Depois do Fim
1 No Futuro
Notas iniciais
Os antigos que sobreviveram às últimas guerras mundiais contam que a Terra já foi um lugar maravilhoso, com a natureza viva, água limpa, comida farta, um dos melhores planetas de que se teve conhecimento. Mas isso foi antes.
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TIC TAC TIC TAC TIC TAC – O barulho infernal do relógio estava me deixando louca essa tarde, na verdade, ter um relógio só serve para piorar as coisas já que nunca temos compromissos com hora marcada, mas agora o relógio nos lembra de que fazem vinte horas seguidas que o Cascão saiu para buscar comida e não voltou, o caso é que ele não costuma demorar tanto assim.
Dessa vez nos abrigamos numa gruta pequena que já deve ter servido de abrigo para outros viajantes, pois, apenas é um espaço cheio de coisas velhas, quebradas e as poucas coisas que levamos conosco quando mudamos de lugar de dois em dois dias, mochilas com alguns restos de comida, a pouca água que conseguimos, máscaras que filtram o ar e óculos escuros para proteger do sol, fora isso apenas levo comigo um colar com a foto dos meus pais no pingente, eles morreram há cinco anos, exatamente quando completei dezessete, fiquei sozinha por um ano até encontrar o Cascão e a Magali que fugiam juntos.
Encontrei os dois num galpão velho numa noite muito fria, precisava muito de um fogo para me aquecer, mas estava muito difícil conseguir, cheguei a pensar que morreria ali, tremendo e sozinha, foi quando entrei no galpão e vi as chamas, me aproximei sabendo que era arriscado, porém, precisava de calor. Eles quase me mataram, estava tão fraca que nem me defendi, Magali viu que não oferecia perigo, discutiu com o Cascão por algum tempo e os dois decidiram me oferecer abrigo só por aquela noite e depois seguiríamos caminhos diferentes. Bem, ando com eles até hoje.
Nunca partimos para outro abrigo sem estarmos reunidos, existem muitos bandidos e saqueadores espalhados, além de pessoas tão desesperadas que matariam para comer carne humana mesmo, então, melhor andar em três, afinal, fazemos um trio incrível, o Cascão é ótimo com todo tipo de arma e luta, sempre tenta ensinar alguma coisa para a gente, Magali tem um poder de persuasão tão poderoso que já convenceu sequestradores de nos liberarem em troca de algumas velharias que tínhamos encontrado, é certo que eles eram burros, mas que foi um grande feito foi sim. E eu? Bom, não sou boa em lutas, nem com armas, não convenço ninguém a nada e nem sou forte, só digo que formamos um trio incrível porque meus dois amigos é que são, se não fosse por eles, adeus Mônica!
Os dois estavam juntos há exatos dezenove anos, pelo o que soube, seus pais eram amigos e quando tudo começou a acontecer fugiam juntos. Magali só era uma menina de sete anos quando o pai e a mãe morreram quase ao mesmo tempo, na nossa época é tão comum morrer de câncer quanto respirar, chegar aos quarenta anos te torna um velho, o que me lembra, só tenho mais dezoito anos se tiver sorte. Os pais do Cas ainda cuidaram dos dois por um tempo, mas os deixaram sozinhos, ninguém poderia imaginar que um garoto de doze anos fosse conseguir suportar tanto e ainda cuidando da menina, mas nosso amigo é uma lenda e até hoje cuida dela e de mim também.
O ano de 2150 é uma verdadeira merda, lamento pelo desabafo, mas é assim mesmo. Tudo aqui na Terra tem cheiro de morte, já ouviram a expressão “Se correr o bicho pega e se ficar o bicho come?”, pois é, vivemos fugindo porque se sequestradores acharem nossos esconderijos ou nos vendem como gado para o almoço ou então nos comem, literalmente. Os mais ricos acabam comprando passagens só de ida para outros mundos ou simplesmente são os que nos compram para servir de jantar, eles foram os que enriqueceram ao custo de guerras que destruíram a maior parte do planeta, vivemos no meio do que já foram cidades e agora não são mais que escombros e ruínas.
Não pode ficar pior, certo? Errado! Não temos mais a proteção da camada de ozônio, o sol acaba pouco a pouco com nossa pele, por isso saímos, faça calor ou não, com roupas por todo o corpo e óculos escuros. Alimento é quase impossível de encontrar, isso se pudermos chamar aquilo de comida, trocamos qualquer coisa por uma farinha fina que misturada com água incha e se torna uma sopa espessa e com gosto horrível, ainda cheguei a provar comida de verdade, mas faz tanto tempo que nem lembro do gosto. Conseguir a água para fazer a mistura é outro inferno e ainda mais difícil, nem queira saber o que já passamos para obter qualquer coisa que lembrasse H2O. Como sobrevivemos a isso? Eu já disse! Cascão e Magali ‘UM’, Mônica ‘ZERO’.
– Você acha que pegaram ele? – Magali tinha uma expressão preocupada que me fez ter lágrimas nos olhos, eu nunca tive a oportunidade de me preocupar ou ser a preocupação de alguém assim depois que os meus pais morreram. Engoli em seco e dei o melhor sorriso que consegui para responder.
– Fala sério, Maga! O Cascão é o melhor tanto pra lutar, quanto pra fugir, aposto que daqui a pouco vai estar aqui. – Dei um tapinha em seu braço para espantar o nervosismo, mas estava tão apreensiva quanto ela. Tínhamos que sair dentro de uma hora, assim que a noite caísse. A ordem era que se alguém saísse e não voltasse em dois dias, os outros teriam que seguir viagem, como não deixávamos pistas para ninguém nos seguir isso significava que quem ficou para trás dificilmente se reuniria novamente. Olhei de novo para a Maga e soube na hora que se ele não voltasse estaríamos condenadas, primeiro porque se saíssemos sozinhas morreríamos em menos de um quilômetro, se ficássemos, e ficaremos mesmo, a gente morre também. Fantástico!
Mal conclui meu pensamento e escutamos vozes e risos no lado de fora da gruta, começamos os procedimentos de segurança que o Cas nos passou rapidamente. O lugar em que estávamos fazia uma curva, por isso não nos acharam logo de cara, mas era questão de tempo até entrarem para averiguar. Ficamos de pé, eu empunhando a arma, fizemos questão que o Cascão levasse, mas ele recusou de todas as formas, nunca nos deixaria desarmadas. Esperamos quietas, torcendo para aqueles homens saírem dali, nunca sabíamos se era alguém legal, as estatísticas nos diziam que a melhor coisa que poderia acontecer era que fossem apenas uns idiotas atrás de diversão. Entraram.
– Ora, ora, ora, se não tiramos a sorte grande, rapazes. – Eles riram com sons de porcos, eram três caras altos e magricelas, se o Cas estivesse ali daria conta dos três facinho, mas só estávamos eu e Magali, por mais que a arma estivesse brilhando nas minhas mãos, não sabia se seria capaz de atirar, droga de mão tremendo!
– Vai atirar, mocinha? Eu aposto que não consegue. – Grunhiu o do meio, falava comigo, mas não tirava os olhos da Magali, estava devorando-a, mas não parecia faminto de carne, mas sim de sexo.
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