Desafios do Destino I - Pesadelos e Tormentas

8 Insurreição das Profundezas: Sombras das Profundidades


Eu afundava, afundava e afundava cada vez mais e uma tonelada de água me empurrava para as profundezas de um oceano desconhecido e inóspito. Meu corpo, mais uma vez, dormia em uma hibernação pesada, sofredora de um passado carregado de tragédia. Pelo menos, ali seria o meu descanso, ali seria o momento de dizer adeus para essa miserável vida que eu tenho levado.

Contudo, será mesmo que eu estava vivendo? Ou seria apenas uma alucinação? Um canto perdido na minha imaginação? Isso não importava. O que realmente afetava nisso tudo, era que eu teria um momento só meu, sem nenhuma interrupção.

A luz diminuía a cada segundo que eu afundava para mais longe da superfície, e para mais perto das profundezas, que estavam de braços abertos para me receberem em um mar de escuridão e tristeza. Dali, eu não sairia vivo.

Eu olhava ao meu redor, esperando que algum tubarão surgisse, mas nada, eu estava sozinho, perdido em meus pensamentos, que flutuavam junto das correntes marinhas que me rondavam. Logo mais, enquanto eu me perdia em meus pensamentos, um cardume de peixes começou a passar perto de mim, totalmente curioso com meu corpo e com a minha presença naquele lugar.

Enquanto eles se esfregavam em minhas pernas dormentes, uma luz começou a brilhar fortemente, cuja intensidade era tanta que pude enxergar tudo ao meu redor com mais nitidez. Um enorme arrecife de corais decorava as paredes de um enorme precipício, por onde eu caía ainda mais.

De repente, uma forte corrente marítima me pegou e começou a me levar ainda mais para o fundo. O mais estranho disso era que eu respirava como se possuísse brânquias. Não sentia nenhum desconforto com a forte pressão daquele lugar.

Na verdade, eu me sentia leve, totalmente despreocupado com minha vida e esse sentimento era tão incomum, tão estranho, que isso parecia uma transformação em outra pessoa.

Conforme eu ia afundando, eu notava outros detalhes escondidos pelas trevas do oceano. Navios naufragados, tesouros perdidos e aproveitados pelos animais que ali rondavam. Nenhum deles sabia o valor daquilo. E para que? Eles se divertiriam da forma como queriam.

Da mesma forma que a corrente me puxou, ela parou. Fiquei estagnado no mesmo lugar por um bom tempo, sem conseguir me mover. Nadar era impossível, já que peixes brincavam comigo e eu permitia. Os olhares pareciam estrelas que acalmavam uma noite sem sono.

Aquela luz, que me guiou por um tempo, sumiu e tudo enegreceu. Mais uma vez, eu me via sem caminhos para seguir, sem trechos para avançar, sem rumo para ir.

Naquela brincadeira com os peixes, eu senti um que era maior, com mais escamas e maior tamanho. Ao me virar, não vi nada... Ah, verdade, estava tudo escuro. Eu o senti esfregando em meu braço, até sentir uma mão segurar o meu pulso e colocar a outra em minha boca, na tentativa de eu não gritar.

Eu comecei a brigar com a criatura, mas ela era mais forte, mais gelada, mais viva. Eu senti um peitoral definido, musculoso, gelado e férrico. Quando uma forte luz, que quase me cegou, alumiou a área inteira, pude enxergar um humanoide, metade homem, metade peixe. Parecia uma sereia, ou tritão para os homens.

Ele tinha um olhar azul, como uma pérola enorme e brilhante. Seus braços seguravam uma enorme lança amarela, quase um dourado, que na verdade era feita de ouro. Sua face era feroz e, ao mesmo tempo, era dócil. Uma pele lisa, sem escamas, que apenas se formavam da cintura para baixo.

—Quem és tu?

—Apenas um náufrago.

—Como que sobreviveste para adentrar em nosso território?

—Eu estou me perguntando isso desde o dia que quase fui morto em um festival.

O tritão pareceu não compreender a pergunta, muito menos achar graça das minhas respostas. Ele pegou de seu cinturão uma concha rosada em forma de chifre e assoprou com muita força. Eu não escutei nada, contudo, alguém escutou, já que eu ouvi algo se aproximando, com muita velocidade e muita voracidade.

Eu forçava a visão para enxergar, porém, não precisei muito. Em segundos, um enorme tubarão estava ao lado do tritão, que me encarava como se eu fosse um lanchinho.

Se eu me movesse, eu seria engolido vivo, mas isso não seria nada agradável. Porém, fiquei mais aliviado quando eu vi os dois rindo. Sim, o tubarão estava rindo, ou parecia isso. Não consegui me concentrar direito com aquela boca lotada de dentes afiados, que me dilacerariam em segundos.

—Garoto, você tem muita coragem de vir até aqui embaixo.

A voz dele era rouca, mas era agradável de ouvir. Ele tinha um sorriso branco, que destoava daquele olhar penetrante. Quando achei que não podia piorar, ou melhorar, dependendo de qual lado da história você se encontra, uma sereia se aproximou da gente.

Enquanto aquele tritão era camarada, já que não tentou me matar, ela era mais agressiva, mas compenetrada em seu trabalho. Primeiro, nenhum de nós percebeu sua chegada de tão veloz que era. Segundo, apenas notei a sua presença assim que senti o gelado metal de seu tridente em meu pescoço.

Agora eu posso dizer que ali seria o meu sepulcro.

—Salazar, quem permitiu a entrada do mundano aqui?

—Eu fazia esse mesmo questionamento ao intruso.

—Percebi. – O olhar da mulher... Ops, sereia, era mais azul que o dele, quase se aproximando de um roxo. – Eu notei que você e seu amiguinho riam com o delinquente.

—Biga, não é nada disso que você está pensando.

—Não ouse a me chamar de "Biga"! É Abigail para você! – A sereia me agarrou pelo braço e começou a me puxar para o mais fundo possível.

—O nome dela nem é bonito para ela querer pronunciar em alto e bom som. – Pude ouvir um resquício da voz do Salazar, que ecoou até os meus ouvidos, ou seja, também ecoou até os de Abigail.

—Quanto ciúme que estou sentindo em você. – Aquela voz era mais grossa, bem profunda, mas não sabia de quem era. Meus neurônios explodiram no instante desse meu pensamento: "Por favor, que aquela voz não veio do tubarão, pelo amor de Deus!".

Do nada, comecei a sentir toda a pressão do oceano caindo sobre mim e massacrando meu corpo. Uma dor infernal me possuiu e aquilo parecia que ia me deteriorar a cada instante. Quase perdendo todo o meu fôlego, sinto as mãos quentes de Abigail me tocando e dizendo, com uma voz potente:

—Seja bem-vindo a Cidade Perdida de Atlântida!

Aquilo foi uma surpresa enorme para mim. Eu estava em choque assim que ela me informou isso. Mesmo eu querendo acordar desse pesadelo... Na verdade, era um sonho, já que esse era o sonho de todo mundo. Bom, voltando ao meu relato, eu estava maravilhado com o que via.

Era uma cidade submersa, com construções em marfim, tudo reluzente sobre a luz de um "Sol", que estava acima de todos nós. Imensos prédios que iam até o mais alto infinito rodeavam a cidade por inteiro, além de diversas algas e corais que decoravam a imensa avenida. Seu rumo ia direto para um palácio imenso, todo azulado, como se fosse esculpido em uma enorme pedra de diamantes.

—Garoto, sem querer te apressar, mas o Ministro está te esperando.

Abigail pegou o meu braço e começou a me puxar para a entrada do castelo. Aquilo era maravilhoso e eu nem me importava se seria preso, morto ou exposto em público como uma obra de arte. Eu sequer me importei com os cidadãos me encarando. Aquilo era um mix de sereias, tritões, peixes, moreias, tubarões, arraias, e afins, todos que povoavam aquele habitat incrível.

Um imenso portão rochoso rodeava o palácio e ele se abriu assim que nos aproximamos. Muitas sereias, que compunham a possível guarda-real, me encaravam com o mesmo olhar fixo de Abigail. Diversas crianças passaram perto da gente, nadando em uma espécie de pega-pega. Sem dúvida, eram apenas miniaturas de sereias, mas um detalhe os diferenciava dos demais, seus olhos, sem exceção, eram rosas.

—O que define a coloração dos seus olhos?

—Nossa maturidade e responsabilidade. Todos nós nascemos com um olhar preto, simbolizando o nascimento. A partir dos três anos até atingirmos a nossa maturidade, a coloração é rosa.

—Você e Salazar possuem cores distintas.

—Quanto mais azuis são os olhos, mais infantil o adulto responsável é. Quanto mais arroxeado, significa um adulto prestativo e sério. Porém, se nossos olhos começam a desbotar e tornarem brancos, a nossa vida chega ao fim.

—Eu sou o primeiro terrestre a chegar aqui?

—Incrivelmente, você é o segundo, mas faz anos que o último chegou. Por causa das vibrações do local, qualquer mundano não envelhece. Vocês ficam presos em um ciclo eterno de sabedoria e tragédia, visto que não podem definhar e voltar para o local de origem.

Assim que nos aproximamos do salão principal, todo o chão desapareceu, permanecendo apenas uma fina passarela, que servia para seguirmos até um enorme trono vermelho, totalmente decorado com esmeraldas e safiras. Sentado nele, estava um velho, bem magro, com um cavanhaque em um tom branco arroxeado. Bem do seu lado, estava um homem vestido de preto, provavelmente o último homem que colocou os pés naquela cidade.

—Quem é o garoto?

—Milorde, esse aqui foi encontrado rondando a entrada da Grande Fossa Abissal.

—Permita-o que se apresente. – Fiquei paralisado por segundos, mas consegui me mover e falar.

—Milorde, sou...

—Ele é mais um traidor na nossa espécie. – Perto do trono havia um tritão, cujo rosto era coberto por uma máscara. – Milorde, não creio que acreditará em mais um dessa espécie que tanto fere os nossos oceanos.

—Calado, seu miserável! – Abigail se dirigiu a ele, inflando os peitos. O tritão, que era menor que ela, diminuiu de tamanho assim que curvou. – Ele terá as mesmas chances que o outro hóspede teve.

O homem, que olhava fixamente para o Milorde, ficando de costas para mim, se virou. Meu susto foi enorme e isso fez aquela sensação voltar. A lança penetrando, a explosão do navio, o empurrão para as profundezas, o pulo no bosque, as mortes, a corrida, tudo de maior pesadelo que me ocorreu, tudo retornou.

—Milorde, eu conheço este garoto. Cuidarei dele se o senhor permitir. – O Ministro fez que sim com o rosto e aquele homem pegou o meu braço e me levou dali. Abigail ainda brigava com aquele tritão, sem nem se importar comigo.

—O que você faz aqui?

—Ele quis que você viesse, então eu tenho que cuidar de você.

—Quem é Ele?

—Garoto, você sabe que essa pergunta não pode ser respondida, por enquanto.

—Por favor, quero saber quem está querendo a minha morte.

—Ele não quer a sua morte, Ele o quer vivo. Você será mais um dos seus Arautos.

—Pelo menos, podia falar o seu nome.

—Não tenho. – Aquilo me assustou. Como alguém não teria um nome? – Sua cara é sensata e até imagino qual seja a indagação, no entanto, toda a vez que alguém se torna um Arauto, perde o nome, perde a própria identidade, perde a vida.

—Você vendeu a sua vida?

—Se eu tivesse escolhido tudo isso, eu estaria morto, pois iria me matar.

Eu estava espantado. O mesmo homem que me enfrentou naquela batalha, o mesmo homem que naufragou o meu navio, a mesma pessoa que estava me enfrentando, estava com medo. Aquele guerreiro morria de medo dele. E, afinal, quem queria a minha presença naquele lugar?

Continua...