Demônios Não Amam.

5 Tatuagens, milk-shakes e inimigos.


Notas iniciais
Capitulo gigantão dedicado à minha comentadora linda que me tira da depressão do "no reviews",Blood Crazy and Poisonous [Absinthe] (além de ser uma escritora incrí­vel)

Robertinha, a minha "R" linda, obrigada pelo presente que foi a ideia dessa história. Estou amando escrever, de verdade.

Enfim, vocês todas são lindas, obrigada por tudo!

POV Elena Gilbert.

Damon Salvatore Baker Smith Newton Kenneth... Gonzales! – Gritou aturdida enquanto recorria à mania irritante da infância de inventar sobrenomes para as pessoas com as quais ficava irritada para dar mais ênfase à sua bronca.

O homem de olhos acinzentados riu com escárnio.

– Já somos íntimos Lenn, não precisa me chamar pelo nome completo. – Brincou enquanto revirava a terceira gaveta da cômoda de Elena.

Ela agitou as mãos no ar tentando controlar a raiva que a cena proporcionava. Seu quarto estava destruído, em frangalhos. Gavetas, roupas (inclusive lingeries, para o seu desespero), sapatos, objetos pessoais e pedaços de madeira que ela nem queria saber da onde eram, estavam espalhados pelo chão e pela cama do cômodo inteiro.

– Damon, você desarrumou tudo!- Gritou entredentes.

Gritar era um luxo que podia se dar agora que voltara a morar com seus pais. A antiga casa dos Gilbert era enorme e com uma acústica péssima graças às paredes forradas por uma tapeçaria antiga, de modo que nem seus pais, nem Jeremy ouvissem qualquer ruído que a adolescente fizesse. Antes não se importaria tanto com isso, mas quando se tinha como escravo Damon Salvatore, vedar o som era imprescindível.

– Oi?- Indagou em tom inocente como se não visse a bagunça quilométrica ao seu redor. Ao ver as mãos finas de Elena fazendo círculos no ar para mostrar o estado do quarto, fez uma careta. – Ah, isso?

Ela arfou de indignação.

– E você fala assim? “Isso”? ISSO, DAMON SALVATORE, É O APOCALIPSE! Eu só me mudei há uma semana e você destrói todo o meu quarto novo!

O demônio largou a gaveta com um ar entediado e se aproximou dela.

– Vamos por partes. – Ponderou, levantando três dedos para usar como enumeração.- Primeiro: não sei se percebeu, mas não tenho problemas com o apocalipse. Segundo: seu quarto está longe de ser novo... Essa casa tem o quê? Cem anos? Terceiro: realmente preciso que você grite menos e me ajude mais agora. – Disse colocando uma mecha do cabelo liso castanho atrás da orelha. Elena corou ao sentir seu toque e quase esqueceu a raiva que sentia. Quase.

– Destrói o meu quarto e me pede ajuda. – Riu sem humor.– Hmm, vamos pensar... NÃO! Agora limpe essa bagunça. – Cuspiu enquanto tirava a mochila das costas e procurava em vão, recolher suas lingeries espalhadas.

Ele a perseguiu pelo cômodo com um ar fechado parecendo querer ajudá-la. Quando Elena o viu segurar seu sutiã vermelho e colocá-lo em seguida em suas mãos, soube que não queria nem um pouco a sua ajuda.

– Damon, não precisa! Chega! – Implorou, puxando o tecido com agressividade. – Ok, ok. O que você quer que eu faça?

Um sorriso se abriu em seu rosto de uma forma que deveria ser proibida.

– Preciso que você esconda algo para mim. – Murmurou a fitando profundamente.

Perto como estavam ela conseguia sentir seu perfume amadeirado e marcante impregnado na pele pálida. Não sabia quem inventara aquele absurdo de que demônios tinham cheiro de enxofre.

Percebeu tarde demais que ele já erguia o cenho e resmungava algo sobre lentidão. Não precisou nem escutar perfeitamente a frase para adivinhar que era uma ofensa.
Sua mão espalmou no braço coberto pelo casaco de couro preto e ele riu satisfeito por ganhar novamente a atenção da garota.

– E então? – Checou com os olhos azuis vitoriosos.

Ela fez um coque no cabelo enquanto ponderava. Prestar favores a seguidores de Lúcifer não parecia lá boa ideia, mas vender a alma parecia ainda pior e mesmo assim ela o fizera. Que tinha a perder?

Contrariada, entortou os lábios e assentiu com a cabeça. Quando percebeu que ele iria começar a falar algo (agradecê-la, ela esperava), o interrompeu levantando o indicador.

– Antes, preciso saber algumas coisas. – Impôs com a voz firme. – “O que é que preciso esconder?”, “porque precisa esconder isso?”, “o que vou ganhar em troca?” e perguntas do tipo!

Ele fingiu perplexidade.

– Como assim, o que ganha em troca? O meu total amor e dedicação não contam em nada?- Ironizou com a expressão falsamente sofrida.

– Rá! Não. – Fez-se de Tramontina, o cortando rapidamente. A verdade é que se ele realmente a amasse contaria e muito, mas não era o caso e ela não queria também que fosse, claro.

Damon repuxou os lábios em um sorriso de lado.

– Já que não tenho escolha... – Sentaram-se na única parte vazia da cama para desvendar os mistérios do tal objeto. – Quero que esconda uma chave que me permite ficar no seu mundo por tempo indeterminado independente de ter contratos ou não. Teoricamente não é minha. – Ele fez uma careta como se o fato fosse apenas um contratempo. – Mas a verdadeira dona também a roubou, então acho que não tenha problema.

– Ah claro, porque ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão, não é mesmo? – Sugeriu a garota sarcasticamente enquanto ele a olhava com os olhos semicerrados. – Bom, mas essa tal chave só faz isso? Esperava mais desse seu objeto secreto, sinceramente. Seria mais legal se a chave abrisse os portões mais obscuros do inferno, permitisse que voltássemos no tempo e víssemos dinossauros ou algo emocionante do tipo!

Os olhos azuis se reviraram.

– Lamento decepcioná-la, Steven Spielberg. – Ele disse retirando algo do bolso. – Mas ela só faz isso. Qual era a outra pergunta?

As mãos masculinas entregaram para Elena uma chave prateada enfeitada com uma bola estranha com três pedras decorativas em cima. Não pôde evitar franzir o nariz.
Era levemente decepcionante saber que o inferno tinha um designer de objetos tão sem imaginação. Vendo seu rosto frustrado, Damon sorriu.

– Guardar esse troço, não vai me pôr em perigo, vai?- Perguntou fechando os dedos em volta da pseudo-chave-que-poderia-ser-bem-mais-legal.

Seu servo meneou a cabeça lembrando algo repentinamente.

– Sobre isso... temos que conversar. – Suas mãos apertaram as dela a fazendo ficar escarlate. Queria de verdade que ele fizesse isso mais vezes. – Elena. Lenn. Minha chefa até segunda estância e, sem puxa-saquismos, a melhor vítima que eu já tive. – A garota revirou os olhos com a bajulação introdutória. – Teoricamente e APENAS teoricamente você está correndo perigo desde que fizemos o contrato.

Precisou de alguns segundos para que a ficha caísse e sua expressão se tornasse perplexa.

– Você está falando sobre perder a alma, conviver com um demônio e blá, blá, blá, não é?- Arriscou torcendo para que fosse isso.

Ele fitou o chão de lado e balançou a cabeça em negação.

– Não exatamente. – Ponderou desalinhando o cabelo. – Ok, você deve saber que nós demônios não somos exatamente... Compreendidos. – Usou do eufemismo.

Os olhos castanhos se tornaram céticos.

– Não consigo imaginar o porque. – Entoou sarcástica – Como boa contratante que não foi informada sobre qualquer perigo que pudesse correr, viu o servo sumir, distorcer a única ordem que deu, destruir o seu quarto e dar em cima da sua amiga... Eu posso afirmar, que os compreendo e sou grande fã dos serviços que vocês prestam à humanidade. Sério, estou pensando em fazer camisas padronizadas “EU (coração) DEMÔNIOS”, você prefere em prata para combinar com essa chave ridícula ou em preto que emagrece?

Ele ignorou a alfinetada e prosseguiu.

– Então desde o inicio dos tempos alguns grupos nos caçam. Os lunáticos que vocês chamam de anjos, bruxas, religiosos diversos, familiares de vítimas antigas e até outros demônios. – Pela sua expressão dava para perceber que os tais grupos já tinham sido um estorvo para ele. — O único problema é que eles incluem contratantes na lista de inimigos também...

– Espera, espera, espera. – Ela pediu erguendo as mãos e se levantando. – Esses loucos vão ME CAÇAR agora por sua causa? Porque, sabe, no momento eu não amo você de paixão e entregaria a sua cabeça na boa se me pedissem!

Óbvio que não o faria, mas queria que ele pensasse que sim. De novo ele fingiu estar magoado.

– Você parte o meu coração, Elena Gilbert. – Suspirou brincando só para voltar ao cenho pensativo novamente. – E, , sim eles vão lhe caçar. Mas eu preciso frisar que isso é teoricamente, nem sempre temos o azar de encontrar esses idiotas por aí e você não tem cara de ser azarada... Vai dar tudo certo. – Descartou as inseguranças dela com a mão.

Elena riu amargamente.

– Não tenho cara de ser azarada? VOCÊ ESTÁ FALANDO COM A RAINHA DO AZAR! Acredite, se tratando de mim, cem representantes de cada grupo que você citou vão aparecer com cartazes de “Churrasquinho de Elena Gilbert, já!”

Ele riu como se ela fosse uma dramática maluca.

– Supondo que isso aconteça, não vai ser problema porque você tem a mim – Apontou para si mesmo convencido. – Defensor dos fracos e oprimidos, restaurador da justiça, etc,etc.

Deixou que seu corpo tombasse na (pilha de coisas em cima da) cama e colocou o braço atrás da cabeça como de costume.

– Podemos agora voltar a falar da chave? –Implorou como se estivesse com o tempo contado.

A menina o encarou de braços cruzados por alguns instantes e sentou-se novamente no seu lugar

– Fala logo. – Ordenou mal humorada. – Você estava na parte em que eu me meto em confusões maiores guardando sua chave idiota.

– A única coisa que pode acontecer é Johanna talvez vir procurará-la, mas acho difícil já que ela não fez isso até agora. – Ele parecia falar mais para si mesmo do que para a garota. Percebendo seu momento de reflexão interna, balançou a cabeça e mudou o foco. – De qualquer forma, ninguém vai ser problema se escondermos bem.

Elena ainda exibia o ar emburrado, mas acreditava nele por algum motivo louco.

–Ok, e no seu projeto “Demolindo-o-quarto-da-Elena” conseguiu achar um bom lugar para a chave?

Sério, ela levaria anos para arrumar aquilo tudo. Ele deu uma olhada ao redor como se tentasse confirmar algo e assim que acabou a vistoria direcionou o olhar para o alvo de 99% das suas provocações.

– Não achei nenhum lugar bom o bastante. – Admitiu com o azul brilhando em alguma outra ideia. – Pensei então que a melhor forma de esconder seria... Em você.

Pela milésima vez naquele dia, Elena estava perplexa.

– Você não vai me fazer engolir esse troço vai?- Perguntara já recuando. Certa vez vira um filme na aula de espanhol em que uma colombiana engolia capsulas de drogas para passar pela emigração, depois ia ao banheiro pôr tudo para fora e então entregava a droga para os traficantes. A coisa era nojenta e podia dar mil problemas no meio do processo, então não era de se estranhar que Elena estivesse já na beira do colchão como um ratinho fugindo de um gato ardiloso.

– Engolir? – Ele franziu o cenho. – Não, pensei em outra coisa quando achei algo na sua gaveta de lingeries.

Definitivamente ela preferia o assunto dos comprimidos de drogas. Seu rosto queimou enquanto sentia a sua habilidade de falar se esvair do seu corpo.

Ele não pareceu perceber o desconcerto de Elena, o que o classificava imediatamente como portador de uma cegueira fatal, e levantou-se procurando algo no chão.

A filha mais velha dos Gilbert engoliu em seco quando viu Damon segurando a constrangedora liga que a menina tinha ganhado de aniversário de Caroline.

A peça era simples. Preta e rendada com um lacinho vermelho ao lado que combinava com o sutiã e a calcinha que vinham de conjunto.
Nunca vestira nenhum dos itens com medo de depois ter que lavar as peças e sua tia ou seu irmão verem (e agora seus pais). Levar para a lavandaria também lhe renderia embaraço, então era melhor que apenas sua gaveta as visse.

Ela se levantou abruptamente enquanto ele sorria de um modo sacana.

– O que você...? – Tentou formular enquanto recuava tanto que suas costas esbarravam na porta.

Ele estendeu a mão para que ela lhe entregasse a chave idiota. Quando finalmente recobrou a coordenação motora e soltou o metal frio em seus dedos pálidos, pôde observar a loucura que fora planejada por aquela mente diabólica.

Com habilidade, fez com que a chave se entrelaçasse na liga com um nó quase cego e depois voltou a se aproximar.
Para a sua terrível falta de sorte (ela dissera que era azarada!), Elena fora de saia para a escola naquele dia e não de calça jeans, o que indicava que o demônio teria acesso livre às suas pernas para colocar a peça intima em sua cocha.
Por outro lado, talvez fosse melhor assim já que se a garota estivesse de jeans, talvez ele simplesmente arrancasse a calça e atingisse seu objetivo.

Sua garganta secou e seus dedos suaram ao perceber que não tinha mais para onde fugir. Balbuciou coisas sem nexo em protesto, mas ele apenas revirou os olhos como se fosse a coisa mais natural do mundo ter um demônio colocando uma liga em suas pernas.

Abaixou-se apoiando um joelho no chão e sinalizou para que ela apoiasse o pé em sua perna.
Isso não podia estar acontecendo! Não que ela fosse santa ou algo assim, mas não era nem de longe o tipo de mulher sedutora que saberia aproveitar o momento e até inverter o jogo.

Conformada com a sua sina, segurou a maçaneta da porta enquanto levantava a perna atendendo ao pedido silencioso de Damon.
Não conseguia, entretanto, encará-lo. Fitou o teto engolindo em seco e implorando para não transparecer qualquer reação em seu rosto ao sentir que ele já começava a colocar a peça.

Fracassou terrivelmente. O toque de Damon deslizando a liga pela sua perna era morno, firme e até gentil em contraponto com o metal gelado e áspero amarrado à lingerie. Deixava um rastro de fogo por onde passava e ao chegar em sua cocha despertou nela sensações diversas. A própria situação em si era excitante, mas as mãos habilidosas deixavam tudo pior. Engoliu um suspiro tentando se concentrar ainda mais no teto.

Ele levou a liga até quase a sua virilha e quando os nós dos seus dedos roçaram a sua calcinha por acidente, ela estremeceu.
Imediatamente ele se pôs de pé sorrindo com a fixação da menina pelo teto.

Ela limpou a garganta e tentou retomar a compostura.

– A chave vai incomodar quando eu me mexer. – Reclamou tentando fazer sua voz soar firme.


Damon ergueu uma sobrancelha parecendo levemente irritadiço.

– Eu disse que já tinha terminado? – Murmurou e então levantou o lado da saia que cobria a perna com a liga e levou sua mão a centímetros dela.

Seus olhos brilharam e o azul acinzentado ficou repentinamente avermelhado, a cocha de Elena começou a formigar e a esquentar terrivelmente enquanto sentia algo fazer pressão contra a sua pele. No momento em que começava a doer, tudo parou. Temerosa, Elena olhou para baixo e se deparou surpresa com uma tatuagem de uma liga com uma chave pendurada.

Olhou para Damon atônita e pôde ver que seus olhos tinham voltado ao normal e o seu sorriso charmoso acendia novamente em sua face.

Quis rir como uma criança vendo um truque de mágica, mas se conteve. Aparentemente nunca mais usaria biquínis, já que sua mãe a mataria se descobrisse uma tatuagem no corpo da sua “filhinha que ainda ontem era um bebê” (ainda mais com aquele desenho), mas ter uma figura acoplada em seu corpo a incomodava muito menos do que uma chave balançando a cada passo que ela desse.

Percebendo que o demônio a encarava, tentou mudar a direção dos seus pensamentos.

Hey – Apontou seu indicador para os olhos azuis. – Se você podia fazer isso, porque não escolheu uma tornozeleira ou colar para guardar a chave? Tinha que ser logo o... Presente da Caroline. – Disse incapaz de dizer o nome da peça em voz alta.

Infelizmente, percebeu tarde demais que escolhera um “sinônimo” péssimo para evitar a ruborização.

– Caroline, a sua amiga loira...? – Perguntou o homem, não entendendo o ponto principal daquela conversa.

Elena trincou os dentes enquanto cruzava os braços.

– Sim, foi a sua namoradinha. – Confirmou a contragosto. – Pode responder à minha pergunta agora ou quer falar mais alguma coisa relativa à sua amada Caroline?

Ele piscou sem entender muito bem a reação exagerada que acabara de presenciar.

– Precisava ficar bem escondida e as opções que você deu poderiam ser vistas mais facilmente. — Sua voz demonstrava que ele estava explicando o que acreditava ser óbvio.

Algo nisso tudo deixou a menina incomodada e somou com toda a frustração que sentia em torno do tema “Carol”.
As emoções conturbadas eram tantas que a fizeram dizer o impensável.

– Não sei se alguns meninos que eu conheço concordariam muito com a sua teoria. – Soltou em um tom provocante.

Por um segundo teve a satisfação de ver nos olhos azuis a mistura de surpresa com algo nebuloso que não soube identificar. Damon enfiou as mãos nos bolsos a encarando.

– Lista grande de namorados? – Indagou com um esboço de sorriso.

Elena ergueu a cabeça sentindo-se idiota. Não acreditava no que tinha dito uma vez que não estava namorando desde o inicio do ano passado, quando rompeu com seu amigo de infância Matthew Donovan.

Matt era doce, gentil e a conhecia como ninguém, mas não passava disso. Sentiam o amor que irmãos deveriam sentir, não namorados.

Infelizmente ele não entendera esse ponto e ainda andava chateado com o rompimento. No inicio ficou preocupada, mas depois passou. O tempo cuidaria das feridas dele.

O fato era que seu ex-melhor amigo fora seu único namorado. Elena não era lá horrorosa e sabia que alguns meninos a achavam atraente, mas nada sério chegou a acontecer e ela pouco se importou com o estado da sua vida pessoal nos últimos tempos.
Quando se tinha uma família tão complexa quanto a Gilbert, a vida amorosa virava trivialidade.

Sentia tudo voltar ao seu devido lugar agora que Damon surgira, mas ainda assim não dera prioridade para relacionamentos até aquele momento. Salvatore parecia de alguma forma suprir toda possível carência que a menina sentia sem nem precisar fazer nada, só estando ao seu lado a irritando e fazendo gracinhas. Era uma sensação engraçada e angustiante ao mesmo tempo, não sabia explicar.

Tentou contornar a situação rindo e começando a limpar a bagunça do seu quarto. Mentia melhor quando não tinha que encarar o olhar de ninguém.

– Bem, eu não sei se os chamaria de namorados. – Falou enquanto recolocava as gavetas na cômoda antiga. – Mas digamos que somos bem... Íntimos . – mordeu os lábios.

Damon ergueu uma sobrancelha.

– Você me surpreende Elena Gilbert. – Disse começando a auxiliá-la na arrumação do quarto. Ela não soube se soava como elogio ou não. Na verdade, sua voz carregara um “quê” de frustração no processo.

Elena pôde sentir algo desconfortável entre eles e chegou bem perto de se arrepender de ter mentido e implorar para que ele a perdoasse. É claro que o sentimento não tinha lógica porque mal se conheciam e não tinham que dar satisfação um ao outro. Damon provavelmente estava normal e ela que se preocupava a toa com coisas sem nexo.

Depois de arrumar suas roupas de forma quase satisfatória, resolveu quebrar o silêncio.

– Ainda não respondeu à minha última e melhor pergunta. – Brincou marota enquanto sentava no chão descansando do trabalho. – O que ganho por “fazer uma tatuagem”?

Os olhos azuis a fitaram como se acabassem de sair de uma longa reflexão.

– O que você quer ganhar? – Indagou desconfiado sentando-se ao lado da menina.

Ela ergueu um joelho apoiando o pé no chão e assim que a saia deslizou por sua pele, passou a mão distraidamente pela tatuagem tentando pensar. Devia ser coisa da cabeça dela, mas o fato é que se mantivesse a concentração, conseguia sentir nitidamente a textura da renda e do metal em sua cocha.

Ao notar que Damon a observava, corou e puxou a saia de maneira recatada.

O que queria? E principalmente, qual era a coisa que queria e que lhe seria negada se pedisse ao seu servo em outra situação?

– Quero mais respostas. – Concluiu mordiscando o dedão.

As feições masculinas se tornaram zombeteiras sugerindo que achara que ela tivera feito uma péssima escolha.
Homens nunca entenderiam a importância que as mulheres davam para as palavras. Riu, fazendo sinal com a mão para que ele apressasse a resposta.

– O que você quer saber? – Era seu jeito de dizer que aceitara. O castanho brilhou de entusiasmo.

– Tudo. – Sorriu – Mas não aqui. Quer dar uma volta?

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Elena remoeu o que dissera durante todo o caminho até a sorveteria. Sua cabeça praticamente soltava fumacinhas de trabalho excessivo e, para variar, a culpa era toda dele.
E se Damon tivesse entendido que ela estava com segundas, terceiras e quartas intenções ao chamá-lo para sair?

Porque ela jurava que não fora o caso e só estava cansada de olhar o caos que se transformara o seu quarto! Nunca teria coragem para chamar alguém para sair, mesmo que esse alguém fosse o, ridiculamente lindo, Damon Salvatore.

– Então... – Arriscou não aguentando mais manter aquela dúvida só para ela. – Eu não sei exatamente como falei isso, mas me desculpe se eu dei a entender que, você sabe, estava o chamando para sair. Tipo sair. – Frisou mais a palavra querendo deixar implícita a conotação de encontro.

Damon a olhou com a testa vincada como se nem tivesse pensado nisso e a garota quis instantaneamente se chutar. Vendo o embaraço de Elena, ele riu.

– Isso quer dizer que não vou entrar para a lista dos seus quinhentos “amigos íntimos”? – A garota se surpreendeu por ele citar sua mentira idiota. – Droga! E eu achando que você finalmente tinha padecido à minha aparência, meu charme e minha habilidade inata de lhe deixar furiosa. – Brincou balançando, pesaroso, a cabeça.

Ela riu como uma criança boba. Sabia que a cada vez que ele dizia frases que sugeriam uma cantada ou uma relação entre eles, era brincadeira, mas ainda assim flutuava. Mais tarde teria que se aturar brigando com seu lado emocional enquanto tentava colocar na cabeça que tudo não passara de um gracejo.

– Concordo com o último item que citou, mas não sei se você tem os dois primeiros. – Mentiu deslavadamente rindo e fitando a calçada.

Não percebeu que ele havia parado de caminhar enquanto ela continuava até sentir uma mão em seu braço que a puxou tão de rompante que quase a fez trombar no peito musculoso de Salvatore.
A proximidade e o perfume que ele exalava a fizeram corar.

– Eu realmente não consigo acreditar que você falou isso. – O demônio disse fingindo perplexidade enquanto seus olhos apontavam divertimento. – Fique sabendo que eu já ganhei títulos de charme irresistível na categoria “demônios”.

Elena gargalhou tirando do rosto, o cabelo que o vento jogara em sua cara. Sentiu, surpresa, que ele ainda segurava seu braço.

– Ah, existem prêmios para isso? – Perguntou em tom inocente. – Mil desculpas então, Miss Inferno.

Damon semicerrou os olhos só aumentando o divertimento da garota, depois encarou o nada simulando estar pensativo.

Ok. Preciso admitir o fato de que não existem bons concursos lá...

– Oh puxa! Eu nem imaginava. – Interrompeu a voz feminina sarcasticamente.

– Entretanto. – Continuou elevando a voz. – Se tivéssemos, eu seria um nome cogitado.

Elena o fitou com ceticismo.

– Para a categoria “demônio mais metido”. – Ela completou cruzando os braços e o obrigando a tirar a mão que a segurava.

– Elena. – Ele anunciou se aproximando ainda mais. – Quando esse contrato acabar... Eu vou precisar de terapia. – Sua testa praticamente se colou à dela fazendo com que os olhos cinzentos ficassem próximos demais. Pôde perceber que perto da pupila existiam pigmentos esverdeados no azul hipnótico.

A garota corou terrivelmente querendo recuar ao mesmo tempo em que não conseguia. Sentia seu coração martelar com força e um arrepio perseguir sua pele como se fosse um imã em contato com o metal.

Ainda havia uma diferença de altura entre seus lábios mesmo ele abaixando a cabeça e essa era a única coisa que a impedia de agir como louca e simplesmente beijá-lo.
Beijar... um demônio.

Ela havia perdido a sanidade.

Deu um sorriso amarelo tentando tomar coragem, tarde demais, para respondê-lo.
– Terapia é legal. – Engoliu em seco. – Autoconhecimento e essas coisas. Vamos para a sorveteria?!

Damon repuxou os lábios em um sorriso de lado e repentinamente Elena sentiu a necessidade urgente de redobrar sua força de vontade para não beijá-lo como uma louca.
Finalmente um filete de espaço surgiu entre eles enquanto o demônio pegava uma das mãos cruzadas da garota.

– Você é a chefa aqui. – Disse levando a mão feminina até seus lábios.

Elena não pôde evitar engolir alto. Do jeito que seu coração dera um solavanco só com esse mínimo gesto, quem precisaria de terapia era ela.

Deram mais alguns passos e entraram na lanchonete modesta e aconchegante. O lugar era decorado no estilo dos anos cinquenta e para todo lado era possível avistar garçonetes de patins deslizando para atender os pedidos.
O balcão de vidro exibia os sabores que poderiam ser provados para auxiliar a escolha, mas isso era para amadores. Elena era cliente VIP desde os três anos de idade. AMAVA todo e qualquer tipo de doce.

Puxou Salvatore pela mão o conduzindo para sua mesa cativa no canto afastado do recinto. Quando pequena, sempre se sujava ao comer sorvete de casquinha e, para evitar que todos a vissem lambuzada, resolvera adotar aquela mesa todas as vezes em que ia. Velhos hábitos eram difíceis de mudar.
Damon puxou a cadeira para ela, sentando-se em frente e rindo de deboche da maneira quase histérica com a qual a menina sorria.

– Sorvete, sorvete, sorvete! – Cantarolava infantilmente batendo os pés por debaixo da mesa. – Rá! Não me olhe assim. É AÇÚCAR!

Ele ergueu uma sobrancelha e a olhou como se cogitasse a internação de Elena o mais rápido possível. Isso a fez rir, mas resolveu se comportar.
Quando Ângela trouxera o cardápio para ambos, seu humor, entretanto, murchou.
A irritação veio quando a senhora casada e mãe de família arregalou os olhos de forma interessada ao ver a beleza gritante de Damon e isso deu margem para que a garota percebesse que 90% da lanchonete (resumidamente todo o publico feminino e alguns gays) o devorava com os olhos também.
No caminho viera tão distraída que nem notou se as mulheres o olhavam ou não e pensar no possível número absurdo de garotas que deviam ter dado uma de Caroline (sinônimo para vadia) a deixava com ódio.
Não por ciúmes, mas porque de certa forma era um desrespeito. O pobre Damon deveria se sentir incomodado e acuado com todo esse assédio. Era perceptível quão desconfortável ele ficava pelo jeito com o qual retribuía maliciosamente os sorrisos que se dirigiam a ele.
Eram sorrisos que deviam carregar bem, bem, bem, bem no fundo um “quê” de constrangimento.
A garota tinha certeza de que se ele não fosse tão educado e cavalheiro já estaria mandando todas aquelas assanhadas para o inferno (sem trocadilhos), mas como não podia, poderia pelo menos contar com a ajuda de Elena para espantar o rebanho de vacas. Afinal de contas, amigos serviam para essas coisas.

Pediu um milk-shake de morango, ainda um pouco carrancuda e agarrou a mão de Damon brincando com seus dedos.

– Você vai querer o quê? – Se dirigiu a ele se inclinando mais na mesa e sorrindo.

Os olhos acinzentados ficaram levemente perplexos e suas sobrancelhas se uniram.

– Hã... – Agarrou o cardápio com a mão livre e olhou de relance pouco satisfeito. – Não posso só... Roubar um pouco do seu milk-shake? – sugeriu como se não soubesse exatamente o que fazer.
Ela devia ter pensado nisso. Não parecia muito natural um demônio tomando sorvete batido de canudinho, seria como ver uma zebra comendo churrasco com uma cerveja gelada. Damon não deveria nem saber direito o que era.

Elena riu forçadamente apertando mais sua mão.

– Awww, ele não é fofo? – Perguntou retoricamente para dona Ângela em um tom que pudesse ser ouvido por todos os clientes da pequena sorveteria. – Só duas semanas juntos e ele já está querendo dividir tudo comigo. – Exclamou com a voz melosa que namoradas estranhas usavam com seus parceiros.

Deu certo. Os rostos pararam de encarar a mesa escondida em que eles se encontravam e voltaram a se concentrar em suas vidas. Algumas reclamações como “Ain bee, essa horrorosa não é irmã dele não?” e “Ele é areia demais para o caminhãozinho dela” também foram ouvidas, mas ela ignorou.
A garçonete ergueu o cenho e sorriu dando tapinhas no ombro de Elena.

– Não o deixe escapar então, querida. – Piscou marota – Vocês formam um belo casal!

E saiu logo após sua fala, deslizando até o balcão. A garota sorriu para si mesma até que percebeu o olhar inquisidor e divertido que Salvatore lhe lançava.

– Então estamos juntos há duas semanas? – Murmurou com um sorriso irônico no rosto. – No final das contas faço mesmo parte da lista dos seus quinhentos namorados.

Ela fechou a cara e beliscou a mão dele. Odiava o fato dele nunca sentir dor quando ela o agredia.

– Eu não disse que estávamos namorando há duas semanas. – Respondeu com ar superior. – Disse que estamos juntos. Como parceiros, contratante e demônio, essas coisas. Se as suas fãs entenderam errado, eu só lamento. – Concluiu fingida.

Damon riu como se no fundo não acreditasse em nenhuma das suas mentiras e depois começou a encarar o local.

Ficaram em um silêncio estranho e inexplicável até que outra garçonete trouxe o pedido, desejou bom apetite e saiu.

Os olhos azuis encararam a taça de vidro gigante com desânimo.

– Isso parece ruim. – Disse franzindo o cenho.

Elena o olhou como se ele tivesse acabado de falar uma heresia. O que, bem, vindo de um demônio, não era exatamente algo difícil de acontecer.

– Fique sabendo que milk-shake é uma das melhores coisas existentes no mundo. – Grunhiu apontando o canudo recém-aberto para a face perfeita. – E você nunca provou então não pode falar nada. Aliais, vocês consomem os nossos alimentos humanos?

Aham. – Concordou ainda encarando o liquido rosa com desgosto. – Vocês têm umas coisas interessantes, como... Bebidas alcoólicas. Elas fazem sucesso no meu mundo e... Carne.

Ela pensou nisso por algum tempo enquanto fincava o seu canudo na bebida e bebericava levemente. Nunca pensou muito na dieta de demônios, mas se eles incitavam os pecados capitais e um deles era a gula, deviam gostar mesmo de comer.

– Não vai experimentar? – Desafiou empurrando o canudo que sobrava para ele. Ao receber como resposta uma careta, riu. – Ok. Então vamos para as perguntas. Não vou conseguir fazer tudo hoje então sempre que der faço algumas, certo?!

– Como quiser. – Respondeu cruzando os braços em cima da mesa.

Hmm, como é o inferno?

– Quente. – Respondeu com um sorriso zombeteiro no rosto.

Ela estreitou os olhos e tomou outro gole do milk-shake.

Ok, como é o inferno sem ser em termos de temperatura? – Reformulou cuidadosa. O sorriso que ele dera dessa vez morreu cedo demais.

– Um lugar deprimente. – A voz masculina saiu pesada como se imersa em lembranças. – Em termos gerais se parece muito com a terra, só um pouco mais... Cruel. Mas não ficamos tanto tempo lá como vocês pensam. – Esclareceu brincando com a embalagem do canudo que Elena usava. – Alguns demônios nem chegam a conhecer o inferno.

Aquilo a surpreendeu.

– Vocês ficam aqui a maior parte do tempo, então?

Ele assentiu ainda encarando o plástico rodando em seus dedos.

– E as pessoas que perdem suas almas vão para lá? Elas... – Pausara engolindo em seco. Esquecera-se de pensar em tudo isso depois do contrato. – Elas viram demônios também?

– Algumas. — Disse a encarando novamente. – As pessoas ruins o bastante para conseguirem viver sem uma alma, viram demônios... Já as outras vegetam ou morrem.

Elena sentiu seu coração gelar e o milk-shake dar voltas em seu estômago. Na maioria das vezes forçava-se a ser corajosa, mas era horrível saber que aquele seria o seu fim. Em seis meses morreria ou entraria em estado vegetativo. Ou pior, descobriria que era ruim o bastante para se tornar um demônio.

– Você foi uma dessas pessoas? – Perguntou só se dando conta de quão pesada era a sua pergunta segundos depois de formulá-la.

Para o seu alívio ele apenas negou com a cabeça.

– Minha história é um pouco mais complicada. – Murmurou com seus lábios se apertando em uma linha fina, como se decidisse se contava ou não para a garota. – Quer mesmo falar sobre isso?

Damon era sempre cauteloso com o que dizia a respeito dele, sempre desconfiado como se a qualquer momento Elena fosse usar o pouco que ele lhe revelava contra o próprio.
Isso a irritava e a angustiava de maneiras inexplicáveis. Queria que uma vez na vida ele se abrisse.

Suspirou agarrando sua mão em uma necessidade urgente de mostrar para ele que podia confiar nela, de que ela nunca o machucaria de nenhuma forma e entenderia qualquer coisa que ele falasse. Até se ele dissesse que se tornara demônio matando mil pessoas em um ataque terrorista, ela entenderia. Sim, ela perdia o foco de certo ou errado ao lado dele.
Os olhos azuis a fitaram como se vissem sua alma, por um momento pareceu que ele iria mudar de assunto novamente, mas depois apenas relaxou e prosseguiu.

– Meu pai literalmente é Lúcifer. – Disse medindo a reação da garota a cada palavra. Elena controlou sua expressão para não assustá-lo e apenas assentiu com a cabeça para que continuasse. Interpretando seu gesto como uma possível maturidade e preparo para o assunto, Damon começou a falar como se contasse a história de como seus pais se conheceram no baile de formatura da escola. – Milênios atrás Lúcifer se envolveu com uma mulher que, por mais irônico e absurdo que possa parecer, era extremamente religiosa. O sonho da sua vida era se tornar freira e foi com grande satisfação, alegria e blá, blá, blá que meus avós a mandaram para o convento. Um dia, enquanto meu pai estava aqui disfarçado de mendigo ou algo do tipo; não lembro direito; Os dois se encontraram e Lúcifer se "apaixonou". Começou a persegui-la e todos aqueles estratagemas psicopatas que deixavam as freiras de cabelo em pé. A princípio ela tinha horror a ele e às suas investidas, mas, sabe-se lá porque, depois de um tempo se apaixonou também. Quando meus avós souberam que minha mãe estava grávida, a tiraram do convento e a rejeitaram. Uma amiga freira a acolheu e a convenceu a nunca mais deixar que meu pai a visse. -Seu tom agora era de puro tédio. – Ela ouviu a amiga, rezou que nem uma louca e renegou meu pai. Morreu no parto, mas... “Deus” sentiu pena dela e fez com que um dos gêmeos nascesse anjo, enquanto o outro permaneceu demônio. Fim da história. Trágico, não? – Murmurou com o humor ácido.

Elena engoliu seco enquanto tentava absorver tudo. Céus! Era muita informação! Muita informação! MUITA INFORMAÇÃO!

Tentou sorrir e parecer casual.

– Então... Isso quer dizer que você tem um irmão?- Arriscou meneando a cabeça.

Ele sorriu amargamente.

– Stefan Salvatore. – Confirmou rolando os olhos. – Meu querido irmão três minutos mais novo.

A garota puxou a taça de milk-shake novamente para ela. Precisava de glicemia.

Hmm. – Murmurou sugando o sorvete um pouco mais derretido agora. – E... Vocês têm contato?

Damon se recostou ao encosto da cadeira e desalinhou o cabelo.

– Nos vemos de vez em quando para brincarmos de Caim e Abel, você sabe, coisa de irmãos. – Desafiou com o humor negro.

Ok, falar do tal Stefan não parecia boa ideia.

– Mas, wow! Você é meio que uma espécie de príncipe infernal já que é filho do super chefão. – Ela riu do modo como as últimas palavras a lembraram de vilões de videogame. – Desculpe. Super chefão é horrível! Hã... Filho do... seu pai.

Ele a fitou confuso.

– "Príncipe infernal"?

– Sim. – Concordou animada se inclinando mais sobre a mesa. – Deve ter regalias e ser bajulado pelos outros demônios porque, você sabe, é “filho do cara” e essas coisas. Hey! Você é uma espécie de Jesus ao contrário! – Completou praticamente dançando na cadeira.

Damon a encarou por alguns segundos e afastou imediatamente a taça da garota.

– Chega de açúcar para você por hoje. – Censurou com um vinco na testa a fazendo rir. – De qualquer modo, não sou o único filho legítimo de Lúcifer, então existem outros concorrentes para o cargo “Jesus ao contrário”. Você só acertou quanto a existir uma diferenciação entre os demônios comuns e eu e os meus irmãos. Nós praticamente não fazemos contratos, só em casos... Especiais.

Ela corou por alguns instantes lembrando só bem depois que a contratante de verdade nem fora ela e sim Bonnie. Era engraçado porque na maioria dos livros e filmes, a protagonista que se envolvia em confusões, era especial. A reencarnação de uma princesa antiga, a escolhida para quebrar uma maldição, alguém imune à leitura de mente de um vampiro e outros sinônimos. Elena, no entanto, não tinha nada de extraordinário ou predestinado. Entrara nessa maluquice sem querer, mais por teimosia do que por qualquer outra coisa. Se Bonnie tivesse escolhido qualquer outra amiga para guardar seu medalhão, ou se simplesmente decidisse aceitar o contrato pessoalmente, Elena nunca teria conhecido Damon Salvatore e, por algum motivo, pensar nisso a angustiava.

Sorriu tentando afastar da sua mente essas conclusões bizarras. Só a deixavam para baixo e não precisava lembrar a cada instante que era normal e sem graça.

– Então o caso da Bonn era especial. – Disse recordando rapidamente as últimas palavras do homem lindo à sua frente. – Pode me contar o porque ou é assunto sigiloso?

Ele sorriu maliciosamente de novo.

– Como poderia ser sigiloso se estamos juntos só há duas semanas e já dividimos tudo?- Indagou sarcasticamente.

Ela o olhou de lado com a expressão assassina.

HA-HA-HA. Quero ver se vai continuar fazendo gracinhas quando eu encomendar cinquenta milk-shakes e enfiar cada um na sua garganta demoníaca – Ameaçou tornando a colocar o copo perto dela.

As mãos pálidas se levantaram em sinal de rendição e os dois riram.

Ok, sua amiga Bonnie é um tipo muito raro de contratante. Lembra-se dos grupos que nos caçam, dos quais eu lhe falei?

Ela assentiu, sugando o resto de sorvete derretido que faltava.

– São poucos os integrantes de grupos que ousam fazer contratos com demônios e essas vítimas são para nós as mais importantes, porque significam apoio e um inimigo a menos. – Ele a olhara para ver se ela estava acompanhando. – O caso é que Bonnie faz parte de um dos grupos mais perigosos com os quais lidamos, um que desde o inicio dos tempos nos combate mesmo sendo acusado de ser aliado do meu pai.

Não sabia se o excesso de açúcar a deixara lenta ou se apenas não queria juntar os fatos, mas a verdade é que Elena não absorvera todo o sentido implícito daquilo.

– Bonnie é uma bruxa, embora ainda não tenha descoberto. – Pausara a olhando receoso. – E a família Bennett é uma das mais antigas famílias bruxas que caçam demônios. O plano então era torna-la uma aliada antes que descobrisse tudo e começasse a caçar mais demônios e...

– Contratantes. – Completou Elena sentindo seu mundo girar.

Sua melhor amiga agora era uma possível inimiga.
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Notas finais
Lembrei do nada que fui procurar na internet se existiam as camisas "I ♥ demons" e descobri que existem chaveiros e adesivos HUAHAUAHUSHAUHSUH.