Demônios
17 Capítulo 17: Concerte, desenhe e descubra
Notas iniciais
Organizando tudo na velha bandeja de prata, Ino observou novamente as pequenas tigelas com gelatina de morango e uva. Ele não as comera na noite anterior, em que tivera de deixá-lo só, com febre e perdido nos próprios vômitos provocados por aquela criatura cruel, que parecia apreciar feri-lo daquele modo brutal. Será que seu estômago estava tão machucado que ele não estava suportando comer? Parecia a única explicação plausível na mente da loira, que lamentava o fato de Gaara não ter se levantado, para sentar-se junto à ela naquela mesa, exatamente como fizeram no dia em que ela colocara os pés naquela casa antiga e isolada. O café da manhã era uma das poucas horas do dia que ele aparentava gostar e, quando lhe fizera gelatina pela primeira vez, naquela mesma cozinha, tinha uma certeza interna de fora especial para ele. Gaara agira exatamente como uma criança, saboreando algo adocicado e colorido com uma leve satisfação. Que sempre fora um pleno desastre na cozinha, isto já sabia, mas, nunca pensou que o primeiro item que fizera corretamente pudesse carregar um significado tão grande. Apenas agora, a Yamanaka dava-se conta daquilo, sorrindo ao ajeitar a pacata caneca de lousa com chá fumegante.
Não acreditava que teria de deixá-lo sozinho outra vez, e passar o resto do dia numa fadiga descomunal, fazendo relatórios sob a supervisão de um cara que achava-se mais importante no planeta do que todos no Oriente. Neji... Diversas vezes sentira vontade de socá-lo, algumas havia o feito, mas, mesmo que fosse de certo modo fosse doloroso deixar Gaara, aquele Hyuuga imbecil e prepotente tinha uma parcela de razão. Ela não havia feito relatório algum desde que chegara, aquele detalhe havia se apagado de sua mente! Detalhe, sim. Descrever Gaara sobre o título de “demônio” não relatava realmente nada do que ele era de verdade, tão pouco colocava em evidência todo o sofrimento que passara e, ainda estava a passar, piorando a cada dia.
Respirando fundo, Ino pegou a bandeja, encaminhando-se para fora da cozinha e tomando o rumo das escadas. Como ele não estava sentindo-se bem, teria de cancelar sua ideia de tentar fazê-lo sair daquela casa e, na propriedade mesmo, dar uma volta para ver o sol. Pretendia animá-lo, no entanto, sua inexpressão quando acordara já dava por decretado que seria uma tarefa difícil se insistisse. Jamais forçaria Gaara a nada. Adentrando o quarto, sorridente, ela logo o avistou, na mesma posição frontal que estava antes de sair.
_ Gelatinas e chá para um ruivo, uma loira, e o senhor ursinho!! – brincou Ino, rindo ao notar o desviar dos olhos verdes de Gaara, observando a pelúcia manchada com sangue posta ao seu lado.
Deixando a bandeja sobre o chão, Ino sentou-se ao lado do ruivo na cama, estendendo-lhe uma das tigelas de gelatina e, gulosa, já devorando a outra.
_ Não quero... – falou Gaara, rouco, olhando-a devorar a outra gelatina. Não queria gelatinas desta vez, queria ela. Queria que ela ficasse ali, com ele, e não fosse ao tal emprego.
_ Não quer?! Mas você gosta tanto! Tem que comer Gaara... Teve febre à noite, passou mal, não pode ficar sem comer nada! Seu estômago está doendo, é isso? – interrogou Ino, em um misto de indignação e preocupação. Deveria ter prosseguido com as injeções de ferro, para que ele pudesse se recuperar, temia que estivesse com anemia. Também, deveria ter dado a injeção receitada pelo farmacêutico a base de alguns calmantes, o ruivo estava exausto. As olheiras mais nítidas em seus olhos confirmam isto.
_ Quantas horas são? – perguntou Gaara, cabisbaixo, o tom de voz baixo.
Com o olhar interrogativo, Ino continuou a olhá-lo. Ele nunca preocupara-se com as horas, porque estava agora? Não compreendia. Soltando a tigela com gelatina sobre as tábuas do chão, Ino aproximou-se do ruivo, abraçando-o com esmero.
_ O que foi...? – perguntou Ino, suave, beijando-o no rosto.
Trêmulo, Gaara a olhou, voltando os olhos para os cobertores em seguida. Logo daria meio-dia, ela iria partir e voltaria somente as sete. Receava que ela não voltasse. Receava que o tempo retornasse a passar como séculos, exatamente quando... Ficava a vagar por aquela casa, com a mente... Fadada ao vazio.
_ Você irá sair ao meio-dia... – respondeu Gaara, em um sussurro fraco.
_ Mas eu volto... Já lhe disse que irei não voltar não é? Porque não faz um desenho? Você desenha tão bem... Hein? Eu te ajudo! – sugeriu Ino, sorrindo, em uma tentativa de animá-lo.
O desenho... Ele pretendia mesmo fazer um desenho a ela. Será que ela iria apreciar? Tinha de agradecer pelas gelatinas e, com aquela notícia muito ruim, havia esquecido-se daquilo. Talvez... Se fizesse um desenho que ela apreciasse, ela poderia ficar! Com uma dose de ânimo, o ruivo respondeu:
_ Está bem.
Eufórica, Ino bateu as mãos, dando-lhe um rápido beijo na testa e pulando da cama. Iria pegar as folhas de papel e os lápis de cor de Gaara, que estavam guardados no velho aparador da sala.
Se esforçando, o ruivo sentou-se na cama, apoiando-se por entre os travesseiros. Sentia-se fraco, todavia, iria fazer aquele desenho. Ela poderia ficar e ele não poderia falhar. Colocando os olhos sobre a porta, logo ele a viu, adentrando o quarto correndo, trazendo algumas folhas de papel, uma prancheta velha e as hastes coloridas que ela chamara de “lápis de cor”, como havia gravado. Não entendia porque ela gostava tanto de correr, aonde ia, sempre corria um pouco.
_ Pronto! Já pensou no que vai desenhar? – perguntou Ino, ajeitando sua longa franja, colocando a prancheta com as folhas no colo de Gaara.
_ Você. – afirmou o ruivo, colocando os olhos sobre as folhas.
Encarando-o, Ino fechou os lábios entreabertos. Ele iria desenhá-la? Ninguém havia desenhando-a antes...
XXX
Arrumando seu velho carrinho de rolimã na entrada da casa, Naruto já podia sentir o aroma de lamén, vindo da cozinha. Realmente, Hinata era a melhor cozinheira de toda Konoha, mesmo que não tivesse nascido lá, era como se ela já estivesse ligada aquele lugar... Sua beleza singela, gentil, sua doçura... Todas as coisas que sabia fazer dentro de um mundo tão complexo como a cozinha. Além de montar sua tigela de cereais com leite pela manhã, ou preparar um lamén instantâneo, todo resto que tentara se aventurar... Nunca dera muito certo. Ele sempre esquecia a chama do fogão ligada ou, colocava cenouras demais em um bolo. Aquele bolo de cenoura... Fora à única artimanha na vida, onde poderia afirmar não se arrepender de ter feito.
Colocando os olhos sobre os adesivos grandes e floridos em sua mão, o loiro retornou ao carrinho de rolimã. Iria decorá-lo para dar de presente a Hinata, a tinta azul clara já havia se fixado, faltava apenas os adesivos, que achara em uma das gavetas do aparador da sala, deveriam ter sido de sua mãe, certamente. Sua mãe... Mesmo brava às vezes, ela tivera a doçura de Hinata... Por isso, aqueles adesivos eram perfeitos! Quando menor, andara muito naquele carrinho com seu pai. Ainda lembrava-se dos comentários de todos na cidade, dizendo que seu pai era o homem mais inteligente de Konoha. Ele era o maior de todos os heróis! O mais forte dos cavaleiros e mais astuto corredor de carrinho de rolimã. Inteligente... Nunca fora como ele e, tinha consciência disso. Nada que fizera era merecedor de algum mérito.
Andara também na companhia de Kiba. Ele estava o mesmo... Tinha certeza de que o sucesso da empresa Inuzuka não havia alterado o maroto Kiba de sempre. Porém, tinha certeza também que a mágoa que tinha para com ele era mesma. Será que um dia ele iria lhe perdoar? Inúmeras vezes tentara fazer aquela “coisa” em si sair, mas, não conseguia, ela não saía.
Colando os adesivos, Naruto ouviu alguns passos, reconhecendo o perfume suave de violeta no ar. Hinata... Tinha de esconder o carrinho, e rápido! Não estava pronto ainda e, era melhor que o entregasse após o almoço. Confuso, o loiro empurrou o objeto para dentro da velha garagem da casa, afoito. “Ai caramba!” pensou Naruto, cobrindo de mal jeito o carrinho com uma lona antiga.
Correndo, ele deixou a garagem, mas rapidamente um corpo batera contra si.
_ Naruto! – exclamou a Hyuuga, dando alguns passos para trás, sorrindo. _ Porque toda essa pressa toda? –completou ela, calma.
_ É... Para o almoço!!! Estou morrendo de fome!! – inventou Naruto, puxando-a pelo braço em direção a entrada da casa novamente.
Deveria ter acostumado-se com a energia de Naruto, pensava Hinata, tentando conter a respiração descompassada pela corrida brusca. Puxando-a até a cozinha, o loiro aspirou o ar, apreciando o aroma delicioso do lamén feito por ela.
_ Lamén! Lamén! – comemorou Naruto, encaminhando-se até o fogão.
Vendo-o colocar uma generosa porção de lamén no prato, com um radiante sorriso, Hinata permitiu-se curvar os lábios também, por aquele breve instante. Era de fato impressionante a forma como a felicidade dele contagiava todo o ambiente. Aquela cozinha, às vezes um pouco escura, estava completamente clara. Sentando-se diante dele, a Hyuuga suspirou, teria de dar a notícia.
_ Naruto... Tenho que ir até o hotel em que o meu primo e minhas amigas estão. – começou Hinata, receosa.
_ Okay! Se quiser posso te levar lá! – exclamou Naruto, concentrado em seu lamén.
_ Não... Eu só volto as sete. – revelou Hinata, encarando-o.
Soltando os hashis, Naruto ergueu a fronte, deixando o enorme sorriso falecer. Às sete?
_ Como assim? – questionou o loiro, confuso.
_ Terei de deixar o emprego na lanchonete... Meu primo está precisando de ajuda com sua empresa e nós iremos ajudá-lo. Foi por isso que ele veio. – mentiu a Hyuuga. Não havia nada que detestasse mais do que mentir, todavia, mesmo que sujo era necessário.
“É agora que esse almofadinha pediu para morrer!” praguejou internamente o loiro, aborrecido.
Somente sete da noite... Era muito tempo... Ficaria toda à tarde sem ela, repentinamente, era como se ele e aquela casa já não sobrevivessem sem a presença dela. As lembranças da noite passada vieram-lhe a mente, outra vez. Jamais havia sentido algo tão abrasador, intenso. Entretanto, fora a melhor sensação que tivera e, sabia que era devido unicamente a ela. Sentira-se pela primeira vez, aceito como era...
XXX
A passos lentos, Neji continuava com sua particular procura. Devia se lembrar de onde localizava-se a simpática loja de roupas femininas onde ela trabalhava. Precisava de um bom almoço em um bom restaurante, tinha certeza que ela poderia lhe indicar. Também, certamente iria aceitar seu convite em acompanhá-lo. Era o mínimo que poderia fazer em gratidão pela breve estadia na casa dela e por suas informações a respeito do caminho até Konoha. Um refinado almoço lhe parecia de excelente tamanho. Todos apreciavam. Mesmo que ela fosse ligeiramente altiva demais, era uma exímia dama, talvez a mais intrigante de todas pelo qual topara ao quebrar mais um de seus carros.
Sentindo a leve brisa levar-lhe o cabelo liso e comprido, o Hyuuga avistou seu destino: a loja. Era aquela, tinha certeza. Dando mais algumas passadas, adentrou o estabelecimento sob o olhar surpreso de uma ruiva.
_ O que deseja, senhor? – saudou Karin, dedilhando os óculos.
Jamais vira um homem trajando um terno aquele horário do dia. Certamente era um estrangeiro, de negócios. Realmente... Parecia que Konoha estava a atrair todos os estrangeiros do Oriente naquela estação.
_ Mitsashi Tenten está? – perguntou Neji, cruzando os braços naturalmente.
Arqueando uma sobrancelha, Karin olhou-o confusa. Tenten? Como um homem como aquele conhecia Tenten?
Descendo as escadas da entrada do estoque, Tenten suspirou. O que ele estava fazendo ali? Aonde queria ir agora? Observando a expressão da amiga, a Mitsashi riu consigo mesma. Karin não deveria estar entendendo nada. Se contasse a ela que havia conhecido aquele prepotente forasteiro após o carro dele explodir, ela nunca iria acreditar.
_ Você por aqui, forasteiro? Se perdeu outra vez? – satirizou Tenten, sorrindo de canto.
_ Gostaria que me indicasse um bom restaurante nessa cidade e, se fosse de seu agrado, queria que me acompanhasse. Ainda tenho uma dívida com você. – assentiu Neji, com os olhos perolados sobre as fitas nos dois coques de Tenten. Era um lindo tecido... No entanto, aqueles extensos cabelos lisos ficariam melhor se soltos.
_ Okay... Eu aceito, está no meu horário de almoço mesmo. – concordou Tenten, sorrindo. Mesmo que autoritário, ele era de um todo um cavalheiro, ao seu modo.
Estendendo seu braço, Neji olhou-a. Aceitando o gesto, Tenten olhou rapidamente para Karin, incrédula.
XXX
Concentrado, Gaara coloria o desenho lentamente, com o rosto levemente inclinado. Ino havia deixado o quarto para se arrumar e, o passar das horas com ela aparentava estar cada vez mais depressa. Mas... Achava que ela pudesse apreciar o desenho, nunca havia concentrado-se tanto em uma tarefa antes. Ela ficaria, ela tinha de ficar.
Já com seu vestido vermelho e os sapatos na mesma coloração devidamente calçados, Ino voltou ao quarto, não havia feito uma maquiagem trabalhada. Não estava feliz em fazê-la. Observando-o, ela se aproximou, sorrateira, sentando-se lado de Gaara. Tocando-o nos braços, ela colocou os olhos sobre o desenho.
_ Céus... Está lindo!!! – exclamou Ino, surpresa. Levando uma das mãos a boca, a loira observou terminar de marcar o sombreado do vestido roxo que, na figura, ela trajava. Era o mesmo vestido roxo que ele rasgara e transformara em tiras.
O ruivo tinha mesmo um imenso talento, sozinho, ele deveria ter desenvolvido aquela atividade por anos, preso naquele quarto. Nunca pensou que poderia ser retratada daquela maneira tão linda, tão comovente.
Soltando o lápis, Gaara a olhou, apreensivo. Havia terminado. Estendendo o desenho a ela, ele abaixou a cabeça, aflito.
Sorrindo, pegou o papel, encantada. Colocando-o no espaço vago da cama, ela encarou o ruivo, sorrindo de canto com sua ideia. Respirando fundo, Gaara sentia-se nervoso, será que havia conseguido fazê-la ficar?
Abraçando-o com força, Ino o derrubou, beijando-lhe inúmeras vezes, contente. Assustado, Gaara a olhava, ela teria gostado? Mordendo-o na altura do ombro, a loira riu, erguendo a cabeça em seguida.
_ Eu te adoro muito, sabia? – confessou ela, rindo e voltando a abraçá-lo em travessura.
Sem dar-se conta, Gaara sorriu levemente. Nunca haviam dito isso a ele e, ouvir, trazia um grande espaço no peito. Rendendo-se ao abraço, ele suspirou. Ino era capaz de retirar qualquer dor que pudesse sentir.
_ Me adora? – questionou Gaara, inocente. Queria ouvir novamente.
_ Te adoro!! Muito! Muito! – exclamou Ino, provocando um riso breve no ruivo, devido à forma como ela tentava arrancar-lhe cócegas. _ Ah!! Peguei você agora! – completou ela, rindo em conjunto ao fraco riso dele. Era a primeira vez que o via rir abertamente.
Segurando-se para não cair, Gaara a parou, apertando-a rapidamente nos braços. Tinha uma importante pergunta a fazer:
_ Já está de saída? – interrogou ele, esforçando-se para que sua voz saísse audível.
Suspirando, Ino se abaixou, repousando sua cabeça no peito frio do ruivo, acariciando-o com carinho, a loira optou por ser direta. Sabia que ele havia passado toda sua vida só e, temia que aquela brusca volta estivesse o marcando demais.
_ Infelizmente sim... Mas logo estou de volta! Se sentir mal, eu deixei uma jarra com soro na cozinha. Também preparei um copo de suco e torradas para você comer a tarde... – contou a loira, erguendo novamente o tronco e observando-o. A opacidade daqueles olhos verde emanava um brilho desesperado e, esperava que encontrasse forças para se levantar daquela cama também e ir até Konoha. Permitindo que seus longos cabelos caíssem sob ele, Ino o beijou, recebendo o mesmo toque por parte dele, um selar sôfrego. _ Até mais tarde. – despediu-se ela, levantando-se da cama e calçando seus sapatos outra vez.
Vendo-a deixar o quarto, Gaara sentiu-se sufocado, erguendo-se com um nobre esforço e, seguindo-a em pânico, passando a descer as escadas como ela sempre fazia, correndo. Tocando a soleira da porta, ele parou. Ela já estava a descer a entrada da casa, era tarde demais. Entreabrindo os lábios levemente arroxeados, o ruivo permaneceu imóvel, olhando-a.
XXX
Sentado sobre o parapeito da janela, Sasuke olhava o horizonte, tentando conter suas emoções. Tamanha a cólera que sentia que era preferível ficar ali, ou acabaria trancando as portas da casa e impedindo-a de sair. Ela havia deixado claro que não iria fugir de si, no entanto, estava o fazendo mais uma vez. Poderia segui-la se quisesse... Mas com o ocorrido na noite anterior, em que salvara a amiga loira dela, não era prudente que repetisse a dose ainda pelo dia. Esperaria o entardecer, em que ela garantira voltar, e a buscaria. Entretanto, não conseguia compreender os motivos que ela poderia deter para passar a metade do dia naquele hotel... Nos últimos dias, ela estava diferente. Não sabia explicar a si mesmo como, mas sabia que algo nela havia se modificado.
_ Sasuke... Estou indo. – manifestou-se Sakura, olhando-o, de costas, na janela.
Não proferindo uma única palavra, o Uchiha cerrou os punhos, colocando os olhos ônix sobre a calçada. Seria assim todos os dias?
_ Quer que lhe traga algo? – interrogou a Haruno, sorrindo e tocando-o nos ombros. Na noite anterior, tivera plena impressão de ter avistado um outro lado daquele impotente rapaz solitário. Não fazia ideia de que ele sabia preparar chá, tão pouco que, ao contrário dela, era excelente na cozinha. Acordar fora uma árdua tarefa... Nunca sentira-se tão próxima dele antes. Aquilo lhe causava receio, mas também a dominava... Perigosamente a dominava.
“Quer que lhe traga algo?...” Itachi sempre repetira aquelas mesmas palavras, antes de sair ao meio-dia, para o último ano do segundo colegial. Ainda se lembrava do grave timbre de voz dele, assim como lembrava-se com todos os detalhes... De seu corpo inerte no chão, gélido, com aquele heróico olhar, parado. Todos haviam parado... Devido a ele. Certamente.
_ Não... – respondeu o Uchiha, cabisbaixo. Não iria olhá-la, não poderia olhá-la ou... Imploraria para que ela ficasse. E aquilo nunca dera certo... Mesmo que gritasse, tentasse argumentar para que as pessoas não saíssem, elas sempre iam e deixavam-no ali. Era inútil.
Com os olhos verdes sobre ele, Sakura suspirou. Não sabia como ele reagira consideravelmente “bem” a sua notícia... Se pudesse ouvi-la...
Mas não podia impedir-se. Tinha de ir trabalhar naqueles relatórios, era o seu dever, era o que... Havia vindo fazer. Evitava pensar no juízo final, não poderia pensar. Talvez... Estivesse mesmo escorregando por aquele tortuoso caminho, sem nem mesmo desejar voltar. Todavia, iria trazer algo para ele mesmo que ele não quisesse... Sasuke dera-lhe muitos presentes, sentia que, para ele, era sua maneira de demonstrar o que lhe faltava, o que de fato queria. Erguendo a fronte, Sakura manteve seu sorriso. Como Ino sempre dizia, era melhor manter um sorriso para enfrentar a pior das situações... Provaria a ele que, não estava a fugir dele.
_ Está bem... – afirmou Sakura, engolindo seco. Nunca fora por deveras carinhosa mas... Caso tentasse, ninguém poderia condená-la. Beijando-o na testa, ela deu uma rápida piscadela para o Uchiha, não estava apreciando vê-lo desapontado daquele modo. Ajeitando seu vestido cor de rosa, ela se virou e deixou o quarto, encostando a porta.
Trêmulo, Sasuke também se virou, encarando a porta recém-fechada. Ela não havia beijado-o com aquela ternura antes. Ela não iria fugir.
XXX
_ Não acredito que aquele idiota do Neji saiu e nós temos que ficar aqui, fazendo essa merda! – revoltou-se Ino, suspirando em desagrado e, mantendo os lábios pintados com um intenso escarlate, em um bico infantil.
_ Ino! – repreendeu Hinata, perplexa com o retornar do vocabulário sincero da amiga.
_ Tem razão porquinha... O Neji deveria estar aqui. Onde será que ele foi hein? Nem conhece a cidade... – comentou Sakura, analisando os papéis que já colocara sobre a cama.
Olhando na direção da janela, Hinata levou o dedo indicador aos lábios. Aquela garota de cabelos castanhos e olhos brilhantes... Lembrava-se dela. Neji havia surgido junto dela. Será que estaria com ela? Talvez, fosse o mais provável... Entretanto, ela chamara-o por “forasteiro”. Não era mais uma das namoradas dele, certamente. Ela levara, naquele momento na estrada de terra, fitas coloridas nos cabelos e, tinha um modo muito pacato de andar. Será que era de Konoha? Mas Neji não se deixaria acompanhar por uma moça não nativa da metrópole... Os olhos castanhos dela... Não era uma interesseira de Tóquio, naquele dia, sentira isso, ela exalava independência.
_ Acho que ele pode sim conhecer um pouco... – opinou Hinata, focando-se novamente nos papéis a sua frente. _ Ino, não vai começar?
_ Quanto tempo ainda falta para às sete, hein? – interrogou a Yamanaka, caminhando até a cama e sentando-se ao lado de Sakura.
_ Sete horas Ino... Acabamos de chegar... – respondeu Sakura, entregando à ela uma das pastas, a qual pertencia à ela.
_ Por onde podemos começar? – indagou Hinata, suave.
_ Pelo Sasuke? – sugeriu Sakura.
_ Sasuke... Sasuke... Sasuke... Super Sasuke! – ironizou Ino, arrancando alguns risos de Hinata, impressionada com a imitação satírica da loira, em provocação à rosada.
_ Ele lhe salvou! – exclamou Sakura, atirando uma almofada em Ino, que revidou o golpe.
_ Parem com isso! Vão estourar as almofadas!! – manifestou-se Hinata, vendo-se em meio a muitas almofadas e travesseiros, voando pelo quarto.
Rindo, Sakura e Ino caíram sobre a cama, encarando a Hyuuga, que tinha os braços postos na cintura e um meio sorriso nos lábios. Não sabiam o que seriam se não tivessem Hinata...
_ Testuda. – afirmou Ino.
_ Porca. – rebateu Sakura. _ Okay, começamos pelo Naruto.
Sorrindo, Hinata sentou-se novamente na cama, já pegando a pasta que lhe pertenciam.
XXX
Estavam há conversar por algumas consideráveis horas, aquele não era um restaurante como os bons de Tóquio, porém, tinha de internamente admitir, era agradável. Ela era uma moça totalmente tradicional como as da cidade, no entanto, a autonomia que ela detinha e até mesmo demonstrava naquele brilhoso olhar, não era de uma submissa moça do campo.
_ E você? Com o que trabalha? – questionou Tenten, levando sua taça com refresco aos lábios.
_ Digamos somente que com... O ramo empresarial. – limitou-se Neji, observando-a.
_ Não se cansa de ficar vestindo esses ternos? – perguntou Tenten, sincera.
Ela era simples, direta... Talvez não soubesse lidar mais com indagações simples... No entanto, ela o sabia. Tinha conhecimentos que, ele, não...
_ Estou acostumado... – respondeu Neji, permitindo-se sorrir de canto. Pela primeira vez, uma conversa em um almoço não tornara-se maçante.
_ Acho que eu iria ficar louca tendo que usar algo assim todos os dias... Não sei como aguenta forasteiro. – comentou Tenten, rindo.
_ Neji. – insistiu o Hyuuga, mantendo o sorriso. “Forasteiro”... Nunca deram-lhe apelido tão original.
Sorrindo, Tenten repetiu “Neji”. Por certo ele era muito formal, acostumado aquela compostura, mas, algo nele demonstrava a ela que no fundo, ele não apreciava sua própria realidade, apesar de exaltá-la. Havia um brilho profundo naqueles intrigantes olhos perolados, um brilho carregado de uma bagagem pesada, que o fizera criar armaduras a sua volta.
Entreolhando-se, ambos mantiveram os sorrisos, porém, o curvar dos lábios do Hyuuga logo desaparecera, constatando um homem de estatura alta, sorridente, com um grande buquê de rosas vermelhas nas mãos, aproximando-se da mesa. Interrogativo, Neji o acompanhou com o olhar, vendo-o tocar a cadeira de Tenten. “Quem é esse cara?” perguntou-se o Hyuuga, já sentindo a irritação invadir-lhe as veias.
_ Kiba! – exclamou a Mitsashi, surpresa.
Arqueando uma sobrancelha, o Inuzuka encarou aquele à frente de seu amor de infância. Fechando o cenho como o homem de cabelos compridos, Kiba analisou sua figura. De longe via-se sua prepotência, assim como seus olhos nada comuns.
Cerrando os punhos abaixo da mesa, Neji fez toda questão de encarar aquele com presas vermelhas no rosto. Entretanto, junto do desgosto, um grande aborrecimento o invadiu. Era como se tivesse sido atingido e, há anos algo assim não lhe ocorria.
XXX
Pretendia ter seguido-a, mas, acabara não indo. Aquele lugar... Todas aquelas casas... Estava o dia todo a vagar por cada uma e, o que encontrara na casa de seu tio Obito havia sugado qualquer força que pudesse ter para segui-la. Ou mesmo para deixar aquela calçada de pedra... Aquelas anotações... Todos da família estavam em acordo. Não conseguia acreditar. Tudo que vivera era fora uma grande mentira... Tudo estava quebrado.
Mas, era como se ainda não conseguisse assimilar todas aquelas palavras, apesar das inúmeras vezes que, lera aquilo desde que encontrara.
“O espírito amaldiçoado renasceu novamente. Não podemos deixá-lo viver. Esta noite, iremos matá-lo, Itachi já está suficientemente bom. Não mais a necessidade de ter um irmão, uma companhia para animá-lo. Temos que manter os Uchiha... Temos de deter aquela criança antes que ela acabe arruinando todo nosso legado. Não importa o quanto eles tentem protegê-lo, Mikoto e Fugaku sabem que geraram um monstro. Não podem nos impedir.” Ele nascera com uma única finalidade: atender a um pedido de seu irmão, doente na época. E, simplesmente quando Itachi se recuperara e, já não tinha mais serventia, todos estavam de acordo em assassiná-lo... Tudo escrito naquele maldito diário... Era a verdade sobre aquela noite. Seu tio tinha mesmo razão. Era um legítimo monstro, matara a todos que tentaram fazer o mesmo com ele, inclusive Itachi e seus pais... Que tentaram protegê-lo.
O imenso mar com sangue... Aquela noite fria e escura... O enterro em conjunto que, aos seis anos de idade, tivera de providenciar, sozinho.
_ Sasuke!!! – gritou Sakura, afoita, correndo na direção do Uchiha, sentado, inerte, no meio da calçada, com os olhos vermelhos fixos em um caderno.
Abaixando-se, a Haruno o tocou no ombro, encarando a face pálida e inexpressiva exibida por ele. Assustada, Sakura viu-se tocada pelo anoitecer, já expresso no céu. Algo sério havia ocorrido.
_ Eles queriam me matar... Mas eu o fiz antes... E acabei matando meu irmão e meus pais também... – pronunciou-se Sasuke, em choque, sentindo os olhos arderem.
Passando a respirar com dificuldades, era como se, finalmente, todo o peso viesse abaixo. Lembrava-se de cada detalhe daquela noite, os corpos, a chegada... Exceto, de como havia matado toda sua família. Mas aquilo em si lhe trouxera as imagens. Aquilo que ele aprendera a dominar anos depois... Entretanto, naquela ocasião, não havia contido-se. Naquela ocasião, não o tinha sob controle, agira de fato como um monstro.
XXX
_ Naruto?! Naruto, onde está?! – chamava Hinata, procurando-o por toda casa.
Ele aparentava não estar ali, então, será que havia saído? Teria ido a lanchonete? Confusa, a Hyuuga deixou sua bolsa sobre o sofá, encaminhando-se para fora da casa. Observando o céu, ela aspirou o ar, encarando a estrelas, que já começavam a brilhar. Ele voltaria em breve? Torcia para que sim, afinal, tinham pouco tempo. Queria estar junto a ele... Manter sua promessa de que... Cada momento entre eles seria memorável, o mais verdadeiro possível... E sim, estava sendo.
Rindo de canto, Hinata encarou suas sapatilhas. Não acreditava que havia conseguido contar a Sakura e Ino a respeito da noite que tivera com Naruto. A loira ficara eufórica, exigindo detalhes, Sakura, espantada com sua atitude. Será que era tão tímida assim? Não importava, desta vez, sentia-se contente consigo mesma.
_ Até que enfim você chegou, já estava pensando em passar naquele hotel e dar uns tabefes no seu primo almofadinha pela demora! – exclamou Naruto, trazendo sorridente, o carrinho de rolimã, com uma lâmpada verde na lateral, para que ela o visse no crepúsculo.
_ Naruto... O que é isso? – perguntou Hinata, incrédula com lindo objeto, repleto de adesivos coloridos.
_ É meu presente de boas-vindas!!! – apresentou o Uzumaki, estendendo o sorriso e escorando-se no carrinho, satisfeito.
Com os olhos arregalados, Hinata se aproximou, incrédula.
_ Gostou? – perguntou o loiro, enlaçando-a pela cintura, travesso.
XXX
Retornando do banheiro a passos vagarosos, Gaara olhou para o canto do quarto, seu canto. Era exatamente ali que ficavam as correntes, que ele arrancara algum tempo depois de se ver sozinho naquela casa. Era ali, que passara a maior parte de sua infância, vazio, ouvindo os gritos da voz. E seria para aquele mesmo local, que voltaria aquela noite, sem ela.
As horas pareciam não passar, e sentar-se sobre aquelas tábuas antigas parecia sua única opção. Podia sentir o parar repentino do ar outra vez, podia sentir o imenso e doloroso vazio invadindo-o novamente.
Havia vomitado bastante, a voz estava muito furiosa consigo e, já não suportava mais toda aquela dor. Retornaria ao seu canto, quem sabe, assim, seu corpo se acostumasse de novo a parar a própria dor, sem ela. Sabia que não iria conseguir, todavia, era sua única opção. Uma dor enorme estava a palpitar em seu peito, não queria ver-se sozinho outra vez... Não queria...
Sentando-se sobre o chão, o ruivo abraçou os joelhos, trêmulo. A dor apenas aumentava... Aumentava... Apertando-se, Gaara viu-se incapaz de controlar aquela dor, acabando por permitir que as grossas lágrimas lhe brotassem dos olhos, iniciando um forte choro, fazendo-o sufocar-se com a própria respiração.
Não poderia fazer nada... Não poderia fazer nada para que ela voltasse. Será que ela não compreendia que ele queria que ela ficasse ali? Chorou por longos e tortuosos minutos, até que, era como se não restasse mais nada.
Encostado a cabeça contra a parede atrás de si, ele olhou novamente para a porta, não sentindo a ansiedade desesperadora que, há minutos atrás, sentia para que ela aparecesse por ali. Era como se aquela ansiedade tivesse se esvaído junto de suas lágrimas. No entanto, sabia que em breve ela voltaria e, mais insuportável.
Subindo as escadas, Ino carregava uma pelúcia branca nas mãos, que comprara em uma loja onde, passara com Sakura há pouco. Seria uma companheira para o ursinho de Gaara e, também, uma garantia de que ela estaria junto dele todas as tardes e logo voltaria. Sorrindo, a loira atravessou o corredor, não vendo nenhuma luz acesa. Gaara deveria estar no quarto, pois apenas acendia a luz do banheiro. Ele estava acostumado a escuridão daquela casa. Adentrando o quarto, Ino notou sua ausência na cama, olhando para o corredor em seguida. Não localizando-o, ela voltou a analisar o quarto, reconhecendo sua sombra, sentada no canto do quarto.
_ Hey... Porque está sentado aí? Olha só o que eu comprei, uma namorada para o senhor ursinho! – exclamou Ino, sorrindo e mostrando a pelúcia ao ruivo, inexpressivo.
Deixando o sorriso morrer, Ino analisou sua face, preocupada.
_ O que aconteceu? – indagou ela, soltando a pelúcia no chão e tocando-o nos cabelos.
Notas finais
Kisses, Nita.
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