Demônios
18 Capítulo 18: Sou eu quem irá retirar sua dor
Notas iniciais
Vazio... Era como se apenas o vazio pudesse caber em si... Como se, todas as lágrimas que derramara compulsivamente tivessem secado, no entanto, ainda estavam contidas em si, trancadas pelo vazio. Ele não tinha um motivo para viver, talvez... Jamais tivera. E do que adiantava viver sem um propósito? Era o mesmo que estar morto. Uma vez, chegara a acreditar que tinha mesmo um propósito: satisfazer tudo que a voz lhe dizia, em troca de algumas horas sem a dor dilacerante que estava, aos poucos, alimentando-se de seu estômago. Entretanto, ela entrara por aquela velha porta de madeira, chegara sorrateira, travessa, e não o encarara como um monstro, o que ele acreditava ser. Chegara com seus longos cabelos loiros, que não queimavam como o sol, ele descobrira aquilo. Lhe fizera diversos tipos de chá, assim como também, gelatinas de morango e uva. Ele não tinha um propósito bom para viver, a vida toda, só ouvira que apenas sabia fazer coisas ruins. Agora, ela estava afastando-se de si como todos faziam, provavelmente ele deveria ter feito algo de ruim mais uma vez, o desenho poderia não ter ficado tão bonito. Ele não havia se esforçado o bastante. Ela partira, e o vazio retornara... Não queria aquele vazio. Gostaria de poder ter um propósito bom, gostaria de não estar morto, mas estava. E, na melhor das opções, poderia se parar pelas mãos dela, pelas finas e macias mãos dela, que lhe ensinara o quanto um toque poderia ser agradável e não corrosivo. Era preferível, ou a voz acabaria fazendo por si mesma, fazendo-o vomitar o estômago fora de vez.
_ Gaara... O que foi? – repetiu Ino, aflita, tentando manter o tom de voz suave, em uma desesperada tentativa de fazê-lo falar, reagir, e lhe contar o que havia feito-o sentar-se ali, sozinho, no escuro, sobre as tábuas frias e empoeiradas do quarto.
Aproximando-se mais um pouco, a loira encaixou-se por entre as pernas entreabertas do ruivo, retirando com cuidado os braços que, a pouco, estavam petrificados sob seus joelhos. Abraçando-o, Ino pôde senti-lo tremer, o que fez com que erguesse novamente a face, encarando os olhos praticamente não visíveis de Gaara, devido a vasta escuridão, alastrada por toda a casa.
_ Ino... Me mate. – suplicou o ruivo, trêmulo, sentindo o ar lhe esvair dos pulmões, aos poucos.
Arregalando os olhos, Ino sentiu-se congelar. Assim como um terrível arrepio percorrer-lhe a espinha.
_ Me mate... Me mate!!! – repetiu Gaara, afundando a cabeça no ombro da loira, já sentindo os detestáveis nós invadirem sua garganta.
Sentindo o coração falhar, Ino o apertou, inconscientemente. O que estava havendo com ele? Porque estava fazendo aquele pedido absurdo?!?! Ele não tinha o direito de lhe dizer uma coisa daquela!!!! Não tinha!!! Exaltada, a Yamanaka perdera pela primeira vez, todas as palavras. O forte choro do ruivo molhava-lhe a blusa, em um pedido desesperado e afoito de ajuda. Ele não queria o vazio. Não queria seguir o que a voz lhe dizia, o vazio estava causando uma insuportável dor, exatamente “no local onde não sangrava”, como ele havia aprendido a chamar o objeto pulsante em seu peito. Nunca lhe disseram o nome, do mesmo modo como, há poucos dias, não sabia como deveria denominar as hastes coloridas. Lápis de cor. Ino havia lhe ensinado o nome correto.
Sentindo-o apertar furiosamente o centro do peito, a loira o afastou, tendo que usar da própria força para fazê-lo parar, ou machucaria a si mesmo. Assustada, Ino segurou-lhe as mãos. Jamais permitiria tal ato. Espera... Não era aquilo que ela viera fazer? Matá-lo?
Retirando os olhos da silhueta de Gaara, Ino encarou o chão, chocada. Era aquilo que viera fazer, ela aquilo que deveria fazer. Então porquê? Porque não poderia simplesmente aproveitar a chance? A resposta veio pronta em sua mente, fazendo-a derramar, imóvel, as primeiras lágrimas em mais de dez anos. Fazendo-a constatar que, pela primeira vez, estava a amar.
Amar alguém considerado por todos um demônio, alguém que deveria matar pelo bem de todo Oriente. Todavia, aquela ficha que lhe estenderam sobre ele, não tinha um alerta. Um fundamental alerta evidenciando que, se ele estivesse a sofrer, ela também estaria. Se ele estivesse a vomitar, ela também estaria, internamente. Se ele estivesse a exibir aquele pacato sorriso belo, ela também iria sorrir.
Desmoronando sobre o chão, a loira pôs-se a chorar, alto, assustando o ruivo, que erguera-se rapidamente e saíra do quarto em um rompante. Estava fazendo algo muito ruim a Ino!!! Ela também estava sofrendo por sua causa! Não poderia vê-la daquela maneira, não queria fazer mal a ela como sempre fazia as pessoas, não suportava. Enraivecido consigo mesmo, Gaara abriu com brutalidade a porta do banheiro, acendendo a luz com violência, e abrindo o armário da mesma forma. Retirando um médio canivete, que pertencera a seu pai, o ruivo o apontou furiosamente contra si, apertando-o contra seu peito.
Entretanto, a areia não permitia sua entrada, fazendo-o tentar inúmeras e inúmeras vezes. Porque a areia não deixava?!?!?! Ela fora sua única companheira nos dias em que estivera atado, então porquê?!?! Porque a areia estava o traindo?!?! Porque todos o deixavam e o traíam?!?!
_ GAARA!!!!!!! – a voz em pânico de Ino adentrara o banheiro, fazendo com que o trincado box de vidro negro, adquirisse mais e mais trincas, a beira de se quebrar.
Retirando desesperadamente o canivete das mãos dele, a loira o atirou pela pequena janela, com a súbita dose força e adrenalina que lhe invadira o sangue.
_ NUNCA MAIS FAÇA UMA COISA DESSAS!!! VOCÊ ME ENTENDEU?!?!?! – berrou a loira, apavorada, encarando os olhos verdes do ruivo, avermelhados devido ao choro.
Arregalando os olhos, Gaara engoliu em seco. Pálido, ele indagou rouco, com dificuldades:
_ Eu só trago coisas ruins a você... Porque não quer que eu pare?
_ Não!!!!! A coisa ruim aqui sou eu, não você!!! – exclamou Ino, sem pensar.
Confuso, Gaara perguntou-se como ela poderia ser algo ruim. Os cabelos dela brilhavam como o sol, e haviam dado até mesmo a ele, uma luz que um dia odiara.
_ Porque está dizendo isso? – perguntou o ruivo, fraco, desentendido.
Como se analisasse as próprias palavras, Ino suspirou fundo. Não poderia contar a Gaara. Ele não suportaria. Não sabia do que ele seria capaz se descobrisse seu real motivo ali, temia imensamente o que poderia ocorrer à ele. Ele não merecia, já havia sido ferido demais por toda a vida, não poderia feri-lo também. Apesar de que, de algum insano modo, ela já estava o fazendo.
Abraçando-o com certa agonia, a Yamanaka apertou-lhe o corpo trêmulo e bastante magro. Gaara estava a adoecer mais a cada dia, não podia deixá-lo sozinho. Não poderia... Prosseguir com aquela missão absurda. Estava decidido: deixaria a agência. Não importava se tivesse de fato que trabalhar como garçonete, não se importava em morar definitivamente naquela isolada propriedade, desde que estivesse junto dele.
_ Gaara... por favor... prometa-me que nunca mais fará algo assim... Por favor... – implorou Ino, a voz embargada, o rosto alvo manchado por lágrimas.
Imóvel, o ruivo sentia seu peito continuar a doer. Não gostava de vê-la como ele, perdendo água do corpo e sentindo-se invadida pela dor. Ela não merecia a dor, ela fazia com que a dor passasse, não merecia senti-la. Aquilo já estava gravado em sua cabeça há um considerável tempo. Não sabia como ela fazia para retirar-lhe a dor, mas tentaria fazer o mesmo a ela. Receoso, Gaara deslizou suas trêmulas mãos até os cabelos da loira, concentrando-se em fazer corretamente. Emaranhando os gélidos dedos nos fios loiros, o ruivo iniciou uma lenta carícia, um pouco desajeitada. Trazendo-a ainda mais para junto de si, ele ergueu-lhe a cabeça, para que de frente, pudesse observar as sempre transitórias expressões dela, para ter certeza de que estava ou não retirando a dor dela como deveria.
Estática, Ino mantinha os olhos azuis, úmidos, sobre os de Gaara, que estavam a encarar seu cabelo, como se fosse um novo brinquedo ou uma grande tigela de gelatina, demonstrando uma sutil concentração. O que ele estava tentando fazer?
_ Desta vez, vou tentar retirar a sua dor... – afirmou o ruivo, em tom praticamente inaudível.
XXX
Maldito Inuzuka Kiba. Maldito. Maldito!!! Tinha vontade de retalhá-lo como salada!!! Apenas o nome, Inuzuka Kiba, já demonstrava o quão maldito aquele cara com estranhas presas vermelhas no rosto poderia ser. Qual direito ele loucamente imaginava que tinha para retirar a companhia de alguém em um almoço?? A Mitsashi estava a almoçar com ele, havia aceitado seu convite, não havia cláusula alguma indicando que aquele moleque intragável, vestindo uma ridícula jaqueta de couro, iria surgir e estragar o único almoço agradável que tivera naquele fim de mundo. Ele achava que era um empresário?! Ele não deveria compreender nada sobre o assunto!!! Não deveria ter noção alguma de como administrar uma empresa, e ele poderia ter certeza quanto a isso há metros de distância.
“De onde surgiu esse imbecil?!?!” pensava Neji, prosseguindo com seus golpes contra os azulejos do banheiro. Não havia nada que o Hyuuga pudesse detestar mais do que sentir-se “derrotado” em algo e, naquela tarde, Kiba o derrotara, levando Tenten consigo e deixando-o lá, como um garoto a perder um novo amigo pela simples chegada de um velho conhecido deste.
Garoto... Era exatamente como se sentira aquela tarde, assistindo-a deixar o restaurante devido à persistência do Inuzuka, que usara como arma a seu favor o fato de “não aparecer há anos na cidade”... Se ele não aparecia há nos, porque havia decidido retornar agora?! Ninguém necessitava da sua presença!!! Poderia ter ficado na fazenda qualquer onde estava!!! Aquele cara emanava um forte sentimento do campo, e definitivamente, o campo não era e nem seria algo que combinaria consigo...
Fechando o chuveiro, o Hyuuga enrolou a toalha branca que separara envolta da cintura, saindo a passos duros da suíte do quarto. Aquele hotel também era horrível!! Estava farto daquela tv que só sabia chiar e chiar, pelo qual já havia travado guerra. Também, sua pouca paciência já havia se esgotado com o frio que parecia estar colado junto daquele lugar.
_ Como eu não daria tudo para cair fora desse fim de mundo! – exclamou Neji, bufando em irritação e sentando-se na cama. Não poderia ir. Não ainda. Aquelas três completas irresponsáveis não haviam terminado os relatórios a ser entregue a agência e, enquanto elas não os terminassem, não poderia deixar fático lugar.
Erguendo levemente a cabeça, as pequenas gotículas de água presentes no longo e liso cabelo de Neji caíram, manchando as tábuas do chão. Ela... Outra vez, apenas a imagem da autônoma morena lhe cabia na cabeça. Ela era surpreendentemente inteligente, e tinha um largo sorriso quase encantador, se já não tivesse experiências insatisfatórias suficientes com aquele conjunto de “seres”, denominado mulheres. Elas eram o mais exímio exemplo de que um homem jamais poderia entregar-se totalmente. Ino era a mais pura demonstração daquilo, todos na agência já haviam perdido a conta de quantos namorados ela tivera e deixara em menos de duas semanas. Mas ela... Ela era diferente... Algo em si gritava que ela era bem diferente e não conseguia ignorar aqueles gritos. Ela era presente, independente... Entretanto, era culta e recatada, sua própria casa era uma fiel demonstração disso. Assim como também, o fato dela ter mantido uma boa distância entre ambos, no turbulento dia que passara na casa dela, sem escolhas.
Levantando-se da cama, Neji encarou a janela entreaberta, mostrando o início do céu noturno de Konoha, completamente estrelado. Tinha de admitir, o Inuzuka poderia ser muitas e muitas coisas, poderia fazer uma interminável lista somente apontando aquilo, entretanto, era esperto. Muito esperto.
Todavia, ele era Hyuuga Neji, e não deixaria que um moleque metido a fazendeiro emergente lhe ultrapassasse. A simpatia de Tenten era o único item bom que encontrara naquele local, não permitiria que o Inuzuka lhe roubasse-a. Os brilhantes olhos castanhos dela... Ela fora a primeira a atrever-se a enfrentá-lo quando havia acabado de perder mais um carro. Não deixaria que a intrigante atmosfera que a rondava, escapasse de sua análise, da sua compreensão. Gostaria de compreendê-la, compreender os valores incomuns que ela cultivava... Talvez já esquecidos por ele, como a família.
XXX
Rindo, Hinata tentava em vão controlar o velho carrinho de rolimã, agora, o mais bonito que já vira na vida. Naruto dera-lhe um lindo presente e, a cada dia, a Hyuuga ia notando algo evidente para si: o loiro era extremamente criativo, e através de sua alta criatividade, era capaz de criar os mais malucos e lindos objetos, como o “o sapo e o biscoito”, uma pequena escultura que ele lhe contara vagamente no café da manhã, ter feito quando ainda frequentava o antigo colegial de Konoha.
Onde estaria o “sapo e o biscoito”? Repentinamente, tudo que estava relacionado a ele, era como se estivesse a relacionado a si, como se também, fosse algo dela. Sorrindo, Hinata apertou as mãos contra a direção do carrinho de rolimã, já com os cabelos a esvoaçar devido a gélida brisa da noite. É. Não tinha experiência ALGUMA para tentar controlar carrinhos de rolimã em uma estrada de terra! Porém, era como se por alguns minutos, voltasse a infância que praticamente não tivera em função de ter que cuidar de sua irmã mais nova, Hanabi, após a morte de sua mãe. No entanto, Naruto era capaz de fazê-la sentir de saudades do que não chegara a viver...
_ AAAAAAAAH!!!! Caramba você está tentando me matar?!?!– brincou Naruto, notando a aproximação cada vez mais rápida da Hyuuga com o carrinho na beira da estrada, onde estava a observá-la. Não pensando duas vezes e, rindo bastante, o Uzumaki começou a correr, veloz e travesso.
_ Eu não sei controlar isso Naruto!!!! – gritou Hinata, não conseguindo conter o riso ao ver o desespero do loiro, correndo em círculos na estrada para fazê-la rir.
Virando o carrinho mais uma vez, Hinata passou bem perto de Naruto, que, aproveitando sua distração, subiu no carrinho com uma pequena acrobacia, pegando a simpática lâmpada verde que estava a pouco, pendurada.
_ Oi! – saudou o loiro, risonho, divertindo-se com o leve susto tomado pela Hyuuga.
_ Naruto! Como subiu aqui?! – indagou Hinata, o tom de voz alto, ainda na tentativa de controlar o carrinho, que estava a deslizar pela estrada, trazendo um sentimento há muito não experimentado por ela: a liberdade.
_ Assim! – indicou Naruto, tocando-a no pescoço e beijando-a com leve fervor.
Surpresa, Hinata soltou as mãos da direção de seu mais novo presente, deixando-se embriagar pela forma doce como o loiro sempre a beijava. No entanto, o acelerar do carrinho persistiu, fazendo com que ambos arregalassem os olhos, lembrando-se daquele mero detalhe.
_ AAAAAAAAAAAAAH!!!! – exclamou a Hyuuga, apavorando-se com a visão de uma fina árvore, a se aproximar rapidamente.
Virando habilmente o volante, Naruto deu uma profunda gargalhada. Aquele com certeza era um dos melhores passeios que já dera naquele clássico e importante objeto, aonde quer que seu pai estivesse, estaria muito feliz pois: ele não permitira que o carrinho se quebrasse de novo, naquela mesma árvore!! Onde, tantas vezes, sua mãe e ele bateram.
Encolhida, Hinata olhava incrédula para a face contente de Naruto, como ele poderia estar a dar tantas gargalhadas? Quase tinham batido de frente com uma árvore!!! Porém, aquele radiante sorriso, era capaz de fazê-la esquecer de qualquer árvore.
_ Fica em pé!!! – solicitou o Uzumaki, inclinando-se para virar a direção rumo a entrada de sua casa.
_ O quê...?! – questionou Hinata, confusa e totalmente incrédula. Como assim?!?! Não havia como ficar em pé naquele carrinho em movimento!!!
_ Fica em pé que hoje, eu tenho que te fazer o pedido mais importante DA MINHA VIDA!!!! – berrou o loiro, estava a explodir de tamanha felicidade. Nunca pensara muito antes de fazer algo, e, naquele instante, não pretendia fazer diferente. Havia decidido-se agora, era como se pudesse sentir o calor que seus pais costumavam emanar, antes de congelarem naquela sala. A decisão mais esperada por seu coração, talvez... Desde o momento em que a vira... Com aquela fita azul nos cabelos, na lanchonete.
Seus pais... Eles estavam ali, em algum lugar daquele vasto céu, brilhando... Sorrindo... Confortando-o.
Parando bruscamente o carrinho, Naruto desceu, ainda sobre o olhar estático de Hinata, a acompanhá-lo.
_ Fica de pé, por favor. – pediu Naruto, ansioso, segurando-a firmemente pela mão e auxiliando-a a ficar de pé sobre o carrinho.
Naquele carrinho tudo começara, ali, também, tudo acabara com anos na garagem. Entretanto, ele queria que tudo começasse de novo, e Hinata era este começar. Ela lhe salvara, salvara da culpa interna de ser realmente um monstro. Mesmo que sempre tentasse dar todos os passos para seguir em frente e continuar a sorrir, ela havia lhe aceitado, exatamente como era.
Olhando-o, Hinata encarava o nobre sorriso do loiro, que se ajoelhara no gramado em frente a casa. Não... Ele pretendia...?
_ Hyuuga Hinata, aceita ser minha namorada?
XXX
Aos gritos, Sasuke estava a quebrar todos os objetos da casa de seu falecido tio, Obito. Estática na porta, Sakura olhava-o com o semblante retorcido, marcado, não estava suportando vê-lo daquela maneira, afundando em uma dor imensa, que ela não sentia-se no direito de intervir. Atirando o sofá contra a janela e deixando todos os brasões da família Uchiha, feitos de raros vidros, se espatifar no chão, Sasuke mal conseguia respirar. A fúria e a dor que tomavam conta de seu sangue estava prestes a queimá-lo por dentro. Mentira... Tudo fora uma grande mentira... Monstro... Eles o consideravam um perigo... Algo a ser descartado depois de sua “utilidade” ter sido cumprida.
Sentia raiva de todo aquele clã que, por toda a vida, lutara para manter intacto, para, quem sabe, poder reconstruir. Todavia, seu pai, sua mãe, Itachi... Eles haviam tentado impedir... Seu irmão, o maior herói de todos os heróis... Ele fora somente uma companhia para salvá-lo de uma grave doença. Este fora o único propósito de seu nascimento... De sua falsa infância, pelo qual não colocara os pés fora do clã. Agora, sabia porque todos o impediam de sair: pois era um monstro. Nunca deixara de ser. Ele havia, no fim de tudo, destruído um a um... Havia sido, o que a vida toda lutou para controlar... O monstro.
No entanto, não tinha mais motivos para controlar. Não tinha.
Com um grito feroz, Sasuke deixara que toda a energia roxa, proveniente da criatura em si, o envolvesse... Não haviam temido o monstro? Pois então, o monstro não iria mais proteger aqueles que haviam traído-o.
Apavorada, Sakura entreabriu os lábios, Sasuke estava fora de controle. Era o demônio, o espírito amaldiçoado, ele estava permitindo que o demônio tomasse forma. Tinha que impedir!!! Não poderia deixar que ele acabasse se ferindo ou destruindo toda Konoha!!! Os olhos dele... O avermelhado devido às lágrimas dava lugar ao vermelho vívido e maligno de seus verdadeiros olhos. O roxo... Era como se todo seu trabalhado corpo, vestido com uma blusa branca simples e uma calça preta, estivesse blindado por toda uma aura roxa, agressiva.
_ AAAAAAAAAAAH!!!!! – emitindo um berro ensurdecedor, o Uchiha foi capaz de quebrar todas as janelas da grande casa de seu tio, assim como trincar todo o piso de mármore da sala de estar.
A rosada não pensou em mais nada. Correndo, ela atirou-se sobre Sasuke, abraçando-o com toda sua força, chegando a provocar pequenos rasgos na camisa branca vestida por ele.
_ SASUKE!! RESISTA!!! Por favor!!! EU ESTOU AQUI COM VOCÊ!!! – gritou a Haruno, desesperada. O corpo dele estava tão firme quanto uma rocha. Ela tinha que trazê-lo de volta!
Ela iria trazê-lo de volta!!! Sasuke estava precisando da sua ajuda, pela primeira vez, não iria abandoná-lo, não iria fugir. Ele não era o monstro que haviam descrito naquele maldito diário... Não era... Sem perceber, ela havia deixado-se levar. Agora, não tinha mais volta. Não poderia deixá-lo.
Arfando furiosamente, Sasuke mantinha-se imóvel, tentando não permitir que as palavras ditas pela Haruno e que seu toque, lhe retirassem o insaciável desejo de raiva, de cólera. Ela havia tentado fugir dele... Diversas vezes... Talvez fosse como eles...
Olhando-a, o Uchiha contemplou a distorcida imagem da rosada, tentando conseguir tocá-lo totalmente, tentando ultrapassar toda a criatura, que já lhe dizia tudo que era verdade. A verdade era: ela também jamais o aceitara, o temia como todos, temeram. Ele iria dar motivos para que o temessem agora...
_ POR FAVOR SASUKE!!!! – gritou Sakura, tentando sacudi-lo. O Uchiha parecia estar morto... Ela tinha que acordá-lo!!! Não poderia perdê-lo!! _ Por favor... Por favor... – suplicou Sakura, era a primeira vez que implorava por algo na vida. Era a primeira vez em mais de dez anos... Que sentia-se uma completa inútil... Não queria ferir Sasuke... Não queria.
Vendo-a cair ao chão, com as mãos sobre os joelhos, Sasuke sentia toda sua cabeça doer. A criatura estava demonstrando sua voz, gritando, insistindo para que destruísse todo aquele lugar. No entanto... Ela estava a chorar, ela estava a chorar... Devido a ele.
Levando as mãos a cabeça, o Uchiha gritava, imerso em uma ácida dor. Erguendo-se depressa, Sakura ajudou-o a sentar-se sobre o chão. Ele estava passando mal, tinha que retirar aquilo de dentro dele... Agora!!!
_ Sasuke!!!! Sasuke!!! Acorda!!! Acorda!!! Eu estou aqui!!! Você não está sozinho!!! Você não teve culpa!!! Não teve!!! Confia em mim!!! Por favor!!! Vai ficar tudo bem!!!! Controla, CONTROLA ELE SASUKE!!!! – instruiu Sakura, segurando-o com força nos ombros, tentando conter o choro. Vê-lo naquele estado, estava fazendo-a sentir a mesma dor... A mesma terrível dor...
_ Socorro...!! – emitiu fracamente o Uchiha, apertando a cabeça com força. Queria Sakura... Ela não estava fugindo.
_ Eu estou aqui!!!! Confia em mim... – assentiu bravamente a Haruno, não desviando os olhos um mísero segundo da face dolorida de Sasuke, que, aos poucos, passava a reagir, apertando-lhe as mãos.
Diante do contato, a rosada o abraçou, sentindo a imensa nuvem roxa, assim como a força no corpo do Uchiha, desaparecem, com o passar dos minutos. Jamais imaginara que... Quando de fato solicitasse ajuda, seria atendido. Aos prantos, Sasuke afundou a cabeça contra o ombro de Sakura. Sentia-se completamente sugado. A dor que tomava conta de si, aliviada pela cólera, estava a se extinguir... Por ela. Ela não o temia. Não era como eles.
_ Se acalma... Eu não vou permitir que você passe por isso de novo. – garantiu Sakura, decidida. Mesmo autoritário, recluso demais e por muitas vezes bruto, Sasuke era diferente. Nenhum dos caras que conhecera, fora capaz de prendê-la daquele modo... Fasciná-la.
Separando-se da Haruno, o Uchiha olhou-a com segurança. Ele iria construir um nova era para os Uchiha... Junto dela. A queria como sua mulher. Já.
_ Sakura, case-se comigo. Hoje. — pediu Sasuke, em tom grave, soando como ordem.
XXX
Acariciando carinhosamente a face de Gaara, Ino o observava dormir. Havia conseguido o incrível feito de fazê-lo dormir, claro, com uma ajuda mais do que considerável do medicamento calmante, que compara na farmácia em Konoha junto da doses de ferro. Gaara havia estado todo o dia distante, e, diante das três vezes em que ele passara muito mal debruçado sobre aquela pia no banheiro, não havia outra alternativa. Ele precisava descansar urgentemente, já havia perdido completamente as forças e, novamente, a ponto de não conseguir caminhar sozinho. Tivera de ajudá-lo a tomar banho, a se secar e, como ele havia comido as torradas e o soro que preparara a pouco, achara mais do que adequado que ele dormisse.
O ruivo havia ficado com muito medo, tentara retirar a injeção com o medicamento de suas mãos, chorara, mas, no entanto, havia concordado por fim. Abraçando-o com ternura e esmero, Ino encarava sorridente as duas pelúcias na cama, que ela havia colocado de mãos dadas.
Gaara lhe questionara o que era uma namorada, e perante a inocente pergunta proferida por ele, a loira simplesmente deu as mãos das pelúcias. Não queria confundi-lo, tão pouco assustá-lo. Namorados, era o caso deles? Nem ela mesma sabia responder... Apenas estar ali, ao lado daquele adorável ruivo, era o bastante. Título algum importava. Bem cedo, se ele ainda não estivesse acordado, iria até Konoha e pediria sua saída da agência.
Se recusava a completar aquela missão, Gaara precisava dela, não iria traí-lo. Mesmo que toda a culpa, desde o início, lhe consumisse a mente todas as noites que pudesse passar ao lado dele, não era suficiente para pará-la. Jamais havia se sentido tão bem em uma casa antes, jamais havia se sentido tão bem... Ao lado de um homem. Ou melhor, um menino. Naquela tarde, enquanto procurava onde havia escondido seu revólver no velho aparador da sala, tinha encontrado um importante documento: a certidão de nascimento do ruivo. Gaara não havia completado dezoito anos, entretanto, iria há exatamente dois dias. Tantas ideias passavam-lhe pela cabeça, que não sabia por onde começar! Será que ele iria gostar de um bolo de aniversário? Não sabia fazer um bolo, muito menos de aniversário! Teria que ligar “para o disk Shika” como ela particularmente chamava o número do celular de Shikamaru, que, ao contrário de Sakura e ela, sabia fazer tantas coisas na cozinha que chegava a impressionar! Todavia, a preguiça quase crônica do Nara sempre dava um jeito de atrasar com tudo. Teria, então, que pedí-lo a receita e arriscar fazer sozinha, tendo uma grande quantidade de ingredientes para dar conta das falhas que, certamente, iria cometer.
Beijando levemente os lábios do ruivo, Ino torceu consigo mesma para que ele não acordasse em pânico, em função das ilusões do demônio. Mal acreditava que... Justo ela... Havia se apaixonado daquela maneira tão intensa. Não voltaria atrás. Mesmo que já soubesse das horríveis conseqências que sua decisão iria acarretar.
Notas finais
Kisses, Nita.
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