Demônios Não Amam.

11 Eu, eu mesmo e Irene.


Notas iniciais
Xuxulis lindos e sedutores *-*, muito obrigada pelos comentários de incentivo, pelas "favoritações" ou por acompanharem.

Vocês me deixam mega saltitante com isso! Sintam-se a vontade sempre para dar sugestões, fazerem críticas, perguntarem coisas do enredo que não estão muito claras e tudo mais. *.*

A fic sofreu uma repaginação básica nos primeiros capí­tulos (especialmente o prólogo que mudou inteiro partindo de um outro ponto da história) porque a ideia original de fazer algo menos trabalhoso e detalhado mudou drasticamente desde que Sheila Bennett entrou com força total e eu precisava preencher as lacunas que havia deixado e desenvolver melhor os diálogos.

Enfim, xuxulis vou deixar vocês com o capitulo. Dedico à Robertilds, minha linda que pediu que eu escrevesse em primeira pessoa nem que fosse um trechinho (coisa que nunca fiz na vida, então, sorry aí xD).

Beijos,beijos:*


POV – Elena Gilbert.

Era como acordar depois de uma noite sem sonhos.

Ergueu-se franzindo o cenho ao sentir a luz matinal incomodar sua vista e acabou percebendo que um pano úmido caíra no edredom com o movimento. Estivera com febre depois do vampirismo daquela tarde? Lembrava-se que com certeza havia ficado enjoada, mas não esperava algo mais grave. Sangue de demônio deveria vir com uma bula que avisasse os efeitos colaterais!

Agarrou o tecido o jogando ao seu lado e fez uma pequena vistoria no quarto tentando se sentir mais reabitada ao seu corpo. Talvez esperasse ver Johanna perdida por ali, com algum doce nas mãos, alheia a tudo enquanto ouvia música ou pesquisava coisas interessantes nos tais livros que ela subitamente “achava” (lê-se: roubava das mais diversas bibliotecas mundiais com um simples estalar de dedos).
Ou, já que estivera febril, sua mãe lhe fizesse companhia como costumava fazer quando Elena era criança.
O fato era que até encontrar um alien dançando valsa com o Leonardo DiCaprio a assustaria menos que a cena vislumbrada.
Isso porque se de um lado, Damon repousava na poltrona a fitando com preocupação nos olhos, do outro -na cadeira da escrivaninha- Matt roncava baixo em um sono meio agitado que o fazia chutar o ar do nada de vez em quando.

Certo... O mundo havia enlouquecido enquanto ela desmaiou. Podia lidar com isso, não podia?

– Damon, eu estou tendo alucinações. – Reclamou baixinho ainda encarando Matt e sua luta com o nada.

O demônio sorriu indo na sua direção e checando a sua temperatura com uma gentileza que pouco combinava com a sua essência.

– Acredite, depois dos últimos três dias, ter alucinações seria o de menos. – Murmurara com a voz aveludada em um volume adequado para o ambiente.

Elena o olhou com desconfiança. Algo parecia estar muito fora do lugar e aquilo de “três dias” a incomodava, mesmo sabendo que as horas de treino pesado e absurdo poderiam se encaixar naquele contexto.

Percebendo a expressão feminina de “Fale logo o que diabos aconteceu”, Damon suspirou de forma lenta e pesada.

– Qual é a última coisa da qual se lembra? — Indagou por fim parecendo derrotado pelos olhos castanhos.

Não precisou pensar muito, a imagem estava clara em sua mente.

– De quando suguei seu sangue após quase nos matarmos no treinamento. – Sorriu ao pensar no ciúme todo que envolveu aquela cena, mas logo se controlou. – Provavelmente desmaiei depois, porque ainda lembro-me da tontura e dos meus pés saindo do chão. – dera de ombros. – Acho que me carregou ou algo do tipo.

Sua resposta não pareceu agradá-lo.

– Você lembra ainda menos do que eu esperava. – Fora sua confissão enquanto puxava seu rosto obrigando-a a encará-lo de forma mais completa.
Os olhos azuis pareceram fazer um exame minucioso em cada traço da sua face, como um médico à procura de sintomas no paciente, deixando-a corada e um pouco atônita.

Sua mente parecia trabalhar com mais dificuldade após ouvir aquilo. Do que não lembrava? Ou PORQUE não o fazia?

Adivinhando seus pensamentos, o demônio comprimiu os lábios. – É melhor apenas deixar tudo desse jeito, Elena. Descanse e depois conversamos. – Determinou se afastando.

Se antes estivesse indecisa sobre saber ou não aquilo, naquele momento viraria questão de honra saber.

– Damon Salvatore conte-me tudo! – Exigiu só depois recordando que deveria diminuir o tom de voz para não acordar seu ex-namorado.

Para sua sorte Matt não mudara muito desde os tempos de namoro e ainda tinha um sono de pedra. Nem um fio de cabelo loiro se mexeu com o barulho.

– Contar para você? Ficou maluca? – Sua voz entregava que ele realmente achava que ela havia ficado. – Não... Além do mais você não acreditaria. Se quiser mesmo saber tenho um método melhor para isso.

As ideias e métodos de Damon só a metiam em encrencas, mas com Johanna – e ela nem sabia onde a outra estava – deveria ser igual então não tinha muitas opções no momento.

– Ok, use-o logo. Odeio ser a última a saber coisas sobre mim mesma. – Murmurara levemente ácida.

O homem de olhos acinzentados assentiu uma vez e fez com que uma taça de prata com enfeites lindos surgisse iluminando um pouco mais o cômodo.

Algo muito parecido à água, mas com um cheiro adocicado era o seu conteúdo e a garota não resistiu e franziu os lábios.

“Isso Elena, beba coisas que demônios lhe dão. Vá em frente que com certeza vai dar tudo certo!” – Pensara com uma careta infantil.

– O que é isso?

Vodka. Quero embebedá-la para ver se esquece dessa história e dorme. – Ele brincou com os olhos faiscando. – Beba logo, eu já tenho sua alma e... – Pausara aparentando ter falado demais. – Já tenho muita coisa sua, o que você tem a perder confiando em mim mais uma vez?

Os olhos castanhos se estreitaram desconfiados da frase incompleta. Por favor, que ela não tivesse feito um ménage à trois com Damon e Matt! Se bem que a ideia soava até interessante agora que pensava com calm-. Certo, foco.

– Eu juro que se eu morrer, assombro você por toda a eternidade. – Ameaçou recordando só depois que isso provavelmente era impossível. Ele riu levando a taça até seus lábios e bebendo do líquido como prova de que o conteúdo era “confiável”. – Isso não me tranquiliza Salvatore, esse troço pode estar preparado para fazer mal só a humanos!

– Certo então, nada de lembranças para você. Até prefiro assim. – Disse dando de ombros e parecendo estar prestes a fazer a taça sumir. Elena engoliu em seco agarrando o metal das suas mãos e levando o líquido aos lábios como se estivesse sedenta. O pior é que estava mesmo, queria o quanto antes saber de tudo.
Acabou com a bebida em segundos e se fosse preciso beberia outra em menos tempo.

– O que isso vai fazer comigo? – O gosto doce demais rasgava sua língua.

– Acessar a parte do seu subconsciente responsável pelo seu lado que esteve ativo enquanto o outro estava desacordado. – Ele disse retirando a taça das suas mãos e acariciando seu rosto com cautela. – Provavelmente vai encontrá-la...

“Encontrar quem?” queria perguntar, mas tudo desapareceu e de repente já não sabia de mais nada.
Estava em um vácuo absoluto, como se fosse só a personagem de uma história que ainda não tinha outro capítulo para se apoiar.

–----------------------------------------| Devil’s Mind (on) | -------------------------------------------------------

Folhas e galhos formavam um teto extenso sob a minha cabeça, encobrindo o entardecer alaranjado do céu. O mundo chacoalhava e um perfume gostoso brincava com meus sentidos obrigando-me a fechar os olhos para sentir de forma mais completa.
Perfume masculino sem dúvidas e isso fez com que eu sorrisse de satisfação.

Meu veículo de transporte nada mais era do que um cara de ombros largos definidos e um rosto resplandecente que não escondia certa irritabilidade. Que injustiça! Não fosse aquela cara de mau e eu quase poderia resistir. Quase.

Ri passando meus braços pelo pescoço dele e isso fez com que seus olhos me encarassem com surpresa. Belos olhos azuis acinzentados. O céu deveria ter vergonha de não ser da mesma cor daquelas íris mágicas.

– Johanna, ela acordou. – Murmurou com lábios que pediam tanto para serem beijados que chegava a dar raiva. Fiz o que o instinto pedia e impulsionei meu corpo para cima provando por breves segundos a maciez e o gosto inebriante do contorno da sua boca.


Algo me dizia que seu nome era Damon. Na verdade, várias informações pulavam na minha mente do nada sobre contratos e coisas assim. Bem interessante, mas eu não tinha paciência para organizar aquilo então preferi não entender e até bloquear.

Ele me encarou um pouco perplexo, mas não deu sinal de qualquer protesto pela minha atitude atrevida. Isso era bom, eu havia gostado da amostra grátis e estava muito afim de adquirir o produto todo em breve.

– Tem certeza que não deixou cair a nossa Elena e pegou uma errada no caminho? – Perguntara a tal Johanna se aproximando com cautela. – Ela parece meio... Diferente.

Rolei os olhos um pouco chateada com a forma com a qual ela falou “diferente”. No fundo, eu sentia mesmo que algo estava estranho. Como se fosse um espírito em um corpo errado, mas isso era loucura, claro. Eu sabia bem que era Elena Gilbert, tinha dezessete anos e todas as outras informações convencionais da minha vida.
Só estava estranhando como aquelas informações soavam tão... “não-eu”.

– Acho que é o efeito do meu sangue, não deve ser nada demais. – Damon tranquilizou a menina com olhos estreitos direcionados para o meu rosto. Como se avaliasse algo. Sorri travessa tirando uma mão do seu pescoço e acariciando a sua face perfeita.

– Talvez o problema tenha sido que não nos interligamos o bastante sabe? – Comecei “lembrando-me” de que ele falara que precisávamos compartilhar um sentimento para que se criasse uma ‘ponte’ entre nós e ele passasse seus poderes sem me matar. – Conheço uma forma bem eficaz de fazer isso se você quiser. – Dei de ombros com um ar malicioso que fez com que Johanna gargalhasse.

– Definitivamente é a Gilly errada! – Comentou no intervalo dos risos. – Mas deixa essa aí que gostei dela.

– Precisamos falar com o idiota do Klaus. Algo saiu do controle. – Seu tom era preocupado e eu TIVE que achar muito legal da parte dele. – Quanto a você Elena. – Encarou-me com olhos maliciosos parecendo responder ao meu ataque anterior. – Cuidado com propostas que sejam extremamente tentadoras de aceitar.

– Mas essa é justamente a intenção da Elenazinha aqui, Hellboy. – Ri e Johanna me imitou retomando a caminhada.

O demônio ergueu uma sobrancelha por breves segundos e eu senti que ele era o tipo de parceiro de jogo do qual eu gostava. Aquele cara que pode até se render às minhas armadilhas, mas antes faz com que eu me renda às dele.

– Ok Damon, vamos logo antes que a Gilly tire a roupa aqui e comece a dançar “dressing up”

Revirei os olhos com a sua obsessão pela Katy Perry e senti que meu corpo trepidava novamente enquanto seguíamos a trilha.

– Jô, acredite, eu não faria isso... – Garanti enlaçando mais ainda o pescoço de Damon para “não cair”. – não com essa música. – Completei como quem não quer nada.

A casa infelizmente já estava cheia, o que significava que eu teria que explicar muita coisa para os meus pais com aquela roupa nojenta de terra. Ou pelo menos era o que um “eu” anterior achava. Um “eu” bem idiota, para falar a verdade. A solução perfeita estava bem na minha cara.

Me despedi de Johanna – que sairia em busca do tal de Klaus e de mais informações sobre o assassinato da irmã de Damon – ficando com a promessa que ela aparecia invisível no meu quarto depois.

Desde o acidente com Jeremy, tomamos essa medida preventiva de invisibilidade até quando estávamos sozinhas já que apelar para a farsa da “hóspede secreta” não daria certo para sempre e Johanna não queria fingir uma humanidade permanente. Fora que já havia sido forjada toda uma viagem da Jô para Boston em que Jeremy até nos “ajudou” para que nossos pais não descobrissem que a “órfã” aparecera na cidade e já estava de partida sem que nem desconfiassem. Sem condições a louca aparecer de novo no maior “torrando a herança dos pais com viagens inúteis e secretas à Mystic Falls”. Nem eu cairia nessa!

Assim que eu e Damon fomos deixados a sós na varandinha charmosa ordenei que ele me teletransportasse para o meu quarto para que pudesse ajeitar o visual de mendiga-criada-por-lobos.
O demônio pareceu surpreso com o meu surto de inteligência e eu sorri calculando se dar algumas provas desse meu novo QI fariam com que ele esquecesse o encontro com a vadia da minha ex-cunhada.

Não. Eu não havia esquecido dessa parte envolvendo a Vick Vaporub.

Tomei um banho rápido pedindo (ordenando) que ele desse um jeito de fazer com que ninguém escutasse o barulho do chuveiro e escolhi a roupa menos horrenda daquele lugar. Sério, não me lembrava de que tinha um gosto tão patético.
Encurtei uma saia até deixá-la na altura da cocha e roubei do armário da mamãe uma blusa preta com paetê. Não sabia se ela iria ligar ou não, mas ela me devia uma depois do abandono e coisa e tal.
Abusei da maquiagem nos olhos mesmo sabendo que aquilo era “estranho” à mim, passei perfume e apertei o medalhão esperando o meu demônio-carona.
Damon, assim como eu, estava mais arrumado e terrivelmente mais lindo. Usava uma camisa cinza que ressaltava seus olhos e uma calça social preta que combinava com o seu estilo charmoso e elegante.
Qualquer homem no mundo, mesmo que usando as mesmas roupas, morreria na hora fulminando em inveja.

Notei com satisfação que seus olhos se abriram mais ao me encarar e praticamente me despiram enquanto fitavam meu corpo.

– Não pensei que conseguisse ficar ainda mais linda. – Cumprimentou com um sorriso de lado que mexeu totalmente com o meu ego.

Porque eu nunca fiz aquilo antes? Era tão divertido!

– Ah, Hellboy. – Ri ajeitando o colarinho da sua camisa. – fico tocada com o elogio, mas não deveria olhar com esses olhos de lobo mau algo que não pertence a você. Só a minha alma é sua e a Sra. Salvatore que eu saiba se chama Victória – Sussurrei dando de ombros e me afastando. – Agora me leve lá para baixo para que eu possa fazer algum teatro de “estava com a Carol no cinema” e coisa e tal.

Os olhos azuis se estreitaram queimando em algo indecifrável, mas por fim ele assentiu e fez com que voltássemos para a varanda.

– Mais alguma ordem? Eu preciso buscar a Vick e estou meio atrasado então...

Fiz a melhor cara de sonsa que consegui ao ouvir aquilo. A Elena antiga talvez desse algum chilique ou aceitasse depois se trancando no quarto, mas o fato é que eu era outra no momento e a minha nova mentalidade era terrivelmente má.

– Ah Demy, eu não avisei para você?- Perguntei com a voz manhosa e inocente. – Droga, eu sabia que estava esquecendo algo. Bom, lamento, mas hoje preciso que fique protegendo a minha família só por precaução sabe? Ia ordenar mais cedo só que acabei tão envolvida com o treino que mal lembrei. Que cabeça a minha!

Seu rosto apagou qualquer expressão que antes pudesse existir e apenas me encarou.

Haha, o dia estava cada vez melhor.

– Não acho que a sua família esteja correndo qualquer tipo de perigo, do que eu precisaria protegê-los? – Ele falava lentamente e eu sabia que estava a apenas um passo de me incinerar.

Dei de ombros de forma infantil e depois sorri.

– Não sei Damon, o mundo tem andado muito perigoso. Melhor não arriscar. – Sussurrei como se lhe confidenciasse algo. – Não se preocupe, vou pedir para os meus pais permissão para ir à casa dos Donovan e explico para a Vick que você estava com febre ou algo ass...

– Ah claro, casa dos Donovan – Sua mão se fechou possessiva sob o meu braço me puxando para mais perto. – Apenas pelo ato caridoso de explicar a minha ausência, suponho. – O sarcasmo da sua voz era tão sexy que dava vontade de agarrá-lo de novo.

– Que outro motivo eu teria?- Perguntei fingindo só compreender sua insinuação depois. – Oh, você acha que vou para lá dormir com o Matt? Mas, Damon que ideia! Se bem que... Olhando por esse ângulo é até interessante. Acho que dessa forma pelo menos não gastaria toda a minha produção para nada.

Seus olhos azulados se tornaram rubros e consegui ver que mantinha uma mão em punho tão apertada que os nós dos seus dedos tornaram-se brancos como papel.

– Faça isso e estará condenando Matt Donovan à morte. – Ameaçou sombrio me fazendo tremer em algo maior do que apenas medo. É, eu estava satisfeita com aquela atitude.

– Eu estou sendo treinada para combater demônios Dan, o ameace e possivelmente vou ter que virar a protetora de Matty. Sabe o que isso significa, não sabe? – Fiquei na ponta dos pés para alcançar seu ouvido com muita dificuldade. – Não vou poder desgrudar nem por um segundo daquele cabelo loiro só por precaução. – Abocanhei levemente sua orelha o fazendo respirar de forma pesada e me afastei sorrindo e entrando em casa. Acabei “o arrastando” devido à forma como sua mão ainda apertava meu braço, mas assim que abri a porta fui libertada.

– Ahá, aí está ela! – Apontara papai desviando os olhos da TV por alguns segundos e me encarando. – Estávamos discutindo se colocar um GPS em você seria boa ideia, Lenna.

– Obviamente eu fui contra. – Miranda defendeu-me logo fazendo com que eu risse um pouco.

Pela voz que ecoava da televisão, reconheci que estava passando a Oprah em uma reprise velha com o Brad Pitt. Sim, aparentemente eu era muito fã dela.

– Fui ao cinema com a Carol e acabei perdendo o horário, desculpa. – Pedi com uma expressão fofa que atenuasse a minha falta. – Damon estava comigo, ele pode confirmar tudo.

Rolei os olhos pela sala e constatei surpresa que Jeremy não os acompanhava. Talvez trancado no quarto ou saindo com a Lucy.

– Sério? – Miranda nos encarou e quando Damon assentiu a contragosto um sorriso iluminou seu rosto maternal. – Fico tão feliz que estejam tentando se entender! Não é ótimo Grayson?

O Sr. Cinza como bom pai chato bufou achando o controle remoto mais interessante que a conversa.

– De qualquer modo, espero que tenham se divertido! – Mamãe prosseguiu ignorando o marido e quase dançando de animação. – Fiz o bolo que você e Jeremy tanto amam, Dan. Depois vá lá pegar um pedaço.

– Com milk-shake de morango? – Intervi não resistindo à provocação. – É a bebida predileta dele sabia?

Pelo cantinho dos olhos percebi que Damon me fuzilava, mas o ignorei. Infelizmente para ele, Miranda adorou saber da novidade e começou a falar como uma gralha de que havia sorvete na geladeira e ela compraria mais para fazer milk-shake sempre para Damon.

Confesso que nessa hora não resisti e ri um pouquinho do sofrimento do meu demônio. Era como se alguém prometesse uma eternidade de suco de espinafre para mim achando que era o meu predileto.

– Estou amando a conversa, mas preciso sair de novo. Compromisso inadiável, mas juro que chego logo.

Grayson desviou os olhos do aparelho novamente e me encarou com o cenho franzido.

– Vai para onde?

– Casa da Vicki, resolver algumas coisas de um trabalho escolar. – Menti com um sorriso mínimo no rosto. Eu sentia que deveria ser ruim naquilo e inventar algo como: “salvar o Japão de um Tsunami”, mas a mentira perfeita surgiu com tanta facilidade que era estranho acreditar que eu fosse travada no assunto. – Vale nota e é para essa semana.

Meu pai pareceu relaxar um pouco mais e Miranda esforçava-se para não interferir e ser uma mãe bacana, mas era óbvio que suspeitava de algo.

– Estranho, Elena. – A voz masculina perfeita finalmente ecoou me sobressaltando. – Victória não está em casa agora, tem certeza que marcou o trabalho para hoje?

Pressenti que estava entrando em território perigoso, mas tentei parecer firme.

– Tenho sim Damon, o namorado dela furou com ela e resolvemos aproveitar o tempo livre para o trabalho.

Ele uniu as sobrancelhas em uma ótima interpretação de confusão e levou a mão ao bolso tirando um celular que eu nunca vi na vida.

– Acho que ela está mentindo para um de nós dois então. – Rebatera levando o visor até o meu pai que lera a mensagem em voz alta.

“Damon, pode avisar para a Elena que não vou estar em casa hoje e que é melhor cuidarmos do trabalho no colégio?”

Filho da mãe dono de truques patéticos.

– Provavelmente ela mudou de ideia depois Damon. Tenho uma mensagem dela mandada agora a pouco dizendo que estava tudo ok com o lance do trabalho. Quase como se tivesse sido ORDENADA pela sua consciência estudantil a fazer isso. – Deixei bem claro o que queria e ele sorriu malicioso fazendo os olhos brilharem vermelhos por meio instante atendendo à minha ordem.

Meu pai fez sinal com a mão pedindo meu celular para confirmar e o tirei do bolso da saia com prazer. Para minha felicidade, a mensagem estava lá mesmo.

Mostrei ao Sr. Cinza toda feliz e ele pareceu menos rabugento ao confirmar minhas inocentes intenções escolares. A grande droga foi que ao me devolver o aparelho seu dedo esbarrou em algo que liberou uma mensagem de voz.
Uma mensagem relativamente antiga e mesmo assim mortal. Uma mensagem de Matt.

“ Lenn? Sinto a sua falta. Sinto falta do seu corpo, seu cheiro, sua voz. A Vick saiu, não pode vir aqui? Invente algo e eu peço para ela confirmar. A casa vai ficar livre para a gente. Te amo.”

Um silêncio constrangido e mórbido ecoou enquanto eu sentia vontade de chutar Damon ali mesmo.
Aquele recado já havia sido apagado pelo meu “eu” anterior há séculos! O que estava fazendo de novo ali?

– Acho que não preciso dizer que você não tem mais autorização para sair sem Damon ou Jeremy não é? – Grayson perguntou furioso subitamente incluindo o meu demônio na sua aliança de vigias do mal.

– Mas... – Tentei sabendo que era inútil.

– Vá para o seu quarto, Elena. Depois conversamos sobre isso.

Miranda não teceu nenhum comentário não querendo desautorizar o marido, mas eu sabia que se a história fosse só com ela, conseguiria escapar do castigo injusto.

Damon interpretava um papel constrangido se despedindo dos meus pais e subindo as escadas e eu tive que marchar atrás dele logo em seguida na esperança de que as paredes forradas abafassem o barulho que iria fazer quando eu jogasse a minha escrivaninha na sua cabeça.

Fiquei rolando como uma idiota na cama por horas.
O sono me abandonara como se eu tivesse tomado uma caixa de um energético muito poderoso. Apostava que a culpa era do sangue demoníaco, mas não considerava aquilo um problema.
Sentia-me viva, livre, forte e levemente insana.
Será que agora eu melhoraria nos treinos? Será que era um efeito duradouro? Será que aquilo afetaria minha saúde? Tantas perguntas que ficariam para depois que só de pensar me dava ódio.
Peguei o celular na cabeceira como quem não queria nada e digitei uma mensagem rápida para o Matt. Basicamente só as palavras “Socorro! Venha me resgatar” de brincadeira.
Meu sangue pedia por uma aventura nem que fosse mínima.
Infelizmente meu salvador deveria estar no décimo terceiro sono e eu não estava afim de esperar. Nem um pouco.

Levantei-me da cama e saí de fininho do quarto encontrando o corredor deserto devido ao horário. Resolvi sei lá porque debandar para o quarto de Damon, só para conversar, ou fazer sexo, tanto faz.

A porta fechada quase me fez recuar, mas havia algo que me impedia. Algo que humanos normais não notariam, mas que agora eu conseguia decifrar.

Vozes tão imperceptíveis quanto a língua do vento e ainda assim totalmente acessíveis aos meus ouvidos com o mínimo de concentração.
Tio Lulu, seu sangue é o máximo!

“É essa a sua resposta, Klaus?” – Damon indagou meio indignado.

“É o que parece” – A outra voz masculina — provavelmente o tal Klaus- murmurou com cautela. “Pelo que pude investigar Jenny Wolf foi destruída com poderes além do conhecimento de Lilith. E como mestiço, posso afirmar que são poderes além até mesmo do meu conhecimento.”

Mestiço? Bom, Damon era mestiço também, não era? Tenso.

“Acho que tem anjo no meio. Ou bruxas, argh, porque acabaram com as fogueiras? Era tão divertido!” – Johanna deu sua opinião parecendo estar meio alheia a tudo e só se manifestando quando achava interessante.

“Não dessa vez Marshall, é alguém que tem uma centelha humana. Provavelmente a nova Besta.”

“ Isso é impossível, Klaus.” – Garantiu Damon com firmeza. Dava para ver de longe que ele odiava o tal cara. “Você sabe muito bem que eu sou o amaldiçoado que traz as Bestas ao mundo. Foi o preço que paguei por ter recusado ‘generosa’ oferta proposta por Deus de virar um anjo imbecil como o meu irmão.”

Encostei-me mais à porta sentindo alguma parte minha se retrair em desapontamento por Damon não ter confiado o bastante para me contar esse pedaço da história. Felizmente a parte era mínima, quase como o clamor de outra Elena que tranquei dentro de mim.

“Acha que não pensei nisso Damon? Por favor, não sou um principiante. É justamente por saber que você é que desperta a maldição da Besta que acredito na minha hipótese.” Entoou o tal “mestiço” com arrogância. “Reflita cuidadosamente Salvatore. Seu pai se negou a desfazer a sua maldição, pois sempre teve planos que você o substituísse um dia e lhe deu como grande teste resolver tudo sozinho. Sabe que uma das formas é desviando a maldição para uma criatura com domínios mágicos divididos entre o céu e o inferno e logo após a destruindo. Uma bruxa se enquadra perfeitamente nisso e não é segredo que está na terra caçando as Bennett. Jenny depois de você era a principal candidata à linha de sucessão mesmo sendo apenas a quinta herdeira e a sua humana se encaixaria perfeitamente no perfil da Besta compassa responsável pelo assassinato da sua preciosa irmãzinha.”

“Está me acusando de tramar a morte de Jenny, Klaus?” – Os sussurros de Damon tinham uma fúria que eu nunca vi igual.

Um suspiro cansado ecoou.

“Não. Estou acusando alguém de estar calculando nos mínimos detalhes uma forma de incriminá-lo por isso”. – Respondeu como um professor paciente.- “ Se Lúcifer chegar à mesma dedução hipotética que eu, vai bani-lo do inferno e fazer com que Derek ou Diti assumam seu posto. Sabemos muito bem que a sua irmã mais velha não é flor que se cheire e que seu irmão seria facilmente manipulado no comando. Além do que, você e Lúcifer separados são alvos mais fracos do que juntos.” – Prendi a respiração tensa demais com aquela perspectiva. Ouvir Damon ser citado como alvo fazia com que meus olhos ficassem rubros e eu desejasse acabar com qualquer um que tentasse encostar o dedo nele.

“Além de que o verdadeiro assassino com isso desviaria toda a atenção dos Grupos para a procura da tal Besta e poderia agir livremente em algum propósito maior.” – Johanna completara de forma brilhante.- “O problema é: você mesmo disse que a peça chave do nosso jogo tem poderes estilo o cão-chupando-manga do Apocalipse – que seria resultado da maldição do Salvatore- e a única ligação humana contratual que Damon tem é com Elena.” – Ela estalou os lábios como que apontando o erro de cálculo. “Gilly não é o monstrengo, o que me leva a acreditar que tem um grande furo aí”.

Exato. Eu podia ser lenta em um passado “distante”, revoltada, nerd e tarada agora, mas não era um monstro dos Power Rangers.

“Acredita mesmo nisso, Marshall? Bem, eu tenho minhas dúvidas. Você me disse que só de entrar em contato com Damon, Elena passou a ser muito mais agressiva que antes, aceitou o contrato facilmente e após tomar do sangue do filho de Lúcifer adquiriu um distúrbio de personalidade.”

“É completamente normal, Klaus. Já debatemos isso” – Damon passava em sua voz uma exaustão sem tamanho.- “ Elena é tão ridiculamente boa que a dose diabólica foi rejeitada pelo seu organismo que como mecanismo de defesa a separou em duas partes ‘distintas’: a Elena normal, da sob influência do meu sangue. Se conseguirmos unir as duas, ela volta a um equilíbrio.”

Isso explicava muita coisa.

“Tese muito bonitinha e comovente, Damon. No fim das contas você faz o dever de casa” – Klaus zombara meio despeitado. “Só que eu acredito que talvez esse lado da menina sempre tenha existido, mas só despertado a olhos nus agora. Não tenho provas, é claro, mas se ao voltar à sua humanidade completa, Elena não se lembrar de nada, teremos que cogitar que ela seja como um ‘sonambulo’ humano, cometendo atrocidades sem nem perceber isso ou transparecer para nós.”

“ Pfff, essa foi a coisa mais ridícula que já ouvi seu piradão” – Johanna ria baixinho. “Primeiro que a Gilly não mata nem mosquito, segundo que estamos convivendo diariamente com ela e a garota nunca sai sem a gente, terceiro que até mesmo se eu não soubesse dos dois primeiros itens é meio bizarro que ela tenha acordado do nada meio zumbi e falado ‘mim-querer-matar-a-irmã-de-Damon-que-mim-nem-conhecer Uga-Uga’. Ok zumbis não falam assim, mas vocês entenderam o propósito do meu teatro.”

“ Antes de me zombar, lembre-se que existem projeções mentais Johanna. A garota pode ter saído mentalmente durante os seus sonhos e até estar sendo orientada por algum outro demônio como uma simples marionete.” – uma risada curta e seca ecoou baixinho. “Quanto à inabilidade de matar alguém, esse lado da garota é demoníaco, Marshall. Logo, é mais forte e totalmente homicida.”

Minha cabeça doeu um pouco e lembrei-me de sonhos confusos com um menino pequeno muito parecido com o meu demônio.
Não, quem lembrou disso foi a Outra.

“ Você não conhece Elena em nada Klaus, não fale como se soubesse de cada traço da mente dela.”

“ E você conhece Salvatore? Não me diga que está dando uma de Ethan agora. Você lembra como foi o final da história dele, não lembra?”

Ok, não entendia mais batatibas e estava cansada de ouvir coisas complexas sobre a minha pessoa ou a minha colega-de-corpo.

Voltei para o quarto em passos tão mansos quanto os que me levaram ao de Damon e tentei digerir aquilo tudo.
A ansiedade ainda me dominava, precisa extravasar de algum jeito ou ficaria louca.
Encarei a janela que graças aos deuses era bem maior que a da casa da tia Jenna e marchei na sua direção.
Não havia trocado de roupa desde que fiquei de castigo, o que me tornava apresentável, mas metade da maquiagem já tinha saído quando rolei na cama à procura do sono que nunca chegou.
Peguei um pano qualquer no armário, limpei o rosto com descaso e pendurei na barra da minha saia para limpar melhor após a minha fuga cinematográfica.
Pode parecer insano, mas cair de uma altura considerável foi divertido. A queda que foi o problema.
Massageei o tornozelo por alguns minutos e prossegui meu percurso mancando de leve.
A janela do meu quarto, longe e solitária, bateu com a ventania como se aborrecida comigo e a Elena prisioneira pareceu tentar me alertar de alguma coisa. Infelizmente aquele não era o nosso dia, eu estava surda para tudo que quisesse parar-me.

As ruas de Mystic Falls estavam praticamente vazias como era o esperado do horário. Vislumbrei Carolina e uma menina conversando em um ponto afastado, alguns casais meio bêbados desconhecidos e a mãe de Bonnie parecendo comprar ervas – macumbeira!
Sabia que a minha relação com Carol estava estranha desde que Damon apareceu. A loira estava faltando loucamente essas últimas semanas de aula e sempre que nos encontrávamos contratempos acabavam nos afastando. Bonnie de alguma forma pareceu unir-nos e sem ela, eu e a loira não conseguíamos conviver totalmente bem.
Retornei pegando um atalho estreito para evita-la e acabei parando no bar do Seu Elias.

O lugar era acabado, todo amadeirado com teias de aranha e cheiro de mofo. No balcão três bancos quebrados davam a oportunidade de descanso assim como as mesas quadradas velhas e encardidas no resto do ressinto e um piano esquecido suspirando notas invisíveis.
Era de se esperar que o lugar já tivesse sido fechado pela saúde pública, mas Seu Elias era um velhinho cheio de surpresas e Mystic Falls era tão minúscula e chata que a fiscalização era um mito.

Entrei sei lá porque naquela construção caindo aos pedaços despertando um sininho irritante com a minha passagem pela porta.
Praguejei baixo e me dirigi ao balcão onde Betto – filho do seu Eliais- enchia o copo de uma figura curvada que aparentemente usava batina.

Uh, sério? Um padre bêbado?

Sentei-me ao seu lado de forma cuidadosa e encarei o copo de Whisky sendo virado sem perdão pelo eclesiástico.

– Eu acho que quero o mesmo que ele Betto. – Pedi notando o rapaz de dezesseis anos fitando-me assustado. Meu eu anterior não deveria ser do tipo que frequentava o bar. Isso ou o garoto estranhava que eu soubesse seu nome já que em um nível de 1 a 1000 em popularidade, o dele era 0. – Só que sem gelo. Não quero nada diluído.

Ele assentiu ainda mudo coçando seus cachinhos e pegou a garrafa enchendo um copo generoso para mim.

O agradeci com um sorriso e engoli o líquido sentindo o álcool queimar minha garganta e aquecer minhas veias.
Sentia de verdade que a Elena normal me mataria ou algo assim se soubesse da minha proeza, mas eu estava no comando daquela porcaria e ia beber quanto quisesse.

– No meu tempo mocinhas como você não bebiam como homens velhos. – Murmurou o cara de batina em um tom meio arrastado. Não devia ser seu primeiro copo, com certeza.

– Aposto que no seu tempo também padres não bebiam qualquer coisa que não fosse vinho cerimonial. – Dei de ombros descaradamente roubando o seu copo e bebendo o resto. Fiz uma careta, o gelo estragava tudo.

Senti que seu rosto virou-se na minha direção e um arfar saiu do seu peito, quase como se uma assombração o incomodasse.

– Kath-Katherine. – Chamou-me pegando na cruz em seu peito como se necessitasse de proteção.

Bufei rindo em seguida e devolvi o copo vazio para Betto.

– Acho melhor parar por aqui seu Padre, já está trocando os nomes. – Deixei que meus olhos vislumbrassem pela primeira vez o rosto do meu colega de Whisky e fiquei levemente surpresa. Olhos azuis frios, rosto simples e meio novo e cabelos impecavelmente arrumados de um castanho claro. Bonitinho até, mas não era o meu tipo. – Sou Elena. – respondi levando a mão em cumprimento.

Ele hesitou um pouco em tocar-me, mas ao final completou o gesto parecendo achar algo na minha pele fascinante.

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– Gregory Turpin. – Disse polido ainda com a outra mão na cruz. – Você é sobrinha de Jenna Sommers, não é?

Assenti uma vez e minha memória apontou-me da onde conhecia o nome.

– Você é o namorado da tia Jen! Espera... Não deveria ser um pastor e não um padre?

Gregory ficou perdido em meus olhos por longos segundos até assentir e fitar sua roupa puxando-a com descaso.

– Sou um pastor. Meu vestuário é só uma lembrança amarga. – Corrigiu delicadamente. – Quanto a sua tia, ainda estamos nos conhecendo, mas não acho que tenha futuro. Vim para Mystic Falls apenas para executar um serviço e pretendo voltar o quanto antes.

Fitei o balcão com indiferença. O álcool finalmente fazia efeito e uma euforia montava acampamento em meu corpo.

– Entendo, é uma pena. – Menti pedindo mais uma dose. Betto me encarou menos tímido dessa vez. Talvez esperasse a oportunidade de pegar uma colega de escola bêbada, mas aquilo não aconteceria. Não comigo. – E esse seu serviço, Sr. Pastor, envolve a morte de alguém?

Gregory engasgou e suas pupilas pareceram encolher covardes.

– O... quê?

Ri bebericando minha nova bebida.

– Estou brincando Greg, relaxe. – Os copos deveriam estar trincados, pois estavam esvaziando muito rápido. – Por falar em brincadeira, posso pedir sua discrição quanto ao nosso encontro? Estava precisando digerir alguns problemas e não posso garantir que meus pais estão cientes disso.

Ao notar que ele parecia meio confuso movimentei meus lábios formando a frase “Estou de castigo”.

– Ah, sim. Sem problemas. – Prometeu rindo baixinho. – Só não fique até muito tarde. Pode ser perigoso para uma menina da sua idade.

Para uma simples menina, talvez. Para uma menina dona de um demônio, não.

– Ok tio Turpin, o mesmo vale para você. Mystic Falls está cheia de bruxas loucas para se vingarem da inquisição. – Murmurei dando o copo de vidro à Betto e sabendo que ou encerraria ali ou ficaria muito louca.

– Outra brincadeira? – Perguntou tímido depositando uma quantidade grande de dinheiro no balcão e levantando-se.

Não.

– Claro. – Ri sem humor o vendo rejeitar o troco que Betto lhe dava e apontando para o meu copo em uma clara referência que queria pagar-me a bebida.

– Não senhor, não precisa. As doses da Srta. Gilbert ficam por conta da casa.

Duas pessoas querendo pagar minhas dívidas? Isso era interessante, eu estava sem dinheiro mesmo.

Greg assentiu meio contrariado, retirou o resto do dinheiro do balcão e soltou um “Boa noite” frio para o funcionário.

Para mim a frase de despedida fora outra. Uma que não parecia completamente explicada e cheia de segredos implícitos nela. Uma que eu nunca conseguiria responder sem fazer uma cara de paisagem antes.

“Você ainda é cheia de admiradores”. – Murmurou saindo do recinto rapidamente sem nem olhar para traz.

O sininho tocou em alerta do cliente e as luzes piscaram ficando segundos depois completamente disfuncionais.

Nesse minuto, tudo aconteceu.

Meu banco tombou enquanto um corpo quente se jogava contra mim com as mãos apertadas na minha garganta. O copo de vidro havia beijado o chão e seus cacos perfuravam minha cocha e o carpete trazendo uma dor chata.
O ar fugia do meu corpo e a Elena dentro dele entrava em um estado quase de pânico. Queria manda-la ficar quieta, mas no fundo eu deveria estar seguindo o seu exemplo.

– Chave. – Murmurou a voz de Betto distorcida ao meu ouvido. – Você é a chave.

Ah, não. Começou!

Agarrei um dos cacos de vidro com a mão e enfiando com força no seu braço direito. O demônio arquejou levemente afrouxando seu aperto apenas por alguns segundos. Para o seu azar, era o tempo exato que eu precisava.
Enfiei um dos meus braços por entre suas mãos carcereiras e levei meus dedos diretamente às suas órbitas o cegando e deixando meus dedos nojentos.
A minha gêmea tapada quis enjoar, mas a mandei ficar quieta e não estragar meu Street Fight. Aproveitei enquanto o demônio levava a mão aos olhos urrando de dor e rolei para longe do seu alcance fazendo com que mais caquinhos de vidro entrassem na minha pele.

– Sua vadia. – Xingou-me tateando cegamente pelo breu em busca do meu corpo.

– Você que começou Bettinho. – Respondi levantando-me com dificuldade e percebendo que do nada eu flutuava de acordo com o movimento das suas mãos.
Fui arremessada ao teto sentindo a dor do impacto do meu corpo sob a madeira e depois simplesmente voei de encontro à estante de bebidas alcoólicas. Só tive tempo de levar os braços ao rosto para proteger minha vista, mas no resto me acabei em cortes.

Meus ossos protestaram enquanto eu mordia a língua para não gritar de dor. Com certeza havia quebrado umas costelas e torcido uns músculos. Foi preciso uma força de vontade sobrenatural para levantar-me e agarrar uma das garrafas do chão ao meu lado.

Iris já foi, qual eram os outros pontos sensíveis?

Caminhei em direção à Betto sob a pouca luz, o enxergando apenas pelas portas de vidro do bar que deixavam que o clarão do poste na rua nos iluminasse.
Ele sorriu parecendo pressentir minha presença de alguma forma e eu jurei que o mataria por ser um péssimo colega de classe.

Corri com vontade até ele acertando a garrafa na dobra do seu joelho e o fazendo curvar-se bem como eu queria. Sua mão agarrou-me e acabou me arrastando junto à queda, mas aquilo era o de menos.
Tentei sair de baixo do seu corpo movendo-me freneticamente para poder atingi-lo e em pouco tempo percebi que era em vão.
Sua força era muito maior que a minha embora desconfiasse que Damon o acharia um adversário medíocre.

Damon!

Tentei agarrar o medalhão, mas antes que o fizesse minhas mãos foram colocadas ao lado da minha cabeça com uma fúria letal.

– Sabe, eu costumava gostar de você na quarta série. – Meu inimigo confidenciou como se fosse um bate-papo casual.

Cuspi nele e vi com satisfação a face gentil e tímida do menino transformar-se em raivosa e insana.

– Eu não pretendia mata-la Elena Gilbert, mas você está me obrigando a isso! – Ameaçou fazendo com que sua mão virasse vermelha.
Pressentia que aquilo em contato com a minha pele seria o fim, então agi como a maioria das mulheres sábias e busquei levar meu joelho com força até a sua virilha.

O golpe um pouco desajeitado dera-me um tempo mínimo para soltar uma das minhas mãos e agarrar a perna da cadeira da cadeira que, quebrada, formava uma estaca perfeita.

Intensifiquei o buraco das suas órbitas e, padecendo de dor, Betto rolou para o lado deixando-me fugir.

Eu sabia que se desse mole de novo estragaria tudo. Corri – lê-se: cambaleei igual uma maluca – até os cacos da garrafa que quebrara no joelho do meu malfeitor e cravei dois pedaços de vidro ao mesmo tempo nas solas dos seus calçados o vendo grunhir e se debater como se estivesse em uma convulsão.

– Se você usasse Armani não teria esse problema! – Gritei desviando do chute desajeitado que ele dera e tirando a estaca projetada em seu olho direito. – Agora... PLEXO SOLAR!

Brandi levando a arma improvisada ao abdômen masculino com todo o ódio e poder que eu sentia correndo nas minhas veias.
Seu corpo ergueu-se contorcendo-se e um líquido preto pegajoso escorreu junto com o sangue no chão.

Larguei a estaca caindo exausta ao seus pés, vendo sua pele aos poucos ficar macilenta e sem vida.

– Há! Elena 1, demônios malucos 0. – Comemorei em um sussurro cansado tentando normalizar minha respiração.
Estava tudo bem. Tudo bem.

E sem nem precisar de Damon e Johanna! Rá! Dá-le sangue do Lulu.

– Permita-me então tentar um empate. – Pediu uma voz sombria atrás de mim que fez com que eu me virasse atônita e assustada.

Era nada mais nada menos do que o Seu Elias.

PUTA QUE PARIU!

Bom, meu dia de Buffy caça-(vampiros)demônios terminou drasticamente por ali. O Velhinho adorável que eu conhecia desde sempre, mostrou-se bem perverso nos teletransportando para sabe-se-lá-onde, me prendendo à parede quase como se estivesse em uma cruz e depois chutando o corpo do seu filho como se fosse um verme a ser ignorado.

Tudo bem que o garoto quis me matar, mas ERA O FILHO DELE! Ok, tanto faz, eu tinha meus próprios problemas e estava achando de verdade que era meu fim.

Aquela posição cansava meu corpo e meu espirito, já que meu peso queria me puxar para baixo enquanto as correntes me mantinham em cima. A dor de toda a luta com Betto também refletia suas consequências e eu estava com sede, com sono e em um ataque emocional estilo TPM.

Como Elena iria querer unir-se a mim se eu só fazia besteira com a nossa vida?

Elias olhava-me com frieza parecendo avaliar alguma coisa que não compartilhava comigo como os vilões de filme faziam.
Eu não entendia porque ele não me matava logo, ficava com a chave e acabava com a brincadeira, mas uma parte mínima de mim agradecia por isso.
É eu queria viver. Mesmo com todos os obstáculos a serem enfrentados.

Um dia eu olharia para trás e diria: “Passei por tudo isso e venci, mesmo que não tenha saído inteira e exiba cicatrizes de guerra”, e quando esse dia chegasse eu poderia dizer que era forte.

Entretanto nem sempre querer era poder e eu sabia que a morte era uma questão de tempo para mim.

Suspirei frustrada tentando passar meus pulsos pelo ferro, mas era tão inútil que o dono do bar acabado, nem se dava ao trabalho de vigiar a sua nobre prisioneira.

Ocupara-se o dia inteiro em um projeto estranho que parecia uma lança só que com desenhos loucos em sua ponta.
Às vezes gritava perguntas para ele, mas o velho ignorava-me por completo, coçando a barba branca e fazendo os mesmos cálculos milhões e milhões de vezes.

Passou assim o dia inteiro e a lua já invadia novamente o ambiente quando finalmente o seu trabalho artesanal ficou pronto. No papel parecia maior, mas agora vislumbrando era só uma adagazinha pequena que soava quase inofensiva.

Quis rir ou fazer uma piada, mas vai que ele resolvia dar uma de Jigsaw em jogos mortais e serrar minha perna com aquela coisinha quase cega.

Finalmente seus olhos rubros me encararam e com grande lentidão veio até mim soltando as minhas correntes.

– Não quis correr o risco de tentar matar você sem antes ter a ferramenta adequada. Pode ter sido transformada em um demônio e apenas esse tipo de lâmina pode destruí-los. – Explicou parecendo querer me compensar por todo o silêncio taciturno. – Meu filho era um idiota por não ter pensado nisso friamente. Puxou a mãe, eu acho. – Deu de ombros agarrando meu cabelo para uma melhor visualização do meu pescoço. – Talvez isso doa um pouquinho. – Alertou de forma sarcástica enquanto preparava a lâmina para perfurar minha pele.

O problema é que, para mim, estava claro que a idiotice era do lado dele da família e não da mãe de Betto.

Agarrei o medalhão fechando os olhos e ele riu pensando que devia ser algum amuleto cristão e que eu orava.

É, até podia chamar aquilo de oração.

A parede inteira explodiu fazendo com que as mãos idosas me largassem a tempo de Johanna me carregar.
Mãos brandas acariciavam meu rosto, mas não identifiquei quem era, meus olhos estavam presos na figura irreconhecível e furiosa de Damon.

Elias debateu-se como louco parecendo pedir clemência, mas os olhos rubros do filho de Lúcifer deixavam claro que aquilo estava forma de cogitação.

E realmente estava porque eu nunca vi ninguém ser torturado de forma tão cruel quanto Elias Dawson foi naquela noite tenebrosa.

Sorri balbuciando agradecimentos a Damon, mas eu também parecia ter entrado na sua lista negra pela forma sombria com a qual seus olhos encararam os meus.

oh oh

O demônio tirou um celular do seu bolso e mostrou o visor com a íris rubra fervilhando.

– Escolha inteligente, Elena. Avisar o idiota do seu namorado em vez de apertar o medalhão. – Ralhou jogando o aparelho no dono das mãos que me acariciavam que percebi atônita que era Matt.

Puts a mensagem de “socorro”.

– Nãão. – Tentei explicar com uma agonia crescente. – Foi brincadeira, a mensagem foi de brincadeira.

– Ser torturada e quase morrer também foi brincadeira? Você acha isso engraçado? – Perguntou apontando para um ferimento na minha barriga que parecia grave demais até para ser olhado.

Fiz uma careta tossindo um pouco de sangue e percebi que ele estava com a razão.

– Perdão Damon. Não vou colocar sua alma em perigo de novo. – Prometi batendo na mão chata de Matt em meu cabelo.
O meu demônio suspirou pesadamente e com cautela me pegou no colo.

– Se fosse só pela alma eu já teria desistido, acredite. – Fora seu enigma ao começar a me “curar”.

Muitas memórias foram trocadas naquele dia. O caso do Seu Elias e Betto chocou a cidade, mas bandidos de Nova York ganharam a culpa do assassinato e “roubo” (Damon e Johanna fizeram com que o dinheiro do velho sumisse e outros itens de valor para forjar melhor aquilo).
Matt também teve a memória alterada para ter presenciado apenas uma briga de baderneiros bêbados que queriam me assaltar e os meus machucados viraram uma simples gripe de verão.
Damon, entretanto, não fez meus pais esquecerem a minha fuga rebelde e agora meu castigo era perpétuo e árduo, enquanto ele e Matt ganharam mil pontos por me salvarem.

Jeremy pareceu culpado por não ter ajudado na ação, mas aquilo era ridículo, é claro. Fiz questão de tirar essa ideia da sua cabeça e garantir que ele era meu salvador oficial.

Ganhei de Johanna a adaga cega de Elias e ela, Klaus e Damon estavam se dedicando a entender o que eram aqueles símbolos estranhos.

Tudo parecia quase em seu devido lugar a não ser pelo misterioso tio Greg que sabia muito bem que eu havia estado no bar do Elias na mesma noite que ele, e da fraqueza enorme que me acometia, como se ondas puxassem-me para baixo dando lugar para a outra Elena.

Naquele dia “conversei” muito com ela, ou comigo mesma, pedi desculpas e ordenei que ela agarrasse logo o Damon. Não a via como uma rival embora devesse, e Johanna disse-me que era o lado bom dela me contagiando.
E ainda achavam que a menina era uma Besta Apocalíptica! Pff.

Com tanta meiguice chata, era impossível não gostar dela e por isso quis na minha gestão-mental dar-lhe dois presentes. O primeiro foi reatar o namoro com o Matt. Ele era um cara legal e aquilo faria o Hellboy ranger os dentes de ódio por algum tempo.
E o segundo foi abrir mão do controle por ela. Eu sabia que assim que soubesse o que aprontei nunca iria querer unir-se a mim, mas isso não importava tanto no final das contas. Eu acreditava que ela tinha forças de sobra para enfrentar demônios sem a minha ajuda.
E se não desse, ela tinha Damon e Johanna e aqueles dois eram tão horríveis como seguranças, treinadores e servos que chegavam a ser perfeitos.

Não me despedi de ninguém, apenas confidenciei algo a Damon.
Algo que, me desculpe Elena, mas você nunca ficará sabendo.


–----------------------------------------| Devil’s Mind (off) | -----------------------------------------------------

A garota arfou sentindo a cabeça realmente reclamar de tanta informação em pouco tempo. Dezessete anos de uma vida parada e a Outra Elena em um único dia a encheu de emoção. Chegava a ser injusto.

Fitou de Matt a Damon tentando raciocinar. Um misto de emoções a contagiavam.
Primeiro achou seu alterego meio maluco e ninfomaníaco, depois apenas impulsivo e ousado, mas no fim decidira que, no fundo, a garota era digna de admiração e carinho.

– Você gostou dela, Salvatore? – Perguntou passando os dedos nos lábios como que parar tirar os vestígios da bebida, mas na realidade lembrava-se da sensação de beijar o demônio que a Ell-demoníaca lhe proporcionara.

O dono dos olhos acinzentados estancou por um momento parecendo perplexo com a indagação.

– Não a odeio se é o que quer saber. – Esquivou-se da pergunta como o mestre que era.

Elena revirou os olhos com um sorriso pela sua marotagem.

– Acha que devo deixar que ela assuma o controle para sempre? – Um medo absurdo rondava aquelas palavras. A Outra era uma parte sua, mas ainda assim não era a verdadeira Elena em toda a sua essência e isso só queria dizer que deveria ser bem melhor que a humana chata inventora da Caveira Rosa. Fora que era forte a ponto de matar um demônio enquanto Lenn mal conseguia ficar em pé durante os treinos

Um sorriso malicioso brincou nos lábios de Damon parecendo finalmente entender o propósito daquilo.

– E me obrigar a viver sem a sua lerdeza? Não. – Respondeu com simplicidade.

A menina riu tacando o travesseiro no demônio fingindo irritação pela ofensa.

– Muito gentil da sua parte, Dan. – Murmurou de forma sarcástica ainda sorrindo. – Falando sério agora, acho que deveríamos nos unir só que ao mesmo tempo eu tenho medo de...

–... Mudar demais?

– Sim!

Ele sorriu colocando uma mecha de cabelo castanho atrás da orelha.

– Isso é porque está pensando nela como outra pessoa, mas ela é você Elena. – Murmurou a fazendo sorrir de lado.
Era bizarro o quanto ele conseguia fazer tudo parecer bem mesmo que não fosse assim. O difícil virava fácil como a madrugada virava dia.

– Então acho que podemos começar a fazer essa fusão de Megazord. – Dissera recostando-se na cama.

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