Depois que você partiu
9 Pele Azul
Notas iniciais
Saí do lado do balcão e fui limpar a mesa que um cliente tinha acabado de desocupar, pra minha sorte, ele tinha deixado uma gorjeta. Olhei para a porta e ele estava lá, observando minha reação, piscou com um olho, deu um sorriso indecente e saiu. Apenas revirei os olhos, quando sabia que ele não poderia mais me ver, e terminei meu trabalho.
Meus últimos dias tinham sido basicamente assim: o bar abrias às 6h, mas, em geral, a clientela só chegava mais tarde, então eu dava uma limpada nesse horário. Trabalhava até às 12h e voltava às 14h, depois disso, ia até às 0h, quando eu largava o trampo. Em geral, eu estava indo bem quanto ao controle, só havia tido que tomar uma das quatro doses de cura que havia levado, na ocasião, um cliente tinha forçado a barra.
O barzinho de beira de estrada no sul do Canadá em que eu havia trabalhado os últimos meses mais parecia um galpão de madeira, com péssima iluminação. Havia um balcão com amostras das bebidas disponíveis e onde ficava o caixa, responsabilidade unicamente do dono do estabelecimento, as mesas mais pareciam bancos altos e compridos de madeira e, no centro do lugar havia a gaiola quadrada na qual eu o tinha visto pela primeira vez, anos atrás. As lutas ainda aconteciam todas as noites.
Eu gostava de dizer pra mim mesma que não tinha ido até lá por causa da lembrança dele que aquele lugar me trazia e sim porque ali tinha sido onde tudo começou e eu tinha que tentar recomeçar e refazer as coisas.
— Hey, garota.
Vou em direção ao homem que me chamou em sua mesa, levando o cardápio pra ele. Além de bebidas, o bar também serve algumas opções de comida, mas elas costumam ser requentadas até criarem mofo, os cliente não costumam estar interessados em comer salgadinhos quando param aqui.
— O que tem pra comer nessa espelunca?
— Todas as opções e preços estão no cardápio – digo com o sorriso mais encantador que consigo, resistindo bravamente à necessidade quase vital de revirar os olhos, “você tem que ser receptiva com os clientes”, o dono havia me dito – Vai querer decidir agora?
Ele olha o cardápio como se estivesse procurando algo, me preparo para não vomitar com a brincadeirinha ridícula que está por vir.
— Hmm, preços bons. Mas não tem nada que me interesse tanto – ele passa o braço nojento por minha cintura e me puxa – Você fica quanto?
— Eu – digo pausadamente retirando seu braço de mim – Não faço parte das opções – ofereço-lhe um olhar sério, quase furioso.
— Mas, e se eu quiser adicionar?
— Então pode espera mais um pouco que mais ou menos 18h começam a chegar algumas possíveis “opções” para você – digo, ainda mantendo o tom de atendente.
— E se eu quiser você? – Ele dá um sorriso de lado e arqueia uma das sobrancelhas, aquele gesto me lembra um certo alguém.
— Como eu disse, eu não faço parte das opções – digo, deixando o cardápio em cima de sua mesa – Quando decidir, me chame.
— Espera: vou querer fritas e três churrascos.
— Ótima escolha, é pra já – Sorrio e me viro.
É, até que ele é bonitinho e, diante dos outros que eu já tive que engolir, não foi tão babaca, mas ainda assim foi. Ninguém mandou ele já chegar colocando a mão.
Vejo que chegou uma figura nova no bar: uma silhueta pequena demais para ser de um homem, coberta por uma capa negra, olhando fixamente pra mesa. Tenho uma vaga lembrança de mim mesma a anos atrás e resolvo ir até lá.
— Deseja alguma coisa? – disse, tocando no ombro da mulher que se virou pra mim.
Ela tinha os cabelos negros e curtos, a pele clara e os olhos azuis. Me encarou por alguns segundos até finalmente falar algo.
— Você é, definitivamente uma das últimas pessoas que eu esperava encontrar aqui – sua voz era rouca e denunciava uma leve fraqueza.
— Eu acho que você está enganada. Acho que não nos conhecemos – digo, olhando confusa para a mulher, procurando algum traço familiar.
— É claro que não se lembra de mim – Ela abriu um sorriso sinistro que me lembrou um dia no X-jato depois de uma confusão na casa de Bob. “Adoramos o seu novo penteado, querida!”, Magneto dissera e eu vi aquele sorriso em resposta a minha fúria – Da última vez que nos vimos, eu estava azul.
— Mística...?! – Balbuliquei – O quê...? O que aconteceu com você?
— Acha que eu fico melhor de azul? – ela riu fraco – Mas não é o que aconteceu, é o que fizeram comigo. Aqueles desgraçados me acertaram com a cura. Depois disso, Magneto me largou e eu o traí. Traí toda a nossa espécie.
— Está tudo bem? – perguntei observando melhor seu semblante que parecia muito abatido.
— Não. Eu estou presa nesse maldito corpo e a maldita cura está me matando aos poucos. Mas eu mereço isso. Eu nos traí. Me deixei levar pelo ódio e esqueci a busca do bem maior: a liberdade mutante.
— Você parece muito fraca. Quer comer alguma coisa? É por minha conta.
Mística balançou a cabeça em confirmação e eu fui pegar algo pra ela. O que o bar vendia de comida era basicamente carne, farofa e alguns salgados com validade questionável, mas daria pro gasto. Eu sentia uma estranha necessidade de ajuda-la, apesar do incidente da Estátua da Liberdade. Ela estava buscando um “bem maior”, não importava o preço dele. Às vezes eu chego a concordar com ela e Magneto, quando vejo o que nossa espécie sofre: a cura, vendida como milagre e depois transformada em arma era só mais uma expressão de como eles nos odiavam e queriam acabar conosco, de como, para eles, nós éramos uma praga que deveria ser exterminada, como ratos, cupins ou gafanhotos.
Vi a mulher de cabelos negros comer e permanecer na mesa depois de terminar. Já estava anoitecendo, eram 18:48, as lutas na gaiola começariam logo e se estenderiam enquanto houvessem competidores. Me perguntei se ela passaria a noite ali, eu tinha um quartinho nos fundos do bar, caso ela quisesse. Balancei a cabeça e me concentrei no meu trabalho.
As lutas começaram quase 20h, eu estava distraída trabalhando quando ouvi uma confusão perto da gaiola.
“Pega ladrão, pega ladrão”
Me virei e vi uma capa preta flutuando por cima de um corpo que corria, seguida de uma pequena multidão de homens grandes e furiosos. Ela não foi muito longe, na correria tropeçou e caiu. Dois homens se aproximaram dela.
— Vamos ver a cara dessa ladrazinha – disse um dos homens arrancando das mãos dela uma carteira marrom surrada enquanto o outro tirava dela a capa, revelando algumas manchas azuis escamosas em suas mãos e pescoço, onde a blusa de mangas longas não cobria – Ei, olhem isso aqui: ela é uma mutante!
Fudeu.
Larguei o pano com o qual limpava algumas mesas e corri em direção à roda que se formara.
— Vamos mostrar como tratamos mutantezinhos que, além de tudo, ainda são ladrões...
Sem pensar direito no que fazia, abri caminho em meio aos curiosos amontoados e corri em direção ao centro, onde Mística se encontrava segurada por dois homens. A cena lembrava os julgamentos de bruxas na Idade Média: não haveria julgamento, nem chance pra defesa ou ponderações, ela simplesmente seria condenada de acordo com a vontade deles, apenas por ser mutante. Eu já havia visto outras situações de roubo naquele lugar, a punição costumava ser basicamente um susto, bem violento e traumatizante, mas a pessoa podia continuar viva. Mas ela não era uma pessoa comum, era uma pessoa azul, o que significava que ela carregava um gene que, na concepção deles, a tornava inferior, perigosa e menos merecedora de vida. E, por mais que eu não gostasse tanto dela e que ela tenha tentado me matar anos atrás, eu não poderia deixar que alguém fosse atacado e morto só por ser quem é, muito menos sabendo que era alguém como eu.
— Soltem ela – gritei para os homens, a cena, vista de fora, deveria ser cômica, considerando o meu tamanho em relação ao deles.
— Escuta aqui, garçonetezinha: eu não sei o que deu em você, mas vou te dar uma chance de sair fora dessa, então dá meia volta e volta a limpar as mesas.
— Só vão tocar um dedo nela passando por cima de mim – minhas palavras fizeram sair um risinho debochado dele.
— Vou te dar uma última chance: Sai daqui agora. Acredite, você não vai querer se meter comigo.
— Não, é você que não vai querer se meter comigo.
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