Depois do Fim
11 Entre a Cruz e a Espada
Notas iniciais
– O que tenho a pedir não é tão simples e nem fácil de aceitar... Mas eu preciso tentar, é maior que minhas vontades ou meus desejos, é em favor do meu povo! Caso não aceitem, precisarão partir, não me importa como e nem pra onde, mas terá que ser imediatamente, pois, irão correr perigo.
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POV CASCÃO
– Experimente começar, Alteza! – Falei testando o terreno.
– Bem, venham comigo e os mostrarei. – Assentimos e ele levantou-se para passar por nós fazendo sinal para o seguirmos. Entramos na sala de tapeçarias incrivelmente belas e ele começou.
– Atentem para as paredes, tentem ver nelas o que contarei. Bem, o nosso mundo, Katharsis, vive em guerra há cerca de cem anos, sem tréguas, sem espaços! Quem nos ataca é um povo bárbaro e antigo que tenta a retomada do poder chamado Viskhas. – Enquanto o louco ia falando as gravuras começavam a mudar, como se nos contassem a história junto com ele, da hora! – Por muito tempo ganhamos batalhas, mas nunca o suficiente pra guerra acabar, eles se reorganizam e voltam com uma ofensiva maior, tudo porque o atual Rei deles nunca mostra sua cara nas investidas, sempre escondido, é muito inteligente, não conseguimos localizá-lo e essa tapeçaria idiota não quer nos mostrar nada! – A tapeçaria deixou de mostrar cenas da guerra e reuniu imagens de um dedo do meio erguido para o Príncipe que olhou com resignação. – Okay, desculpe! Enfim, enquanto não acabarmos com o Rei deles, sempre irão voltar.
Ficou calado, como se estivesse tentando reunir coragem para continuar, mas esperando a pergunta que eu estava evitando fazer.
– Onde entramos nisso? – Se eu evitei, Magali a fez com louvor, droga!
– Existe uma profecia, feita uns poucos anos depois que tudo começou, fala a respeito do envolvimento de três humanos na nossa guerra e...
– Opa, opa! Calma aí, Príncipe! Eu só queria fugir da guerra! – Mônica cortou o cara e eu vi a hora que ele explodiria, pelo visto não estava acostumado a ser interrompido.
– Mô, relaxa aí...
– Então você veio pro lugar errado! – Ele me interrompeu também dando a resposta a ela e se aproximando pra ficarem cara a cara, nossa amiga se encolheu um pouco e ficou atenta. – Como ia dizendo, a profecia foi feita há muito tempo e todos os povos têm conhecimento dela, inclusive os Viskhas, que sabem que os três humanos têm papel fundamental, se souberem que estão aqui farão de tudo para impedi-los de se reunirem a nós, então correrão perigo. Caso decidam ficar do nosso lado, garantiremos proteção e nos ajudam no que quer seja.
– E o que é “o que quer que seja”? – Perguntei fazendo aspas na fala do Cebola.
– A profecia não deixa isso claro, vocês terão que ouvi-la antes de qualquer coisa, só depois dirão se aceitam ou não.
– Precisamos fazer isso agora? – Questionou Mônica com certo receio na voz.
–Bem, é melhor que...
– Não! Não precisam. – Era a segunda vez que cortavam a fala dele, olhei de um para o outro para saber o que iria acontecer, era o médico que havia nos atendido.
– O que pretende, irmão? – Sua voz saiu entre os dentes e sua expressão tornou-se impaciente.
– Nada de mais, só acho que eles acabaram de sair de um hospital e não precisam ter mais preocupação por agora. – Respondeu dando de ombros.
– Eles ou um deles especificamente? – Disso eu já não entendi muita coisa, mas o rosto do Príncipe se contraiu em um aviso mortal.
– Deixe de bobagem, irmão, apenas levarei os três para darem uma volta. – O outro analisou como se tivesse tentando sentir o cheiro de algo estranho, mas parece que não encontrou nada.
– Tudo bem, volte antes do anoitecer, não os leve em locais perigosos e dê um jeito nessas orelhas esquisitas! Ninguém pode saber que existem humanos em Katharsis, entendeu?
– Sim. – Finalizou o doutor assentindo ao Príncipe e fazendo sinal para que o seguíssemos.
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POV DO CONTRA
Consegui interferir exatamente na hora em que ele lhes mostraria a profecia, claro que me importava com meus três pacientes, mas Mônica parecia realmente frágil, me incomodava que se sentisse mal com o que seria revelado.
Os levei para minha área da casa, meu quarto era idêntico aos de meus dois irmãos, o Rei e a Rainha me criaram desde muito jovem e havia me acostumado a ser parte da família, embora, não os chamasse de pathris* ou mahma* eram as figuras de pais que conhecia e me tratavam como se fosse seu filho.
– Fiquem a vontade, só não reparem a decoração! – Falei sem muita empolgação.
– Qual decoração hein? – Cascão perguntou olhando em volta, mas a Mônica deu-lhe uma cotovelada na costela para que ficasse em silêncio.
O humano tinha razão, meu quarto precisava de uma boa decoração, não era como os dos jovens daqui cheio de cartazes e tudo mais, além disso, minha profissão exigia muito de mim, então quase não sobrava tempo para descobrir quais eram meus hobbies. Essa era uma das primeiras folgas que eu tirava em semanas, mas tinha interesses próprios nisso. Enfim, embora o quarto fosse grande como todos os outros, havia apenas uma cama de casal com uma colcha simples, um closet pequeno, uma escrivaninha com uma poltrona e um banheiro, conservava também as paredes todas brancas e lisas, assim como o chão de mogno sem carpetes; minha única exigência era que tudo estivesse sempre limpo.
Mônica ficou tão a vontade quanto eu gostaria, foi até a cama e simplesmente se esparramou ali, fiquei sorrindo, provavelmente com cara de idiota vendo ela se deliciar nos lençóis, esperando que o seu cheiro entranhasse para senti-lo ao deitar.
Foi quase um mês que ela esteve sob os meus cuidados, passei a visita-la mais do que aos meus outros pacientes e, embora tenha tentado, contrariar meus sentimentos estava fora de questão, aquela baixinha me conquistou totalmente, seu sorriso, nossas brincadeiras, já não conseguia negar que estava cada vez mais encantado com a humana.
Meu único e grande problema era com meu irmão, ele também podia negar o quanto fosse, mas já havia o pego a observando dormir, sorrindo enquanto ela não via, emanando calma para os seus sonhos. Nenhum dos dois havia se apaixonado... Nunca! Será que justo agora os céus tinham nos mandado a mesma mulher? Valeu aí!
O Príncipe sempre fez muitos sacrifícios por nós, um deles estava prestes a acontecer, seria a união entre os Syatis e os Lethus, o casamento entre ele e a filha do Rei Frufru para ganharmos o apoio do seu exército na guerra, então é de se imaginar que o consideraria carta fora do baralho, correto? Errado! Meus irmãos e meus pais são as pessoas que mais amo na vida e faria qualquer coisa para não machuca-los, inclusive abrir mão do que quero; o problema é que sei que ele faria exatamente o mesmo por mim.
Com o desenrolar da profecia tudo vai se tornar ainda mais complicado, não que espere que a Mônica seja a liadhere*, mas com certeza também terá um papel e não consigo suportar a ideia que se machuque nessa jornada que não é dela.
– Sim, DC, a gente vai ficar por aqui ou vamos dar uma volta? Não que eu me importe, a cama está ótima! – Sua voz me tirou dos devaneios, virei e vi seus olhos felizes e um sorriso na minha direção.
– Na verdade, eu tenho exatamente o que precisamos para sairmos. – Fui em direção ao meu closet procurar minha velha caixa de tesouros. – Vejam, quando somos crianças, temos as orelhas parecidas com a de vocês e os olhos são azuis, só obtemos as características do nosso povo ao completarmos sete* anos, mas antes disso já gostamos de fingir sermos adultos e usamos isso! – Puxei da caixa pares de orelhas, lentes de contato e algumas roupas antigas com que brincava, claro que as roupas eles não precisariam usar.
– Uau! Essas lentes são douradas como os seus olhos? – Magali perguntou entusiasmada.
– Sim, são parecidas! – Ri em resposta.
– E esses orelhões? Vei, vão ficar da hora na gente! – Cascão já havia puxado um par de minhas mãos e os colocava de frente para a Magali dizer se aprovava ou não.
Acabando de arrumá-los estavam autênticos Syatis, então saímos pelas ruas do reino. Não pude negar minha felicidade quando a Mônica segurou em minha mão e saia me puxando quando via algo que a interessava, os outros humanos estavam tão empolgados quanto ela, mas seguiam logo atrás de nós, como se estivessem fazendo proteção, algo assim, pelo que a Mô me disse, eles sempre cuidaram dela na Terra, com certeza aqui não seria diferente.
Caminhei sentido como se alguém estivesse nos vigiando, mas olhava para trás e constatava que era apenas minha imaginação. Os humanos ficaram maravilhados com nossas paisagens, contaram que em seu planeta também havia água, mas não tão limpa quanto a nossa, levei-os para verem nossos campos e plantações, não conheciam nossos vegetais e muito menos os animais que criávamos. A Mônica se encantou com um dos nossos kaphis, um bichinho que parecia uma bola cheia de pelos, com grandes olhos brilhantes e um nariz pequeno e gelado, a boca só aparecia na hora de alimentá-lo, era o pet preferido entre as crianças do nosso mundo.
– Vocês podem continuar nessa direção até aquela placa que diz “Dhoche Quim”, eu encontro com vocês dentro de alguns instantes, não se separem e nem falem com ninguém! – Disse indicando que seguissem em direção de uma de nossas estalagens que vendia os melhores petiscos e bebidas do reino. Eles seguiram e quando estavam suficientemente distantes segui com o meu plano.
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POV MÔNICA
O DC nos mandou a um lugar bem arrumado e com bons ares, quando entramos fiquei contente de não haver muita gente ali, acho que por causa do horário, na verdade, estava meio confusa quanto a isso ainda, tínhamos saído a um certo tempo, mas aqui parece que o sol não saia do lugar, fiz uma anotação mental para perguntar a alguém depois.
O atendedor Syatis veio em nossa direção e comecei a ficar preocupada, como iria falar com ele?
– Só finge que não tá entendendo nada. – O Cascão sussurrou pra mim ao mesmo tempo que o moço, não, o ET, não! Sei lá, ele chegou e falou alguma coisa que não entendi.
– Eu não preciso fingir... Não entendi nadinha mesmo! – Respondi entre alguns sussurros a mais.
Ainda bem que nessa hora o Do Contra ia entrando e correndo em nosso auxílio. Eles começaram a falar na língua deles, o DC apontava pra gente e logo depois o atendente começou a anotar algumas coisas. De repente fixou o olhar na Magali e ali parou, parecendo bobo.
– Tá. Olhando. O que? – O Cas perguntou visivelmente aborrecido e incomodado antes que a gente conseguisse tapar a boca dele.
O rapaz falou alguma coisa e virou para o DC, que suspirou.
– Cascão, fica na sua, por favor! – Falou como se implorasse. – Ele quer saber seu nome. – Disse a última parte voltando-se para a Maga que corou.
– Não. Te. Interessa. – Fomos lentas de mais novamente, droga, Cas! Ele levantou como se fosse partir pra cima do cara que não estava entendendo nada.
– Nontiteressa... – Repetiu com uma voz arrastada, olhei para o doutor e o vi rindo.
– Gente, esse é o Quim, dono aqui do lugar. – Falou gesticulando o local com o dedo e depois concluiu. – Quim, bla bla bla “Nontiteressa”. – Desculpem o bla bla bla, mas é que eu não entendi, mas ri quando ele apresentou a Maga como Nontiteressa, essa iria pegar!
O rapaz saiu ainda com cara de babaca e nós ficamos conversando numa mesa, o Cas acabou descontraindo e rindo um pouco do novo apelido da Magali, mas assim que o tal Quim voltou, fechou a cara de novo.
Voltamos para a casa da família real e quando ia entrar o DC segurou meu braço, disse aos meus amigos que entrassem, ele me traria logo, eu assenti e a Maga e o Cas sumiram na mesma hora.
– Onde você vai me levar? – Perguntei curiosa e sentindo um lance estranho no estômago.
– É surpresa! Mas relaxa, você vai gostar, prometo! – E passou os dedos sobre o coração.
Demos a volta ao redor da propriedade e me conduziu até o lugar onde pensei que seria o jardim. A grama acabava à beira de um precipício, mas ao chegar perto pude presenciar a paisagem mais linda que já tive a oportunidade de ver, lá em baixo descansava um lago enorme que refletia com perfeição o brilho do sol, assim como toda a vegetação que havia em seu entorno, a grama continuava impecável e apenas dava espaço para árvores cheias de flores rosas e roxas que despontavam na folhagem e caiam com uma brisa leve nas águas preguiçosas.
– Meu Deus! É maravilhoso! – Falei levando as mãos à boca e sorrindo. Só consegui parar de olhar quando senti algo nos meus pés, pulei assustada, mas quando me dei conta era um dos bichinhos super fofos que havíamos visto mais cedo.
– Olha só – Disse o DC o pegando no colo. – ele reconhece o seu dono, são muito fiéis e uma vez que se apegam jamais te abandonam, bem, até morrerem, claro.
O animal tentava rolar das mãos dele, claramente tentando me alcançar, tomei coragem e me aproximei, foi a coisa mais fofa que peguei em minha vida! Me apaixonei no mesmo instante e assim que conseguiu pulou no meu colo me cheirando toda.
– É pra você! – Ele disse sorrindo.
– Sério? Caramba! Obrigada! – Falei sem conseguir tirar o sorriso do meu rosto, foi quando percebi que estávamos ficando próximos, não próximos no sentido figurado, mas sim no literal, o DC se aproximava do meu corpo e naquele momento eu não senti vontade de recuar.
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