Depois que você partiu
4 É inútil tentar fugir
Notas iniciais
POV. VAMPIRA:
Passei o dia inteiro enfurnada em meu quarto, sem vontade mesmo de comer e sem conseguir dormir, pois todas as vezes que fechava os olhos as imagens voltavam a minha mente, desconexas e perturbadoras.
Eu estava melancólica e exausta, olhei uma foto que estava em um porta retrato em cima da minha pequena escrivaninha, fora tirada antes de tudo começar a desabar, mesmo antes de John ir embora, antes dela partir, lá estavam todos os X-men e aprendizes: Professor, Ororo, Jean, Scott, Bobby, eu, Kitty, John, Peter, Hank, Kurt, até mesmo Logan concordara em posar conosco. A foto foi tirada antes de um treinamento, todos sorriam, contentes, entusiasmados. Nós éramos os X-mens, heróis prontos para lutar por os mutantes e humanos, prontos para proteger a todos e alcançar a paz, a boa convivência entre humanos e mutantes. O futuro era promissor, tínhamos esperança, o Professor nos inspirava isso, tínhamos certeza que podíamos mudar o mundo.
Atrás de várias quinquilharias que eu apoiava na escrivaninha estava um quadro de eu e meus pais, antes de eu descobrir minha mutação, e outro com uma foto da minha formatura do Primário, em ambas todos sorriam, todos estavam entusiasmados, eu estava rodeada por pessoas que me amavam e que eu amava também, eu tinha tanta coisa, tanta esperança, tanta fé no mundo e em mim mesma.
Agora, olhando para os escombros que restavam, de nós e em mim, eu me perguntava o que éramos agora. O que havia restado daqueles heróis com sede de justiça e paz? O que havia restado da minha vida, da Anna Marie cheia de alegria que eu era? Eu perdi tudo que eu tinha.
***
Ao final do dia me obriguei a sair do meu quarto, ir à cozinha tentar comer alguma coisa e garantir que Ororo não sentiria a minha falta nem desconfiaria de nada. Olhei a hora: 21:42, tarde de mais para ainda haver alguém no refeitório, o que seria ótimo, já que eu não queria ter que conversar com ninguém, nem ter que fingir que está tudo bem.
Consegui comer muito pouco e na volta encontrei Ororo nos corredores. A rainha do tempo também me parecia abatida e, mesmo que sustentasse o porte como podia, eu conseguia ver em seus olhos que ela desabava.
— Vampira, querida! – ela disse me parando – Como você está, meu bem? Passou o dia inteiro no quarto, não a vi sair para comer e você me parece tão abatida.
— Eu estou bem... Eu só... Só ainda estou um pouco abalada com o que aconteceu e Logan, ele... Ele acabou de ir embora, sabe? Foi como perder mais alguém, e já perdemos tantas pessoas que amamos...
Vi o rosto de Tempestade mudar um pouco com a ultima frase, pude até sentir uma densidade a mais no ar, que esfriou um pouco, o Professor foi para ela como um pai, Jean era sua melhor amiga há tempos, Scott era um dos seus amigos mais antigos, soube que ela teve um flerte com Kurt (que havia decidido ir embora) e Logan era um grande amigo e um apoio para ela, falar daquilo mexia com ela.
— É verdade, querida – ela disse, com sua leveza e calma tradicionais, colocando a mão direita em meu ombro – Mas, sabe... Bob me contou que... me contou da conversa de vocês e, bom, sei que você deve estar um tanto abalada com isso e com tudo e estou aqui para o que precisar, mas não pode deixar de se alimentar, querida.
— Ahm... eu vou ficar bem, sério. – falei, tentando ser convincente – Eu... Eu só preciso de tempo e não quis sair hoje nos horários das refeições porque queria evitar... pessoas, sabe?
— Ok, você pode ter o tempo que precisar e não precisa transitar em meio a multidões se não quiser, mas, apenas se cuide, está bem? E não hesite em pedir a minha ajuda, se precisar.
— Está bem.
Ela seguiu na direção contraria a minha. Segui pelo o corredor vazio até meu quarto, eram 22:26 e a essa hora os residentes da escola estavam em barezinhos ou em seus quartos, dificilmente dormindo.
Eu poderia contar a Ororo o que estava acontecendo comigo, mas eu não entendia aquilo e sabia que ela também não entenderia, seria apenas levar mais um problema sem solução a, já atarefada e atormentada, Rainha do tempo, sem falar que ela me faria várias perguntas para as quais eu não teria a resposta e eu teria de falar como e quando surgiu aquilo e teria que contar uma história que eu não exatamente queria que ela soubesse.
Quando cheguei a porta do meu quarto uma leve pontada na cabeça fez eu me encostar na parede e depois entrar e me jogar na cama onde fiquei por muito acordada sem pensar em nada específico até ser vencida por o sono.
POV. LOGAN:
Já faziam alguns dias que eu havia saído do Instituto, agora estava em um bar de beira de estrada onde ficaria pouco tempo, eu não precisava de um lugar fixo para ficar, eu não queria que nada permanecesse.
Bebo de uma vez só um resto generoso de cerveja que restava na grande caneca que havia a minha frente e me levanto, indo em direção ao ringue, as lutas de gaiola têm me fornecido um bom dinheiro.
Olho para o meu adversário, é um tanto maior do que eu, mas já estou acostumado com isso. Espero ele vir para cima de mim e ele me acerta dois fortes murros, um de cada lado do rosto, o que me faz recuar um pouco e baixar o rosto, o público vibra. Levanto a cabeça, olho para ele que ri, irônico, ataco com um soco na cara, que o faz sangrar e se distrair, então lhe dou um chute no saco e outro no estômago, ele recua caindo no chão, a vibração da torcida é ainda maior. Paro um pouco, esperando-o se recuperar e então parece que tudo ao meu redor entrou em câmera lenta e o ambiente começa a ter um tom avermelhado.
— Logan – a voz doce e calma tão bem conhecida me chama e me faz olhar em sua direção, lá está ela, atrás do meu adversário, seu cabelo ruivo se espalhando por o ar como se houvesse uma leve ventania ao seu redor – Vamos lá, Logan, termine o que começou. Mate ele – a ultima frase foi dita de maneira pausada, ela me encarava, a íris dos seus olhos vermelha – É tão fácil – ela abre um pequeno sorriso, debochado e sinistro – Basta tirar as garras pra fora e enfiar com tudo. Vamos lá, Logan: mate ele. Você quer isso, MATE ELE – seu rosto começava a ter um aspecto de fogo, como no dia em que a matei – ANDE LOGO, LOGAN. VOCÊ É ASSIM E NÃO PODE FUGIR DISSO.
Sou trazido à tona de volta a realidade com o corpo do meu adversário se lançando contra o meu e me jogando no chão, ele me acerta um murro e me desnorteia um pouco. Seguro sua outra mão que vinha para me acertar de novo e dou um chute em seu estômago, depois um soco em seu rosto, conseguindo me livrar dele e me levantar, lhe acertando outro chute no saco e subindo em cima dele e lhe esmurrando até o juiz me dar sinal para parar. Luta ganha.
Depois de me embebedar, tentando esquecer aquela alucinação (e tentando me convencer que fora apenas uma alucinação) acabo decidindo que preciso de mais que bebida para me acalmar, sexo seria fácil de arranjar, especialmente para um homem do meu porte que havia acabado de ganhar uma luta de gaiola.
[...]
Deitado em uma pequena cama de um quartinho que aluguei temporariamente nos fundos do bar que lutei repouso com a mulher com a qual, há pouco, estava transando. Acabei dormindo de costas para ela, que passava seu braço por cima da minha cintura.
— Logan – ouço a voz me chamar atrás de mim, mais que diabos, ela nem sabe meu nome...
Virei-me e tomei um leve susto ao ver que quem estava lá era Jean, numa camisola branca que a deixava aérea, com uma aura quase angelical.
— Jean... – Murmuro
— Por que está tentando fugir? Acha mesmo que isso vai te preencher? Te fazer esquecer que fugiu como um covarde?
— Covarde? Eu não...
— Você não pode fugir de quem é, Logan. Vamos lá – disse, sussurrando no meu ouvido, de maneira quase sensual – me mate.
— Não, eu não...
— Me mate logo Logan! – ela disse, sorrindo de maneira macabra logo em seguida – Você gosta disso. Gosta do sangue escorrendo em suas garras, sei que gosta.
Sinto minhas garras saírem, tento recolher, mas não consigo, então meu braço começa a mover-se em direção a ela, faço tentativas inúteis de impedi-lo, não consigo parar. Logo sinto o choque das minhas garras com seu peito e elas vão adentrando, ela solta um gemido de dor.
Vejo Jean sorrir de canto de boca, de maneira sinistra, e seu rosto some da minha frente. No lugar dela vejo a mulher que estava na cama comigo, minhas garras estavam cravadas no seu peito e seu rosto tinha uma expressão de dor.
POV. VAMPIRA:
Acordei atordoada, logo percebi que estava ensopada de suor. Olho para as minhas mãos e elas estão lá, recolho as garras que, felizmente não estão sujas de sangue, o sonho fora tão real que se confundiu com a realidade.
Mais um lençol rasgado. Ótimo.
Sei que não conseguirei dormir de novo, afinal as últimas duas semanas foram assim, então me levantei e fui tomar mais uma vez um mecânico banho. Quando saio do banheiro, olho que horas são: 7:34, a essa hora a cantina ainda está cheia.
Nos últimos dias tenho usado a desculpa de “precisar de tempo para superar as perdas” para justificar à Ororo o fato de não sair do meu quarto em qualquer horário que possa haver pessoas de mais aonde quer que seja. Eu não tinha vontade de fazer nada, nem mesmo me levantar ou comer, ficava apenas deitada em minha cama sentindo todas aquelas mentes dentro de mim e dores que eu não conseguia explicar. Eu havia aprendido que se me concentrasse bastante conseguia calá-las, mas estar sempre concentrada era difícil e cansativo.
Olhei a hora por a centésima vez naquele dia, eram 15:46, eu já havia comido um bolinho que estava em meu quarto e bebido um pouco de água. Olhei pela janela, o dia estava nublado e cinza, do jeito que eu costumava gostar, a essa altura eu nem sabia se ainda gostava de alguma coisa. A essa hora, com esse dia tão sombrio, devem estar todos nos quartos, eu não via ninguém na grama.
Depois de andar um pouco acabei, sem saber bem como, indo parar onde tive minha primeira crise, semanas atrás. A bagunça que eu havia deixado, obviamente não estava mais lá e havia sido plantada grama lá, que agora crescia.
Eu... eu preciso ir
Não consegui evitar lembrar a noite em que Logan havia partido, e me beijado. Aquele beijo...
Eu sabia muito bem que estava cometendo um erro, dar espaço para qualquer uma daquelas mentes era um erro, mas já era tarde mais para reverter, uma pontada forte em minha cabeça me faz cair ao chão.
MERDA
Tento me concentrar, mas as mentes gritavam e tomavam a minha mente, me tirando de mim mesma, fazendo minha própria mente se perder no meio deles. As lembranças deles, suas dores cada vez mais forte em meu peito, eu sentia que algo, que eu já não sabia a quem pertencia, emergia no meio daquela confusão.
Você não pode fugir disso
Minha culpa
Sozinho
Não, eles não podem saber
— Eu não quero ir – Você vai, precisa ir
— Nossa filha é uma aberração – disse uma mulher loira vestida finamente que chorava no colo de um homem de terno e gravata
Percebi que haviam lembranças novas, uma mente diferente dentro de mim, continuei tentando me concentrar, porém inutilmente.
Senti que tudo começava a girar ao meu redor, formando uma massa cinza que ia ficando mais clara, até estar tudo branco.
— Vampira – A voz que eu conhecia bem me faz virar, e lá estava ele, o semblante sério e acalentador de sempre, sentado em sua cadeira de rodas – Fique calma. Está tudo bem.
— Professor, o que está acontecendo? – falei ofegante.
— Está tudo bem – ele continuou – Apenas se acalme e se concentre. Você precisa se acalmar. Apenas se acalme e se concentre.
A imagem dele foi se esvaindo, se tornando mais fraca, até sumir.
— Professor, Professor! Não me deixe aqui, por favor...
Nada.
Decidi aproveitar o silêncio das vozes e fazer o que ele disse.
Quando abri os olhos percebi que, felizmente, eu não havia feito estragos. Depois de alguns segundos, me levantei trêmula e, quando me virei para sair dali, vi uma garota caída no chão, eu a conhecia, a mente dela estava em mim.
Fui até ela e a sacudi um pouco, busquei seu nome em minha mente. Nathaly.
— Ei, ei. Nathaly, acorda. – Sacudi a menina que abriu os olhos vagarosamente e gemeu – Você está bem?
— Eu – ela gemeu – Eu... acho que estou – se levantou e sentou na grama, devagar – Acho que o efeito passa rápido – ela disse, levando uma mão à cabeça.
— Me... Me desculpe. Eu... Foi sem querer. E-eu não sei como isso aconteceu – falei enquanto a ajudava a levantar – Meu nome é...
— Vampira – a garota me interrompeu – Eu sei. Todos sabem, você é uma X-Men! – ela falou de maneira um tanto empolgada para o mal-estar que devia estar sentindo depois de eu tê-la sugado.
— É, eu acho que sim... – disse me perguntando o quanto aquela frase ainda era verdadeira – Tem certeza que está bem?
— Sim, ainda um pouco fraca, mas vou ficar bem. Os efeitos dos seus poderes não demoram muito a passar, bom, não quando o contato é breve – ela parecia uma metralhadora, despejando as palavras sem parar e parecia não pensar muito bem nelas – Mas, como você fez isso? Você nem encostou em mim e você tinha tomado a cura, não tinha? – olhei atônita para a garota enquanto procurava sua mente dentro de mim para analisá-la – Ah, desculpe. Que indelicadeza a minha! Meu nome é Nathaly. Nathaly Jhonsom.
— O que você fez comigo? – disse a ela depois de repassar os acontecimentos a partir de sua mente.
— Ah, o Professor! Espero que não se importe por ter entrado em sua mente. – Ela me falou como se fosse a coisa mais normal do mundo sem me dá uma explicação exata para aquilo – Sabe, é que o meu poder é projetar ilusões nas mentes das pessoas. Posso fazer qualquer pessoa ver e provoca-las a sentir qualquer coisa através das minhas ilusões, a não ser que seja um telepata e esteja me bloqueando, é claro. Mas, se ele não tiver tempo de fazer isso imediatamente, eu consigo, enfim... Quando vi você achei que não estava bem, então resolvi vim ver o que estava acontecendo e quando eu cheguei perto você começou a me sugar, então eu fiquei desesperada, te pedi para parar mas vi que você não estava me ouvindo, então pensei que você devia estar descontrolada e lembrei que, geralmente, os poderes entram em descontrole quando estamos agitados ou abalados de mais, aí eu tentei te colocar em uma ilusão de um lugar calmo, mas não funcionou e eu já estava quase sem forças, então achei que criar uma ilusão do Professor falando com você iria ajudar, afinal ele sempre conseguiu acalmar a todos, aí eu criei e funcionou.
Olhei fixamente para a garota, que surpreendentemente não estava ofegante depois de tagarelar tanto, enquanto processava um tanto devagar o que ela havia me dito.
— É... Obrigada por isso – disse depois de alguns segundos – Agora é melhor eu ir. Só... por favor não conte a ninguém o que aconteceu aqui.
Saí quase correndo sem esperar a resposta.
Que ótimo, mais uma mente para ter que suportar.
Entrei ofegante no meu quarto e fechei a porta atrás de mim. Fiquei no meio do quarto olhando tudo ao redor: a porta do banheiro à minha esquerda estava aberta; as janelas de vidro à minha frente estavam com as cortinas abertas e devido a estar no segundo andar, eu podia ter uma vista do sol que começava a se pôr deixando tudo ao redor alaranjado; a minha cama estava ainda levemente bagunçada, como a deixei e, paralelamente à porta de entrada do meu quarto, em frente à minha cama, estava minha pequena escrivaninha, as fotos me provocando. Eu então senti uma tontura, tudo ao meu redor balançava, logo senti meu corpo alcançar o chão e depois não senti mais nada.
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