Notas iniciais
HEEEEEEEY AMORECOS!

Como estão? Capítulo novo para vocês e se tudo der certo amanhã tem mais.

Obrigada por estarem acompanhando, vocês me deixam mega feliz!

Beijo cheio de brilho azul para a minha Nutella aqui do Nyah Bloodzuda pela recomendação gamante! Você é MUITO LINDA, venha já em um abraço de urso virtual!

Amores de Santa Maria, meu coração está com vocês ♥.

POV – A restauradora da honra familiar.

Ela não deveria ser tão mal-agradecida e mesquinha, mas na realidade – mesmo que nunca confessasse em voz alta — estava cansada.

Cansada das meias verdades que ouvia da avó – que nunca explicavam o bastante sobre as suas “raízes bruxas, oh trovões ao fundo”–, da solidão à qual fora condenada não podendo falar nem com Lenn; de tantos deveres e tarefas complicados que lhe eram passados por Sheila; da escola nova, de tudo.

Estava no limite da sua sanidade. Queria fugir a qualquer momento e voltar para a sua vidinha de sempre ao lado das amigas sob os ares pacatos e tediosos de Mystic Falls.

Sentia falta de ser a garota desligada rindo e censurando a rebeldia de Elena ou a futilidade de Carol. Sendo censurada também pelas mesmas, apenas por aparentemente buscar sempre a perfeição.

“Mania idiota” praguejou sabendo que esse mesmo defeito-qualidade era o que a impedia de fugir daquela prisão domiciliar sem sentido e voltar para o seu lar acolhedor.

Tinha que ser a neta perfeita e boa que obedecia a tudo para “comprar” o amor da avó. A filha exemplar que ouvia os conselhos maternos de “oh fique um tempo por aí, Bonn” para deixar a mãe feliz. A amiga ideal que deveria ficar longe das pessoas que amava para não contaminá-las com o erro que ela cometera.

Ah se pudesse voltar no tempo e jogar o colar aterrador no lixo em vez de dá-lo a Elena... O que estava pensando afinal naquele dia?

Gemeu querendo apagar aquilo da memória passando as mãos pelos cachos ruivos. Podia sentir pela temperatura, cheiro do vento e luz solar que eram exatamente oito horas da manhã.

Ela aprendera a prever as horas com a avó no dia em que foi comunicada que ficaria hospedada ali por meses e não semanas como pretendia.

“Para que sinta que o tempo corre depressa, meu amor” murmurara Sheila na ocasião quando a viu pasmar ante a notícia.

A partir daí a cada dia aprendia coisas novas. Infusões, controles mentais e brincadeiras com a natureza como aquela. Ok. Tinha todo um lado meio Harry Potter ou Brumas de Avalon que a faziam sentir-se bem especial, mas qual era a graça se não podia contar para alguém e dividir aquelas experiências?

A sua Hogwarts era apenas um casebre de madeira e a floresta que o abraçava, e vovó Sheila era um péssimo Dumbledore.

– Querida? – Soprou a voz da porta como se lesse seu nome em seus pensamentos. Sheila vestia um belo roupão japonês com ideogramas indecifráveis e exibia um sorriso calmo e acolhedor no rosto.

Ela conhecia muito bem aquele tom. No simples apelido carinhoso continha uma ordem implícita: “Vá se arrumar e preparar-se para mais aulas malucas que a fortalecerão para que possa restaurar a honra das Bennett”. Todo dia era a mesma coisa.

O pequeno detalhe daquela restauração era que ela exigia um preço de sangue, Bonnie teria que matar uma “besta” do Apocalipse ou algo assim que segundo seus pressentimentos, estava em Mystic Falls. O fato a assustava, mas estava ainda mais aterrorizada com a possibilidade desse ser estar tão perto da sua mãe ou seus amigos. Perto da vida que realmente pertencia a ela. Talvez mais por esse motivo do que por ordens da avó, é que se esforçasse tanto em prol de algum progresso relativo à bruxaria.

– Preparei seu café da manhã, o que acha de comermos lá fora hoje? Tenho uma surpresa agradável para você.

A frase a pegou de surpresa. Não estava no cronograma de “falas matinais da vovó” e Sheila era sempre muito rígida em suas repetições rotineiras.

“Querida?”, “Emily ficaria orgulhosa de você”, “Seus verdadeiros amigos são a destreza e o poder, meu amor” e “Seu cabelo tem cacheado aqui”, eram frases indispensáveis e todos os dias eram religiosamente repetidas, como se a mulher fosse um robô ou algo do tipo.

Bocejou se espreguiçando de forma manhosa e assentiu uma vez com um sorriso mínimo no rosto.

A mulher repuxara os lábios em aprovação e retirou-se do vão da porta com uma leveza invejável.

– ISSO que é legal ela não me ensina – Sussurrara para si mesma, vasculhando no armário algo que pudesse usar naquele dia. Não havia porque tomar banho, já que sempre saía dos treinos completamente imunda e cheia de hematomas e as roupas não ficavam atrás com rasgões vândalos e terra as manchando. Certa vez até perdeu um tufo de cabelo ruivo tentando levitar.

Optou por uma calça jeans que com certeza rasgaria e uma blusa preta simples que a deixava mais pálida do que já era e foi ao banheiro lavar o rosto e escovar os dentes.

Arrastou-se vagarosamente até o jardim e percebeu espantada que alguém estava acompanhando sua avó.

Era uma menina mais ou menos da sua idade, a pele escura de uma cor de chocolate inebriante, cabelos castanhos escuros ondulados e assim que virou-se mostrara que tinha olhos verdes quase mel.

Anfitriã e convidada, antes concentradas em uma conversa de sussurros contidos, agora interrompiam bruscamente o assunto para encará-la com expressões simpáticas no rosto. Forçou-se a fazer o mesmo e juntar-se a elas à mesa enquanto Sheila parecia se preparar para as apresentações.

– Meu amor, essa é Lucy Aislin, uma prima distante que graças à Hécate não partilha da nossa maldição. – Os olhos azuis encararam a garota como se lhe fizessem um afago. Um carinho falso. – Além de ser uma sacerdotisa renomada, é claro. – Acrescentou com um sorrisinho estranho. – Lucy, essa é Bonnie, a neta da qual tanto falo.

A visitante a encarou estendendo e mão com simpatia e ela animada fez o mesmo. Finalmente outra sacerdotisa! Será que iria tomar aulas com ela?

– É um prazer conhece-la, sua avó realmente fala muito sobre você. – Declarara com aquela formalidade típica de apresentações.

– Igualmente. – Retribuiu largando a mão de dedos longos. – E espero que ela só conte as coisas boas.

Lucy riu divertida e assentiu algumas vezes. – Apenas as melhores qualidades.

Sheila sorria meio alheia enchendo a xícara da neta com o famoso Chá da Víbora. Uma mistura de ervas que tinha gosto de lixo, mas que aparentemente aumentava seus poderes.

– E como falar algo diferente? Você sempre me enche de orgulho minha querida. – Confirmou a senhora com um ar empolgado. – E me fará ainda mais orgulhosa daqui a três meses.

Aceitou a bebida franzindo o nariz e bebericou rapidamente sentindo o gosto de lama invadir sua garganta. Seus olhos lacrimejaram por breves instantes e ela engoliu a tosse para não passar vergonha na frente de duas sacerdotisas experientes.

– Três meses? – Perguntou tentando dispersar o enjoo que embrulhava seu estômago. – Não eram seis... Ou melhor, cinco? – Corrigiu-se ao lembrar corretamente que um ciclo já se fora.

Suas duas companhias trocaram um olhar cúmplice e então Lucy vasculhou algo na bolsa pequena que trazia, retirando um folheto médio exibindo fotos d’O Fantasma da Ópera e entregando-lhe.

Não precisava nem tocar no papel brilhoso para saber do que se tratava. A festa temática da Mystic Falls High School.

Recusou que um suspiro saísse dos seus pulmões e colocou o folder em cima da mesa como se fosse contaminado. Elas queriam deixa-la à beira das lágrimas mostrando uma festa pela qual se preparou o ano inteiro e que agora lhe seria negada?

– Para quê isso? – Exigiu saber sem conseguir formular nada melhor.

Olhos azuis e verdes se chocaram.

– Eu tenho vigiado a Besta, Bonnie e tenho percebido que ela tem evoluído em maldade muito rapidamente... Imagine que o ser colocou um demônio residindo no seu lar junto à sua família! É um monstro vil e sem coração. – Discursara Lucy com uma ênfase quase política. – Vim procurar Sheila para alertá-la e chegamos à conclusão que como é muito talentosa n’A Arte, poderia muito bem enfrentar esse desafio antes.

– O baile vai ser uma ocasião perfeita, meu anjo. Tenho certeza que até lá terei conseguido manipular todas as minhas peças para cercar a vítima da Visão e ficará mais fácil para você. – Acrescentara Sheila com os olhos pacientes como sempre.

Bonnie recostou-se à cadeira segurando a xícara com as duas mãos como se fosse o seu coração. Uma angústia a assombrava e um medo complexo brincava com seus ossos a fazendo tremer.

O conceito de matar alguém por pior que fosse, era palpável talvez em um papel ou uma conversa acalorada de bar, mas sinceramente ela teria a coragem de fazer com que a vida se esvaísse do corpo de uma pessoa por conta própria? Não se tornaria ela então a grande Besta da história?

Ao mesmo tempo ela era uma Bennett e devia isso às mulheres da sua família (os homens sempre morriam ou sumiam drasticamente antes mesmo de Emily existir) porque um dia seria ela a acorrentada a essa maldição e outras milhares de meninas que estariam por vir.

Era o que os pagãos antigos chamavam de estar entre a cruz e a espada.

Porque a busca pela perfeição era tão difícil e dolorosa?

Suspirou pesadamente fechando os olhos em busca de alguma paz e ficou assim por um tempo, apenas ouvindo o canto dos pássaros e o ruminar do vento. O som era o mesmo que ouvia em sua casa e aquilo a lembrava de todos os habitantes da cidadezinha correndo risco por causa de um Monstro que estava para surgir.

Tinha que carregar sua cruz, definitivamente. A espada não era uma opção quando envolvia outras vidas.

– Eu vou precisar de um vestido. – Murmurou baixinho ao perceber que as duas mulheres esperavam atentas por uma resposta sua.

Um sorriso largo enfeitou o rosto de vovó Bennett e a menina levou a xícara aos lábios sabendo que não conseguiria retribuir com a convicção necessária.

Para a sua surpresa o gosto desagradável que invadia seu paladar dessa vez não se assemelhava a lama.

Tinha mesmo, é gosto de sangue.

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POV – Elena Gilbert.

O arfar saiu de seus pulmões precedendo à queda dolorosa do seu corpo no gramado como se fosse um saco de farinha e, pela primeira vez na vida, rogou aos deuses agradecendo pela sua baixa estatura ou o impacto seria maior. Abriu os olhos sentindo cada músculo do seu corpo protestar e encarou, infeliz, os olhos acinzentados a fitando de cima com irritação.

– Você está pelo menos tentando se defender? – Ralhou impaciente e irritado, como o professor bundão que era.

Aquilo era tão injusto que ela tinha vontade de socá-lo. Estava dando cem por cento de si naqueles treinos inúteis e tudo o que ganhava eram broncas e hostilidades.

Olhou para Johanna implorando por alguma defesa quanto ao seu desempenho, mas a morena parecia entretida demais no pequeno pote de sorvete que ganhara de “Gilly”, como ela chamava.

Dois erros cruciais que a menina cometera com a sua guardiã: Apresentar os prazeres do açúcar (isso parecia nome de motel e confeitaria ao mesmo tempo) e as músicas de Katy Perry. Johanna agora roubava todas as sobremesas da sua casa e ouvia literalmente O DIA INTEIRO as músicas da cantora pop.

Nos últimos tempos se Lenn ouvisse alguém cantando “Dressin' Up” ou “Wide Awake”, era dominada por uma fúria surreal capaz de deixar até o próprio Diabo em alerta.

Grunhiu frustrada levantando-se e fuzilando Damon com os olhos.

– Estou. Fazendo. Tudo. Como. Você. Mandou. – Murmurou entredentes massageando a coluna.

O demônio sorriu desdenhoso se aproximando mais.

– Bom, obviamente está fazendo do jeito certo já que tudo que conseguiu até agora foi cair em modalidades diferentes. – Dissera em seu ouvido com o sarcasmo soando alto.

A garota fechou os pulsos o jurando de morte mentalmente e tentou recordar o que aprendera nos últimos dias. Por algum motivo a imagem de Damon sem camisa aparecia em sua mente perturbando sua concentração (sim ele a treinava sem camisa porque no primeiro dia de treinamento ela, sem querer, rasgara uma peça dele e se isso se repetisse o demônio ficaria com poucas roupas /ou nenhuma. Claro que isso era uma desculpa para desconcentrá-la, ele podia muito bem “criar” roupas novas ou remendar em um passe de mágica os tecidos rasgados, mas convenhamos... Se você pudesse ver Damon Salvatore sem camisa todos os dias, iria reclamar?). Sacudiu a cabeça recobrando a dignidade e por um segundo lembrou-se de algumas coisas.

O mito de que demônios/vampiros não podiam sair no sol nascera graças à sensibilidade que eles tinham na retina, então, o ideal seria sempre andar com uma lanterna ou um espelho para refletir luz e cegá-los por um tempo. Ok, muito legal, mas não servia com o Damon. Ele era preparado para isso.

Demônios eram mais sensíveis do lado direito do corpo, na verdade, só chegavam a sentir mesmo golpes nesse lado. Pontos como o “plexo solar” (Damon odiou quando a ouviu dar nomes de chacras para as áreas mais suscetíveis ao ataque, mas era mais fácil de lembrar) ficavam extremamente doloridos quando acertados com a força necessária e correspondiam a três extremos: olhos, abdômen e a sola do pé. (Ela como boa menina briguenta também conhecia um local ideal para acertar demônios, humanos e aberrações masculinas semelhantes, mas nas duas vezes que tentara usar o truque contra o seu demy*, teve a perna praticamente torcida no ar antes de atingir o alvo).

A explicação para esses “Calcanhares de Aquiles” aparentemente era que Lilith destroçara os próprios filhos gêmeos e arrancara deles os mesmos pedaços citados para criar selos que prendessem as criaturas das trevas.

Analisando por esse prisma, a Sra. Satanás parecia ser melhor madrasta do que mãe.

Isso era tudo que lembrava, e era de longe insuficiente, mas talvez o que precisasse fosse justamente menos concentração no que seu servo falava e mais intuição.

Respirou fundo abrindo seus olhos e percebeu que Damon não havia deixado de encará-la (infelizmente também tinha colocado a camisa de volta). Corou de leve pelo pensamento olhando para Johanna para esconder as bochechas “queimadas” e começou a massagear as mãos para ajudar na circulação.

– Estou pronta. – Avisou o fazendo erguer uma sobrancelha com o ar divertido. – Só, comece logo com isso Salvatore.

Ele não precisou de outra palavra de incentivo, moveu-se com agilidade pegando o braço da menina, a puxando a para si enquanto girava o corpo humano frágil de modo que ficasse de costas para ele. Elena tentou usar seu tamanho como arma, abaixando-se para sair da armadilha, mas foi inútil. Estava imobilizada de novo. E dessa vez em tempo recorde. Qual é! A coisa da intuição sempre funcionava em filmes!

Xeque-mate. – Murmurou convencido com a vitória fácil. – Essa é o quê? A milésima vez que eu ganho de você?

– Milésima nona vez, na verdade. – Corrigiu Johanna mais precisa.

A provocação a irritou, virou-se impulsiva encontrando o antebraço do demônio e como uma criança, o mordeu com toda a força do mundo. Ou pelo menos tentou.

Os músculos definidos pareciam que iam quebrar seus dentes antes que ela realmente conseguisse provocar algum tipo de dor.

Ele pareceu surpreso por alguns instantes, mas não a largou e após poucos minutos estava rindo da tentativa fracassada dela. Idiota.

– Boa tentativa, Lenn. – Ironizou aumentando o aperto da sua armadilha a obrigando a largá-lo. – Agora vem sua parte predileta.

E a derrubou de lado no chão. DE NOVO.

O Impacto a atingiu com força novamente, mas percebeu com alivio que a primeira vez doera muito mais que as outras (Porque ela achava que Johanna acharia essa frase meio pornográfica se a ouvisse?), Enfim.

Bateu os pés no chão irritada como uma criança birrenta enquanto ouvia as risadas de Johanna e Damon ecoarem sob o jardim abandonado.

A nova casa de Elena não possuía nenhuma outra construção como vizinha, apesar de não ficar tão longe assim da civilização graças a um atalho que dava acesso direto à Mystic Falls High School.

Ok sendo bem sincera, ficava uma rua depois do fim do mundo, para onde o David Jones levou o Jack Sparrow em Piratas do Caribe 3. Tsc.

Mas se antes achava aquele fato mórbido e entediante, agora com os treinos soava perfeito.

Invadiam o terreno baldio há poucos metros da sua residência todas as tardes, e o tomavam para suas reuniões “secretas” não levantarem as suspeitas embaraçosas que renderiam se treinassem no jardim da própria casa. Coisas como: “Olá filha, porque você e Damon estavam atracados na grama?” e “Oh seu pai foi à delegacia denunciar o estrangeiro maluco que burlou a lei contra a violência às mulheres”. Pff seria demais para ela.

O único problema era quando se atrasavam e chegavam tardiamente à casa e seus pais já estavam lá.

Damon não sofria nos treinos então aparecia com a aparência impecável, mas ela simplesmente surgia como um atração de Halloween que sempre rendia piadinhas e interrogatórios.

Até nisso o filho da mãe do seu servo levava vantagem. (Porque ela não pedia simplesmente para que ele a arrumasse em um “passe de mágica”? Bom, depois de ver-se vestida como uma freira, uma drag queen e uma professora de meia idade, ela desistiu de ordenar qualquer coisa relacionada a roupa para o demônio).

Aproveitou que a perna demoníaca estava a poucos centímetros dela e a chutou.

– Dê risada o quanto quiser, porque eu vou fazer a mesma coisa quando um demônio fodão aparecer, der uma surra em vocês dois e me roubar para ficar na terra por tempo indeterminado. – Declarou erguendo-se sob os cotovelos. – Ainda vou fazer questão de dar os parabéns para ele!

Damon revirou os olhos com o drama feminino e estendeu a mão para que ela levantasse.

– Ok, Elena... Vamos voltar ao treino. – ordenou enquanto a suspendia do chão como se ela pesasse o mesmo que uma caneta. – Talvez o problema não esteja em você afinal. – Avaliou a encarando pensativo.

– Isso! Eu sou uma boa aluna, se algo está dando errado obviamente a culpa é de vocês.

Ok talvez a culpa não fosse de nenhum dos lados, mas estava irritada.

Ele encarou Johanna de forma significativa e ela fez um sinal com a mão que parecia dizer “Vá em frente”.

Um suspiro cansado fugiu dos seus pulmões e se aproximou de Elena deixando seus olhos entrarem em chamas.

– Petrova, lembra-se do que eu expliquei sobre as diversas religiões do mundo? Preciso que me diga tudo o que entendeu.

Ugh, aquele nome não! O fitou com reprovação, mas resolveu se concentrar na pergunta. Alguns dias atrás ela o perguntara se todos os deuses mitológicos existiam e ganhara uma resposta que a agradara bastante. Tentou sintetizar tudo mentalmente e responder sem o entusiasmo verdadeiro que sentia.

– As religiões são como países, que possuem governantes e regras diferentes. Um inglês não pode chegar ao Brasil esperando o mesmo sistema do seu país. – Recitou lembrando-se que fora o mesmo exemplo que ele dera. – Enquanto a Rainha e o primeiro Ministro governam o primeiro, um presidente da república cuida do segundo. Ambos são autoridades, mas cada um em seu próprio campo. Assim como Deus, Rá, Zeus, Dagda e Odin coexistem sem se meterem no assunto um do outro. Se eu fosse brasileira e morasse no Brasil estaria sujeita às regras daquele país e vivenciando o que ele oferece, assim como alguém que cultue a mitologia judaico-cristã irá passar pelo sistema dessa cultura e não da egípcia ou nórdica. – Damon assentiu para que ela continuasse. – Um cristão ao morrer vai para o céu ou o inferno sem nem ter acesso ao Submundo de Hades ou a pós-vida de Osíris, para ele é como se as outras opções nem existissem. No final, o alvo da minha fé é o que escolhe o que é “real” ou não para mim. Se você falasse com alguém de uma religião que não acreditasse em demônios, não seria visto ou ouvido.

– É você entendeu. – Cortou meio impaciente com a floreada filosófica que ela deu no final. – O problema é que escolher o “país” ou o “estado” em que vai morar é um direito humano, eu como uma criatura da mitologia judaico-cristã não posso escolher outro caminho por mais que diversas mitologias acreditem em demônios. Sou filho de Lúcifer e ele é uma criatura tão cristã quanto Jesus.

Elena riu levemente imaginando Lúcifer ajoelhado em uma igreja rezando, mas logo adotou uma expressão mais séria para que Damon não a queimasse.

– Entendi, nada de Olimpo para você. Bem, pelo menos você nunca vai levar raios de Zeus na cabeça porque ele não pode se meter em uma mitologia que não é a dele. – Brincou repentinamente lembrando algo mais interessante. – Hey, isso quer dizer que quando Thor está lutando com alguém e provoca trovões uma pessoa que cultua Zeus não ouve?

Damon a olhou como se nunca tivesse pensado nisso e então deu de ombros indiferente.

– Acho que a pessoa só vai interpretar de um modo que não envolva o deus nórdico, mas deve ouvir. Enfim, Elena, essa conversa toda tem um propósito... – A olhou deixando os olhos azuis ficarem mais vermelhos. – Você precisa entender que receber algum tipo de poder meu, vai imediatamente prendê-la a mitologia à qual eu faço parte e não vai ter o direito de escolha.

A garota cruzou os braços.

– Mas a sua mitologia é meio chata! – Acusara com um biquinho de chateação. – Na Grega eu poderia ter um filho do Apolo.

– Na minha você pode ter um filho de um demônio. – Apontou com um sorriso divertido que brilhava em malícia.

– Ha-ha, é realmente isso me convenceu. – Dissera sarcasticamente para evitar corar com a insinuação. – De qualquer forma, para quê todo esse aviso? Eu vou receber algum poder seu ou algo assim?

– Talvez, para que consiga lutar em condições mais “justas”. – Os ombros do homem levantaram e desceram enquanto ele se aproximava ainda mais a olhando de cima. – Mas antes preciso ver se iria dar certo, Petrova.

Aquilo a irritou levemente.

– Pode parar de me chamar assim? Você sabe que eu odeio o meu nome do meio.

– Mas foi o nome que seus pais escolheram, aqueles que a abandonaram, você lembra não é? – Provocou com os olhos completamente vermelhos.

O que ele queria? apanhar? Metaforicamente é claro, ela não conseguia bater nele de verdade.

– O que está tentando fazer Salvatore? – Buscava a resposta vendo o brilho diabólico em seus olhos aumentar com satisfação.

Um sorriso brincou em seus lábios.

– Tentando vê-la realmente com raiva para que eu possa passar algo de útil para a minha aluna rebelde. Preciso que esteja contaminada por um dos sentimentos que tenho, para criar uma “ponte” até você. – Explicou em um tom paciente que soava sombrio com aqueles olhos rubros. – Tinha me esquecido que você era terrivelmente lenta.

Ah, ok a ofensa gratuita tinha um motivo. E lenta era a mãe dele!

– Se ajuda em algo, fique sabendo que desde que você chegou tudo o que sinto é raiva. – Falou olhando pela visão periférica Johanna meio em alerta, como se algo pudesse sair do controle mais a frente. Elena queria se mostrar furiosa, mas saber que era uma espécie de teste a deixava assustada. – Ok, não está funcionando Salvatore, porque me revelou tudo? Que tipo de gênio maligno você é se me conta todos os planos? – Suspirou frustrada jogando os braços ao lado do corpo.

Damon deixou seu cenho pesar e fez uma careta.

– Nisso eu preciso concordar com você, mas achei que se explicasse tudo detalhadamente seria mais rápido. Preciso buscar Victória em casa daqui a uns... Vinte minutos? – Projetou sua voz na direção de Johanna e ela assentiu como se fosse sua agenda particular.

Elena mordeu a língua sentindo seu sangue ferver com aquela última informação.

Nunca chegara a confirmar o que Matt lhe dissera dias atrás, e com tantos treinos e coisas a sobrecarregando não pensou muito nisso. Entretanto, lá estava a resposta clara e fria brilhando bem na sua cara.

Victória Donovan era uma das garotas mais bonitas locais. Morena clara assim como ela, alta, magérrima com lábios de Angelina Jolie e cabelos de um louro escuro com mechas mais claras. Nunca prestara muita atenção aos olhos da ex-cunhada, mas definitivamente eram claros. Talvez verdes.

Até se davam bem na medida do possível, mas agora obviamente sua imagem era vinculada a puro ódio para Elena.

Apertou as mãos em punhos e riu com um ultraje que não conseguia esconder.

– Então o que ainda estamos fazendo aqui? Por favor, não quero atrapalhar o seu precioso encontro. Vá logo, posso continuar com Johanna. — Sua guardiã levantou-se meio preguiçosa e pouco animada com a expectativa assim que ouvira a frase.

Os olhos demoníacos caíram sob os seus.

– Já disse que posso cuidar disso por mais vinte minutos.

– Já disse para ir logo. – Grunhiu sentindo-se cada vez mais irritada. – Não quero roubar o seu tempo com a Vick Vaporub.

Damon riu e ela ficou na dúvida se era pelo apelido que ela dera para a namorada do idiota ou se por seu tom de mulher recalcada.

– Você está com ciúmes, Elena? – Apesar de ter sido uma pergunta, sua expressão mostrava que ele já sabia a resposta.

– Desse ângulo aqui, está parecendo. – Gritou uma Johanna que morreria em breve por aquele comentário.

– Ah sim, estou morrendo de ciúmes Salvatore. – Respondeu com ironia sabendo no fundo que era verdade. – Você fala como se eu estivesse muito interessada em você, Damon. Já ouviu falar em narcisismo?

Ele parecia estar se esforçando para não rir de novo.

– É a minha maior qualidade. – Brincou com os olhos ficando azuis por alguns segundos e voltando ao vermelho. – Em minha defesa, só posso falar que quem deu a ideia foi o seu namorado Mike.

Elena arquejou levemente não acreditando naquilo.

– O nome dele é Matt e não me diga que ele chegou para você falando: “Hey não nos conhecemos, mas assim que o vi tive uma ideia incrível! Porque você não come a minha irmã? Parece ótimo.” – Ao externar em voz alta parecia ainda mais ridículo.

– Hey Gilly! – chamou Johanna divertida intrometendo-se de novo na conversa. – Você pode falar isso para mim a qualquer hora trocando o: “come a minha irmã”, por “deixa o meu irmão te comer”. – Continuou rindo e percebendo que era a única que achava graça ali.

– Ele deu a ideia quando a procurou para dizer que eu e a irmã dele parecíamos íntimos ou sei lá. – Damon falara ignorando a interrupção. – Eu nunca nem tinha ouvido falar nela.

A adolescente deu um passo inconsciente para trás

.

– Está dizendo que o Matt mentiu para mim? – O loiro nunca faria isso, mais do que “ex-namorado”, era seu amigo. – Espera... Como você sabe que ele me disse isso?

Os olhos de Damon pareciam chamas novamente enquanto cruzava os braços e seus lábios formavam um sorriso sarcástico.

– Deveria ter prestado atenção quando eu disse que poderia mudar de aparência. – Declarara com simplicidade.

Oh droga.

– Você estava me espionando? – Exasperou-se o empurrando inutilmente. – O que você ouviu?

Era ridículo, mas ela estava meio envergonhada. Nem falara nada demais, só que era algo particular.

Salvatore deixou que seu rosto se tornasse amargo.

– O bastante. – falara parecendo desconfortável com a situação. – Incluindo pontos bastante curiosos como quando você disse que o idiota era atraente ou algo assim. Não, espera... a frase exata foi: “ Você já é lindo, Matt”. – Concluíra como um gravador.

Ela recuou sentindo o rosto queimar junto com uma sensação estranha em seu peito. Um filete de alegria, talvez?

– Você... está com ciúmes, Salvatore? – Murmurou incrédula tentando reprimir um sorriso.

Ah a doce vingança, esperava de verdade que ele ficasse parecendo um idiota tentando negar a acusação igual ela ficava. Aí ela poderia rir charmosamente como ele ria!

O problema era que Damon era tudo, menos previsível. O azul-avermelhado a analisou categoricamente.

– E seu eu estiver? – Aproximara-se desafiador. – E se eu disser que odeio se quer imaginar você conversando com ele ou com qualquer um? Ou se eu deixar bem claro aqui que o que se o vir de novo com você vou matá-lo? Faria alguma diferença?

...

...

...

Se alguém tinha algum guia de como agir quando demônios falavam isso que emprestasse para ela agora.

Balbuciou coisas sem nexo sentindo o coração dividido em um misto de felicidade e medo. O modo como o demônio falara aquilo soara como aqueles namorados psicopatas que sequestravam a garota que amavam e a matavam se ela os rejeitasse.

Nenhum traço de hipérbole passava por aquele “matá-lo”. Ao mesmo tempo, era impossível não ficar como uma menininha boba ao ouvir algo que se assemelhava tanto a uma declaração. , não tinha como explicar. Era tudo complexo demais, absurdo demais.

Damon, a centímetros dela, ainda parecia esperar uma resposta.

– N-n-n-não deveria me espionar. – Sério, Elena Gilbert? Milhões de frases para falar e você fala isso?

O rosto de feições perfeitas a encarou por um longo tempo antes de se afastar fitando o gramado com um sorriso azedo.

– Não pretendo fazer de novo, Victória não iria gostar. – Dissera com dureza.

Elena levou a mão até a corrente do medalhão sentindo a raiva adormecida retornar.

– Ótimo e deixe Matt em paz. Resolvi a partir de hoje ficar BEM PRÓXIMA dele.

Johanna agora caminhava rapidamente na direção dos dois parecendo prever algum evento desastroso.

– Fique a vontade. – Sua fúria era palpável naquelas feições diabolicamente lindas. – Mas, estou avisando que se esse imbecil resolver dar uma de salvador de donzelas indefesas quando eu estiver arrancando sua alma, vou fazer questão de matá-lo da forma mais dolorosa existente.

Era de se esperar, um demônio não amava, só se preocupava com almas. Era esse o ciúmes, essa a possessividade. Será?

– É só isso que importa para você não é? Fique tranquilo, assumi um contrato e vou cumpri-lo, mas eu e Matty ainda temos cinco ou mais meses juntos e pretendo usá-los de forma BEM proveitosa.

Enxergava tudo de forma rubra e tinha certeza que ele fazia o mesmo. Estavam testando os limites um do outro, vendo qual iria ceder, qual iria sair mais machucado.

Sentiu em seu ombro a mão de Johanna que por sua vez parecia entediada e assustada com a briga inútil e ciumenta.

– Damon, acho que ela já está furiosa o bastante. – Avisou como dando um deixa para ele agir.

Os olhos azuis encararam os dourados e viraram de novo para os castanhos com o ódio que imperava já há minutos.

Levou os lábios até a mão e rasgou uma facha fina de pele liberando um filete de sangue quase negro. Parecia clichê o bastante para que ela intuísse sozinha que o próximo passo provavelmente era força-la a dar uma de Edward Cullen, mas não se importava. Queria agora mais do que nunca aquele poder que pulsava em Damon.

Aproximou-se sentindo a mão demoníaca puxando seu cabelo para colar-se mais a ele e em poucos segundos seus lábios sorviam o sangue do corte.

O estômago humano embrulhou-se com o gosto de ferrugem agridoce e teve que tentar prender a respiração para não enjoar. Queria de verdade beber até a última gota, só para sentir que roubava algo de Salvatore assim como ele roubava pedaços do seu orgulho cada vez que brincava com a sua sanidade e sentimentos.

Agarrou o braço demoníaco sugando com mais empenho o sangue que a tornaria páreo para demônios, bruxas ou o que quer que ousasse se meter com ela.

O fluxo espesso e quente, entretanto, fora seu alimento por poucos e dosados segundos. Recuou sentindo-se repentinamente tonta e cansada e acabou sendo carregada por Salvatore enquanto Johanna limpava seu rosto com o casaco.

– E... ag-ora?- Tentou perguntar atestando uma dor de cabeça enlouquecedora e uma falha dramática em sua visão.

– Agora é torcer para que tenhamos dosado certo e você não morra. – Damon murmurara segundos antes de o mundo virar um grande breu para Elena.

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Notas finais


O termo "demy" foi inventado pela Blood, esse crânio ruivo inteligente e divo.