Depois que você partiu

5 Pode me chamar de Nathy


Notas iniciais
E um belo dia, repentinamente, ela aparece com um novo capítulo! Vou tentar trazer o próximo mais rápido, prometo...

— Acorda... Acorda – eu ouvia como se fosse uma voz distante que se aproximava – Vampira, por favor, acorda...

Abri os olhos e a figura à minha frente era apenas uma silhueta embaçada, minha vista foi focando aos poucos, até eu identificar quem era.

— Nathaly...? – perguntei confusa – O que está fazendo aqui? O que aconteceu?

— Você desmaiou. Mas isso parece meio óbvio. Venha – ela disse estendendo a mão para me levantar – Você precisa deitar na cama.

Ela se abaixou e me apoiou em seus ombros, passando um dos meus braços por eles e me ajudou a caminhar até a cama.

— Deita – ela disse me encarando.

— Não, eu... – levei minhas mãos à cabeça, tentando me concentrar em qualquer coisa.

— Sério, você precisa se deitar. Não adianta tentar se manter firme agora. Seu corpo precisa de descanso. A quanto tempo você não dorme? – seus olhos cor de mel continuavam a me encarar.

— Tenho tido insônia às vezes – menti enquanto me deitava na cama e a vi pegar uma mochila do chão, abrir o zíper com certa pressa e de lá retirar alguns instrumentos de uso médico – O que é isso?

— Dããããããã. É um kit de medicina – sem mais explicações ela preparou uma seringa com agulha e veio até mim com uma liga.

— O... o que você vai fazer?

— Seu corpo claramente está debilitado, por alguma coisa que, por o que eu vi, não é só uma virosezinha comum. Então eu vou tirar o seu sangue para analisar e aplicar um soro com vitaminas em você. Aí a gente vai descobrir o que está acontecendo com seu corpo e vamos poder tratar, mas até lá você vai comer direito para não piorar seu estado. E não se preocupe, ninguém viu eu pegando essas coisas na enfermaria – ela amarrou a liga no meu braço

— Então você, tecnicamente, roubou a enfermaria? – perguntei arqueando a sobrancelha, mesmo que aquilo não fosse exatamente o ponto que me intrigava naquela história toda.

— Bom, eu trabalho lá, então, tecnicamente, eu só peguei instrumentos necessários para cuidar de um paciente – falou enquanto pegava a agulha e retirava meu sangue.

Pela primeira vez em dias soltei um sorriso, quase verdadeiro.

Fiquei a observando enquanto ela aplicava o soro com vitaminas, depois ela foi até o banheiro e ensopou uma toalha com água quente e colocou em minha testa para amenizar a febre, depois pegou meu lençol e me cobriu.

— Certo, agora você precisa comer alguma coisa – ela foi até a mochila e, para a minha surpresa, retirou de lá uma dessas mesinhas para tomar café na cama. Depois de apoiar a mesinha de cada lado do meu corpo ela retirou da mochila uma tigela de sopa, uma colher, um copo, suco e uma garrafa pequena de água – Bon Apettit

Destampei a tigela e comecei tomar a sopa, ela me observava.

— Por que está fazendo isso? – perguntei tirando-a de seus (sei lá quais) pensamentos

— Sou uma estudante de medicina e você é alguém precisando de ajuda e tratamento. É quase questão de honra – ela abaixou a cabeça, deixando de me olhar – Bom, também tem o lance de que você é uma x-Men e uma inspiração.

— Inspiração? – perguntei meio surpresa. Eu, com certeza, conseguia imaginar que Ororo, Hank ou Jean tenham sido inspiração para alguém, mas eu?

— Claro, você... Você ajudou a me salvar, sabe? – arqueei a sobrancelha em questionamento – No lago Alkali. Todos nós havíamos conseguido sair, mas ia tudo inundar e não sabíamos onde estava o jato, escapar de lá sem ele seria impossível. Aí você pegou o jato, mesmo sem nunca ter pilotado qualquer coisa antes, e o levou até nós. Foi muito corajosa. Também achei muito corajoso da sua parte tomar a cura.

Quase me engasguei com a sopa que estava tomando.

— Tomar a cura? – perguntei verdadeiramente confusa, nunca imaginei que qualquer mutante me acharia corajosa por tomar a cura, alguns talvez não julgassem, mas admirar me parecia utópico.

— É, sabe... Eu queria não ser mutante desde que descobri que sou, quando a cura foi anunciada tive muita vontade de tomar, resolveria muita coisa, minha vida toda para falar a verdade. Mas não tive coragem, fiquei pensando no que os outros iam falar, tive medo de ser julgada covarde. Você não. Você quis e foi.

— É... tomei porque achei que isso resolveria toda a minha vida. Mas, agora, vejo que as coisas estão como antes: não sou uma humana comum e não posso voltar pra casa e não consigo me relacionar com outros mutantes. A diferença é que antes eles se afastavam de mim por causa da mutação e agora porque me consideram covarde. Alguns até andam dizendo que aqui não é mais o meu lugar – Nathaly abriu a boca, pronta para me corrigir, mas eu a interrompo – Já ouvi comentarem pelos corredores – ela deixa um som sair, como se fosse falar algo, mas se cala – Às vezes até acho que eles estão certos. – Sinto o clima se tornar pesado ao nosso redor, ela abaixa a cabeça, mas eu não quero deixa-la desconfortável, ela havia sido amável comigo – E então, como você veio parar aqui?

— Ah, então... Você surtou, eu vi que estava mal, tentei ajudar mas não deu muito certo, aí você saiu correndo e eu achei que seria melhor te deixar sozinha, mas aí eu pensei “cara, ela parecia muito mal”, aí eu pensei que devia ser muito difícil lidar com tudo o que aconteceu e lembrei que não te via no refeitório a dias e que você devia estar com fome e decidi trazer comida, aí eu pensei que você devia estar muito fraca e debilitada depois de tanto tempo sem comer e decidi trazer uns soros, mas pensei que uns exames seriam necessários então trouxe a agulha também e...

— No Instituto, Nathaly – a interrompi um tanto satisfeita ao perceber que ela estava se sentindo à vontade o suficiente para voltar a tagarelar.

— Ah! Meus pais me trouxeram pra cá. Acharam que seria melhor pra mim viver em um lugar cheio de... Pessoas como eu...

Encarei-a por uns dois segundos, sentindo que, em sua mente, ela mesma não acreditava nisto.

— Você não acredita nisso – disse sem pensar direito, sentindo um breve, mas forte, contentamento ao ver que aquelas palavras a atingiram em cheio. Eliminei aquele pensamento imediatamente – Me desculpe, eu...

— Não. Tudo bem. Você está certa. Eu é que insisto em ignorar que o motivo deles me mandarem pra cá foi que eles queriam se livrar da aberração que manchava a suas vidinhas e família perfeitas. “Você pode acabar confundindo sua irmãzinha”, eles disseram. Quer dizer: oi? Isso nem faz sentido. Mas não precisa fazer, não pra eles. Tudo que querem é a droga de uma foto de família modelo pra colocar na droga de um porta-retratos caro e mostrar para as visitas. Se alguém descobrisse, a reputação da família estaria arruinada, então eles decidiram me esconder do mundo.

— Me desculpe. Eu não queria trazer isso à tona.

— Tudo bem. Foi até melhor assim. Prefiro ficar aqui, com “pessoas como eu” do que trancada naquela casa desnecessariamente grande com os olhares deles me julgando o tempo todo. Aqui posso ser eu mesma e me orgulhar disso. Foi difícil no começo, mas agora sei que foi a melhor coisa que me aconteceu – olhei para ela e sorri contidamente em solidariedade – Agora pare de enrolar e tome essa sopa. Já aviso que não vou sair daqui até essa tigela estar vazia.

Deixei uma risada leve escapar e voltei a tomar a sopa. Quando acabei ela recolheu as coisas e me deu um remédio pra me ajudar a dormir e me recomendou que eu tomasse muita água.

— Obrigada, Nathaly! – disse quando ela se esgueirava pela porta para sair do quarto.

— É um prazer... E pode me chamar de Nathy, se quiser...

Notas finais
Bom, galera... Esse capítulo foi mais pra trazer a Nathy (que, como vira, é meio maluquinha) pra vocês...