Depois do Fim
7 O Fim
Notas iniciais
Nossa oportunidade vinha assoviando feliz pelo corredor, me perguntei onde estava a cabeça daquele homem porque não me parecia normal que alguém caminhasse descontraído assim com tudo o que ocorria lá fora; mas aí me dei conta que guardas e qualquer um que fizesse a segurança de certos lugares podia obter determinados privilégios em virtude dos demais. De repente senti raiva, como poderiam estar eles todos bem enquanto a maior parte da população sobrevivente estava passando por todas as necessidades que existiam?
Enfim, nos concentramos e assim que ele se aproximou da esquina em que nos abrigávamos, Cascão puxou-o para si, fechando sua boca. Óbvio que o homem não se entregaria sem luta, mas o Cas era versado nas mais diversas artes, um único aperto no lugar certo do seu pescoço junto com a pressão adequada o fez cair e se não fosse a Maga segurá-lo teria desabado sobre o Cas.
Observei a minha volta, o campo estava livre e havia uma nave há poucos metros, não havia resistência para a entrada, pois se suponha que os guardas estavam sempre bem posicionados e ninguém entraria, estavam certos até agora... Essa gente passou tanto tempo sem provar o gosto amargo da vida lá fora que não entendia que o desespero pode levar pessoas como nós a arriscar qualquer coisa, inclusive a vida, afinal já estávamos quase mortos.
Pelo menos isso serviu para facilitar nossa entrada com um peso morto na nave, ela tinha um formato circular, com centenas de leds ao seu entorno e apenas um pequeno portal para o acesso interior. Nunca havia visto algo tão interessante! A parte de dentro parecia ser muito maior, cheia de máquinas e compartimentos, coisas que não tinha nem ideia de como funcionavam, sim isso seria difícil.
Amarramos o homem em uma cadeira, pusemos um pano em sua boca e esperamos que ele despertasse, a todo momento rezava para ninguém aparecer, até que calmamente saiu do desmaio. Cas deu as boas vindas com uma arma apontada para sua cabeça, quando a viu começou a respirar rapidamente e o suor brotava da sua testa.
– Apenas fique calmo, lhe faremos algumas perguntas e se você responder corretamente o liberaremos, estamos entendidos? – O tipo apenas balançou a cabeça afirmativamente. – Tenho que dizer que se tentar gritar ou fazer outra besteira terei que estourar seus miolos, poderemos morrer, mas você vai junto. Meninas, façam as honras!
– Primeiro, como fazemos para pilotar essa coisa? – Perguntou dando uma volta com o dedo para mostrar a nave toda, Cascão puxou a tira de tecido da boca do rapaz e indicou com a cabeça que a respondesse.
– Por favor, eu t-tenho família, por favor... – Ele soltou assim que pôde.
– Resposta errada! Fale de uma vez e sua família não precisará chorar sua perda tão cedo.
– T-tudo bem, na verdade é bem simples... Basta apertar esse botão e usar as coordenadas do último lançamento, ela vai te levar pro planeta mais próximo que nossa raça habita.
– Só isso? – Perguntei desconfiada.
– Hum... Se precisarem dos controles é bem simples, são como joystick... Frente pra acelerar, curva a direita, curva a esquerda e o giro completo faz com que rodem no próprio eixo, aquele lugar alto é o observatório para apontar a mira a um alvo e atirar... Agora eu posso ir, por favor? – Perguntou apressado.
– E como isso sai daqui? – Quis saber procurando saídas do tamanho da nave.
– Eu já disse! Coordenadas do último lançamento ativam as saídas e todo o resto!
– Tá fácil de mais... Não pode ser só isso... – Falei quase implorando para o Cas e a Maga que analisavam a situação. – Quais problemas teremos quando chegarmos ao novo planeta?
– Provavelmente saberão que são intrusos, mas não poderão criar casos, além de não existir viagem de volta, estão se adaptando aos poucos à nova vida e não irão chutar ninguém.
– Precisaremos de roupas especiais ou algo assim? – Maga perguntou.
– O planeta que abriga a colônia humana tem as condições exatas para a sobrevivência da nossa raça.
– Eu me dou por satisfeito! – Disse o Cas já fazendo menção de pôr a mordaça para tirar o homem da nave.
– Vocês têm certeza? Têm certeza que é seguro? E se... E se isso explodir ou nos perdermos pra sempre no espaço? – Perguntei sentindo um frio na barriga como se tudo fosse acabar pra gente.
– Mô, a gente já chegou longe de mais pra desistir! Pensa em tudo o que passamos, na Joy que morreu nos ajudando a salvar você... – Disse a Maga.
– Espera... Quem é Joy? — Mostrei minha cara de dúvida para ela.
– Ah... Bom... Como não sabemos o nome da moça que nos ajudou na cidade, decidi chama-la assim, me sinto mais tranquila. – Respondeu sem graça.
– Certo... Okay! Então vamos logo antes que eu mude de ideia!
Cascão não precisou ouvir duas vezes, já empurra o cara para fora da nave quando lembrei.
– Espera, Cas! – Ele parou suspirando, fui até eles. – Tem uma senha, não tem? Tem que ter pra ativar esse tipo de coisa.
O homem me olhou deixando a última carta na manga cair. O levamos até o painel de controle e pedimos que colocasse a senha, ele o fez. Acesso liberado.
– Escute, homem, eu não mato ninguém... Mas meu amigo terá a honra de fazê-lo se esse botão não fizer o que diz! – Ao escutar essas palavras de minha boca, passou a balançar a cabeça freneticamente, fiz que retirassem a mordaça. – Fale de uma vez!
– Uma vez que apertarem esse botão as portas fecharão em menos de cinco segundos e eu não poderei sair, por favor, me tirem antes daqui... – Choramingou.
Trocamos olhares e sem falar nada decidimos. Cas o levou para a porta e eu apertaria o botão, assim que fosse comprovado que as portas se fechavam, libertaríamos o cara.
Apertei o botão e a porta se pôs a fechar, o rapaz já não estava ali dentro e fomos encerrados na nave, os painéis ficaram acesos e o Cascão saiu correndo e dando ordens.
– Magali, armas! Eu vou ficar nos joystick e você, Mô, será minha copiloto.
– M-mas eu não s-sei mexer em nada disso! – Falei olhando para tantos botões.
– Não importa, eu também não sei, mas sai apertando em qualquer botão caso a gente precise!
Balancei a cabeça afirmativamente e apertamos os cintos no exato momento em que o teto se abria vagarosamente inundando o hangar com a luz do sol. Meu coração quase saia pela boca de tão forte que batia, via o sorriso nos rosto dos meus amigos, sabia que estavam felizes pela nossa quase alcançada liberdade.
A nave levantou voo, alguns guardas atiravam em nós, mas nem manchava a lataria do transporte. Foi aí que nossa sorte acabou. Naves menores começaram a surgir de todos os lados e se aproximavam, eu podia ver pelo gráfico os pontos quase cruzando, o Cas se mostrou um exímio piloto sem nunca tê-lo feito, desviava dos tiros com uma destreza sem igual! Maga mirava e hora ou outra eu localizava um ponto sumindo do painel. Ganhávamos altura e foi aí que sem querer pressionei o botão com o cotovelo... Acredito que aquilo liberava o combustível extra e nos impulsionou com uma velocidade enorme, logo deixamos as naves pra trás e também tudo o que conhecíamos, era o fim e o que vinha depois disso era totalmente desconhecido.
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Só me dei conta de onde estávamos quando consegui enxergar a Terra bem distante, um ponto marrom ao longe, a nave parece que flutuava devagar pelo espaço, tiramos os cintos e começamos a explorar por ali.
Maga descobriu um botão na parede que era indicado por ‘dormitórios’, apertou e o que era uma sólida parede se abriu mostrando algumas camas empilhadas umas sobre as outras, nos olhamos e cada um se jogou em uma. Caraca, como eram macias! Sem mencionar o frescor da nave, a perfeição! Não sabíamos a qual velocidade estávamos viajando, mas como não dava pra saber quando chegaríamos era melhor dormir um pouco.
Não sei que horas peguei no sono, mas sei exatamente quando despertei. Sinais sonoros soavam a todo volume e luzes vermelhas piscavam por todos os lados, corremos para o controle, verifiquei o símbolo do tanque de combustível, estava na reserva!
– Galera, notícias ruins, não chegaremos ao nosso destino seja lá onde for... – Falei olhando para os dois.
– POUSO DE EMERGÊNCIA! – Gritou o Cas. – COLOQUEM OS CINTOS RÁPIDO!
Corremos nos acomodando nas poltronas e olhando pra todos os lugares em busca do lugar mais próximo.
– ALI, CAS! – Falei apontando pra superfície mais próxima, teríamos que pousar antes do combustível acabar de vez.
Nos dirigíamos cada vez mais rápido e um algo parecido com um mar de areia nos aguardava, estávamos quase colidindo quando nosso piloto deu um rasante e conseguiu pousar raspando toda a lataria da nave.
Respiramos aliviados por um instante, então ouvimos os sons estranhos do lado de fora. No começo a fumaça impedia de enxergar, mas aos poucos as formas foram se destacando e nos ameaçavam com armas esquisitas, parece que mandavam que saíssemos, mas ainda tinha a questão relacionada à atmosfera, será que era seguro respirar ali? E tínhamos escolha?
Pegamos as bolsas e saímos, sem armas, para mostrar que éramos amigos, não conseguia distinguir o que eram, o medo emanava de cada poro da minha pele e dessa vez não era a única, Cas e Maga também não mostravam a confiança de sempre. Não falavam nossa língua, claro! Mas podíamos ver que queriam que deitássemos, o fizemos e eles tiraram nossas mochilas, puseram algo como algemas em nossos braços.
Ouvi um som diferente, uma voz que ainda não tinha participado da nossa captura, me envolvia totalmente, era grave e autoritária, só queria virar e ver o dono dela, mas senti um “pé” no meu rosto e logo um empurrão com um grunhido grave, virei e vi o alienígena. Não consegui focar muito em seu rosto, aos poucos fui desvanecendo e a última coisa que ouvi foi uma daquelas outras vozes dizer o que acho que era seu nome “Cebola”, sorri, que nome estranho para alguém.
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