Depois do Fim
10 A Sala Revelius
Notas iniciais
POV MÔNICA
As visitas do doutor foram constantes e por mais que eu perguntasse dos meus amigos nos mantiveram afastados, não sei quantos dias se passaram, havia perdido a noção do tempo e haviam tirado meu relógio. O Príncipe nunca mais tinha me visitado, mas sonhei com ele umas duas vezes, como se estivesse no quarto me vigiando. O DC foi um amigo excelente enquanto me recuperava, me levava comida e uns filmes mudos pra assistir, sim, porque é obvio que eu não conseguia entender nada do que os atores falavam e não queria ele perdendo o tempo e traduzindo pra mim.
A comida era incrível, caramba, nem lembro quanto tempo fazia que não comia coisas assim, os nomes do bichos eram estranhos e não existiam na Terra, mas eram deliciosos com frutos, grãos e legumes.
O futuro era incerto, DC nunca me dizia o que aconteceria depois do hospital, mas minha alta estava próxima, no último dia estava ansiosa, principalmente porque iria ver meus dois amigos também. Do Contra chegou para seus exames e visitas diárias.
– Bom dia, Mô! – Disse sorrindo para mim e se aproximou com seus instrumentos. – Como se sente hoje? Animada?
– Oi, DC! Sim, estou morrendo de saudades dos meus amigos!
– Ótimo! – Começou a abrir minha boca enquanto eu tentava continuar falando e sons estranhos de palavras abafadas saiam de mim, ele ria com minha empolgação e me pedia pra ficar quieta.
– Então é aqui que você tem se metido? – Falou uma adolescente bonita, baixinha e de olhos verdes vivos, ah aqueles olhos, idênticos aos do Cebola, reconheci assim que vi. DC se virou rápido e sorriu para ela. E eu percebi que alguém tinha transmitido o conhecimento da minha língua para a garota, já que a usava muito bem e, provavelmente, queria que eu entendesse o papo.
– Oi, Mariazinha! Porque demorou tanto pra vir me perturbar? – Ele perguntou indo dar-lhe um abraço.
– Ora, Mariazinha HUNPF! Você que esqueceu dos amigos. – Respondeu empinando o nariz.
– Eu só tive muito trabalho por aqui e jamais esqueceria da minha irmãzinha. – Abraçou a menina, acariciando-a nos cabelos.
– Vejo bem qual seu trabalho e, além disso, não sou sua irmã e você sabe disso muito bem. – Ele sorriu e revirou os olhos.
– Ah mas é sim, senhorita. – Disse alguém entrando na sala e cruzando os braços na altura do peito. Só percebi que parei de respirar quando ele me cumprimentou. – Oi, Mônica, como está? – Perguntou-me e eu só lutava comigo mesma pensando “Sentindo falta da sua voz”, mas só pensei mesmo.
– Estou bem, obrigada!
– Pelo visto já conheceu minha irmãzinha, Maria Cebolinha. – Eu ri, outra Cebola!
– Prazer, Maria! – Disse estendendo minha mão para a garota, mas ela só assentiu com a cabeça e minha mão ficou pendendo sozinha, rapidamente o DC começou a tirar minha pulseirinha de paciente para disfarçar o incômodo.
– Pronto, linda, agora está finalmente livre. – Vi o rosto do Cebola se contrair rapidamente, mas não falou nada. – Vou sentir sua falta aqui...
– Okay, okay, chega de drama Contrasthi, até parece que ela vai embora pra sempre. – Respondeu Maria revirando os olhos e se prostrando irritada ao lado do seu irmão que estava na mesma posição e nos olhava com a mesma expressão.
– Você o chamou de quê? – Perguntei confusa.
– Contrasthi, o nome dele ué.
– Hum, DC é mais fácil. – Respondi levantando da cama, lhe plantando um beijo no rosto e indo para o banheiro me trocar.
Sai alguns minutos depois e estava pronta.
– Vem comigo, preciso reunir você e seus amigos, eles já estão esperando em minha sala. – Disse Cebola segurando minha mão, a puxei não porque me incomodou, mas sim porquê senti a eletricidade subir por meu braço com seu toque, ele ficou sem graça, deve ter entendido errado.
– Er, bem... Eu venho lhe visitar... Se deixarem! – Falei abraçando o DC , ele foi uma ótima companhia e já estava sentindo falta de todos os seus cuidados, saí da sala o deixando olhando para baixo na companhia da Maria que desatara a falar na língua deles, não pude deixar de me sentir incomodada, que estranho!
Comecei a andar atrás do Príncipe Cebola, quase correndo para alcança-lo, entramos numa espécie de túneis e finalmente subimos uma escada que deu numa sala linda e enorme.
– Hum, essa é minha casa! – Falou apontando ao redor, eu estava de boca aberta, prestando atenção em tudo.
– Uau! É linda! – Observei cada parte daquele lugar, só havia uma única poltrona bem ao centro da sala, as paredes eram cobertas com uma tapeçaria incrível, cheia de detalhes e tão real que eu poderia jurar que vira os homens guerreiros mexendo-se, eles montavam em cavalos, carregavam armas e lanças, sua expressão levava um grito de guerra e eu realmente ouvia esse brado alto, quis tocar e, mesmo sem saber se podia, me aproximei com os dedos esticados. Assim que minha pele chegou no tecido recuei assustada e, se não fosse pela Vossa Majestade, teria caído de bunda no chão. Realmente se moviam, os cavalos galopavam e os homens lutavam com as espadas, clavas ou o que mais tivessem nas mãos, meus olhos corriam pela tapeçaria tentando acompanhar tudo até que ouvi uma voz ao longe.
– É realmente bonita, não é mesmo? Enfeitiçada pra mostrar a história do meu povo, cada guerreiro que você vê lutou pela honra e proteção desse mundo, mas está sempre em mudança e cada vez que alguém se sacrifica pelo mesmo motivo dos antepassados é tecido nessa tela, permanecendo eternamente nela. – Falava com certa emoção e orgulho na voz, mas era de se esperar, pois, ali estavam seus avós, tios, primos e... Ele mesmo! Sim, o Príncipe era um daqueles guerreiros e de repente senti uma angústia no peito, vi alguns dos cavaleiros morrendo pelas mãos dos adversários, temi que o Cebola acabasse da mesma forma.
Senti mãos fortes segurando minha cintura, só aí que percebi que o Príncipe ainda me mantinha firme para que não caísse, pedi desculpas e desviei-me de seu aperto fingindo querer olhar para o teto, não precisei encenar minha admiração, era bem alto e jamais conseguiria tocá-lo, imagens difusas apareciam aqui e ali, mas percebi que nunca eram claras, misturavam-se em linhas e tons extraordinários, poderia ficar pela minha vida toda e não saberia, entretanto, novamente fui trazida de volta ao presente.
– Precisamos ir, seus amigos nos aguardam na sala ao lado. – Saiu e eu o segui.
POV CEBOLA
Quando segurei sua cintura para que não se machucasse ela mal notou, estava admirada de mais com a sala, entretanto, eu mal pude me controlar a sentindo tão próxima assim. Tinha adquirido o estranho hábito de observá-la enquanto dormia e sempre desaparecia do hospital antes que ela despertasse, era linda durante o sono, embora muitas vezes tenha tido que acalmar seus sonhos, pois, não pareciam nada agradáveis.
Trouxe a fêmea de volta à realidade antes que visse de mais na sala Revelius da casa, ela ficou encantada com o que assistiu nas paredes e no teto, mas era o suficiente e eu precisava entender algumas coisas desses três viajantes.
Assim que entramos na sala só pude ver uma mancha negra correndo em sua direção, meu instinto foi protegê-la, ainda bem que me contive a tempo, era apenas a outra humana abraçando-a. O macho que as trouxe veio logo atrás e esperou por sua hora de verificar se ela estava bem, um rugido de desaprovação surgiu em minha cabeça, mas o guardei para não assustar os presentes.
Eles pareciam bem preocupados uns com os outros e tagarelavam em voz baixa sem parar com os olhos correndo por todos os lugares, sentei para esperá-los acabar com a reunião e depois de um tempo o garoto se colocou na frente das duas e me fez uma reverência. Gostei! Isso mesmo humano, você sim deve saber quem é que manda aqui, agora saia de perto dela! Isso era o que queria falar, mas ao invés disso apenas assenti com a cabeça.
– Príncipe, primeiro gostaríamos de nos desculpar por ter caído em seu mundo, queremos que saiba que não era nossa intenção aterrissar aqui. – Ele esperou que eu dissesse alguma coisa, mas deixei o silêncio pendurar entre nós para que continuasse, limpou a garganta e prosseguiu. – Bem, nós não temos como e nem onde ir, a não ser que possamos concertar nossa nave, mas também não iremos à lugar algum sem o combustível específico para levantarmos voo.
Dessa parte eu deveria discordar, assim que foi possível nós recolhemos o transporte dos humanos e o levamos para estudá-lo, o tipo de combustível que utilizam poderia ser facilmente substituído por um outro muito melhor, o fato é que concertamos todos os equipamentos e a lataria danificada, mas infelizmente não podia deixá-los ir, eles precisavam nos ajudar.
– Por fim, se não for pedir muito, queremos saber o que tem em mente... Hum... O que fará com a gente?
Captei o som e o odor de temor no garoto, estava na hora de colocar as cartas na mesa.
– Não há porquê para se desculparem de terem caído aqui, foi apenas um acidente. – Silêncio. – Infelizmente a nave de vocês não tem concerto, já verificamos e nenhuma das nossas tecnologias é suficiente, então teremos que pensar em outra alternativa para voltarem à Terra.
– NÃO! – Responderam os três de uma vez, ai sim consegui enxergar o verdadeiro medo, seja qual for a razão que os tenha feito chegar aqui, era forte de mais para não deixar com que voltassem.
– Certo, certo... Bem, para irem a outro lugar que desejarem. – Eles concordaram. – Por último, não os farei nada, lhes ofereceremos nossa hospitalidade até termos outra alternativa. – Um olhou pro outro com expressão de desconfiança.
– O que quer em troca? – A fêmea de nome Magali perguntou, era esperta aquela garota, sabia que nada era de graça.
– O que tenho a pedir não é tão simples e nem fácil de aceitar... Mas eu preciso tentar, é maior que minhas vontades ou meus desejos, é em favor do meu povo! Caso não aceitem, precisarão partir, não me importa como e nem pra onde, mas terá que ser imediatamente, pois, irão correr perigo.
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