Desafios do Destino I - Pesadelos e Tormentas

12 Segundo Capítulo Extra - A Grande Árvore: O Livro


Enquanto o Sol batia no desproporcional e pequeno retalho, que era usado como cortina para a imensa janela, eu passava um úmido pano nos diversos livros que preenchiam as maciças estantes de madeira cerejeira. A densa poeira que cobria as capas dos livros incomodava o meu nariz, o que resultava em diversos espirros e muita coriza. Eu tinha, em minhas mãos, um rolo de papel higiênico, que diminuía a cada assoada dada. Na pequena biblioteca, não havia muitos móveis, apenas uma poltrona, cujo tecido amarronzado já estava levemente gasto, e um criado mudo, o qual tinha duas pernas tortas, deixando-o todo torto e bambo.

Lá, estava depositado um minúsculo copo com água, que eu havia esquecido na noite anterior, enquanto lia um pequeno versículo da minha Bíblia. Ela estava posta em um pedestal, todo trabalhado em ouro e bronze. Devido à idade avançada, tanto minha quanto da Bíblia, eu mantinha uma lupa dourada pendurada por uma cordinha plástica em um ganchinho do pedestal.

Eu, durante a minha missão de extinguir a causa de minha alergia, arrancava fileiras por fileiras de livros, o que arrancava mais poeira, que dormia naquele canto seguro e escuro. Toda a poeira flutuava pelo ar, da mesma forma que as gotículas de chuva brilhando em um céu lotado de raios.

Nesse processo, um livro, erroneamente guardado, caiu sobre minha cabeça. Foi doloroso, que fez a cabeça latejar por muito tempo, mesmo eu correndo para a cozinha para colocar gelo. Depois de todo gelo derreter e parte da água cair sobre minha cabeça, eu sentei na cadeira e segurei o livro com minhas fracas mãos, todas enrugadas e moles, resultado da idade avançada, que acompanhava a idade da mobília ao meu redor.

Eu, totalmente viciada em leitura, nunca havia reparado naquele livro. Tinha uma memória boa com as capas de meus livros, inclusive sabia qual era o livro pela posição da capa, ou pela coloração, ou melhor, pelo detalhe que alguns escritores usavam para diferenciar uma série de outra.

Assim que eu abri o livro, me deparei com muitas páginas em branco. Tudo estava vazio, tudo estava ali. O que aquilo queria significar? Eu folheava folha por folha para ver se havia algum escrito meu, feito muitos anos atrás e que a memória se apagou de meu cérebro, ou era um diário de meu pai, um grande musicista.

Talvez fora um presente dele para mim, que hoje, vivo só, contudo, como ele saberia que eu estaria sozinha? Como ele saberia que eu nunca encontraria um amor para minha vida, a não ser os meus livros?

Não havia nada mais triste que essa minha vida amarga e sem sabor. Nada demais, para você que tem amigos e companheiros, para você que namora, que tem uma família. Para mim, essa vida é sem graça, é solitária, é abarrotada de tristeza.

Ainda com o livro em mãos, comecei a refletir sobre a minha vida, sobre o que sou, sobre o que fui e, talvez, sobre o que serei. Será mesmo que valeu a pena eu perder os passeios de escola por querer economizar dinheiro? Será mesmo que aquela competição de quem tirava a maior nota da sala de aula valeria a perda de saídas com os meus amigos?

Aliás, valeria a pena estudar como uma condenada, esquecer o que é viver, apenas para passar o mais rápido possível em uma faculdade? Além disso, será mesmo isso que eu queria? Olhei para a parede oposta abarrotada de placas com o meu nome, me presenteando com prêmios, com presentes, com futilidades que, hoje, não valem mais nada. Tudo isso é apenas adubo para aqueles que têm um ego forte e querem se mostrar aos outros.

Eu me levantei da poltrona e me dirigi até o pequeno pano que cobria a janela e o arranquei fortemente. O Sol já não mais me atrapalhava, ou seja, já se passara do meio dia e ele iluminava a outra parte da casa. Olhava pela janela, que se dirigia até a um pequeno jardim, com um perdido banco no meio dele, sob uma enorme árvore, que era parecida com um carvalho.

Voltei ao meu estado de transe, que comandava os pensamentos bagunçados de minha cabeça. Aqueles livros, aquele ensinamento que não tive o prazer de passar aos demais, aquela sensação estranha que saber mais do que necessário e não para quem ou aonde lecionar tudo isso. Livros de religião, incluindo a minha Bíblia, havia um pequeno Corão, cujas palavras eu não entendia. Havia livros de astrologia, de mitologias nórdica, greco-romana, egípcia, maia, asteca, inca e xamânicas.

Havia livros de matemática, física, química, geografia, história, sobre tudo, de não-ficção até a ficção. Eu me perdia naquela quantidade inesgotável de saber, que, até agora, não serviram para nada, apenas para alimentar o meu cérebro.

Depois de rodar pela sala e encarar aqueles livros, apenas agora eu pude notar o quão estranho é. O que um livro, que tinhas as páginas em branco, que nada escrito havia, pode fazer conosco. O que será que eu posso fazer para acabar com isso? Não tenho um marido para me trazer de volta, nem mesmo sobrinhas para sair desse transe.

Como um mascar de chiclete, ou apenas um brincar de bonecas, tudo eu havia passado, tudo eu havia sofrido, para simplesmente perceber que de nada vale, se você não tem aonde se fixar, aonde ter um apoio.

Larguei a limpeza daquela sala. Terminaria outra hora.

Eu me dirigi até aquele jardim para sentir a Mãe Natureza, seu sopro, seu choro, sua alegria, sua canção. Notei, mesmo que quase com o pé na cova, que eu preciso viver, preciso ser feliz, preciso ser um humano. Não quero mais voltar àquele transe infernal de onde vim. Não quero voltar ao meu estado de escrava da sabedoria.

Ao me aproximar do enorme carvalho, eu sentei no banco e comecei asentir o mundo. Fechei os meus olhos, pois, ao abri-los novamente, seria outrapessoa, uma renovação digna, que todos precisam passar. Sem mudar nada, semmudar qualquer modo de falar ou de agir, eu seria nova, eu renasceria.