Desafios do Destino I - Pesadelos e Tormentas

9 Insurreição das Profundezas: Revoltas das Águas


Eu fui arrastado até um quarto isolado de toda e qualquer área do castelo. Aquele homem ainda não explicara nenhuma das informações que ele cuspiu em cima de mim e isso inflava ainda mais a minha curiosidade. Por que eu seria mais um Arauto, se foi isso mesmo que eu entendi? Por que essa pessoa, por que Ele queria que esse homem cuidasse de mim?

—O que você tem a me dizer? Qualquer coisa!

—Garoto, por favor, se acalme. – Ele tinha um olhar nervoso, visto que eu percebia muitas veias vermelhas saltando. – Você acha que foi fácil eu usurpar o lugar do último que apareceu nessa cidade? Se eu falhar nesse plano, mais uma vez, não sei o que acontecerá comigo, muito menos o que acontecerá com o mundo.

—Onde você falhou outras vezes?

—Não posso falar. Ele não permite.

—Você acha mesmo que ele escutará você aqui embaixo? Milhões de milhas abaixo do nível do mar?

—Ele escuta tudo, ele vê tudo, ele percebe tudo.

—Ele é Deus? – Eu percebi uma cara de irritação no rosto dele, portanto, decidi parar.

—Ele não é um deus, ele é apenas uma coisa. Dessa forma, ele é tudo e ele é nada.

—Isso é uma explicação muito razoável. Pode até ser usado em um dicionário.

—Você não entende e nem entenderá. Ele é maléfico, ele é cruel, ele é a tormenta, ele é o caos, a devastação e o sofrimento.

—Parece o povo quando vai exorcizar algum espírito de uma pessoa. Só fala isso.

—Se eu fosse você, não faria essa espécie de comentário. – Ele se aproximou rapidamente e colocou uma espada em meu pescoço. – Se você veio até aqui por algum motivo, serei eu aquele que o guiará até o final da sua missão.

—Olha, ultimamente, eu fui obrigado a matar umas pessoas, impedir a morte de outras, até estar dentro de uma biblioteca e ser mandado para dentro de um livro.

—Ele ainda está te testando. Você não passou na provação final.

Eu entendia cada vez menos do que aquele homem falava. Quando eu vi uma pequena brecha em sua vigia, consegui escapar dele, jogando uma cortina velha e toda empoeirada sobre ele. Ao sair da sala e adentrar no corredor, corri para o mais longe possível do local onde ele se encontrava, ou pelo menos, estar em um local seguro, para apenas agora eu vasculhar o castelo.

Abigail apareceu diante de mim, com feições menos agradáveis do que tinha quando me encontrou. Seu olhar perfurava o meu, que tentava cair por terra para não encará-la, entretanto, nada fazia o meu olhar sair daquela maré forte que me prendia. Escutei passos atrás de mim e ela também. Mais rápida do que fui, ela me puxou para dentro de uma abertura que tinha na parede, onde havia um enorme vaso enfeitado com algas e pequenas pedras, que pareciam água petrificada.

Aquele homem passou correndo por nós e nem reparou que estávamos ali. Enquanto ele desaparecia pelo final do corredor, a sereia me puxou para o outro lado. Paramos em frente a uma enorme porta dourada, toda decorada com muitas pedras brilhantes, que enchiam o meu olhar de raridade e preciosidade.

Ela bateu na porta três vezes seguidas, depois deu mais dois fortes toques com três segundos de diferença. Outra sereia abriu a porta e nós dois entramos pela pequena fresta que ela abriu. Assim que eu deparei, estávamos diante de uma enorme mesa, com apenas três pessoas ao redor. Uma delas era aquele homem que eu vi sentado no trono, outra era uma mulher loira, com uma pele bem branca. Seus olhos pareciam esferas de ouro reluzentes dentro de uma pequena caveira, de tão fino que seu rosto era. Seus dedos são bem mirrados, porém tinham muitos anéis dourados, que combinavam com seus olhos.

A outra pessoa era o tritão que me salvou. Do seu lado, estava o tubarão que ele usou para me amedrontar.

—Por favor, queira se sentar. – Abigail apontou para uma cadeira do outro lado da mesa. Enquanto eu me dirigia até meu assento, eu sentia que eles me encaravam com olhares coloridos e petrificantes. Abigail sentou e ficou me encarando. – Você já conhece Salazar. Essa aqui é nossa vidente, Madame Rosália. E esse é o nosso rei, Oceano.

Logo liguei o nome "Oceano" ao Titã que comandava os oceanos antes de Poseidon, porém, não creio que este seja aquele destruidor que eu lia em muitas lendas.

—Você já deve saber qual é a sua função nesse lugar?

—Perdoem a minha falta de atenção, porém, não sei qual é minha função desde o momento em que eu fui perseguido naquele festival.

—Que festival?

—Em minha cidade, ocorria um Festival Japonês. Lá, eu fui atacado. Depois, parti para o Bosque dos Sussurros. Assim, era seguido por onde eu aparecia.

Um silêncio prosseguiu no lugar. Eu olhava para os demais, que trocavam muitos olhares preocupados. No final dessa curiosidade tortuosa, todos jogaram seus olhares para a vidente. Em sua frente, percebi apenas agora, havia uma esfera, cheia de nebulosas dentro de seu material cristalino.

—Madame, o que disse a sua última visão? – A mulher fechou os olhos e pôs as mãos sobre a esfera. De repente, seu olho abriu. O amarelo do ouro brilhava como um imenso farol guiando um navio. Ela abriu a boca, contudo, não a mexia, apenas permitia que um vento saísse, liberando uma voz aguda e misteriosa:

Aquele que sobreviver ao festival

Caminhar pelos Sussurros e servir a morte

Salvará a alma do sacrifício inválido

E será aprisionado perante o conhecimento

Adentrará duas guerras invisíveis

E afundará nas profundidades

Não será a fruta podre das almas mortas,

Mas este será o novo arauto

Que trará esperança para os desalmados

Ela fechou a boca novamente e seus olhos se apagaram. Todos se viraram para mim, que tremia depois de saber que havia uma visão sobre mim, uma profecia que designava o meu futuro, que jogava um peso imenso sobre minhas costas. O que eu faria? E quem me ajudaria?

Abigail se levantou e se aproximou de mim. Sua mão gélida repousou em meus ombros, que encolheram ao sentir a aspereza de sua palma. Ela lançou um olhar humilde sobre mim, que acalmou meus nervos.

—Alguém poderia me dizer o que eu preciso fazer? – Todos esboçaram um sorriso agradável, o que simbolizava um possível auxílio que seria dado a mim.

—Meu garoto, eu sei que o medo está impregnado em seu espírito, porém, você deve manter a calma. – A voz grave de Oceano parecia não me ajudar a manter a calma. – Estaremos aqui para te auxiliar no mais difícil de seus desafios. Pelo seu espanto, você ultrapassou por cada etapa da profecia.

—Desde o festival até esse momento, eu nem imaginava que havia alguma profecia referente a mim. – Eu me levantei e fui até a mulher com a bola de cristal. – Será que era isso que ele queria dizer a mim?

—De quem você está falando?

—Estou falando daquele seu ajudante. Eu o encontrei nessas duas batalhas. Em ambas, ele tentou me matar. Ele disse que eu seria mais um arauto, mas ainda estava cruzando o teste final.

—O que mais ele disse? – Abigail passou a mão em sua lança e se dirigiu à porta.

—Ele iria me dizer que ele também é...

—Cale a boca! – Aquele homem apareceu do outro lado da sala, com um ponto dourado em seu corpo. – Não diga mais nada! Você quer o meu fim?

—Eu não disse nada demais. Tudo estava transpassado na profecia.

—Garoto, eu te disse que ele ouviria cada palavra que você proferisse. Ele é o caos, ele é a tormenta.

—Ele é a morte com a foice em mãos! – Essa frase foi dita por uma voz, que ecoou pelo lugar inteiro. Todos se levantaram rapidamente, se entreolharam e correram para fora da sala, indo em direção ao lado exterior do castelo.

Permaneceram eu, aquele homem e Abigail, que ficou para me proteger. Assim que nós dois olhamos para aquele homem, o ponto dourado começou a atravessar sua barriga, abrindo um enorme rasgo, por onde saía muito sangue, que se dissolvia na água salgada do mar. Ela fez o ferimento doer ainda mais.

—Eu disse que ele ouvia tudo... – o homem caiu no chão e faleceu.

Abigail não demonstrou compaixão, muito menos eu, porém, senti um forte aperto em meu coração, como se o pressionassem fortemente. Nós dois deixamos o corpo e fomos até o lado de fora do castelo, onde havia uma enorme confusão. Todos estavam atordoados e me encaravam assim que eu passava por eles.

—O que você fez? – Muitos gritavam isso para mim, como se a culpa de uma voz proclamar a morte do nada fosse minha.

—Salazar, cadê o seu tubarão? Aposto que ele será de grande ajuda se nós formos atacados.

—Ele estava aqui, porém, fugiu assim que pressentiu uma presença tenebrosa. – Todos começaram a gritar assim que uma enorme sombra apareceu perto da entrada da cidade.

Eu, Abigail, Salazar, a vidente e Oceano corremos para lá.

—Os animais podem ver a cidade?

—Claro que podem, no entanto, apenas aqueles com permissão podem adentrar. Creio que aquele animal não tem permissão.

A sombra se aproximava muito rapidamente, mais rápido que Abigail com sua lança para o meu pescoço. Parecia um tubarão branco, contudo, era maior, muito maior.

—Achei que ele estava adormecido.

—Quem é ele?

—Ele é uma criatura pré-histórica, impossível de se achar nadando pela superfície, mas ela é facilmente vista no fundo do oceano: o Megalodon, o enorme tubarão branco.

Aquele tubarão apareceu diante de nossos olhos. Em cima dele, havia uma pessoa, que pulou bem em nossa frente. Ele usava um capuz e uma máscara, que mais parecia um gorro com dois buracos no lugar dos olhos. Eu tinha um metro e setenta de altura e ele um palmo a mais, ele tinha uma madeira nas costas, o que parecia uma lança.

—Que saudades eu estava desse lugar! – Eu conhecia aquela voz, porém, nenhuma lembrança me fazia recordar dele

—Você não é bem-vindo aqui! — Oceano gritou para ele. – Saia daqui! – O homem, então, pegou a lança e arremessou bem no meio do peito de Oceano, que caiu no chão enquanto seu sangue era expelido de seu corpo e se misturava com a água.

—Não! – Todos correram para socorrer o Rei, porém, já estava morto. Além da idade avançada, a lança estava com algum veneno, já que, na tentativa de retirá-la, uma pessoa ficou com as mãos queimadas, cheias de bolhas.

Eu tentei correr para cima do homem, porém, Abigail me impediu.

—Você não pode se sacrificar.

—Escute-a garoto, ou se não, terá de enfrentar meu amiguinho. – Ele apontou para o tubarão, no entanto, havia algum animal em cima do monstro, que saltou quando o homem estalou os dedos. – Acho que você se recorda dele.

Aquela criatura, mais pálida que a luz do luar, magricela e esguia, com garras mais negras que o carvão, olhar mais vermelho que lava fervente, aquela criatura, que me perseguiu no Bosque dos Sussurros, estava diante de mim, me encarando e desejando a minha morte. Abigail se encolheu atrás de mim, como se aquela criatura a tivesse amedrontado.

—O que aconteceu?

—Eu quase fui morta... Por aquilo. – E apontou para o monstro. – Mas alguém me salvou.

Eu olhei para a sereia e encarei o monstro, joguei meu olhar para aquele homem e identifiquei aquela cor de olho enquanto ele já esboçava um sorriso por debaixo da máscara.

—Retire a máscara! – Gritei, rezando para estar errado. Ele seguiu a minha ordem e, para o meu temor, eu estava certo.

—Acho que não está tão surpreso quanto eu esperava que ficasse. – Aquele homem, eu o conhecia, ele havia me enfrentado, ele havia assassinado seis adolescentes, três casais, ele havia me transformado em Servo da Morte, ele havia posto a foice em minhas mãos. Ele era eu, ele tinha o meu rosto, porém, com uma cicatriz que ia de cima da testa até o meio do pescoço.

—Como ele pode ter o seu rosto? – Abigail estava atrás de mim.

—Abigail, eu sei quem te salvou. – Ela esboçou um olhar surpreso. – Fui eu quem te salvei, fui eu quem pulou daquele penhasco sem te conhecer apenas para te salvar. Quando caímos no rio...

—A correnteza me trouxe até aqui e eu me tornei uma sereia para servir Atlântida e o Rei Oceano.

"Será que ela confiaria em mim? Será que essa seria a minha batalha final? Será que eu poderia derrotar a Revolta das Águas?"

Continua...