Não tenho certeza. –disse Kisame aparentando indecisão. -Fizeram uma reunião hoje de manhã.
–Você sabe quem é esse suposto novo dono?
–Não tenho nem ideia, mas sei que é um cara podre de rico. -respondeu Kisame vagamente. -Disseram que isso aqui vai virar uma livraria especializada.
–Livraria?
–Uhum. Hein, Itachi, se você quiser, eu posso passar na sua casa agora pra te contar dessa reunião, soube que ganhou alta.
–É bom. Preciso conversar com você.
Itachi ouviu o mais velho fazer um ruído de desgosto do outro lado da linha; Kisame o conhecia bem demais, para o próprio bem. Talvez, o outro fosse a única pessoa a quem Itachi poderia chamar de “amigo”. Shisui era seu melhor amigo, mas ainda assim era parente. Kisame era a única pessoa sem qualquer vínculo sanguíneo que Itachi confiava.
Quando começou a trabalhar, Itachi tinha dezesseis anos e tentava juntar seu próprio dinheiro, já que desde àquela época a herança da mãe ficou bloqueada por um pedido judicial do seu tio Madara ele tinha planos de ir para uma faculdade particular, se não passasse na federal e não queria depender de ninguém. De maneira que quando Kisame se tornou um funcionário da loja uns seis ou sete meses depois, Itachi quem teve que passar instruções ao outro, mesmo que existisse uma diferença de dez anos entre eles. Inicialmente, Kisame se mostrou hostil, não aceitando muito que um “piralho” fosse seu superior hierárquico, mas, no fundo, toda a revolta de Kisame era porque estava chateado com as mentiras que rondavam seu casamento.
Quase na mesma época que Kisame se divorciou, o pai de Itachi morreu também e por ambos, de formas diferentes, perderem pessoas próximas, os dois acabaram se tornando amigos. Mesmo que soasse estranho duas pessoas tão diferentes serem tão próximas, já que tudo o que Itachi tinha de pacífico e calmo, Kisame tinha de agressivo.
–Mais problemas, mais problemas. -comentou Kisame com impaciência. -Você precisa parar de segurar o mundo nos seus ombros Itachi!
–São os problemas que precisam parar de vir até mim. -respondeu Itachi com naturalidade.
–Estarei aí daqui a alguns minutos.–disse Kisame. -Até lá se cuide senhor Magoo. (3)
E Kisame desligou sem permitir a Itachi retrucar aquele comentariozinho infame, além de deixá-lo com um grande problema: como voltar ao quarto, agora que estava com o pé machucado e sangrando, e com todos aqueles pedaços de vaso no chão?
Infelizmente, ou felizmente, tão logo ele colocou o fone no gancho, ele escutou a porta de entrada se abrir com um som alto das dobradiças e o titilar de um molho de chaves, que caíram no chão assim como alguma outra coisa mais pesada enquanto Shizune soltava uma exclamação alta. Urg, inesperadamente ele se sentiu como uma criança arteira que foi flagrada pela mãe.
–Itachi o que você fez?! Como é que se cortou?! Você não devia ter saído da cama! -disse Shizune afobada, vindo rapidamente em sua direção com passos pequenos e rápidos. -Olha quanto caco! E essa poça de sangue no tapete e no sofá! Deus, eu só fui na farmácia por quinze minutos!
–O telefone tocou. -respondeu Itachi em um tom ameno. -Vim atender.
–Por favor, não faça essa carinha inocente enquanto diz que fez toda essa bagunça, mocinho.
–Você está pegando rápido demais os péssimos hábitos do Shisui. -ponderou Itachi sentindo que seu pé machucado era erguido delicadamente, logo enfaixado pelo que Itachi deduzia ser uma toalhinha pelo tecido fibroso, talvez para conter o sangramento.
Shizune não retrucou. Em vez disso o deixou no sofá com o pé enrolado na toalhinha, remexeu algumas coisas e lhe remendou. A tia refez o curativo no ombro, depois averiguou o do seu torso que, felizmente, estava intacto; por fim limpou seu ferimento no pé, usando algum medicamento que não fez arder o corte, e o enfaixou com o que ele supunha que era gaze. Só então ela começou a arrumar a bagunça que ele fez, Itachi a ouvia varrer os numerosos cacos do vaso e recolhê-los com uma pá.
Em seguida, ela o deixou sentado no sofá e foi guardar alguma coisa no armário e ele ouviu um revirar das panelas, provavelmente ela faria alguma coisa para eles e Shisui comerem. O telefone tocou mais uma vez, Itachi conseguiu atendê-lo sem derrubar o abajur dessa vez.
Era Naruto.
–Oi, Itachi-san, boa tarde! Aqui é o Naruto! –disse o mais novo com empolgação. Itachi ficou alerta, pois se Naruto ligou, significava que tinha alguma notícia.
–Oi, tudo bem? -ele perguntou com educação. -Você teve alguma notícia?
–Mais ou menos. –respondeu o menor. -O Sasuke tem um amigo esquisito chamado Juugo. Um cara que parece um armário e que mora sozinho, daí parece que o Teme dormiu ontem lá, talvez faça isso essa semana.
–Você tem o endereço?
–Não, eu não tenho. -disse Naruto parecendo mais desanimado. -Minha mãe ‘ta tentando falar com a diretora da escola pra conseguir, mas acho que ela não vai conseguir não. Nossa diretora é... Ok, me ignore. Era só isso, mais tarde a gente se fala?
–Espere, Naruto-kun, a diretora é o que?
–Com o perdão da palavra, mas ela é uma puta mal comida e com gonorréia.
As bochechas de Itachi ficaram um pouco quentes e inconscientemente ele franziu os lábios; a imagem mental de Mikoto Uchiha mandando-o estender a mão para lhe dar uma reguada bem dada por ter dito palavrão era algo muito presente em seu dia-a-dia. Tinha certeza que o tio também tinha a mesma memória todas as vezes que ouvia um palavrão.
–Eu preferia que você não usasse palavrões.
–Foi você quem quis saber!–retrucou Naruto com a voz ficando mais espalhafatosa em um tom simultaneamente acusatório e envergonhado. -Onde eu posso encontrar você mais tarde?
–Você sabe onde fica a avenida calidoscópio? –perguntou Itachi, ouvindo o mais novo assentir. -Eu moro nessa avenida, no prédio de cinco andares na esquina com o parque Sarutobi. Se você pegar o ônibus “Parque I” é só parar após a segunda curva.
–Naquela curva que dá para a entrada sul do parque Sarutobi, né? –inquiriu Naruto e dessa vez foi Itachi quem assentiu. -Isso é pertinho do centro recreativo onde eu corro e jogo basquete. Posso passar na sua casa as cinco, pode ser?
–Tudo bem, estarei te esperando.
–‘Tá bom então. Enfim, minha mãe daqui a pouco aparece aqui e se ela me ver conversando contigo ela arranca o meu couro! Tchau!
–Itachi, quem é esse Naruto? -perguntou Shizune.
Novamente, Itachi não precisou responder, pois outra vez o telefone tocou. Seria irritante, se não fosse tão vantajoso. Dessa vez era Shisui dizendo que não iria parar em casa porque tinha um problema no trabalho, uma reunião de última hora. Pelo tom de voz que o tio usou, Itachi percebeu que era algo sério, pois Shisui nunca demonstrava apreensão na voz. Por um momento, ele ficou realmente preocupado com a possibilidade do tio perder o emprego.
Mas esse pensamento foi obliterado pela sua mente no momento que se conscientizou que precisava tomar um banho rápido; e isso era outra coisa que sua mãe ensinou. Sempre que houvesse visitas, os anfitriões da casa deveriam estar devidamente limpos, isso incluía crianças. E as reguadas imperavam quando Shisui e ele não tomavam banho a tempo, mesmo que lhe fosse permitido voltar a brincar no jardim depois.
Mesmo com grandes protestos de Shizune, Itachi conseguiu convencê-la a lhe dar um voto de confiança para ir tomar banho sozinho, ainda assim ela escolheu suas roupas e lhe obrigou a deixar a porta do banheiro aberta, lhe dando um cabo de vassoura para se orientar.
Era como se ele estivesse novamente com três anos de idade e sua mãe não confiasse nele para tomar banho sozinho. Mas, pelo menos, sua mãe não lhe deu um cabo de vassoura inútil que ele encostou num canto do box.
Ele tinha plena certeza que não tomou um bom banho, primeiro molhou o curativo no pé, fazendo com que o corte voltasse a arder, talvez até sangrar de novo; segundo porque depois que ele ensaboou os braços e ia passar o sabonete pelo tórax o maldito caiu da sua mão e ele não podia procurar; e terceiro o banho foi de água fria e eles estavam no inverno. O que significava que além de todo lascado, ainda estava com frio. A única coisa que faltava era ele cair no banho porque pisou no sabonete e Shizune precisar vê-lo pelado.
Porém, dessa vez, o destino conspirou a seu favor e ele conseguiu sair do banho sem cair ou se machucar mais do que já estava. Ele conseguiu se enxugar sozinho e vestir a roupa íntima e a camisa, ambos do lado certo, já a calça jeans era outra história.
No momento em que ele considerava realmente a possibilidade de se enrolar na toalha de banho e ir terminar de se vestir no seu quarto, a companhia tocou e os passos afobados de Shizune foram atender a porta, logo a voz rouca e retumbante de Kisame soou da entrada.
–Quem é você? -inquiriu a tia.
–Sou um amigo do Itachi, vim visitar ele.
–Ah, pode entrar. -disse sua tia em um tom amigável. Itachi conseguia ouvir os passos pesados e retumbantes de Kisame entrando no apartamento. -Eu sou Shizune, a tia dele.
Itachi inspirou profundamente, pedindo aos céus para que ele não caísse enquanto tentava vestir o jeans ou sujar as vestes de sangue, se estivesse sangrando, e fez um verdadeiro milagre ao vestir o jeans em seu banheiro milimétrico. Tudo bem que ele bateu o ombro bom duas vezes na parede, mas o que importava é que não caiu. Ele pegou o maldito cabo de vassoura e saiu do banheiro, ainda manquejando. Sua tia correu em seu auxílio e o guiou até o quarto, onde trocou novamente seus curativos. Ela não queria deixá-lo ir até a sala, mas ele tanto fez que conseguiu se levantar. Não queria ficar tachado como ‘tadinho’ na frente do amigo, muito menos de Naruto.
–Kisame! -chamou ele, tentando ir em direção ao sofá usando o cabo de vassoura para se orientar pelo apartamento, encontrando os móveis e forçando sua memória a se lembrar exatamente como sua casa era. Até que ele lembrou que seus tios mudaram tudo de lugar. -Desculpe te deixar esperando.
–Difícil fazer um juízo de você. -respondeu Kisame com franqueza, a voz soando a sua frente. -Ao mesmo tempo em que parece estar se virando bem, você parece que não está se virando bem.
Kisame não mentia. Nunca. E acima de tudo, era alguém leal. Itachi aprendeu isso com o tempo e essas eram características que admirava muito no amigo, e se Kisame lhe dizia aquilo, Itachi precisava acreditar. Assim como precisava pensar em um meio de encontrar um novo ponto de equilíbrio em sua nova vida. Até mesmo seu apartamento, seu lar, era um perigo em potencial para ele! Shisui e Shizune não estariam sempre presentes para fazer um curativo nele quando ele caísse e se machucasse.
–Itachi, você está de repouso, não pode ficar perambulando tanto pela casa. -disse Shizune bondosamente, vindo em sua direção.
Tinha que ser ela, os passos de Shizune eram rápidos e pouco ruidosos, Itachi percebia que sua tia deveria pisar no chão com suavidade e com toda a palma do pé, assim produzia poucos sons. Era um caminhar mais furtivo, bem diferente dos passos de Shisui, que eram tão rápidos quanto, mas produziam mais som com o calcanhar e, se a memória não falhasse, Itachi lembrava que Shisui dava passos largos.
Ele se sentou no sofá, com as costas retas, mal e mal tocando o encosto do sofá, enquanto ouvia passos curtos e pesados, que faziam o piso tremer de leve. O som parecia vir na direção do sofá, mas passou a sua frente em direção a poltrona, logo em seguida o som de almofadas sendo comprimidas foi ouvido. Shizune e Kisame conversavam vagamente sobre seu estado de saúde, basicamente Kisame fazia perguntas e Shizune as respondia.
–Eu e meu marido vivemos dizendo que Itachi não precisa se esforçar tanto, pelo menos enquanto esses cortes não estiverem completamente curados, mas...
–Eu preciso fazer isso. -retrucou Itachi em um tom calmo, mas incisivo. -É o único jeito de me acostumar a essa nova situação.
–Teimoso como uma mula, né? -comentou Kisame com um tom de voz jocoso.
Itachi percebeu que o som da voz do amigo vinha da sua esquerda e virou-se em direção àquele som, expressando degradado em seu rosto; ouvindo uma gargalhada sonora naquela direção. Ele não entendeu o motivo da graça. Seria porque ele se virou e supostamente encarou o nada? Mas algo dizia que não era isso. Kisame não teria rido disso. Itachi decidiu não perguntar. E então teve um pressentimento sobre o porquê da risada.
Shizune teve a bondade de não concordar verbalmente, mas ela poderia ter se manifestado com uma concordância discreta, talvez com um sorriso ou talvez balançando afirmativamente a cabeça. Isso faria Kisame rir.
–Itachi, dia desses eu fui pescar no lago, tem uns peixes na minha geladeira, você quer alguns? -inquiriu Kisame em um tom divertido, fazendo com que Itachi refletisse se algum dia iria pescar novamente. -Eu posso trazer alguns pra ti amanhã.
–Eu agradeceria, não tem muita coisa na geladeira.
Enquanto conversavam, Shizune guardava algumas coisas no armário, mas logo exclamou que se esqueceu de comprar alguma coisa e Itachi não poderia achar isso mais conveniente. A tia parecia constrangida em pedir a Kisame para ficar de olho nele, um pedido altamente constrangedor, mas antes que o amigo viesse com algum comentário impertinente, Itachi franziu as sobrancelhas.
–É claro que não. -respondeu Kisame sendo educado. -Temos muito que falar.
Itachi ouviu a tia deixar o apartamento em passos rápidos, Kisame foi até ele, pois Itachi sentiu o sofá afundar ao seu lado, e lhe observou durante um tempo, antes de iniciar a conversa. Delicadamente, Itachi se afastou do amigo, se sentando quase na outra ponta do sofá.
–Nós nos conhecemos há... O quê? Uns cinco anos?
–Seis anos. -respondeu Itachi sem entender o motivo da enrolação.
Ele tateou a beirada do sofá, no seu lado esquerdo até encontrar uma almofada e ajeitá-la na sua coluna, deixando-o mais confortável. Ainda assim, ele não se moveu muito no sofá.
Seu apartamento era pequeno e para ganhar espaço, ele tinha optado por um sofá cama de dois lugares e uma poltrona para colocar na sala. Nas raras vezes que Sasuke ficava em casa, os dois costumavam abrir o sofá cama, colocar uns edredons para deixá-lo confortável e ver um filme, comendo uma bacia de pipoca.
–Já? -inquiriu Kisame parecendo surpreso, deixando uma risada baixa soar. -Todo esse tempo... Você tem sorte, até mesmo com essas cicatrizes na cara ainda mantém a boa pinta, ainda assim é estranho ver você assim.
Instintivamente, Itachi passou a mão no rosto, contornando os riscos paralelos as bochechas. Seu rosto estava bem menos inchado e agora os cortes estavam com aquela casca de ferida, embora ainda doessem um pouco, só que nada comparado ao latejar irritante de antes. Ele pensava se isso poderia lhe prejudicar na hora que pedisse emprego novo, afinal, aparência contava pontos em uma entrevista, se ele realmente fosse despedido.
–Isso não é importante. -respondeu ele em tom incisivo. E era verdade. Ele tinha assuntos muito mais urgentes para se importar. -Empregos são.
–Fato. -concordou Kisame suspirando e esticando as pernas, pois ele conseguiu ver as articulações do outro estalarem e um leve arrastar da mesinha de centro. -Tudo está uma merda na empresa. Uma indecisão do caralho!
–Sem palavrões.
–Certo, sem palavrões, senhor politicamente correto. -murmurou Kisame desgostoso. -Todos precisarão passar no setor de recursos humanos da empresa matriz, fazer uma avaliação, ou algo do tipo. Alguns serão cortados, mas outros passarão por um treinamento e permanecerão no quadro da empresa. Mas isso não é tudo.
Itachi aguardou o amigo continuar, permanecendo silencioso e só então ele reparou que sentia uma leve brisa e um som muito leve de algo se movendo, mas não era o som do ventilador; na sala não havia ar condicionado ou central. Simultaneamente a essa constatação, Itachi percebeu também uma leve alteração no cheiro da sala, percebendo um odor meio azedo de suor e um cheiro mais forte de desodorante masculino que provinha do amigo.
–Se você quiser ligar o ventilador, não tem problema. -disse Itachi.
Kisame, o eterno calorento! Estava no inverno e a temperatura estava agradável, se comparado aos padrões habituais do inverno de Konoha, mas isso não significava nada para Kisame. Itachi até apostava que seu amigo era capaz de suar no Pólo Norte.
–Eu vou aceitar. -respondeu Kisame inspirando profundamente e se erguendo do sofá de um jeito ruidoso.
Os passos de Kisame ecoaram por alguns segundos até o outro ligar o ventilador com um clique sonoro e o som calmo do ventilador ecoou na pequena sala. Mesmo assim, Itachi não sentiu o vento, apenas sentia ainda mais o cheiro do suor, tabaco e do desodorante que Kisame usava, indicando que o amigo ficou em frente do ventilador.
–Nos deram o prazo de um mês e meio para vender todo o estoque de móveis da loja, com o maior lucro possível. -continuou Kisame e sua voz estava diferente, misturando-se a vibração e ao vento do ventilador. -Só quando tudo estiver vendido é que nós vamos ter que ir ao DRH.
–Você já descobriu qual é essa empresa matriz?
–É a River Editora. -respondeu Kisame ainda com a voz modificada. -É uma empresa de outro estado, que resolveu expandir os negócios em Konoha. Na reunião falaram inclusive que ela ‘tá se fundindo com uma editora local, acho até que é a que seu tio trabalha.
–Você sabe o nome?
–É a Shushim Editora. Agora ela se fundiu com a River.
Isso justificava completamente a preocupação do seu tio nos últimos dias, ao ponto de adiar a lua de mel em duas semanas e estar, naquele exato momento, em uma reunião de emergência. Itachi franziu os lábios, enrijecendo seus ombros, as costas eretas e a mão direita no queixo, analisando os fatos que foram ditos.
–Tem mais uma coisa.
–O que?
–“River editora” é o nome fantasia. -disse Kisame em tom sério. -O nome real da empresa é Senju & Uchiha LTDA.
Essas palavras fizeram com que o cérebro de Itachi literalmente travasse por um instante. Aquela empresa era a do seu tio Madara, o mesmo homem que bancou todo o seu tratamento, cuja dívida estava em torno dos cinquenta e oito mil reais. Tanto ele, quanto Shisui e, se bobeasse, até Sasuke sabiam que eles tinham direito a receber algumas quotas da empresa da família, cujo nome fantasia que ele lembrava era “Sharingan”. Entretanto, o advogado da família disse que a empresa estava em processo de fusão com outra grande editora chamada “Mokuton”, inclusive este sendo um dos motivos para a suspensão da herança dos seus pais.
Itachi ponderava quando é que resolveria seus problemas financeiros ao receber sua herança milionária quando a companhia tocou, forçando-o a voltar aos seus problemas. Ele não tinha ideia de que horas eram, nem quanto tempo se passou desde que ele e Kisame estavam conversando, mas sabia quem era a visita.
–Você quer que eu vá atender por você?
–Não precisa, apenas me diga a quantos passos a porta está. -pediu ele se erguendo do sofá.
–Dê três passos para a frente. -Itachi obedeceu. -Um para o lado direito. Não, o outro lado. -Itachi obedeceu, mas antes se virou para onde a voz de Kisame vinha, franzindo o cenho em irritação. -Oras, eu também sou novo nisso! Agora dê cinco passos para frente. Estenda a mão e...
Seus dedos encontraram a maçaneta e a apertaram, mas a porta estava trancada, felizmente, bastou tocar no ferrolho e ele sentiu a chave. Antes de abrir a porta, ele perguntou quem era, apenas para ter a certeza absoluta que era Naruto, e então ele ouviu a voz do menor soando inconfundível do outro lado. Itachi deu um passo para trás e abriu a porta da frente, sentindo quase de imediato o cheiro de camomila e um perfume vendido em revista de catálogo, um cheiro que ele gostava, mesclado a um pouco de suor.
–Oi Itachi-san, desculpa eu só vir agora e ih, você tem visita! -disse Naruto muito rápido, ainda ao seu lado.
–Não tem problema, Naruto-kun, entre. -disse Itachi cedendo espaço para o mais novo entrar.
–Boa tarde! -cumprimentou Naruto. -Casa legal. Você quer ajuda para ir ao sofá?
–Não precisa. -respondeu Itachi com polidez. -Sente-se.
O bom é que ele realmente não precisava de ajuda, pois conseguia sentir perfeitamente bem o cheiro de Naruto. O perfume do garoto misturava muitos cheiros que Itachi gostava, como chá de camomila, aquele amaciante de roupas com cheiro de mar, o perfume da revista, nem mesmo o cheiro natural de Naruto era ruim. Se ele se concentrasse bem, poderia seguir os passos do mais novo, já que a melhor opção era o sofá maior. Naruto deu três passos e Itachi o seguiu, praticamente sentindo o corpo do outro, tamanha a proximidade deles, até que o mais novo se sentou e Itachi o acompanhou.
–Naruto-kun, este é meu amigo, Kisame. -apresentou Itachi polidamente. -Kisame, este é um amigo do meu irmão.
–Oi, tudo bom? -disse Naruto com a voz amistosa.
–Então aquele moleque atrevido finalmente fez amigos? -inquiriu Kisame com uma risada irônica que não abafou o som dos passos em direção a sua esquerda. -O que me faz perguntar, cadê aquele pivete?
–Kisame... –ralhou Itachi em tom de aviso.
–Itachi, somos amigos, e você é um cara legal, mas seu irmão é um fedelho que precisa de umas surras. -disse Kisame se sentando no outro sofá, fazendo um som alto quando seu peso tocou nas almofadas. -Onde ele ‘tá? Em vez de te ajudando?
Um silêncio pesado abateu sobre eles, Itachi virou a cabeça para longe do lugar onde achava que Kisame estava, ouvindo um som suave quando Naruto se remexeu ao seu lado. Isso lhe fez notar o quão próximos estavam e ele se afastou um pouco, embora ainda conseguisse sentir o cheiro do mais novo. Parecia que entranhou em suas narinas de algum jeito e ele não sabia se era bom ou ruim.
–Eu não sei onde ele está. -respondeu Itachi, voltando a se virar em direção a Kisame, ouvindo este se remexer. -Descobri que ele está envolvido com drogas. E vou precisar da sua ajuda para achar ele.
A respiração de Kisame foi muito ruidosa, assim como quando ele passou a mão pelos cabelos. Itachi sabia que o amigo não o deixaria na mão, e quase deixou um pequeno sorriso surgir em seus lábios. Mas não fez isso.
–Tudo bem. -disse Kisame com a voz áspera. -O que quer que eu faça? Cole cartazes na rua de “procura-se um moleque idiota”?
Uma risadinha baixa logo acobertada com uma falsa tosse fez com que Itachi virasse o rosto para seu lado direito, onde sabia que Naruto estava, percebendo que o som logo cessou. Entretanto, dessa vez quem sorriu satisfeito foi Kisame e Itachi escondeu o rosto na mão. Ele sabia que Kisame não gostava do seu irmão (e o sentimento de Sasuke por Kisame era recíproco), mas também não era necessário espalhar isso aos quatro ventos.
–Não, eu não quero que você faça isso. -respondeu Itachi pacientemente, tirando a mão do rosto. -Mas eu preciso que você fale com a diretora do colégio dele. Meu tio fez isso ontem e descobriu alguma coisa, mas não quer me falar.
–É lógico que ele não quer falar. Sabe, quando o médico diz “repouso total” significa “repouso total”. -ironizou Kisame começando a bater o pé no chão.
Itachi inspirou profundamente, pensando em quais palavras usaria para explicar o seu ponto de vista para o amigo. Inconscientemente, ele se sentou ainda mais ereto no sofá, estendendo os braços por suas pernas e segurando os joelhos com as mãos. Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, Naruto o interrompeu:
–Olha, sem querer me meter na conversa, mas me metendo. Eu sei que o Itachi-san tem que cuidar de si mesmo e que é dever dele e da família dele cuidarem do Teme, mas que pessoa conseguiria ficar em repouso total nas circunstâncias dele? –ponderou Naruto com a voz espalhafatosa. –É...!
O adolescente se tocou do que disse e pigarreou, aparentando estar constrangido. Kisame estava silencioso e Itachi conseguiu esconder um pouco seu espanto, mas não fez questão de esconder o ligeiro sorriso que surgiu em seus lábios. Era bom ter alguém que o defendesse uma vez ou outra.
–Quero dizer... –continuou Naruto com a voz constrangida. -É só horrível dormir e não saber onde o resto da sua família 'tá.
–Não fale como se entendesse, moleque dois. -retrucou Kisame com grosseria. -Mas enfim, Itachi, conte comigo com o que você precisar, mesmo que eu ache que o remédio para o seu irmão mais novo seja uma boa surra.
–Isso não resolveria com o Sasuke. -disse Naruto aumentando a voz e remexendo-se no sofá. -A gente sempre brigou feio e nunca resolveu!
–Já faz tempo que o Sasuke usa isso? -perguntou Itachi quase em choque.
Naruto hesitou.
–Tem algum tempo, mas a coisa ficou pior, sabe? -disse Naruto com a voz subitamente insegura e baixa. -Era por isso que eu queria falar com você... Mas, não acho que é algo que você queira saber ou...
Por um segundo inteiro, Itachi refletiu sobre exatamente quanto Naruto conhecia sobre seu irmão. Acima de tudo, ele quis saber por que o mais novo queria ajudar tanto Sasuke, contrariando uma recomendação expressa do pai para isso e estando na sua casa naquele momento. Itachi relaxou os ombros, virando a cabeça em direção a Naruto, mas o mais novo ficou silencioso.
–Naruto, você sabe que lugares o Sasuke gosta de frequentar?
–Ele gosta muito de dançar, o DJ favorito dele é o Skrillex. -respondeu Naruto como se isso pudesse esclarecer alguma coisa, mas como ele e Kisame permaneceram quietos, o mais novo continuou. -Aí ele vai em boates onde toque um tecno mais pesado ou então vai para algumas raves.
Itachi não sabia o que era uma ‘rave’, ele sempre foi o mais caseiro, apesar dele gostar de pescar e conhecer novas lojas de doce. Shisui ainda gostava de sair para ir ao cinema ou jantar fora, às vezes ir a alguns museus ou algo do gênero; Sasuke não gostava de ficar em casa e vivia arrumando motivos para passar o dia na rua, chegando a ficar insuportável quando Itachi não o deixava sair de casa. Naruto explicou que “raves” eram festas de longa duração onde se priorizava um determinado estilo de música, e, sim, drogas.
–Vai ter uma festa na véspera de natal. Alguns DJs conhecidos vão estar lá como o Armin Van Burren, vai ser um evento grande e eu acho que é possível o Sasuke ir pra lá.
–Mas não é necessário ter uma certa idade para frequentar esses lugares? -inquiriu Kisame, arrastando o sofá onde estava e isso fez os ouvidos de Itachi doerem.
–É. -respondeu Naruto com naturalidade. -Mas não é nada que uma carteira falsa não cubra.
–E onde se conseguiria uma dessas? –insistiu Kisame ainda incrédulo.
–Bem, você ficaria espantado em como isso é fácil de arrumar. -disse Naruto com um tom absurdamente gentil.
–Certo, mas moleque esse evento aí vai ser de graça?
–É claro que não! O ingresso custa uns cem pila.
–Mas como...?
Itachi não deixou Kisame terminar de perguntar. Ele não queria ouvir aquela resposta, mesmo que ele não soubesse o que exatamente era aquela festa que Sasuke queria ir, ele sabia como se poderia conseguir o dinheiro. Através da venda dos objetos roubados, ou através de tráfico de entorpecentes ou sexo (4). E ele esperava, de todo o coração, que não fosse a segunda alternativa; ele tinha medo dessa resposta.
Todos permaneceram em silêncio por alguns instantes preciosos, e isso fez com que ele se conscientizasse que logo sua tia voltaria e ela não poderia encontrar com Naruto ali. Itachi não gostava de ocultar coisas de Shisui, mas sabia que o tio levaria ao pé da letra a recomendação médica de “repouso total”, porém era impossível para ele ficar tranquilo quando seu irmão afundava.
Para ajudar Sasuke, Itachi faria qualquer coisa, mesmo que por baixo dos panos e ele sabia que Naruto sequer lhe disse o que pretendia contar ao telefone, talvez porque Kisame o inibisse de algum jeito.
Notando que tinha pouco tempo para conversar com o mais novo, Itachi virou o corpo para onde Kisame estava, pendendo a cabeça para o lado onde Naruto estava, em seguida se aprumando no sofá de forma rígida. Kisame suspirou pesadamente e Itachi soube que o outro entendeu o que queria dizer.
–Certo, você vai ficar me devendo essa Itachi. -murmurou Kisame, colocando as mãos nas pernas, pelo estalo que fez. -Se importa se eu fumar um trago lá fora um instantinho?
–Até dois, se quiser.
–Certo.
Kisame contornou a sala com suas passadas largas e, com um ruído manhoso das dobradiças da porta, ele os deixou lá dentro. Itachi virou-se para o lado de Naruto, ainda com as costas eretas e os pés delicadamente no chão. Ele tomava cuidado para que o pé machucado não fosse lesionado.
–Então, o que você gostaria de me dizer? — começou ele.
–É algo difícil de começar. -explicou Naruto em um tom temeroso que só deixava Itachi ainda mais agoniado.
–Naruto, eu não tenho muito tempo. –ele pediu tentando conter a expectativa e o temor.
–Certo...
O mais novo parecia inseguro, pois sua estava voz dois níveis abaixo do normal e se mexia muito no sofá, até que pousou a cabeça sobre o encosto do sofá em um baque suave. Em seguida ele pareceu mudar a forma como estava sentado, pois se remexeu mais e colocou um pouco do peso das pernas sobre a almofada; Itachi esperava que o mais novo não tivesse colocado os pés no sofá.
Instintivamente, Itachi se virou completamente para o lado onde Naruto estava, talvez ficando de frente ao outro, pois assim que fez isso, seus joelhos roçaram nos de Naruto. Ainda assim, Itachi manteve a postura austera, constatando que não, o mais novo não estava com o pé no seu sofá e isso era reconfortante.
–Minha irmã... Bem, ela tem umas manias estranhas. Ela coleciona coisas nada a ver e... Bem, ela tem colecionado coisas que pertenciam ao seu irmão. -disse Naruto rapidamente e aparentando estar envergonhado. -Eu não sei de quem ela puxou isso porque ninguém na família tem isso! Eu juro!
–Tudo bem. -disse Itachi e sorriu um pouco para acalmar o mais novo, fazendo um gesto para que o outro continuasse, mas Naruto não continuou.
Em vez disso, ele se mexeu, aparentando tirar algo de alguma mochila, pois Itachi ouviu um zíper se abrindo e algo pesado ser retirado e posto em suas mãos. Curioso, Itachi tateou o objeto e sentiu algo grosso com capa dura, revestida com uma fina película de plástico, em uma das extremidades, havia espirais de metal interligando o papel, era um caderno.
–Esse caderno é do Sasuke? –ele perguntou sem entender o ponto de Naruto.
–É, é o caderno dele da escola. Tem algumas anotações, exercícios, mas não é só isso. -respondeu Naruto com a voz ficando ainda mais apreensiva e tensa, acabando por falar ainda mais baixo, fazendo com que Itachi tivesse que se aproximar, curvando as costas. -Eu o achei há umas duas semanas, quando eu ‘tava revirando as coisas dela atrás de droga. Pensei que fosse dela, mas não era a letra dela.
–Entendo... –ele perguntou com a garganta seca, mas sem se mover. -O que tem nesse caderno, Naruto?
–Sasuke comprou esse caderno no ano passado, desde então tem usado ele e não o empresta pra ninguém. -disse Naruto com apreensão. -Tem muita coisa misturada aqui, mas eu olhei com cuidado e achei coisas como... Como isso...
O mais novo inspirou profundamente, parecendo se ajeitar melhor no sofá, e em seguida Itachi ouviu o caderno ser aberto e folheado, até que Naruto escolheu uma passagem e começou a ler.
Às vezes eu acho que estou enlouquecendo. Ficar em casa é uma tortura! E de noite é pior. Sempre piora. Nunca é o bastante porque sempre fica ainda pior.
Aí eu olho pro lado, vejo se 'tá dormindo e vou pro banheiro bater uma punheta. Depois eu me limpo o e começo a me sentir imundo de novo e de novo. Eu não queria desejar ele, mas eu quero ele! Viver junto com ele, ver ele todos os dias, às vezes sem camisa, às vezes ele se esquece de deixar a merda da porta do banheiro fechada...! Isso está me matando!
Eu acho que se não enlouqueci, então eu só posso estar amando. Mas qual é a diferença entre loucura e amor? Nunca para. Nenhum dos dois. Nunca para. E sempre fica pior.
Sempre que eu penso em tudo o que ele fez e faz por mim... Às vezes eu chego mesmo a pensar que ele pode me amar do mesmo jeito que eu o amo, mas, não, ele nunca chegaria a esse nível. Eu queria poder não sentir isso, queria poder voltar no tempo, mas não tem como.
Eu desejo ele tanto, tanto! Mas...
Quando o Itachi me olha... Eu só consigo sentir nojo de mim. Porra, ele cuidou de mim praticamente a vida inteira, mesmo após a morte dos nossos pais, ele... Ele ainda cuida de mim. Eu sou um atraso na vida dele e... Só vou piorar tudo ainda mais quando ele souber das verdades.
Tem dias que ele me pergunta por que eu só uso camisa de manga longa, mesmo quando estamos no verão e eu minto dizendo que é meu estilo, mas eu só não quero que ele veja as cicatrizes de quando eu me cortava. Mas, pelo menos, eu já parei com isso. Agora, quando eu sinto que tudo ‘tá pesado demais, eu meto uma F1 e uma Apple-Roxa (5)goela abaixo, deixo tocar uma música e danço, danço até ficar cansado demais para pensar.
É um alívio, até tudo doer de novo com quatro vezes mais força.
Durante muito tempo, os únicos sons na sala eram suas respirações, já que Kisame desligou o ventilador. Itachi se lembrava de cada um desses momentos. Às vezes ele ficava até uma ou duas horas da manhã estudando, quando precisava acordar às cinco da manhã para arrumar tudo na casa, nesses dias ele inevitavelmente se atrasava e se vestia correndo, às vezes esquecendo a porta do banheiro aberta ou mesmo esquecendo qual camisa do uniforme estava limpa e qual estava suja. Nessas manhãs Sasuke ficava excepcionalmente silencioso e até mesmo mal humorado, sem qualquer motivo aparente.
Itachi sempre pensou que fossem os hormônios de adolescente e esperava pacientemente que aquela fase passasse logo. O dia que ele inquiriu sobre as roupas do irmão foi há uns meses atrás, em um domingo especialmente quente, em que ele ficou sentado no sofá cama a tarde inteira vendo filme com Sasuke, mas seu irmão se recusava a dividir o sofá com ele. Agora ele entendia o porquê.
E era terrível. Ele tinha a sensação de ser socado em seu diafragma porque respirar era difícil e ele não conseguia se recuperar do choque daquela leitura. Mas, ao mesmo tempo em que estava catatônico, diversas perguntas borbulhavam em sua mente: quando Sasuke escreveu isso? O que era uma F1? E uma Apple-Roxa? Desde quando Sasuke se cortava? Como conseguiu parar? Por que ele nunca reparou nisso?
Era como ficar sem chão e cair de um precipício fundo e escuro. Itachi expirou com força e apoiou sua cabeça no encosto do sofá, curvando ainda mais as costas e se encolhendo no seu pedaço de almofada. Naruto se remexeu, aproximando-se dele, fazendo com que ele inalasse ainda mais o cheiro do perfume das roupas do outro, assim como o cheiro do xampu de camomila; era calmante. A mão do mais novo apertou seu ombro com força, mas nenhuma palavra foi dita.
–Você sabia que ele estava falando de mim? –ele perguntou tristemente.
–Não até agora. -respondeu Naruto com a voz baixa, estavam tão próximos que Itachi conseguiu até sentir o cheiro de balinha de menta que saia da boca de Naruto.
Itachi engoliu um seco.
–Tem... Mais coisas no caderno? –ele perguntou com receio.
Naruto pousou a cabeça no encosto do sofá causando um pequeno ruído que se misturou com um pequeno suspiro do mais novo; Itachi esperou a resposta, ciente da aproximação do Uzumaki, já que conseguia sentir a respiração do outro no seu rosto.
–Algumas... Eu ainda não consegui achar todas. –respondeu Naruto gentilmente. -É como um quebra cabeças.
O garoto tirou a mão do seu ombro e a colocou sobre o próprio joelho, de um jeito inocente, mas Itachi de repente conseguia ter uma autoconsciência enorme de si mesmo. Ele sentia o contorno dos dedos do mais novo roçarem seu joelho, o ar morno da respiração do garoto e o cheiro de Naruto; isso tudo era bizarro. Itachi não permitia muita aproximação física, só que dessa vez ele decidiu não se afastar do mais novo.
Era desconfortável para ele se expor para as outras pessoas, mas naquele momento não era.
–Naruto-kun, ontem quando eu perguntei por que você queria ajudar o Sasuke, você disse que deve uma a ele. -relembrou Itachi com a voz calma. -O que ele fez?
O garoto suspirou e passou a brincar com a capa do sofá, arranhando-a para cima e para baixo, produzindo sons discretos no tecido; Itachi esperou pacientemente, mesmo que soubesse perfeitamente que os cigarros de Kisame não demorariam tanto. Shizune demoraria menos ainda para chegar.
–Eu conheço o Sasuke desde sempre, sabe? Estudamos juntos desde a escolinha, mas nunca nos demos bem. Ele era bom em tudo e eu... -Naruto hesitou, parecendo um tanto quanto frustrado. -Eu tenho problema pra prestar atenção, sabe?Aí Sasuke era o meu rival. Só que quando eu fiz onze anos as coisas... Tudo mudou.
O mais novo inspirou profundamente, fazendo uma pausa na fala e em arranhar o sofá, mas logo começando a alisá-lo com suavidade de novo. Itachi se remexeu no sofá, roçando levemente nas pernas de Naruto, abraçando um dos seus joelhos e deixando a outra perna flexionada, encostando-a nos joelhos do mais novo. Nem ele e nem Naruto se afastaram.
–Quando eu fiz onze anos, meu irmão foi diagnosticado com um tipo de câncer renal raro e as coisas ficaram realmente uma mer... — Itachi franziu o cenho em desaprovação. Naruto refreou-se a tempo. -... Cadoria lá em casa. Precisávamos poupar dinheiro por causa dos remédios. Aí Karin e eu fomos pra escola pública. No mesmo ano o Sasuke também apareceu na escola onde eu estava.
Itachi franziu o cenho relembrando da época. Foi pouco antes da sua mãe falecer. Aquele foi um período estranho e corrido. Ele teve muitos problemas para conseguir a autorização para trabalhar, mas de repente seus pais deram o aval e ainda financiaram um cursinho de informática para Sasuke. Shisui tinha passado na faculdade e estava morando no campus, normalmente passava os fins de semana em casa. Seu pai estava mais taciturno que nunca e sua mãe ficou muito distraída e nervosa.
Foi quando eles descobriram que sua mãe tinha uma boa herança a receber e que o irmão mais velho estava na cidade, querendo conhecê-los. Só que a sua mãe ficava nervosa só em mencionar esse tal irmão, nas palavras dela era sempre: “não, porque não e para de fazer perguntas Itachi!”.
Só que, infelizmente, ele poderia ser bem persistente às vezes, o que lhe fez investigar a família da mãe escondido dela, não que ele tivesse descoberto muita coisa. Descobriu que seu pai havia trocado o sobrenome para Uchiha quando casou com sua mãe, mas também pudera! A família da sua mãe era endinheirada e tinha poder. Eles possuíam uma empresa bem sucedida na capital Suna e que havia um boato meio antigo que seu avô, Tajima Uchiha, fosse um homem muito severo, mas boêmio. Só.
Naruto voltou a falar e Itachi forçou-se a prestar atenção no mais novo, sentindo que o peso em seus ombros aumentava.
–Nossa escola tem uma regra estúpida de dividir as cadeiras de acordo com a ordem alfabética dos sobrenomes, aí nos obrigavam a nos sentar lado a lado e sempre fazermos trabalhos juntos. E isso obviamente fazia com que nós dois brigássemos na sala de aula e fora dela.
A voz soava nostálgica e distante, Itachi permanecia silencioso, ouvindo os detalhes daquela história, não conseguindo evitar que ele próprio ficasse nostálgico. Ele se lembrava perfeitamente bem do seu irmão nessa idade. Sasuke gostava de ficar em casa, curtindo a família, vez ou outra insistindo para que todos saíssem juntos, porque era isso o que a mãe deles queria, mas o pai sempre dizia ‘não’.
Pai e mãe não deveriam eleger um filho favorito, mas na sua casa, seus pais elegeram os prediletos. Seu pai nunca escondeu que preferia passar mais tempo com ele em vez de Sasuke, talvez por isso sua mãe sempre foi mais atenciosa com o irmão. Com Shisui dentro de casa essa diferença ficava bem sutil, já que o tio sempre encaixava um jeito de todos agirem como família, porém quando Shisui foi morar no campus da faculdade tudo começou a desandar.
–Nós sempre brigávamos, mas sempre estávamos juntos e éramos orgulhosos demais para admitirmos que éramos amigos. -continuou Naruto indiferente as suas lembranças. -A gente descontava toda a frustração um no outro e depois ia pra enfermaria todo dia.
Seu pai era muito severo com seu irmão, mesmo que Sasuke ainda tentasse agradar o pai, arrumando a casa, tentando pegar o jornal ou conversar sobre assuntos que o pai deles sempre falava. Mas isso nunca funcionou.
Sempre que Sasuke voltava para casa todo arrebentado por causa das brigas na escola, Itachi sempre via o pai olhando feio para o irmão. Às vezes Fugaku até mesmo discursava sobre como Sasuke deveria ser um bom garoto, sempre comparando ele e Sasuke. Algumas vezes Itachi conseguia ver até a trajetória da saliva, quando o pai deles se empolgava — e não havia nada que Itachi pudesse fazer para impedir isso. Seu irmão até ficava um pouquinho com raiva dele por culpa das comparações constantes.
Isso talvez fosse o pior.
Só que aí ele começou a trabalhar meio expediente e então mal sentia o afastamento de Sasuke, mas ele bem se lembrava do clima tenso que a mesa ficava na hora da janta.
–Ninguém entendia como as coisas funcionavam entre o Teme e eu. Então um dia o diretor da escola, na época o Kakashi-sensei, disse que nós precisaríamos exercitar melhor nosso trabalho em equipe. -continuou Naruto, suspirando. -Durante uma semana nós teríamos que ajudar o psicólogo da escola nos afazeres dele. O Tazuna-san queria criar uma “ponte” entre a escola e alguns alunos desviados, que estavam indo pelo caminho das drogas. Os primeiros dias foram ok, mas depois...
–O que?
–Uns caras de uma boca de fumo contrataram duas pessoas pra bater nele. -explicou Naruto e a sua voz ficou mais séria, Itachi escutou as juntas do outro estalarem quando o Uzumaki se moveu. -A briga aconteceu numa tarde, onde eu, o Sasuke, o Tazuna-san, o diretor e uma amiga nossa, Sakura, estávamos conversando na quadra da escola. Um dos caras era o gangueiro mais temido na região, Zabuza, o demônio. Ele tinha um comparsa, quase da nossa idade chamado Haku.
–Vocês foram envolvidos nisso. -afirmou Itachi.
–É, o Haku não era má pessoa, mas fazia tudo que o Zabuza mandava. -explicou Naruto ainda com a voz séria. -Ele deu uma surra em mim e no Sasuke enquanto o Zabuza brigava com o diretor. Tazuna-san era um velho, Kakashi não permitia que nada de mau acontecesse com ninguém naquela escola. Só que as coisas ficaram piores.
–Piores como? –perguntou Itachi erguendo a sobrancelha.
–Você deve lembrar, o Sasuke foi parar no hospital por conta disso. -disse Naruto com a voz ficando entristecida e baixa. -O Haku era ótimo lançando coisas e... Ele ia jogar um monte de pedras em mim quando eu ‘tava quase desmaiando e... -Naruto fez uma pausa, como se fosse muito difícil continuar. -O Sasuke se meteu na frente.
Houve uma pausa longa. Itachi bem se lembrava de um dia que chegou em casa e viu sua mãe chorando copiosamente porque a escola de Sasuke tinha ligado dizendo que seu irmão tinha ido parar no hospital e o pai deles não estava em casa para levá-los de carro. Naquele dia eles não conseguiram encontrar o pai no trabalho e precisaram ir de ônibus até o posto de saúde, depois de checarem que estava tudo bem com Sasuke, ele carregou o irmão nas costas até chegarem em casa. Itachi nunca soube onde o pai esteve nesse dia.
–Uma das pedras atingiu a cabeça do Teme e eu fiquei desesperado porque pensava que ele ia morrer. -continuou Naruto com a voz arrasada. -Quando eu perguntei por que ele fez isso, ele me respondeu “meu corpo apenas se moveu!”.
Naruto usou um falsete que em nada lembrava a voz de Sasuke, mas ainda assim fez Itachi sorrir por um instante. O adolescente respirou profundamente, soando muito cansado e Itachi não poderia culpá-lo por isso.
–Eu quis espancar ele ali mesmo, só que eu fiquei com tanta raiva, tanta que ia espancar o Haku, mas a Sakura-chan tinha ligado pra polícia pra tentar ter ajuda e eles chegaram naquele momento. –continuou o Uzumaki com um pouco de raiva. -Eu nunca... Nós não, tipo, nós vivia brigando e ele faz aquilo por mim? Eu pensei “esse cara é legal”, entende?
De repente, Naruto estava completamente constrangido, como se estivesse confessando um segredo que guardara a vida toda e Itachi não conseguiu entender porque tanta vergonha por algo tão simples. Mas ele nada disse, não fazia o seu perfil julgar alguém por isso, na verdade, ele até se sentia um pouco feliz por Naruto compartilhar isso com ele.
O adolescente ficou em silêncio, inclusive parando de brincar com a capa do sofá, pondo a mão sobre a perna com um baque suave. Itachi praticamente sentia o pesar do outro garoto e isso tornava a conversa ainda mais difícil, porém Naruto parecia sempre ser capaz de surpreendê-lo porque de repente o adolescente se ajeitou melhor no sofá. Itachi já não sentia a respiração morna de Naruto no seu rosto, nem mesmo o pesar do garoto, a mudança quase o confundia. Quase.
–É por isso que eu vou ajudar o Sasuke a sair do vício! Eu não posso, eu não...! –disse Naruto com a voz falha, mas cheia de determinação. -Eu consigo aceitar que aquele cara gente fina se perca nesse caminho, entende? –concluiu Naruto cheio de expectativa. -Custe o que custar, mas eu vou ajudar o meu amigo!
Itachi estava levemente consciente de que estava sorrindo. Ele não fazia ideia de que seu irmão tinha se comportado daquele jeito no passado e isso lhe deixou orgulhoso. Era aquele Sasuke que ele sentia falta, o seu irmão, um menino doce que gostava de passar tempo com a família e que não sentia vontade de se cortar ou se drogar. Acima de tudo, Itachi estava feliz porque seu irmãozinho conseguiu, mesmo que sem querer, um amigo tão dedicado.
Era um sentimento até mesmo estranho, essa súbita felicidade que surgiu do nada, mas Itachi não estava reclamando. Qualquer esperança era bem vinda.
–Fico contente que o meu irmãozinho tenha um amigo como você. –ele comentou com gentileza, se sentindo feliz e aliviado como há dias não se sentia.
Naruto voltou à posição de instantes atrás, voltando a pousar a cabeça sobre o encosto do sofá, pois Itachi sentiu novamente a respiração do outro sobre seu rosto, assim como ouvia um risinho ligeiro; suas pernas ainda se tocando, mas ele não se sentia incomodado por isso O adolescente colocou a mão sobre os joelhos e seus dedos se tocavam minimamente, parecia que Naruto era o tipo de pessoa que se habituava a invadir o espaço pessoal das outras pessoas.
Só que Itachi não teve tempo para refletir muito sobre isso, porque assim que o pensamento cruzou sua mente, a porta de entrada foi aberta e Itachi ouviu as passadas largas de Kisame.
–Oh, espero não estar interrompendo nada. -disse Kisame assim que entrou.
Itachi meramente aprumou o corpo, deixando de se recostar no sofá e se virou na direção da voz do amigo; Naruto se mexeu no sofá, ao ponto de seus joelhos não mais se tocarem, enquanto clicava em um botão, provavelmente do seu celular.
–Puts, tenho que ir. -disse Naruto com afobação, se levantando do sofá com pressa, pegando o caderno da sua mão e guardando-o de qualquer jeito na mochila, pelo que Itachi supunha dos barulhos apressados do mais novo. -Amanhã a gente se fala?
O mais novo parecia incerto, mas Itachi apenas se remexeu onde estava sentado até que suas costas e cabeça descansaram suavemente no encosto do sofá, logo em seguida movendo sua cabeça em direção ao som da voz de Naruto.
–Se você puder, pode me ligar nesse mesmo horário. -disse ele com educação. -Posso esperar sua ligação.
–Certo. Eu te ligo! -disse Naruto mais animado. -Tchau Itachi-san, até amanhã.
Instintivamente, Itachi ergueu a mão em uma saudação de despedida enquanto ouvia os passos do mais novo deixarem a casa e logo o som da porta sendo aberta e fechada. Ele se perguntava onde Kisame estava, até escutar uma pequena risadinha satisfeita, à sua direita. Esse som fez com que ele automaticamente voltasse a uma postura mais austera, enquanto erguia a sobrancelha.
Dessa vez, Kisame riu gostosamente em uma gargalhada alta enquanto ia até a poltrona à sua esquerda. Itachi cruzou os braços, esperando a boa vontade do amigo em lhe explicar o acesso de riso momentâneo. Demorou um pouco, mas Kisame explicou.
–Lembra daquela pescaria que a gente fez no rio Shinai?
Itachi lembrava.
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Era um dia muito quente, o céu estava muito azul e com pouquíssimas nuvens para atrapalhar os raios solares que faziam o rio cintilar prateado. A mata composta basicamente de árvores frondosas, como castanheiras, exibia um verde exuberante; seria perfeito, se não estivesse tão abafado. Itachi se sentia tentado a dar um mergulho, se não soubesse que aquela parte era realmente funda.
Ele sabia nadar no fundo, mas a correnteza ali não era de brincadeira. Se tivesse algum problema, o salva-vidas iria demorar a chegar e fazer uma respiração boca a boca com Kisame estava fora de questão. O lugar onde estavam em um cais mais afastado, propício para a pescaria, já que os grupos de adolescentes preferiam nadar no cais do leste, onde era mais raso.
O que não impedia que alguns banhistas resolvessem se amostrar com seus Jet-sky, lanchas e barcos vez ou outra. Era a quinta vez que aquele Jet-sky branco com vermelho passava diante deles, assim como as duas garotas que pilotavam faziam mesuras para que ele prestasse atenção nelas. Dessa vez uma das jovens foi mais ousada:
–Hey bonitão, olha pra cá! -uma das jovens, a de biquíni azul, disse.
–Hey! -cumprimentou Kisame acenando para as jovens de biquíni e salva-vidas que acenaram ainda mais entusiasmaticamente. Itachi nem se moveu.
–Você não, o outro! -disse a jovem mandando um beijinho para ele.
Kisame bufou irritado, ficando em pé e lançando a linha do caniço(6) para o meio do lago. Itachi lançou um olhar para as jovens no Jet-sky. Eram bonitas, uma delas tinha cabelos curtos e usava um biquíni azul com listras verdes tão pequeno que praticamente mostrava tudo, já a outra tinha cabelos longos e castanhos que esvoaçavam ao vento, curvas sinuosas e um biquíni tão cavado quanto o da amiga para mostrar sua boa forma.
Com um aceno breve, Itachi voltou a ignorá-las e puxou a linha, constatando que algum piau (7) comeu a sua minhoca. Assim sendo, ele pegou o copo improvisado com o fundo de uma garrafa de refrigerante onde estavam as minhocas, escolhendo uma particularmente grande e gordinha, enfiando-a viva no seu anzol (8). Enquanto fazia isso, o som do motor do Jet-sky se distanciava e ele percebeu que Kisame falava.
–Mulheres... Sempre pode se contar com elas para melhorar ou piorar seu dia. -comentou Kisame voltando a se sentar ao seu lado.
–Você consegue coisa melhor. -disse Itachi bondosamente.
–Com certeza! -concordou Kisame enfaticamente, uma gargalhada sonora seguiu sua fala e Itachi observou o companheiro de pescaria. -Desde que eu não esteja com você!
O tom que Kisame usou não era de quem estivesse chateado, mas meramente fazendo uma mera provocação. E Itachi entendia isso, mas, no fundo, ele também sabia que o amigo estava frustrado com isso. Kisame não era o mais bonito dos homens, sua aparência era meio selvagem e apenas um tipo muito específico de mulher olharia para ele.
O amigo era tão branco que o azul das veias era visto com facilidade, lhe dando uma tonalidade ligeiramente azulada; e isso era uma espécie de trauma para o outro. Além disso, era absurdamente alto com seus dois metros e dez de altura, tinha um nariz adunco, sobrancelhas grossas e arqueadas que somadas com seus olhos arredondados e de um tom de castanho-mel tão claro que lhe fazia parecer uma pessoa mal encarada. O queixo e os lábios eram grossos, o cabelo preto-azulado espesso e duro tinha um corte militar e o seu porte físico robusto completavam o visual de um bárbaro.
–Não duvido disso. -disse Itachi bondosamente, voltando a prestar atenção na paisagem, curtindo uma brisa quente que acariciava seu rosto, movendo sua franja.
–Mas essas aí... Primeiro nível, hein? -comentou Kisame vagamente. -Você não vai mesmo querer pegar uma?
Itachi meramente fez um gesto com os ombros como se não se importasse, porque era exatamente isso: ele não se importava. Mas Kisame estava determinado a arrancar alguma resposta dele, pois lhe observava silencioso, analisando-o por alguns instantes até suspirar pesadamente.
–Você é mesmo um santo. -ponderou Kisame voltando a sua atenção ao lago. — Nem foder você fode!
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!–Kisame...
–Sei, a droga de não falar palavrão na sua frente. -disse Kisame com impaciência. Itachi lançou um olhar ligeiramente irritado ao amigo. O que custava evitar esse tipo de palavra? Existiam tantas outras para serem utilizadas.
Mas, para ser realmente franco consigo mesmo, Itachi tinha a completa certeza que ele era diferente de qualquer outra pessoa no mundo. Decerto, todos eram diferentes, mas ele era um diferente dentro do grupo dos diferentes. Falar palavrão era normal, mas ele ainda se sentia ofendido e, por mais que isso estivesse diretamente ligado à memória da surra de vara verde pelas mãos da mãe sempre que proferia esse tipo de palavra, ainda assim era anormal um adulto não proferi-las.
E isso era apenas uma das muitas diferenças que ele tinha com o resto das pessoas. Ele não era particularmente social, não por timidez, nem por falta de assunto, pois ele sabia que tinha um conhecimento de mundo mais amplo do que a maioria das pessoas com quem convivia. Talvez aí estivesse uma das razões de seu distanciamento: ele sabia de muitas coisas, mas nem todas as pessoas o entenderiam ou compreenderiam.
–Você precisa desencanar mais Itachi, até parece que gosta de viver com o mundo nas costas! -comentou Kisame depois de um tempo. -Qual foi a última vez que você namorou?
A pergunta o pegou de surpresa e Itachi precisou reconsiderar toda a sua linha de raciocínio e forçar a memória. Ele teve uma namorada uns seis meses antes da sua mãe falecer, aos dezessete anos. Foi quando, inclusive, perdeu a virgindade. Porém ele agora tinha vinte e um anos e desde essa época não se envolveu com mais ninguém.
–Quando minha mãe ainda estava viva.
–Exatamente! Você precisa afogar o ganso de vez em quando! -disse Kisame de modo enfático e Itachi revirou os olhos não acreditando no que estava ouvindo. -Você é humano também!
Sim, ele era humano. E supostamente deveria ser mais semelhante aos demais, mas não era. Todas as outras pessoas lhe deixavam profundamente entediado, então ele simplesmente focava no que precisava ser feito e vivia. Ele podia contar com Shisui, Kisame e Sasuke para quando precisasse de algum convívio social, pois essas pessoas conseguiam capturar a sua atenção, porém nenhuma delas lhe fazia ter qualquer interesse sexual. Sasuke era seu irmão, Shisui era como se fosse e Kisame era um bom amigo.
–O problema é que não consigo me interessar por ninguém. -respondeu Itachi com franqueza depois de um tempo.
–Como assim?-perguntou Kisame sem entender.
–Nenhuma mulher me faz sentir desejo. –respondeu Itachi com desinteresse.
Kisame ficou refletindo durante muito tempo e Itachi sentiu a linha puxar um pouco em sua mão, ele esperou um pouco mais e sentiu mais um puxão e em seguida começou a puxar a linha de volta com força, sentindo que realmente pegou um peixe, pois algo dificultava sua tarefa. Ele torcia para que a linha não ficasse engatada em nenhum galho no fundo do rio. O peixe estava relutante e Itachi puxou com toda a sua força, até que conseguiu ver o contorno do animal, que pulou na superfície, tentando inutilmente voltar ao fundo. Kisame exclamou alguma coisa no seu lado, mas ele estava concentrado em puxar o peixe e não deu bola. Com mais algum esforço, ele conseguiu puxar até o cais uma pirapitinga (9) de bom tamanho.
Ele pegou um dos seus facões e começou a golpear o peixe ainda vivo, iria retirar as entranhas do bicho para usarem como isca. Depois ele ia tirar a escama e, quando chegasse em casa, iria tratar o peixe, temperar com limão, alho, sal e azeite e fazer assado. Era realmente uma sorte pegar um peixe liso (10) como aquele!
Enquanto cortava o animal, um pouco mais afastado de Kisame, o mais velho voltava sua atenção ao rio. Eles ficaram um bom tempo em silêncio e mais uma vez o Jet-sky passou diante deles, mas dessa vez Itachi estava de costas e não viu nenhuma das moças.
–Itachi. -chamou Kisame e ele se virou. O amigo ainda observava o lago. -Você é gay?
O mais velho normalmente não lhe fazia perguntas muito invasivas como aquela e isso surpreendeu Itachi mais uma vez. Ele pegou as entranhas do peixe e as colocou sobre uma bandejinha de isopor onde antes tinha um queijo, lavando as mãos em seguida e indo em direção ao amigo. Kisame lhe encarou e Itachi percebeu que o outro esperava uma resposta, mas, independentemente de qual fosse ela, Itachi sabia que o mais velho não o julgaria.
O problema é que ele nunca pensou no assunto.
Mas se fosse considerar isso, naquele momento, a única resposta que seria verdadeira é que ele realmente não se importava. Ninguém, seja homem ou mulher, lhe interessava ou lhe fazia ter algum tipo de atração física ou paixão.
–Eu simplesmente não ligo para o gênero da pessoa. -respondeu ele encarando Kisame. -Prefiro me sentir confortável com alguém antes de me envolver dessa forma.
Kisame assentiu com a cabeça e voltou a olhar o rio. Itachi se levantou e foi novamente até onde tinha deixado o peixe, usando a tampa do isopor grande que trouxeram para tirar as moscas dali. Depois começou o longo processo de tirar as escamas do bicho.
–Não sabia que você era do tipo tímido. -comentou Kisame despreocupadamente, puxando o caniço e vendo que nenhum peixe tinha comido sua isca.
Sem parar de descamar o peixe, Itachi refletiu sobre o que Kisame disse, mas discordando. Ele não era tímido, até abria possibilidade de que outras pessoas conversassem com ele, mas algo as deixava de fora, longe dele. E assim ele voltava ao problema central: ele era diferente.
–Não é isso. -disse ele depois de um tempo, após ter descamado um dos lados do peixe. -O desejo nada mais é do que a atração física baseada no instinto mais primitivo do ser humano e todos nós o temos em graus variados. -ele ouviu Kisame grunhir dizendo que estava ouvindo e ele virou o peixe. -Entretanto, para que o desejo seja transformado em ação é necessário que você se sinta confortável em ficar com o objeto de desejo. E isso eu não sinto por ninguém.
–Basicamente, você é um assexuado.
–Não necessariamente. -respondeu Itachi agradecendo porque Kisame estava de costas e não o viu perder a compostura. Só porque ele não se interessava por ninguém, não significava que não se masturbasse com frequência. -Só não apareceu alguém que despertasse a minha curiosidade.
Kisame bufou cansado e se virou na sua direção lhe dando um olhar ao mesmo tempo cansado e frustrado, algo que Itachi facilmente ignoraria, mesmo que soubesse que o amigo só estivesse preocupado com ele.
–Você vai morrer esperando essa pessoa.
–Não estou reclamando.
–E como é que você vai saber que essa pessoa chegou?
–O corpo sempre indica, Kisame. -respondeu Itachi dando um pequeno sorriso. -Instintos não mentem.
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–Sim, eu lembro, o que é que tem?
Itachi realmente não fazia ideia do que aquela pescaria tinha a ver com aquela situação em específico. A menos que Kisame estivesse insinuando que ele e Naruto pudessem ter algo, o que era despropositado demais até mesmo para Kisame.
Ou não.
–Você e esse moleque vão acabar juntos. –sentenciou Kisame com a voz divertida.
De todas as coisas que Kisame lhe disse ao longo dos seis anos que se conheciam, aquela era, sem favor algum, a maior estupidez que Itachi já ouvira. Naruto era amigo do seu irmão, um adolescente hormonal e, ainda por cima falava alto demais, além de que ele próprio estava interessado era no pai do garoto. O mais novo não lhe dava esse tipo de interesse que Kisame estava atribuindo.
–Isso foi a coisa mais despropositada que você já me disse. –pontuou Itachi com moderação, preferindo usar o termo “despropositada” do que “estúpida”.
Por algum motivo, sua resposta fez Kisame por a mão no seu ombro esquerdo, produzindo um ruído seco, e ele esperou alguma outra manifestação do amigo, mas o que ouviu foi sua risada baixa cheia de significados. Kisame não disse mais nada sobre aquele assunto até sair da sua casa meia hora mais tarde.
–Engane-se o quanto quiser. Os instintos não mentem.
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Referências
(1) Dosagem das balas. Eu não tenho ideia de como funciona as dosagens da droga para um viciado, ok? Peguem leve comigo!
(2) “Wise and Shine Sammy!”; “Acorde e brilhe, Sammy!”. Referência ao episódio Mistery Spot da série Supernatural, conhecida no Brasil como Sobrenatural, episódio Lugar Misterioso, da 3° temporada.
(3) Sr. Magoo. Desenho criado pela United Productions of America em 1949, o qual conta a estória de Quincy Magoo, um velhinho baixo, careta e com grave deficiência visual que lhe mete em diversas confusões. No ano de 1997, Leslie Nielsen o interpretou em um filme de nome análogo (eu gosto do filme ^^).
(4) Furto, tráfico e sexo. Através de disse-que-me-disse de pessoas que consomem bala, o melhor método para consegui-la é através do tráfico. Você vende uma parte e consome outra. Só que por motivos de plot eu vou ter que usar os outros dois meios, que são mais extremos e arriscados, ok?
(5) F1 e Apple Roxa. São nomes de balas.
(6) Caniço. Vara de pescar artesanal feita com uma planta fina e flexível. Não me perguntem o nome da planta, apesar de eu sempre ver eu nunca sei o nome.
(7) Piau. Peixe de médio porte típico da região amazônica, conhecido por comer a sua isca imperceptivelmente. Foi mal galera, mas eu só conheço peixe de água doce xP
(8) Anzol. É aquele ganchinho onde se coloca a isca para atrair os peixes.
(9) Pirapitinga. Peixe amazônico.
(10). Peixe Liso.No norte a expressão “peixe liso” é utilizada para denominar peixes cuja espinha seja grande e facilmente visível, facilitando sua retirada. Já que tem peixes com muitas espinhas como pacu e mandi.
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