Desafios do Destino I - Pesadelos e Tormentas
10 Insurreição das Profundezas: O Desfecho da Tormenta
Eu encarava os olhos de Abigail, que tremia de medo. Eu percebia ao reparar a lança trêmula em suas mãos. Voltei o meu olhar para aquele homem. Nunca imaginei que eu voltaria a vê-lo, ainda mais quando ele se desfez em minha frente, na forma de pétalas cinza. Meu corpo, de repente, se incendiou em fúria e eu pulei sobre o homem, agarrando-o pelo pescoço. O que eu sentia era estranho. Mesmo eu querendo destruí-lo, eu não conseguia. Será que ele, por ser eu, me faz sentir isso? Se for assim, alguém terá que matá-lo e esse alguém será Abigail. Da mesma forma como eu a salvei, ela terá que me salvar. Agora, como digo isso a ela? Aliás, como vou fazê-la se mover? Eu via o medo em seu olhar triste, por onde saíam lágrimas devido à morte de Oceano. Com certeza, ele era um herói, um pai para ela.
Nesse meio tempo, em que eu fiquei em transe, aquele homem me arremessou para longe, para perto da vidente. Ela, com o corpo fraco e debilitado, ajoelhou ao meu lado e, com a voz extremamente fina e falha, sussurrou em meus ouvidos:
—Aproveite o seu passado para lutar com o futuro.
Ela se distanciou sem dar tempo para agradecê-la do conselho. Por sorte, entendi de primeira o que ela quis dizer, porém, se daria certo esse meu plano, eu já não tinha certeza. Assim que eu me levantei, deparei com Abigail lutando com o homem enquanto aquela criatura se debandava para cima da população da cidade. Eu, sentindo um sentimento heroico saltando de mim, comecei a correr atrás dela. A força da água me impedia de alcançá-la, como se o oceano inteiro estivesse contra mim. Na verdade, ele estava. Aquele que me testava, ou ainda testa, controla tudo. Como disse o homem, "Ele é maléfico, ele é cruel, ele é a tormenta, ele é o caos, a devastação e o sofrimento."
Quando não consegui mais correr, eu vi uma pequena criança, uma miniatura de sereia se aproximando de mim com uma bolsa, que parecia ser de couro, cheia de pequenas pedras, que pareciam cristais de gelo. Assim que me entregou, disse com uma voz fina:
—Use para jogar no monstro. A água ao redor dele congelará e ele não conseguirá correr mais.
Assim que terminou de falar, ela se virou e nadou em alta velocidade. Ela tinha um olhar vazio, diferente das demais crianças que eu havia visto anteriormente. Ela parecia triste, parecia diminuída. Será que ela colocava sobre mim o futuro daquele lugar?
A criatura, totalmente sangrenta, arreganhava a boca com o intuito de abocanhar alguns tritões ou sereias. Sua missão era essa e teve, dolorosa e infelizmente, sucesso. Uma pequena sereia, semelhante àquela que me entregou a bolsa, estava com a cauda presa em um pequeno arbusto de corais mortos. Sua coloração não existia mais, era apenas um amontoado de calcário branco e sem vida. Ela não conseguia se mexer e o monstro agarrou seu braço. Ele mordia com muita força. O fluxo de sangue que vazava era enorme e os gritos de dor da garota ecoavam pelo local inteiro.
Todos pararam e olharam para a cena com lágrimas em seus olhos. Meio que óbvio, eu não via as lágrimas, mas, sim, uma mudança na coloração dos olhos. As cores azuis, roxas, violetas e similares, se tornaram verdes. Eu não compreendia a mudança da coloração dos olhos da população, mas sabia que a tristeza andava perto de cada um de nós ali presentes.
A criança começou a definhar, desaparecendo bem na nossa frente. Aquilo me enfureceu. Corri até a criatura, que se virou para mim, e arremessei uma das pedras. A água ao redor congelou e impediu o monstro de se mover, contudo, ainda tentava me morder com os dentes negros carvão, todos sujos de sangue.
"Aproveite de seu passado para lutar com o futuro." – E essas palavras ecoavam em minha mente. Eu tinha um plano, porém, não sabia se seria certo. Utilizando mais duas pedras, congelei toda a água em torno da criatura, que ficou imóvel. Seus olhos me queriam, queriam a minha morte, queriam me definhar como fez com aquela menina.
Ainda na entrada da cidade, o enorme tubarão estava parado, encarando tudo e todos com seus pequenos olhos desproporcionais com o tamanho de seu corpo. Eu me dirigi a ele, totalmente tomado por um medo descomunal, que nunca havia habitado minha mente. Ele era meu plano, ele era a salvação de todos daquela cidade.
Ao me aproximar dele, estava pronto para adentrar em sua boca, para ele me matar. "Aproveite de seu passado para lutar com o futuro". Eu iria me matar, eu iria acabar com aquele sofrimento todo. "Aproveite de seu passado para lutar com o futuro". Enquanto ia me aproximando de meu final trágico, eu ouvia as pessoas me aplaudindo, outras sendo contra a minha decisão, contudo, apenas a salvação de Abigail era o meu objetivo. Aquela mulher havia me mudado de uma forma que eu não compreendia. Ela seria minha aliada, seria a minha amiga, ou melhor, ela já é a minha amiga.
Eu notei que o mundo parou, notei que tudo havia se desfeito ao meu redor, tudo havia desaparecido, como as areias em uma ampulheta, que carregam o tempo em seu correr. Eu podia ouvir o grito de Abigail atrás de mim, apenas não conseguia decifrar se era para eu parar ou se ela sofria com aquilo. Aquele seu amigo, Salazar, desapareceu. Ele seria perfeito para ajudá-la.
Por mais alguns segundos, eu me preparei mais um pouco – "Aproveite de seu passado para lutar com o futuro." – E pulei dentro da boca do tubarão, com os olhos fechados. Agora, era esperar que ele me matasse, me jogando para dentro de seu estômago. Aquilo acalmou o meu interior, que tinha uma fobia enorme de tubarões e, com certeza, o meu eu futuro, aquele monstro, não tinha mais. "Aproveite de seu passado para lutar com o futuro".
Eu adentrei o local e, diferente da umidade que eu esperava, era totalmente seco. A língua do tubarão, que era para ser mole, aparentava um chão liso, porém rígido. Abri os olhos, mas não vi nada. Uma luz surgiu nas paredes daquele lugar e eu estava em uma sala, toda decorada com candelabros para todos os lados, que coloriam as paredes brancas.
No centro da sala, sobre um enorme trono da madeira maciça e decorada com joias, havia um homem, muito semelhante a Oceano, com sua barba acinzentada e sua pele enrugada. Ele me encarava, com um olhar fixo e esverdeado, bem puxado ao musgo.
—Parece que você passou no teste final. – A voz grossa dele titubeou pelo local inteiro, de tal forma que ouvi pouco do que ele disse. Apenas entendi que havia passado naquele tal teste em que fui colocado.
Ele se levantou, se apoiando em uma bengala bem velha. Seu cheiro era forte, como se não tomasse banho há dias, talvez meses ou anos. Seu caminhar era lento e manco, seu corpo torto dificultava a mobilidade até mim, portanto, me aproximei dele.
—Garoto, você provou que tem coração. Provou que é meu arauto, o último dos Arautos. Seu poder é imenso e nem eu sei como eu o criei. Seu papel aqui é perturbar a paz, acabar com a bondade e fazer com que todos se curvem a você.
Eu não era aquilo que ele dizia, jamais faria alguém se curvar diante mim. Trato todos iguais, todos são iguais. Se ele fosse quem eu imaginava que fosse, com certeza, ele vai saber de cada palavra que transitava em minha mente.
—Sinto muito, mas terei que recusar. – E me virei, pronto para sair daquele lugar, pronto para pular para fora da boca do tubarão e lutar com o meu eu futuro, lutar contra tudo o que eu sou contra.
—Você não sabe como agir, você apenas imagina que seu plano dará certo. Eu sei o que está por vir. O Destino sabe o que está por vir.
Aquelas últimas palavras, aquelas últimas quinze palavras foram a última peça do quebra-cabeça. Eu me virei ao homem e comecei a reparar em seu rosto, com um risco branco que ia de cima da cabeça até a ponta do nariz. Ele era o meu fim, ele sou eu quando a idade me atingir por inteiro. Enquanto sou jovem para fazer o melhor, mais velho, sou aquele que trará o caos, e, com a morte em meus ombros, serei aquele que trará outro para ser o Novo Arauto.
Sem dizer mais nenhuma palavra, eu voltei meu rosto para a saída e pulei para fora. Assim que caí na areia da cidade, meus olhos se encheram de lágrimas. O tempo era cruel, ele anda de forma diferente em todos os lugares, ele muda em diferentes aspectos. A cidade, aquele lugar maravilhoso, estava destruída. As torres caíam, havia sereias e tritões no chão, todos mortos, todos esperando alguém que viesse salvá-los.
Eu, sem mais forças, caminhei por aquele cemitério naufragado. Eu não sabia como reagir, eu havia me tornado o meu pior pesadelo. Aquele era o final de tudo? Aquele era o meu final? Não, eu não iria me curvar. Corri para o palácio, ou melhor, o que havia sobrado dele. O salão do trono já não mais existia, tudo aquilo que eu havia contemplado desapareceu.
"Abigail, o que aconteceu com você? Para onde você foi?" – Aquilo ecoava por minha cabeça. Eu sofria, chorava como uma criança perdida. Eu estava perdido, eu estava sozinho. Assim que olhei ao redor daquela destruição, vi algo que brilhava intensamente perto de mim, abaixo de algumas rochas. Eu me aproximei e tentei retirar o que parecia uma pedra polida. Era uma esfera enevoada, a esfera da vidente, a bola de cristal de Madame Rosália. – "O que aconteceu com todos? Por que o meu plano deu errado?"
Assim que eu a coloquei diante de mim, ela brilhou intensamente. Ela me mostrou visões futuras, me mostrou intensas missões, tarefas e desafios. Meu medo não foi aquilo, meu medo foi da profecia que eu escutei. Minha mente estava abalada com o que acabara de ouvir.
Por fim, peguei a esfera e coloquei em minha bolsa. Havia sobrado algumas pedras que transformavam água em gelo. Comecei a subir, querendo ficar o mais perto possível da superfície e o mais longe possível daquele lugar. Não sei se estava pronto para emergir, porém, era necessário. Mesmo ficando poucas horas naquela cidade, eu já me sentia em casa e não queria abandonar aquele lugar. Contudo, ele estava destruído, eu teria de abandoná-lo.
Eu nadava com todas as minhas forças, até uma luz me cegar. Quando as cores voltaram para o mundo, eu estava diante de muitos livros. Novamente, eu estava na biblioteca, havia voltado ao local de origem, o local de onde saí para uma guerra em terra, guerra no mar e uma guerra nas profundezas.
Eu corri para a primeira porta que vi, pronto para abandonar aquele pesadelo, entretanto, saí em uma rua deserta, como se aquilo fosse uma casa. Sem muitas surpresas, aquela era a minha rua, as casas eram as mesmas. Aquilo fora um sonho? Não, eu não vivi à toa, eu vivi tudo aquilo porque sou forte. Além disso, a bolsa, com a esfera e as pedras, ainda pendia em meu braço.
Eu sentei na calçada, vendo um minúsculo movimento de carro. As palavras da profecia ecoavam em minha mente:
Tão longa fora a jornada
Para encerrar longe da declarada
Abra os olhos para o estopim celestial
Desça mais fundo para a arena de cristal
Creia na força e na fúria do passado
Para sobreviver ao futuro atrasado
Eu teria que me enfrentar mais uma vez, eu teria que acabar com o meu maior medo, eu teria que enfrentar, mais uma vez, o Destino. Agora, eu estava pronto, sabia do que ele é capaz, do que ele é. Aquilo não é o fim, esse não é o Desfecho da Tormenta, esse é apenas o Estopim da Morte.
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