Desafios do Destino I - Pesadelos e Tormentas

11 Primeiro Capítulo Extra - A Grande Árvore: Desenhos


Seria aquela uma tarde comum, mas eu estava ali, sentado na poltrona almofadada, dentro de casa, olhando para o quadro rasgado pendurado na parede acima da televisão, o único utensílio moderno que se encontrava naquele lugar. Eu deveria sair dali? Ou deveria ir morar com meus antepassados?

Não sabia a resposta, se é que havia uma. Ao sair de meu lugar e seguir corredor adentro, parei diante da porta rústica de madeira, que dava direto ao porão de minha avó. Será que ali eu encontraria a resposta que tanto procurava?

Cautelosamente, não querendo chamar a atenção de ninguém, abri a porta, que rangeu como se eu morasse em um filme de terror. Degrau por degrau, eu desci as escadas com medo de encontrar o que não queria.

Assim que eu entrei no lugar, deparei-me com uma parede descascada, forrada de desenhos feitos à mão, ou à tinta.

Eu passava a mão de folha em folha, catalogando com minha mente e meus olhos as pinturas simples que coloriam a folha esbranquiçada, agora amarelada conforme o tempo ia passando.

—Achou meu esconderijo? – A voz era miúda e não assustou aquele rapaz de vinte e cinco anos com porte atlético e um quase bigode em seu rosto.

—Vovô... Achei que o senhor estava em seu quarto.

—Na verdade, agora esse é meu quarto, ao lado daquilo que é muito importante para mim... – E ele folheou os desenhos igualmente o neto havia feito anteriormente. – E o que achou das pinturas?

—Não são de boa qualidade, isso não há como não negar, e pelo visto, o tempo também não ajudou a conservá-las intactas.

—Você diz isso agora, mas quando pequeno levava esses papéis de um lado para o outro, mostrando aos outros como era bonita a obra de arte.

—Ah vovô, isso faz anos, uns dezesseis. Nem tem como me comparar hoje com o meu Eu pequeno.

—Tudo é comparável, porém, nem tudo que comparamos é devidamente o correto. Você acha mesmo que as comparações que seu pai faz de sua infância com a dele são corretas?

—Da mesma forma que você comparava a sua com a dele?

O avô sorriu, já que sabia a resposta do neto. Era um garoto inteligente, de mente avançada.

—Você não é mais a mesma caixa de surpresas como era quando criança... Sabia disso? Mesmo assim, alegro-me quando vejo no homem em que se tornou. Pena que nossa vida juntos não será mais a mesma.

—Não diga isso vovô... Assim fico triste novamente...

—Pode ficar triste. Como eu já disse a você, a tristeza não é uma fraqueza, e sim uma qualidade, que mostra o quão humano você é.

Peguei uns desenhos e sentei aos pés de meu avô, que com muito esforço, soltou a bengala que usava de apoio e sentou-se ao meu lado.

—Lembro-me desse... Era aquele dia de chuva, que decidimos fazer um grande passeio.

—Mesmo chovendo, saímos apenas eu e você. Ficamos doentes depois. No entanto, você apenas queria que eu ficasse feliz.

—E consegui! – Ele me abraçou fortemente, apesar da condição em que nós nos encontrávamos. – Tem esse outro. Não lembro o que significa.

—Ah, eu lembro, mas não gosto de tocar no assunto. Foi no dia em que aquele homem entrou em casa e assassinou o seu cachorro.

—Sim, aquele foi um dia muito triste, tanto para ele, quanto para nós dois.

As lágrimas subiam aos meus olhos, não gostava de lembrar.

Havia saído mais cedo da escola, devido a uma prova surpresa. Vinha a pé, chutando as pedrinhas soltas do asfalto da rua, quando me deparei com aquele homem saltando o portão de casa carregando uma navalha em mãos.

Achei que seria o fim de meu avô, se não tivesse sido aquele cachorro vira-latas que pegamos na rua há uns anos. Ele mordia a perna do homem, que gritava de dor. Entretanto, quando entrei em casa, estava lá, a navalha no pescoço dele e o sangue escorrendo como as minhas lágrimas, secas e ferozes.

Quase pulei sobre o homem para enforcá-lo, mas uma mão me puxava para longe. Era o vizinho, que vira a cena toda e ligara para a polícia.

Fora isso, não gostava de lembrar mais do assunto. Por que ele queria matar meu avô? Nem ele sabia, mas quase perdi meu melhor amigo, isso sim, seria uma perda.

—Quer comer alguma coisa meu neto? – Não respondi, estava sem fome. Nunca mais senti fome.

Voltei meus olhos ao meu avô, que se esforçava para se levantar e o ajudei. Ele, por sua vez, me agradeceu dando um forte abraço. Apenas senti isso pelo olhar dele, porque eu não mais sentia o seu toque. Não sentia mais nada.

Subimos a escada juntos, degrau por degrau, pé ante pé.

—Meu neto, está na hora de partir. – O olhar dele entristeceu-se gravemente, como se uma doença tivesse lhe abatido.

E junto, eu fui com meu avô até a varanda, de onde eu via o enorme carvalho plantado por ele.

—Sentirei saudades das tardes de ventos, sentado embaixo daquela árvore ao seu lado, meu neto.

—Eu também vovô, mas precisamos nos separar.

E dali, apenas restara uma pessoa na varanda quando a noite caiu, deixando a triste tarde para trás.

—Falando sozinho de novo papai. – Uma voz seca percorreu o corredor.

—Sim, minha filha, conversando com o vento mais uma vez.

—Você estava falando... Com ele? – A mulher trajava um avental quadriculado sobre um vestido simples de malha azul. Seus cabelos pretos, aparados sobre os ombros, faziam pequenos cachos.

—Creio que sim. Hoje foi o último dia que eu falei com ele.

—Quer se despedir novamente?

Ele afirmou com a cabeça. Um passo seguido pelo outro, os dois seguiram o caminho de pedras sobre o esverdeado gramado em direção ao grande Carvalho, que estava tão reluzente quanto antes.

Sob uma lápide em forma de cruz, estava o caixão do meu melhor amigo, do meu grande companheiro. Nós enterramos seu corpo embaixo da grande árvore, junto às raízes, que um dia iriam usufruir sua bondade para trazer bons ares ao mundo.

—Adeus... – As lágrimas escorriam de forma singela e silenciosa. – Sentirei sua falta, meu neto.