Depois do Fim
17 O Espião
Notas iniciais
POV ???
Viver no reino dos Viskhas não é fácil, ainda mais quando você é um Syati, mas meu Príncipe mandou, então, aqui estou cumprindo suas ordens. Não foi simples conseguir um lugar trabalhando dentro do castelo do Rei Toni, entretanto, depois de muitas tentativas obtive êxito em minha missão. Confesso que achei que morreria nesse reino cheio de pessoas violentas, bárbaras e que traem seu próprio sangue em troca de benefícios, porém, enfim o momento que tanto esperei chegou: Os humanos estão em nosso mundo.
Entrei mais cedo em uma das salas para limpar as janelas, era a sala preferida do Rei, então, como sempre, me concentrei no lugar que sabia que mais cedo ou mais tarde ele iria, minhas três horas em pé por trás das cortinas limpando finalmente valeram a pena, não demorou e eu ouvi a voz da fêmea que sempre ia visita-lo, infelizmente estava a tanto tempo naquela terra, exatos sete* anos longe de informações que se quer sabia quem era a moça, apenas seu nome: Carmen. Vim pra cá quando ainda tinha cinco* anos, meu pai era o Capitão da Guarda Real e cedeu seu único filho como espião, mas não sinto raiva e nem me arrependo de estar aqui, tudo é por meu povo. Naquela noite a Yala do Rei deu-lhe a notícia que mais esperava, os humanos estavam em Syati.
Meu susto foi tão grande que por pouco não revelei meu esconderijo, fiquei imóvel, esperando que o Rei não tivesse percebido, ainda bem que quando a fêmea está por aqui ele fica mais idiota. Assim que foram ao quarto saí de trás das cortinas e passei a pensar num plano para conseguir escapar, minha única ordem de abandonar a missão era se os humanos chegassem e eu ouvisse planos para sua morte. Mesmo não tendo ideia do que o Rei faria, sabia que a única coisa que o impedia de fazer algo era sua Yala e o que faziam no quarto, assim que acabassem ele poria planos em rota e eu não podia perder tempo.
Meu pathris* foi um Viskha, um soldado traído pelo antigo Rei desse povo e deixado em território Syati para morrer, mas o Rei Cebolácio é um bom macho e, como tal, permitiu que ele ficasse em troca de informações, acabou que ele se tornou alguém importante na guerra, casou com minha mahma* e eu nasci, enfim, aqui estou. Graças a ele conseguimos me colocar aqui dentro por uma passagem pouco conhecida, infelizmente a entrada não existe mais, terei que encontrar outra forma de sair.
A única coisa que tiraria os dois soldados da entrada do túnel era se a vida do Rei estivesse em perigo... Exato! Então a vida dele correria perigo.
POV CEBOLA
A conversa com meu irmão me fez ficar pensativo, a profecia realmente se cumpriria, mas tinha que ter uma saída... E se... É, talvez isso desse certo, tinha uma pequena possibilidade, mas não custava tentar. Saí do meu quarto numa correria só! Provavelmente o DC estaria no hospital, aquela era a vida dele, mas não deixei de procura-lo em seu quarto, quem sabe não estava descansando; bati na porta e entrei sem esperar resposta, bingo! Ele estava lá e levantou num salto quando ouviu minha entrada nada silenciosa.
— Caraca, véi! Tá maluco? Quem morreu? – Perguntou levando a mão ao coração que, com certeza, tinha acelerado com o susto.
— Eu sei como podemos realizar a profecia sem realizá-la de fato...
— Manda.
— Não impedimos que o que os tornará parte da guerra aconteça, só os impedimos de lutar. – Ele me olhou com cara desconfiada.
— Explique, irmão. – Pediu sério.
— Você sabe o que diz a profecia? Ela completa? – Ele balançou a cabeça negativamente. – “Três humanos chegarão nesse mundo. Eles serão os guardiões de poderes inimagináveis, um será o liadhere e os três poderão ter papel fundamental nessa guerra. Entretanto, de um jeito ou outro ela terá fim assim que os pés dos filhos de Adão tocarem nosso solo.”. Entendeu?
— Acho que ainda estou com a linha de raciocínio um pouco lenta... – Falou coçando a cabeça.
— “Poderão”, essa é palavra que o oráculo usou, isso significa que há alguma possibilidade de eles não terem papel nenhum. A única coisa que vai acontecer obrigatoriamente é eles ganharem os poderes e o fim da guerra, o resto há possibilidade que impeçamos que aconteça!
Seu rosto se iluminou, provavelmente chegou na mesma conclusão que eu, poderíamos salvar a Mônica, ela não precisaria fazer parte de nada disso.
— Mas me diz uma coisa... Se a profecia diz que eles ganharão poderes e podem ou não ajudar na guerra... O que faria com que não ajudassem?
— Irmão, infelizmente não sei. Mas desde que ninguém saiba da existência deles, estarão seguros aqui.
— Então vamos levá-los agora ao oráculo, Cebola! A Môn... Er... Eles ficarão mais protegidos caso tenham esses poderes, sejam lá quais forem. – Disse o DC com ansiedade.
— Essa hora estão dormindo, além disso, não há porquê ter pressa, os levamos amanhã assim que o sol nascer. – Ele não disse nada, apenas balançou a cabeça em concordância.
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POV ???
Meu plano era simples, mas contava com a sorte, tinha que dar um jeito de colocar a vida do Rei em perigo ou que achassem que ela corria risco. Fui até meus aposentos no castelo e peguei um material explosivo que roubara dos soldados, construí meu arsenal de armas pouco a pouco com o que ia encontrando, coloquei algumas adagas dentro das vestes e saí em direção ao quarto do Rei.
Ainda bem que sua Yala apareceu a essa hora, quase todos os soldados estavam montando guarda, porém, um pouco desatentos em virtude do sono, encontrei poucos no meu caminho. Fui deixando o explosivo em cantos diferentes do castelo, os guardas ficariam confusos para qual direção correr, deixei também alguns na porta do Rei. Ninguém do povoado Viskha conseguia ultrapassar as barreiras do castelo, era praticamente impossível, o Rei não confiava em seu próprio povo e com razão, pois, eles o matariam sem nenhum esforço se pudesse roubar alguma coisinha. Então, todos saberiam que quem quer que planejasse algo era um traidor e morador do lugar.
Escondi-me na sala mais próxima da saída e acionei o dispositivo que explodia as pequenas bombas, a correria foi geral e os gritos também. O estrondo foi mais alto que eu imaginava, acho que coloquei um pouco mais do que deveria e fiquei parcialmente surdo. Ainda assim consegui ver os dois soldados que guardavam a entrada correndo para ajudar os demais, afinal, ninguém sabia como chegar até ali e eles só ficavam na gruta por puro capricho do Rei, era a minha chance. Lembrava do que ouvi tantas vezes alguns dos soldados conversando, o caminho certo tinha musgo no seu canto inferior, tomei coragem e corri com a escuridão abraçando meu corpo.
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POV CEBOLA
Assim que amanheceu meu irmão estava batendo em minha porta, como se eu tivesse dormido alguma coisa! Acho que para os humanos as primeiras doze horas da noite passavam bem lentamente e eles só dormiam nas seguintes, porém, para nós, que estávamos acostumados, conseguíamos dormir vinte horas inteiras sem favor algum, afinal, esse era nosso natural.
Nos dirigimos ao quarto do garoto humano, Cascão, devo admitir que simpatizava muito com ele, era quase como um amigo, além disso, protegeu a Mônica enquanto ainda estavam na Terra. Batemos na porta, porém, ninguém atendeu, abri mesmo assim, não havia ninguém ali. Nos dirigimos ao quarto da sua fêmea, Magali, ninguém também! Comecei a ficar preocupado, onde diabos estariam?
Quase corremos até o quarto da Mô, nem se quer bati quando cheguei a sua porta, mas o alívio invadiu meu corpo quando vi os três jogados na cama, não consegui deixar de sentir ciúmes quando a vi com a cabeça apoiada nas pernas do humano enquanto ele fazia carinho em sua cabeça e na da fêmea dele. Viraram para mim um pouco assustados, mas eu rapidamente expliquei o porquê de ter entrado daquela maneira e também avisei que queria levá-los a um lugar.
Se arrumaram com seus disfarces e seguiram a mim e meu irmão, caminhamos até o alto da colina onde havia o templo do oráculo. Paramos na entrada e comecei a contar tudo, expliquei sobre a guerra, a profecia, o papel que eles teriam para meu povo, se interessaram muito quando falei em poderes, mas preferi manter a parte que os manteria afastados da batalha só para mim.
— Você e seu povo nos receberam muito bem, gostaríamos de retribuir de alguma forma. Tire as meninas disso, deixe que lhe ajude, não seria problema algum. – O humano falou com voz grave e séria, gostei do jeito que protegeu suas garotas e se ofereceu para ajudar-me, era um macho de valor.
— Não me oponho, mas deveremos primeiro saber com que poder o oráculo lhe abençoará.
— Mas eu também quero lutar! – Magali falou intrometendo-se na conversa. – Quero ajudá-los e ser útil.
— Eu também gostaria de ajudar no que for necessário. – Mônica também jogou suas ideias que nada me agradaram.
— Nem pensem nisso! Já fugimos de uma guerra e vocês querem se meter em outra? – Cascão impediu que continuassem pro meu alívio.
— E você pode? Porque? – Magali começou a se exaltar.
— Ouçam, vamos primeiro saber o que o Oráculo dirá e depois vocês resolvem isso, tudo bem? – Interrompi a discussão antes que não conseguíssemos realizar nosso intento.
Entramos no templo e todos trocamos nossas roupas pelas apropriadas, DC também nos acompanhou, invoquei o Oráculo e em segundos ele apareceu, assustando as garotas.
— FINALMENTE! São os humanos! — Falou na nossa língua e percebi os três nos olhando com uma cara de confusão.
— Fale na língua deles, por favor? – Pedi. Claro que ele conseguia se comunicar na língua que desejasse.
— Oh sim, é claro. Desculpem minha falha. – Curvou sua cabeça em direção aos humanos, esses apenas piscaram na direção da múmia velha com suas bocas meio abertas. – Bem, podemos começar? – Voltou sua atenção a mim perguntando.
Já ia responder-lhe quando o Oráculo abriu a boca novamente levando as mãos ossudas para ela. Percebi que estava vendo algo e tencionei meu corpo no ato. Esperamos em silêncio.
— N-não é possível... V-vocês são... – Disse com a voz trêmula, nunca o tinha ouvido falar dessa forma.
— O que? Quem é o que? – Perguntei em voz alta.
— N-nunca em m-minha existência pude presenciar isso... É impossível! Achei que fosse uma lenda dos meus avós! – Comecei a irritar-me com a falta das respostas.
— O que não é possível é acreditar que você teve avós e ainda lembra deles! – Mônica deu um sorriso em minha direção e isso fez meu corpo sentir um pequeno calor. – Vamos, diga logo e deixe de suspense. O que é impossível? – Ele me ignorou totalmente e voltou sua atenção a outras duas pessoas daquele templo.
— Mônica e Contrasthi, eu nunca imaginei que isso fosse possível, nunca achei que presenciaria isso com meus olhos, m-mas v-vocês são Salvathor* um do outro! – Gelei o corpo naquele instante.
— N-não pode ser! Isso não existe! – Falei olhando para meu irmão, ele fitava o Oráculo, Mônica e a mim sem acreditar no que acabara de ouvir.
— O que é isso? Algo ruim? – Mônica perguntou curiosa.
— É de comer hein? Porque nem tomei café quando saímos. – Magali falou claramente entediada com tudo aquilo.
— Eles têm a ligação mais forte do nosso mundo, não sabemos de nenhum caso parecido, é muito maior do que o sangue que nos ata como família... São destinados a uma vinculação única, porque se um morre, o outro é capaz de acompanhá-lo até a outra vida, morrendo também. – Esclareci ainda sem acreditar nas minhas palavras.
— P-porque nós dois? – Meu irmão finalmente encontrou sua voz.
— Não discuta! Esses são os desígnios de alguém maior do que todos nós. Ele sabe o que é melhor. – O Oráculo disse encerrando as dúvidas e discussões.
— E-eu pensei que... – Respirou fundo e se dirigiu para a Mônica. – Eu entendi tudo errado, Naem*! – DC falou e eu pude sentir um alívio no meu peito.
— Naem? Não, DC, meu nome é Mônica! Lembra? – Falou sem graça.
— Não é isso, Mônica, Naem significa maior irmã e mais protegida de todas. – Ele respondeu.
— E-então o que eu sinto... – Ela disse assustada.
— Sim, minha cara, você deve ter confundido as coisas... Ele está mais pra irmão do que para seu macho. – Ela corou loucamente e eu sorri internamente.
— Bem, agora que o susto já acabou vamos passar ao que interessa... Suas transformações nos heróis do nosso povo. – Troquei olhares com meu irmão.
— EEEEEEU CONVOOOCO TODAS AS FORÇAS...
— Finalmente encontrei vocês!— Um rapaz loiro de cabelos enrolados falou ofegante da porta. — Andei por todo o reino... Que droga! É tarde!
— Quem é você? – Perguntei a ele.
— Sou o seu espião, Príncipe. Voltei para avisá-los! – Oh não... Ele só tinha ordem para sair de Viskha se...
— Xaveco... É você?
— Não há tempo, Príncipe... Eles estão por todos os lugares! Atrás dos humanos! Eu trouxe a guarda comigo, mas os homens não estavam reunidos e acredito que agora é tarde.
— Sim, é tarde, traidor! Você morrerá com todos os que estão aqui, mas sua morte será a pior, o Rei irá querer fazer isso pessoalmente. – Um soldado Viskha falou em alto e bom som entrando no templo, estávamos cercados e com poucos homens. Era nossa morte.
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