Depois do Fim
5 A Fuga
Notas iniciais
POV CASCÃO
– Nossa amiga! Você sabe onde ela está? – Me apressei perguntando, atropelando as palavras. Ela olhou novamente para o pançudo e vendo que estava distraído acenou afirmativamente para mim, apontou para a escada que estava atrás do chefe e indicou com as mãos o número dois e o lado esquerdo.
– Segunda porta à esquerda? É isso? – Magali perguntou com um sorriso. Confirmação. Agora só precisamos saber como vamos tirar a Mônica de lá. – A segurança é muito grande? – A mulher negou, tirou uma chave do bolso e entregou nas mãos da Maga. – Obrigada, muito obrigada!
Levantamos para ir ao quarto armar o plano de resgate, senti uma mão com unhas perfurando o meu braço, voltei o rosto, ela gesticulou algo para indicar que era melhor sair a noite, quando o bar fechasse e o dono estivesse no banho, assim não poderia nos perseguir logo de cara e isso nos daria um tempo de vantagem. Claro que quem entendeu foi a Magali, sou péssimo em mímica! Depois tirou um frasco do bolso e o colocou em minhas mãos, apontou para minha perna, suspirei aliviado e agradeci, mas ela novamente me segurou. Indicou a si mesma, depois a nós dois e fez um gesto de sair, esse eu entendi, queria fugir conosco.
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POV MÔNICA
Andava de um lado pro outro no quarto, forcei a porta várias vezes, mas não tinha força suficiente, não havia janelas e nem qualquer brecha pela qual pudesse escapar. Me perguntava a todo momento se o Cas e a Maga tentariam me resgatar, não merecia, tinha feito a maior merda, mas estava rezando pra aquele homem não conseguir colocar a mão em mim.
Sentei na cama suja e deixei as lágrimas escorrerem pelo meu rosto, não era assim que imaginava que perderia a virgindade, por tanto tempo eu sonhei com romances e príncipes... Os sonhos se perderam há alguns anos, confesso, mas ainda assim não esperava ter que deitar com alguém que não quisesse. Minha culpa, só minha!
Olhei para uma porta que havia dentro do quarto, era o banheiro, entrei, tranquei-me e olhei ao redor, como todo o resto era muito sujo, não tive coragem de observar o assento sanitário, deveria estar imundo, abri a cortina gasta que separava a área de banho, uma tina média jazia com água pela metade, pensei que teria que tomar banho com umas três dessas cheias depois que me deitasse com o dono do bar. Balancei a cabeça para espantar os pensamentos e decidi que, por hora, queria sentir a água no meu corpo.
Tirei os sapatos e despi de minha roupas com cuidado, coloquei-os no lugar menos sujo que consegui detectar, um arrepio passou pelo meu corpo quando me dei conta que teria um banho, não lembrava mais nem quanto tempo fazia; sabia que a água não era muito limpa, é claro, mas quando caiu sob a minha pele foi a sensação mais incrível dos últimos tempos. Aproveitei todo o líquido que tinha ali dentro e depois sequei o corpo com minha camisa mesmo, ouvi alguém bater a porta e gelei até os ossos.
Ninguém se aproximou, o que me fez colocar a cabeça pra ver quem era ou se já tinha ido, uma mulher de cabelos curtos e profundos olhos azuis estava parada próxima a entrada com algumas roupas nos braços, me ofereceu, pedi para que as deixasse na cama e agradeci, ela somente acenou com a cabeça e ficou ali dentro. Me perguntei se tinham a mandado para que me vigiasse, deveria ser, mas o caso era que teria de pegar as roupas; juntei meus pertences no banheiro e sai nua, ela virou o rosto para conceder-me privacidade e rapidamente vesti o que me trouxe.
Apenas um vestido de alças finas cor de rosa até o meio das coxas, cheio de babados nas pontas, em outra ocasião teria gostado, mas aquilo não me protegeria do sol quando saísse. Não senti vontade de conversar, tendo tomado o banho, estando com roupas limpas e uma cama a disposição, preferia deitar e tentar relaxar antes da noite cair, o relógio informou que faltavam menos de seis horas, senti náuseas.
A mulher tocou meu ombro e rapidamente me pus o mais longe que consegui, com as mãos indicou que eu ficasse calma.
– Não fala? – Perguntei e ela afirmou.
Observei ela levar o dedo indicador aos lábios pedindo silêncio, puxou uma faca brilhante e me ofereceu, indicando que a escondesse, não entendi porque o fazia, mas peguei rapidamente. Poderia tentar fugir a subjugando e roubando a chave com que entrou, mas sabia que o bar estava cheio e não iria longe, precisava entrar em contato com os meus amigos.
Ela continuou falando com as mãos, mas era difícil compreender, no fim entendi que seus lábios abriam e fechavam formando a palavra amigos. Continuou. Apontou para mim e recitou a palavra resgate sem som algum. A última coisa que disse foi ‘noite’ e partiu.
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POV MAGALI
– Como podemos fugir com ela, Cas? – Perguntei andando de um lado para o outro no quarto, fazia referência à mulher e não à Mô, Cascão só estava calado e fixando o nada, sabia que deveria fazer silêncio para que ele pudesse pensar, mas estava muito nervosa para isso.
Para ter o que fazer peguei o frasco que ele brincava em suas mãos, abri e cheirei, não reconheci, mas parecia uma pomada. Ergui a calça do Cas e apliquei no corte, estava com um aspecto mais terrível do que na noite anterior, com as bordas amarelas e inchadas, desci a barra e guardei o resto no meu jeans surrado.
– Vâmo tomar um banho? – Como estava apenas acocada no chão, desequilibrei e caí. – Eu preciso relaxar antes da gente fugir.
– Você? Você quer... Tomar banho? – Perguntei assustada, o Cas era o que menos sentia falta de banhos.
– Sim, vamos. – Levantou já tirando a blusa e me estendendo a mão. Queria mencionar que tinha acabado de passar remédio em sua perna, mas os músculos de seu corpo pareciam tão convidativos que desisti.
Nos despimos e entramos no banheiro. Já havia visto o Cas sem roupas muitas vezes, assim como ele também tinha me visto assim, mas nunca me acostumava com aquilo, além disso, convenhamos que ficar dessa forma com seu namorado e manter a cabeça no lugar era difícil de mais! Pelo visto não era complicado apenas para mim, Cascão me fitava com um olhar tentador, entretanto, como sempre nos controlamos e terminamos sem acidentes.
Havia roupas limpas quando saímos do banho, como prometido, então nos arrumamos e ficamos abraçados na cama, em silêncio. Combinamos que se a mulher que estava nos ajudando conseguisse fugir conosco, faria parte do nosso plano até o fim; a ideia da fuga consistia em que bateria na nossa porta quando o chefe entrasse no quarto, pois, logo entraria no banho e daríamos um jeito de liberar a Mô.
O tempo passou e logo o bar estava silencioso, bateram em nossa porta, era o sinal. Saímos e a mulher nos informou ‘três minutos’ com os dedos, indicou que esperaria na parte de baixo. Fomos o mais rápido possível.
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POV MÔNICA
Fiquei deitada na cama a tarde inteira e esperei, precisava estar descansada, pois, provavelmente precisaria correr. Fazia algum tempo que o bar ia diminuindo as vozes aos poucos e quando não pude escutar mais nenhuma conversa fiquei tensa. Apertei a faca que escondia na barra da roupa, será que teria coragem de usá-la? Logo ouvi os passos arrastados e pesados no corredor, me preparei e comecei a rezar mentalmente para que ele fosse pro banho, tinha que ir... Barulho de chave. A porta abriu e ele entrou, trancou a porta novamente, me olhou deitada e cuspiu pro lado, mais náuseas! Foi direto pro banheiro, vi meu colar pender no seu pescoço.
Assim que a água começou a cair me ergui de um salto e rumei pro banheiro, pois, precisava da chave e, se desse sorte, meu cordão. A cortina me ocultava dele, fui silenciosa como uma pena caindo e olhei para o chão, minha corrente com as fotos, bingo! A chave deveria estar dentro das roupas, mas exatamente quando ia começar a procurar ouvi barulhos na porta, meti a cabeça pra olhar e vi o Cas e a Maga, nem esperei um chamado, sai o mais silenciosamente que pude e travei três passos a diante.
– Ô dentuça, esqueci minha toalha. Pegue agora e traga! – Abriu a cortina, sabia o que estava vendo: a cama vazia. Nem esperei e corri sem pegar nada, abandonei sapatos, roupas, óculos, máscara, mas tinha que fugir. – NÃÃÃÃÃÃÃO! NEM PENSE EM FUGIR SEM ME PAGAR!
O Cas foi mais rápido, entrou depressinha e puxou minha mochila, alcançou a mim e à Maga quase na saída junto com a mulher que nos ajudou. Dois imbecis bloquearam nosso caminho e usavam armas, mas também tínhamos as nossas, eles vacilaram e com um chute Magali tirou o revólver de um, Cascão veio e passou a rasteira no outro que ainda atirou enquanto caia, mas a bala atingiu o teto, chutei-a da mão dele.
Com o caminho livre nos apressamos para fora, mas o dono do bar vinha atrás só de toalha e atirando, chamando atenção de outros seguranças do lugar, logo estávamos sendo perseguidos por mais de cinco homens armados.
– CUIDADO PRA NÃO MATAR A DENTUÇA! ELA VAI SER MINHA ESCRAVA ATÉ EU MORRER AGORA! – Tinha que correr mais! Tinha sim! O desespero passou pelo meu corpo, não queria ser pega.
A saída da cidade se aproximava, trancada, claro, teríamos que pular os muros. Meus pés machucavam com as pedras e cacos de vidro pelo caminho, mas não ia desistir. Tiro. De novo. Me permiti olhar para os lados, duas pessoas corriam. Jogamos as mochilas por cima do muro e com um salto Cascão conseguiu passar por cima e estender sua mão para ajudar Maga e a mim. Quando estava para escorregar para a liberdade estendi as mãos para ajudar nossa salvadora, ninguém.
– Vem, Mônica! Vem logo! – Cascão me apressava em desespero, olhando para os lados.
– M-mas... Cadê ela? – Perguntei mais a mim mesma do que a ele, foi quando a identifiquei caída numa poça de sangue. Uma lágrima rolou pelo meu rosto, a limpei e saltei o muro.
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