Dentro do Palácio
2 Aquele em que Sherlock e Molly estão em negação
Um lugar seguro. Lá estava ele, novamente, na sua fortaleza. Era o único lugar para onde podia ir. Aliais, era sempre esse o lugar para onde ia. O som do mar, o farfalhar das folhas e o cheiro de sal. A diferença é que agora ela não segurava mais a sua mão. Ela estava afastada, sentada, em outro ponto daquele penhasco. Ele a olhava, a expressão dela era tão calma. Um sorriso singelo de quem está verdadeiramente em paz e feliz.
— Pode ser? – ele perguntou.
Ela se virou, ainda sorrindo.
— E o que você faria se não pudesse? – rebateu.
Sherlock não respondeu, talvez nem tivesse a resposta pra essa pergunta. Seus olhos voltaram a admirar aquela paisagem.
—--------------------------------------------------------------------------
— Então, sem casos hoje? – perguntou John enquanto um Sherlock de pijama dedilhava seu violino.
— Nope! Na verdade, estou no mais puro tédio!
Sherlock levantou-se do sofá em um pulo e rodeou a sala, impaciente.
— Sherlock, me responde uma coisa, o que houve com você no hospital?
— Hum? Ah, nada! Apenas não suporto a felicidade por muito tempo! – respondeu.
John riu. Era óbvio para Sherlock que o amigo não confiava em suas palavras.
— Sherlock, você já tinha progredido! Não vamos retroceder, por favor!
Sherlock voltou a pegar seu violino e posicionou-se de frente à janela.
— Porque não cortamos o papo-furado e você me diz logo o que quer dizer?! – disse o detetive enquanto iniciava uma canção no violino.
— Ok! – concordou John prontamente, endireitando-se no sofá – Molly e Greg?
E parou por ai. Sherlock se virou, como se esperasse por mais, mas apenas recebeu uma erguida de sobrancelha de John, indicando uma insistência na resposta.
— Feitos um pro outro! Por quê? – respondeu, voltando- se ao violino.
— Você está bem com isso então? – insistiu.
Sherlock respirou fundo, controlando sua impaciência para com o amigo.
— Eu poderia dizer que estou de acordo, contanto que não ajam como idiotas na minha frente, porém acho que seria demais pedir isso para Lestrade!
— E para Molly?
Sherlock hesitou.
— O motivo de todas essas perguntas se deve à...? – perguntou Sherlock.
— Sua saída repentina no hospital, logo após o pronunciamento de namoro entre Molly e Greg!
— Então você acha que eu sai porque senti ciúmes ou algo?
Foi à vez de John hesitar. A franqueza de Sherlock o deixou sem jeito, e o detetive viu nisso uma vantagem.
— Sim! Mary e eu achamos isso – falou por fim.
— Por favor... – resmungou o detetive. – John, você é uma das poucas pessoas que sabe o que Molly sente por mim! Acha mesmo que se eu me sentisse igual, já não teria ido atrás dela?
John não respondeu.
— Além do mais, creia-me, como disse para você no nosso primeiro encontro, não tenho interesses em relacionamentos! Sentimentos – falou colocando bastante desprezo na voz – são para os fracos, e acredite, eu evito ter pontos de fraqueza!
Após esse discurso, Sherlock voltou à janela e ao violino, dando as costas para o amigo. John sabia que esse gesto significava que o assunto estava encerrado.
— Bem, Sherlock, se após todos esses anos sua convicção continua a mesma, então acho que não há mais nada a fazer!
— Graças a Deus! – resmungou o outro em resposta.
John não soube dizer por que naquele momento seus sentimentos de admiração pelo amigo se converteram em pena. Há muito tempo ele entrara na vida de Sherlock. Na época, John era um homem solteiro, perdido, que havia acabado de sair da guerra, e Sherlock era um jovem solitário, inteligente e ambicioso. Agora, John estava casado, com uma casa e uma filha recém-nascida, e Sherlock permanecia o mesmo homem solitário, inteligente e ambicioso. Naquele momento, enquanto observava o amigo fechado em seu palácio mental, enquanto tocava violino, um sentimento de piedade veio em seu coração. Sherlock podia passar pelas mais loucas aventuras, mas sempre permaneceria o mesmo. Não importava quantas pessoas decidissem se aproximar, ele sempre estaria sozinho.
— Até mais, Sherlock! — disse John descendo as escadas. Já não podia mais contemplar aquela cena.
—---------------------------------------------------------------------------
— Você está feliz?
A pergunta foi súbita. Não estava em seu local habitual. Não havia cheiro salgado ou o som das gaivotas. Era apenas um local escuro. Sem teto, sem chão, era como se Sherlock estivesse flutuando no vazio.
— O que houve? – perguntou o detetive olhando pros lados.
— Responda! – ordenou a voz em seu tom autoritário.
Sherlock sempre cedia aquele tom.
— Estou satisfeito! – respondeu.
— Mas não está feliz! – rebateu.
— Felicidade é uma ilusão!
— Estamos em uma! – falou. Sherlock não soube rebater a isso — Isso aqui te deixa feliz? – perguntou.
Sherlock olhou para Molly, e sorriu.
— Sim!
—--------------------------------------------------------------------
— Então, você e Greg?!
Molly estava tão distraída brincando com a pequena Emma ,que ficou levemente surpresa com a pergunta repentina.
— Quem diria, não?! – foi o que ela respondeu.
Mary analisou Molly por alguns segundos.
— Esta pronta pra isso?! – a voz de Mary soava mais como a de uma mãe preocupada. Uma mãe que sabia os segredos mais profundos.
— Sherlock só é alérgico a felicidade, Mary! — respondeu, sabendo ao que Mary se referia — Infelizmente, eu não sou!
E dizendo isso, levou sua mão direita em direção a Mary, mostrando um anel que ocupava um lugar no seu anelar.
Mary soltou uma exclamação de surpresa.
Fale com o autor