Depois que você partiu
6 Consequências da Cura
Notas iniciais
POV. VAMPIRA
— ACORDA, DORMINHOCAAAAAA – mau humorada, virei as costas para Nathaly, sem me levantar. Eu detestava ser acordada – Ah, vamos lá... Ou não quer saber qual foi o resultado dos exames?
Levantei repentinamente, atraída por as palavras dela, estava esperando a dias aquelas respostas.
— Ah, agora você levanta, não é? – disse ela com um sorrisinho vitorioso nos lábios.
— Nathy, não enrola. Fala logo: o que você descobriu?
— Aiiiii – ela murmurou abanando com a mão o ar da frente de seu nariz – Eu, hein! O que você comeu no meio da madrugada, restos de animal? Vai escovar os dentes!
— Nathy, é sério...
— Eu estou falando sério. Vai logo – ela falou me empurrando em direção ao banheiro – As respostas não vão sair correndo.
Peguei minha escova e a pasta. Depois que fechei o armarinho do banheiro me olhei no espelho em sua porta. Eu estava levemente abatida.
A noite passada foi umas das poucas em que eu havia dormido tranquilamente. Ultimamente, apesar de conseguir reprimir relativamente as lembranças, eu sentia dores muito fortes, geralmente no abdômen e na cabeça. Elas surgiam sem avisos e sem motivos aparentes.
Os resultados dos exames que Nathaly fez com meu sangue deveriam ter saído logo, mas não foi assim. Depois de duas semanas fazendo e refazendo os exames, ela me revelou que estava tendo dificuldades para identificar o que estava me causando aquelas dores. Fiquei desesperada. Pensei que poderia ser umas das mentes dentro de mim, como se estivesse tomando de mim mesma o meu controle. Tive medo de estar sendo devorada por outra parte em mim, de estar me perdendo dentro do meu próprio eu, de logo me tornar outra pessoa. Mas Nathy ficou ao meu lado. Me deu forças, alegrou meus dias, me fez sorrir de coisas bobas mesmo nos dias mais sombrios. Ela era minha dose de leveza no meio de toda a pressão que me esmagava. Então, apesar de contrariada, achei justo ela vir me acordar aos gritos em plena manhã de domingo e praticamente me obrigar a escovar os dentes.
— Agora fala – disse a ela, que estava folgadamente deitada em minha cama, quando saí do banheiro.
— Senta aí – ela falou e esperou até que eu sentasse à sua frente – Então, seus exames tiveram o resultado que eu imaginei: é a cura que está causando tudo isso. Mas o fato é que ela está extremamente impregnada no seu organismo, por isso eu não consegui identificar com métodos tradicionais. Isso é um veneno, praticamente se funde com nosso DNA e fica muito difícil de separar e assim identificar no exame.
— Mas então, porque eu não estou com os poderes desativados? Porque eles estão diferentes?
— Bom, eu não sei exatamente explicar, mas a cura também tem culpa nisso. A real é que não existe cura para nossas mutações, Vampira. Porque não é uma doença, é uma condição natural do nosso organismo. Nascemos assim, nosso organismo nasceu para funcionar assim. Pesquisei outros casos de mutantes que tomaram a cura e em quase todos a mutação está retornando, porque o corpo reage e tenta se defender e neutralizar a cura. O único motivo para esse troço funcionar por um tempo é que ele ataca de maneira muito violenta o gene X e o corpo não consegue reagir imediatamente, mas depois consegue, mas aí a substância já está impregnada de mais. Por isso as dores: seu corpo está expulsando de você algo que está fazendo mal pra ele, mas com o qual têm uma ligação muito forte e dói pra romper.
“Quanto a mudança nos poderes, essa seria uma evolução natural deles, mas você provavelmente não iria alcança-la, porque acontece de maneira muuuuuito lenta ou precisa de muuuuuuita energia para acontecer. Mas seu organismo está usando muita energia para tentar expulsar a cura, energia o suficiente para atingir essa evolução. Na verdade, se a cura não estivesse em seu corpo, você acabaria sugando todos ao seu redor, mas ela está reprimindo e suprimindo o gene X, mas quando você é submetida a um estímulo, geralmente muita pressão, essa energia é canalizada e rompe ligações com a cura, não o suficiente pra eliminá-la, mas liberta o suficiente o gene X pra usar seu potencial.”
Passei as mãos pela cabeça.
— Quando o efeito da cura vai passar?
— Não dá pra dizer ao certo. Pode demorar muito, pode demorar pouco. Pode até nem demorar. É difícil dizer. Organismos diferentes reagem de maneiras diferentes. Não existe um tempo exato e ainda é muito cedo pra estimar um.
— Nathy... o que eu vou fazer quando o efeito passar? O que eu vou fazer? Eu vou matar todo mundo ao meu redor.
— Calma! Até lá encontraremos um jeito – ela falou e me abraçou, mas a empurrei depois de alguns segundos.
— Ninguém está seguro perto de mim, Nathy. Você não está segura perto de mim. Isso pode simplesmente explodir a qualquer momento. Eu não quero te machucar. Você vai ficar melhor longe de mim.
— Provavelmente ainda vai levar um tempo. Até lá...
— Não, Nathy! “Lá” pode ser qualquer momento, mesmo que daqui a um tempo. Eu não quero que você esteja por perto quando isso acontecer.
— Ah, não, né?! Nem pensar – ela disse recuperando seu tom histérico e animado de ser, segurou a minha mão – Vampira, eu não vou sair de perto de você. Não importa o que você me diga. Vai ter que me aturar. Nós vamos encontrar uma solução pra isso juntas.
Abracei ela e comecei a chorar, Nathaly ficou fazendo carinho em meus cabelos.
— Nathy... eu não sei se vou conseguir viver com essa insegurança o tempo todo, eu não quero.
De repente ela parou com os carinhos, ficou como uma estátua.
— Tem um jeito, mas...– Ela hesitou, olhei-a, pedindo que continuasse – Eu não sei... Não é nada agradável.
— Nathy, por favor. Eu preciso disso, seja lá o que for.
— Eh... eu posso sintetizar a substância da cura. Acho que se você tomar, sei lá, uma vez por semana, ela pode manter a mutação controlada. Ainda vai explodir quando você for exposta a muito stress ou algo assim, mas vai conseguir controlar enquanto você estiver razoavelmente calma.
— É isso! – falei animada – Essa é a solução. Assim eu não vou machucar as pessoas. Porque isso não seria agradável?
— Vampira... O efeito que a cura está tendo em você, as dores... Injetar mais cura vai fazer isso continuar e provavelmente se intensificar. Não vai ser nada fácil. Eu não tenho analgésicos que solucionam isso. É tudo muito novo.
Fiquei um tempo calada, apenas a encarando, buscando socorro em seus olhos. Mas não havia, não dessa vez. Ela estava tão perdida quanto eu.
— Tudo bem. Esse é o único jeito – disse e a encarei por uns segundos – E você vai estar aqui, não é?
— É claro que vou – ela me abraçou – Vai ficar tudo bem... Bom – ela disse e desvencilhou de mim depois de um tempo, recuperando seu tom empolgado de falar – Hora do café.
— Não vi você entrar com bolsa – contestei.
— É porque hoje não tem café na cama, ma dama. Vamos descer e comer na cantina.
— Ah, não, Nathy!
— Ah, sim, Vampira! Vamos lá... Você está a um século enfurnada nessa caverna – ela fez um gesto, indicando o quarto – Não sai pra praticamente nada. Tá na hora de deixar a caverna um pouco pra trás, sair... Tem um mundo lá fora, sabia? Não pode se esconder aqui pra sempre.
— Ahhhnnn – murmurei insatisfeita, mas ela já estava me puxando para fora do quarto – Ok, mas se isso for um desastre, lembre-se que a ideia foi sua.
***
Andamos pelo instituto depois do café. Só então eu percebi o quanto estava com saudades da luz e do calor do sol batendo em minha pele.
— Bom... – disse me levantando da grama em que estávamos sentadas – Acho que chega de socialização com o mundo por hoje.
— Ahhh... Vamos ficar mais um pouquinho – Nathaly reclamou.
— Nem pensar, Nathy! Daqui a pouco os alunos começam a sair das salas de aula para o recreio. Eu definitivamente não quero estar no meio de um bando de adolescentes. Eu tenho que me manter calma, lembra? Além do mais, você já me fez tomar café na cantina dos alunos, já basta de socialização.
— Não conta como socialização se a cantina estava vazia – ela retrucou.
— Conta sim! Eu estava socializando com a presença passada deles – ela revirou os olhos.
— Tudo bem – disse, dando-se por vencida – Foi um bom primeiro passo, de qualquer forma. Vamos um de cada vez.
Nos levantamos e voltamos a mansão. Quando chegamos à base da escadaria que leva ao segundo andar vimos um pequeno grupo de alunos, pouco mais jovens do que nós, estavam provavelmente matando aula. Eu queria subir a escadaria correndo, percebi que tinha desenvolvido um certo medo de estar próxima às pessoas. Mas Nathaly segurou minha mão pra me acalmar.
— Ora, ora... – disse um dos garotos do grupo. Ele tinha os cabelos em um ruivo quase loiro e uma expressão travessa, quase cruel – Olha quem resolveu sair do covil.
— Gustavo pare! – disse uma menina morena do grupo, mas ele não parou.
— Pare? Pelo amor... Então essa traidora fica andando por aí e não quer que a gente fale nada? Eu, particularmente, não quero ter que dar de cara com ela por aí. Na boa, garota, o que ainda está fazendo aqui? Esse não é mais seu lugar.
As palavras do garoto me deixaram nervosa, senti uma corrente fria subindo e descendo por todo meu corpo, tremia internamente. Comecei a perder o controle conforme ele ia falando, minha pele formigando, assim como minha mente.
— Gustavo, já chega! – Nathaly interviu.
— Chega, nada. Então, porque ainda está aqui? Você não queria ser uma mutante, não é? Então haja como se não fosse uma e vá embora.
— Gustavo...! – Nathaly continuou tentando acalmar os ânimos enquanto todos olhavam atônitos.
— Pare – eu disse, tentando me controlar, a raiva crescendo dentro de mim. Quem exatamente ele achava que era?
— Você nos traiu. Negou sua condição natural. Você é uma aberração.
— Pare – repeti, me controlando ao máximo, já no meu limite. As vozes, a raiva... Eu, sinceramente, só queria suga-lo até ele perder os sentidos. Eu queria que ele sentisse dor pra pagar a agonia que eu estava sentindo – Você não sabe do que está falando. Não sabe nada.
— Sabe, sua família teve razão em não te querer por perto. Eu concordo com eles. Você era uma aberração pra eles e agora é uma aberração pra nós.
— Nathaly, tire todos daqui. – Eu disse, já furiosa.
— Vampira, calma! Vamos sub...
— Isso. Foge. Foge como fugiu da luta por nossa causa. Como fugiu de você mesma ao tomar a cura. Mas vê se foge dessa casa também, já que é só isso que você sabe fazer.
— EU FALEI PRA PARAR – Atraí todo o metal que havia no lugar e usei-o pra jogar todos longe, deixando apenas ele diante de mim – Eu. – Comecei a suga-lo – Falei. – Sentia a força dele adentrando meu corpo, junto com sua mente – Pra. – sentia a dor da vida indo embora na mente dele dentro da minha – PARAR. – Soltei-o e ele desabou no chão.
Fiquei encarando a cena. As pessoas que joguei longe me olhavam meio assustados. A raiva foi diminuindo gradativamente, me deixando tonta. Quando quase toda ela já havia passado, a razão começou a retornar à minha mente. Céus, o que eu havia feito? Eu quase o matei. E eu fiz de propósito.
Agora o olhar assustado do grupo ao meu redor parecia me julgar. A raiva dentro de mim se convertera em medo, pavor. E ia me consumindo, me fazendo sentir cada vez menor e pior. Virei as costas e subi as escadas correndo.
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