Depois do Fim
15 Traição
Notas iniciais
POV MÔNICA
Já estava no meu quarto há poucas horas, o sono não vinha jamais, acho que aquele longo dia confundiu meu cérebro que já não sabia se era hora de ir para cama ou não. O Doce ressonava silencioso e calmo ao meu lado, ao contrário de mim, aquilo ali dormia que era uma maravilha.
Alguém bateu a porta e virei preguiçosamente em direção ao som, a luz que bruxuleava entre a porta e o chão deixava entrar uma sombra escura, o que indica que a pessoa ainda esperava paciente por minha resposta.
Levantei e coloquei um robe por cima da camisola fininha de flanela que encontrei dentro do closet do quarto que, por sinal, encontrava-se abarrotado de roupas dos mais diversos tipos. Enfiei os pés nuns chinelos confortáveis e parei diante à porta.
— Quem está aí? – Perguntei para me certificar ser alguém a quem conhecesse antes de abrir.
— Mô? Sou eu, DC. – Meu sorriso despontou automaticamente, fazia um pouco de tempo que não nos falávamos, em virtude das ocorrências no hospital.
Virei a chave, abri a porta e encontrei seus olhos atentos que me examinaram dos pés a cabeça e viram algo que o fez corar as bochechas. Desviei minha atenção por meu corpo e encontrei o que o deixava envergonhado, meu robe havia aberto na altura dos seios e os deixava em parte a vista sob a camisola, minha vez de ficar vermelha e ajeitar minhas vestes o mais rápido possível.
— Desculpa por isso, não havia notado que... – Apenas apontei pro que havia acabado de fechar.
— Sem problemas, não deveria ter vindo, só não achei que estivesse dormindo tão cedo.
— Em relação a isso, acredito que não estou muito acostumada com a quantidade de horas por aqui. – Ri encabulada. – Primeiro pensei que só havia dia, então dormi assim que tive sono, daí a noite cai sem aviso prévio e não tive ideia do que era pra fazer.
Sua risada me causou um arrepio e senti algo dentro de mim esquentar com aquele som, de certa forma sentia como se conhece o Do Contra há muito tempo e tivéssemos uma ligação especial.
— Pela sua noção de horas pude deduzir que na Terra vocês só possuem vinte e quatro horas, mas aqui esse é o tempo da nossa manhã. Some mais vinte e quatro horas da noite e temos um dia inteiro de dois seus. – Falou como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. – Entretanto, nosso processo de envelhecimento é bem parecido com o dos humanos, assim como nossa anatomia e coisas afins, acredito que temos um ponto de evolução em comum.
— Certo, não entendi muito bem, mas deixa pra lá, isso explica o porquê fico com tanto sono em plena luz do dia, além do fato de vocês afirmarem ter menos idade do que aparentam.
A conversa ficou suspensa depois disso e percebi que conversávamos na porta do quarto que me foi dado.
— Caraca, que anfitriã que sou! Nem te convidei pra entrar... – Falei ao mesmo tempo que ligava a luz e me afastava da entrada para permitir sua passagem, mas percebi que ele não arredou o pé dali.
— Hum... – Ele coçou a cabeça e olhou pros lados, como se estivesse considerando a proposta. – Eu e você? Sozinhos num quarto? Não sei se vai dar muito certo. – Sorriu passando uma mão pelos cabelos e baixando a vista... Absolutamente lindo. – Ah, você está corada, só brinquei. – Deu aquela risada que acendia novamente algo bom dentro de mim.
— Então o que veio fazer aqui, espertinho? – Perguntei pra mudar de assunto.
— Só ver se estava bem. Já comeu?
— Sim, alguém da cozinha me trouxe algo mais cedo.
— Você sabe que não é hora de dormir ainda, certo? – Perguntou.
— Errado! Eu não faço ideia de como são as coisas por aqui. – Ri em resposta e uma voz mais aguda interrompeu a conversa.
— Logo se vê que não sabe, afinal, receber um rapaz em seu quarto sozinha e vestida desse jeito não é muito correto por aqui. – Falou levantando uma sobrancelha em minha direção e indo com os olhos de mim ao DC.
— Bem, Maria, se você quiser me explicar como são as coisas por aqui, ficaria feliz em aprender. – Cruzei os braços a altura do peito e sustentei o olhar da garota.
— Heeeeeey, moças, relaxem aí. – Disse interrompendo a discussão eminente que estávamos prestes a começar, não entendo o que a irmã do Cebola e DC tem contra mim. — Irmã, fique calma, eu não ia entrar em lugar algum e se fosse, desculpe, mas não seria da sua conta.
O jeito que ela encarou o Do Contra fez a temperatura cair uns dez graus no ambiente e assustei-me quando uma neve fina caiu do teto. A Princesinha apenas virou, jogou os cabelos para as costas e saiu pisando duro pelo mesmo lugar que veio.
— Desculpe minha irmã, ela pode ser um pouco possessiva às vezes.
— Hum... Sem problemas, mas acho que agora é hora de você ir, melhor que me recolha. – Aquela menina estragara todo o meu humor.
Percebi que ele procurava argumentos ou outras questões pra manter nossa conversa, mas não tendo encontrado nenhum me disse boa noite, beijou meu rosto e saiu em direção ao seu quarto, encerrando-se ali dentro. Fechei minha porta novamente e fui para cama onde o Doce sequer mechara-se, mesmo com todo o papo bem próximo a ele.
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POV DO CONTRA
Naquela mesma noite saí em busca do meu irmão, ainda precisava entender muitas questões sobre o fato dele ter pedido a Carmen em casamento tão bruscamente, ainda mais com a saída do nosso povo bem perto da gente. Enquanto me dirigia à sala Revelius onde sabia que lhe encontraria, ruminava a cena que Maria tinha feito à porta do quarto da Mônica, se não fosse por ela quem sabe a conversa teria avançado e chegaríamos ao ponto em que nos encontramos no dia em que lhe presenteei com o Kaphi cor-de-rosa.
Parei diante do portal que dava acesso à sala e encarei meu irmão com as mãos em concha apoiando seu queixo, ele sentava com a perna cruzada e os cotovelos apoiando-se ali, sua expressão era séria e concentrada, ao perceber minha presença desviou sua atenção a mim.
— Gostaria de alguma coisa, irmão? – Perguntou sem entusiasmo. Me aproximei de onde sentava e fiz o questionamento que gostaria desde o jantar.
— Em que diabos estava pensando quando pediu à Princesa em casamento? – Não sei fazer rodeios quando é em relação a ele.
Em resposta apenas suspirou e voltou a encarar a tapeçaria que se movia sem sons.
— Não me diga que foi ver aquela velha múmia novamente... O que ela disse dessa vez? – Agora sim estava apreensivo, os desígnios de profecias sem cumpriam de qualquer maneira, quer quiséssemos ou não.
— A vi e o que disse você já pode imaginar.
— Droga, Cebola! Não terá como protegê-la disso, você sabe que vai acontecer! O que faremos?
— Não sei você, irmão, mas eu me unirei com os Lethus e assim ela não precisará se envolver, não importa o que diga a profecia.
Inferno! Sabíamos muito bem que não havia chance alguma do que fora professo não cumprir-se, isso nos deixava a beira dos nervos e impotentes, apenas tentando fazer o que estivesse em nosso alcance. A Mônica seria a liadhere quer estejamos prontos ou não.
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POV ???
Por mais que o Rei Cebolácio insistisse para que só viajássemos à luz do dia, nossa comitiva retornou à Lethu àquela mesma noite, foram muitas horas de viagem e eu ansiava mais do que tudo passar a informação a que me tinham incumbido como função.
Entramos nos limites da entrada do palácio, ao contrário dos Syatis, nossa família real era verdadeiramente composta de gente de alta estirpe, não fingiam ser menos do que eram, não sei porquê o Rei permitiria que a Princesa Carmen se casasse com gente que nem ao menos valorizava às tradições e posições sociais.
Como Dama de Companhia da Princesa a segui até seus aposentos e calmamente a ajudei a despir suas pesadas roupas e desfazer o penteado para que enfim pudesse dormir tranquila.
— Obrigada, por hoje é só, pode dirigir-se à seu quarto que continuo daqui pra frente. – Disse a mim sem perguntar nada.
— Não, Princesa, devo contar-lhe algo que descobri na mansão Syati. – Ela, que penteava os loiros cabelos em frente ao espelho, virou-se e me encarou esperando.
— Diga, Denise, imediatamente. O que descobriu? – Perguntou ansiosa e pude ver o brilho nos seus olhos.
— Minha Princesa, nossa informante, Cascuda, confirmou a chegada de três humanos, eles estão abrigados na casa. – Acredito que a empolgação em minha voz podia ser sentida em todo o castelo em formas vibrantes de alegria.
— Não acredito! Finalmente! – Ela me abraçou sorrindo, embora demonstrações desse tipo não fossem comuns.
— Ah Princesa, compartilho de sua felicidade. Mas imaginei que com isso o Príncipe já não precisaria reunir os reinos, tendo a salvação nas mãos, então não entendo o que pode ter dado errado e ele ter feito o pedido.
— Também não entendo, mas dessa forma tudo ficará mais fácil, minha cara. – Disse com um sorriso nos lábios.
— Como assim? Pensei que todo o nosso esforço em esperar os humanos era para que quando chegassem não precisasse mais unir-se ao Príncipe. – Falei rapidamente mostrando confusão.
— Oooooh! Como é ingênua, Denise. – Riu abertamente mostrando todos os seus dentes brancos e brilhantes. – A informação não é para que eu faça uso, mas sim outra pessoa...
— Desculpe, Princesa, mas você havia dito que...
— Não importa o que eu disse. Você e Cascuda fariam de qualquer maneira, porque eu mando e vocês obedecem.
— Sim, claro. Desculpe, Princesa. – Assenti com minha cabeça e a mantive baixa. – S-só acreditei que n-não queria unir-se ao Príncipe porque tinha outro em mente.
— Não errou! Tenho outro em mente e é por ele que coloquei infiltrados junto aos Syatis, o interesse em saber é dele.
— Mas agora você não pode voltar atrás quanto ao pedido!
— Engana-se! Há certas circunstâncias em que se pode voltar atrás... – Ao perceber o que tinha em mente não perguntei. – Não quer saber qual?
— Não precisa me dizer nada, eu sou apen...
— Morte. A morte libera o outro lado do compromisso. E é assim que tudo vai se acabar: Meu amado terá o que quer, eu me liberto e o Príncipe Cebola morre. Simples.
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