Dentro do Palácio
1 Aquele em que Sherlock demonstra o que sente
Dias de outono. O vento gelado soprando e bagunçando seus cabelos cacheados. Ele respirou fundo e encheu os pulmões com aquele ar. Aquele ar frio que lhe revigorava e o deixava pronto para um novo dia. Podia ouvir o barulho das ondas do mar se quebrando nas pedras e sentir o cheiro do sal. O som das gaivotas voando pelo horizonte e uma mão que ele segurava. Uma mão pequena e delicada, uma mão que o acalentava em seus piores momentos. A mão de uma pessoa que se importava e com quem ele se importava. Aquela mão quente, aquele vento gelado, aquele som do marulho. O cenário era perfeito demais.
— Sherlock!
Ele ouviu alguém gritar o seu nome ao longe, mas baniu esse pensamento. Afinal, ele estava longe demais. Sabia que não havia ninguém por perto, além dele e dela.
— Sherlock!
A voz se aproximava. Ele cerrou os olhos e tentou concentrar-se novamente na pequena mão que apertava e no cheiro salgado do mar
— Sherlock!
Muito perto. Estava ao seu lado. Ele abriu os olhos assustado e surpreso. E de repente, lá estava ele em seu apartamento na Baker Street com John à sua frente.
— Sherlock! – chamou de novo o médico.
— Eu posso ouvir você, não precisa gritar! – rebateu o detetive de visível mau humor.
— Está chapado?! Quantos miligramas injetou dessa vez?
— Estou bem!
Sherlock se levantou, cambaleando um pouco. As pernas estavam dormentes devido à longa permanência em posição de lótus. John viu o cambalear como um sinal positivo para a sua suspeita.
— Deixe-me ver seus olhos!
— Já disse que estou bem! –Sherlock insistiu com mais rispidez – Porque não me elucida sobre o motivo da sua inesperada visita!
John respirou fundo e, subitamente, seu rosto se iluminou.
— Mary teve o bebê!
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Não que lhe faltasse familiaridade com o local. Só não estava habituado a associá-lo com cenas felizes. Estar em um hospital, cercado por balões, flores e pessoas rindo e felizes, era algo novo para ele. Ele olhava com certa relutância para o bebê. Emma Watson era uma bolinha rosa e pelada que estava arrancando suspiros de Mary, John e Sra. Hudson.
— Ela eh igualzinha à mãe! – disse Sra. Hudson acariciando os lábios da bebe com seu dedo indicador.
— Não vou discordar! Ela é maravilhosa! – respondeu John, pegando a menina no colo e levando até onde Sherlock estava.
Sherlock não havia saído do lado da porta desde que chegara. Estava estático. Não lidava bem com essas situações. Sentiu seu corpo enrijecer involuntariamente conforme John se aproximava com a estranha bola rosada.
— Emma, este é seu Tio Sherlock!- apresentou John- diga “Olá”, Sherlock!
Sherlock, com certa dificuldade tentou mover os lábios. Sua voz falhou. O nervosismo era evidente.
— Olá, Emma! – falou enfim, de forma polida.
A porta do quarto abriu, anunciando a chegada de Molly.
— Cade ela?! – perguntou a moça exibindo um enorme sorriso.
John mostrou a criança em seu colo.
Molly, imediatamente, alterou seu tom de voz. A voz naturalmente aguda tornou-se mais doce e suave. Uma mudança a qual todos estavam habituados a vivenciar nesse tipo de cenário, menos Sherlock, que olhou de forma intrigante para Molly.
— Olá, Emma Watson! Olá! Por um acaso você é a bebe mais linda do mundo?
Todos riram.
— Me desculpe – interrompeu Sherlock – porque Molly está aqui?
Todos, incluindo Molly, olharam para Sherlock. Ele continuou.
— Perdão, mas...não me lembro...desde quando você e Mary?
— Somos amigas, Sherlock! – afirmou Mary.
— Eu perdi isso? – rebateu o detetive.
— Somos amigas desde que ela te esbofeteou! – falou novamente a Sra. Watson dando uma piscadela para Molly.
— Se eu te esbofetear de novo, ela casa comigo! – falou Molly, arrancando risos dos demais.
— Desculpem, só tinha azul!
Lestrade adentrou o quarto carregando balões com os dizeres “É um menino”. Todos no quarto trocaram olhares e Mary e Molly tiveram que segurar o riso.
— Bem, é muito cedo para determinar papéis! – falou a Sra. Hudson, tentando amenizar.
— Oh, é ela?! – perguntou Lestrade apontando para o bebê, agora no colo de Molly.
— Não Lestrade! É um bebe que Molly roubou no hospital! – respondeu Sherlock ironicamente – Quão observador você é!
— Ela não é linda?! – falou Molly se aproximando de Lestrade com Emma no colo.
— Te faz pensar não é?!
A frase de Lestrade, seguida do movimento de seu braço que enlaçou Molly pela cintura, fez com que todos, sem exceção, os olhassem surpresos. Molly e Lestrade notaram e riram. Sherlock não precisou esperar que o comunicassem. Aquele sorriso, aquele movimento e o rosto avermelhado de Molly denunciavam tudo.
— O que está acontecendo aqui?! –John insinuou com certa malícia.
— Estamos namorando! – anunciou Lestrade.
— Oh Meu Deus! – exclamou a Sra. Hudson com um sorriso enorme no rosto. – Parabéns!
— Quando aconteceu? – perguntou John.
— Dois meses atrás! – informou Molly – Estávamos jantando...
— E depois fomos andar pela ponte...- completou Lestrade.
— Estávamos na ponte, dai ele...
— Eu? Foi você! – interrompeu Lestrade rindo.
— Não foi você?! Tem certeza? – perguntou Molly também rindo.
— Certeza absoluta que não fui eu!
— Eu tenho certeza que foi!
— Chega disso, pelo amor de Deus! – interrompeu um Sherlock, até então escondido nas sombras, de forma ríspida. – Dois meses e já estão insuportáveis assim?! “Foi você?”, “Ai, claro que não, foi você”. Pelo amor de Deus!
E, sem se despedir ou aviso prévio, Sherlock saiu do quarto.
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