Delirium

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Olá.
Enel Linden aqui.
Delirium está disponível no Kindle Unlimited. Caso queira ter acesso a obra completa, para poder lê-la de uma vez, é possível encontrar em: https://amz.onl/emTOB9t
Agradeço profundamente pela atenção.
Boa leitura!

Arrastei-me pelo longo corredor, o som estridente dos rolamentos da mala ecoando no ambiente desprovido de móveis. Eu não era nenhuma especialista em interiores, tampouco minha casa era exemplo de alguma coisa (bem o oposto, na verdade, pois a falta de verba me fez optar, quase sempre, por móveis multifuncionais de segunda mão); ainda assim, era evidente demais a necessidade de preencher o lugar.

De agregar vida.

Por Deus, ali morava uma família. Uma adolescente. Sequer havia indícios de que a casa era habitada. Com um pé direito ridiculamente alto, as paredes brancas estavam completamente vazias.

Conclui, por fim, que era o fato de eu ser pobre. Os ricos nunca nutrem a necessidade de comprar toda uma loja de móveis. Minimalismo. Menos coisas significam mais dinheiro. É, pois, o cidadão não abastado que gosta de ostentar. Cinquenta anos de suas vidas lutando e economizando para conquistar uma casa, ter um lugar para chamar de seu — e quando logram isso, tudo o que se pode desejar são as infinidades de móveis planejados e muito inox, mesmo diante do financiamento e do empréstimo de trinta anos (o mesmo tempo que lhes restam de vida).

Suspirei alto.

Diane percebeu e seus olhos azuis me encararam com divertimento.

— Lamento se estiver sendo entediante — ela riu.

Passamos cerca de vinte minutos conhecendo o espaço, no mais absoluto e sufocante silêncio. Eu sempre fui uma pessoa silenciosa, preferia, aliás, do que ter de processar uma frase todas as vezes que me fosse apontado um cômodo diferente. Fiquei aliviada em perceber que Diane não queria saber minha opinião sobre sua casa, nem observar minhas reações.

A propriedade era grande de uma maneira contida, daquele tipo fino e discreto. Grande o suficiente para comportar três vezes mais a quantidade de habitantes, mas intencionalmente comedido para não soar exibicionista.

O bairro era nobre, o edifício dispunha de uma arquitetura refinada e a garagem contava com dois carros topo de linha. Por dentro, apesar de exageradamente nua, detinha eletrodomésticos que custavam mais do que minha vida.

Era mais que óbvio as posses da família.

E, nesse caso, não tinha muito a se mostrar — dinheiro é visível a olho nu, sem a incubência de floreios. O que não me impediu, claro, de estar entediada. Eu teria tempo de desbravar a casa sozinha, não precisava, realmente, de um tour. Mas fora acolhedor da parte de Diane, e eu me senti genuinamente grata.

De toda forma, eu tinha conseguido um panorama efetivo a partir de tia Hilda: ricos disfuncionais.

Essa informação me bastava.

— Não, me desculpe — pedi, enfatizando com minha mão livre. Freei os passos, a mala desafinando com a parada brusca. — Não se trata disso. Apenas estou cansada — sorri, envergonhada. — Preciso de um banho.

Diane assentiu, sorrindo.

— Compreendo, claro — ela apontou as longas unhas vermelhas na direção de uma porta branca. — Aquele é o quarto da Libby. O meu, como já te mostrei, é este — as unhas vermelhas balançaram-se, novamente, indicando a porta ao lado. — Essa é a porta de emergência. Polui visualmente o interior do meu closet, como bem viu, mas me dá acesso rápido ao quarto de Elizabeth — ela deu de ombros, cheia de uma candura maternal que eu suspeitava ser um pouco fingida. — Mães sempre estão padecendo no paraíso.

Dissimulei um sorrisinho solidário. Eu não sabia como era ser mãe e, além disso, tinha certeza que Diane, por mais educada que fosse, também não fosse lá um excepcional exemplo.

— Ossos do ofício, não é?

Ela deu de ombros mais uma vez. De repente, parecia distante. Encarou a porta, dando-me explicações que eu não solicitei.

— Na verdade, foi ideia do meu marido. Ele queria garantir que pudéssemos sempre estar de olho em Libby. Robert é muito cuidadoso.

— Deve ter sido efetivo quando ela era menor — comentei. Então, desviei o foco para outra porta. Indiquei a madeira de verniz escuro com o queixo. — E essa?

Ela levantou as sobrancelhas.

— Sim, sim. Esse é o escritório de Colle. Inclusive, acredito que ele deveria estar aqui, nos acompanhando — Diane levantou o tom de voz, desejando ser ouvida. — Ele passa todo o tempo enfiado nesse quarto. Vai se sentir solitária, já que Libby passa a semana no colégio e, bom, como é possível deduzir, Robert habita esse lugar, e não a casa como um todo. Espero não ser um problema. Não era para Hilda — completou, avaliando-me.

Pisquei.

Ali ficava o marido de gênio tempestuoso, conclui.

A preocupação de Diane era desnecessária. Sequer cogitei que os meus hosts fossem ter o trabalho de me fazer companhia. Minha obrigação era cuidar da menina e garantir que a bagunça dela fosse organizada e, nesse caso, me fazia feliz o fato de não ter, na maior parte do tempo, alguém destruindo a limpeza recém feita ou de olhos desconfiados qualificando meu trabalho.

Era, na realidade, uma notícia maravilhosa.

Eu teria de trabalhar aos sábados e domingos, mas não era problema, visto que teria pouco a fazer durante a semana. Ademais, ganharia o salário cheio, sem descontos. Era uma viagem de quatro horas desde minha casa até os Colle. Mas a oportunidade se encaixava perfeitamente com o meu propósito: tempo para me dedicar a minha pesquisa e dinheiro, já que a bolsa universitária era uma piada.

Quebrei meu contrato de aluguel e estava diante de uma multa alta. Com um pouco de melodrama, negociei um valor mais ameno com o senhorio em troca de deixar meus móveis para ele. Para mim não seria nenhum problema, visto que eu teria de encontrar alguém que os quisesse. Para o velho não fora mau negócio também, a kitnet poderia ser alugada com a mobília, e isso elevaria o valor do aluguel. Os móveis eram velhos, mas bem cuidados.

Tive problema, no entanto, com meu filho Jack. Meu gatinho ficou, e me doía o coração todas as vezes que pensava nisso. Depois de muitas lágrimas, aceitei que não era de bom tom carregá-lo comigo antes de ter alguma segurança sobre a tolerâncias dos meus patrões. Afinal, já estava me livrando de contas brutas, como aluguel e energia.

Não era caridade, eu trabalharia em troca. Mas um animal de estimação era pedir demais.

Contudo, Diane parecia uma mulher gentil. E não seria difícil, ao meu ver, convencer a adolescente. Eu já arquitetava um plano para, num futuro, levantar a ideia de buscá-lo.

— Não vejo um cenário mais ideal que esse — declarei. Vi um sorriso capcioso brotar nos cantos dos lábios da mulher. — Quer dizer, não me leve a mal. Eu vivo sozinha. Estou acostumada.

— Não levo. Acho perfeito, na verdade. Estaremos alinhadas se assim for — ela deu meia volta. — Vem, vou apresentar o seu quarto e deixá-la descansar. Deixemos que você perscrute o resto depois, com mais tempo.

Foi isso que eu pensei o tempo todo.

Diane me encaminhou para o studio, no lado oposto aos quartos principais. Ela não se deteve para nenhuma conversa mais. Deu-me as chaves, desejou uma boa noite e deu as costas. Observei sua figura pegar a saída à esquerda antes de destrancar a porta. Assim que abri o quarto perdi o ar.

O remorso me atingiu em cheio. Um murro sem piedade, cheio, fazendo-me ofegar. O medo de ter soado impaciente e indiferente perante a gentileza me fez querer chorar.

Porra, o quarto era maior que minha kitnet inteira.

Fechei a porta e deixei a mala na entrada, em puro choque. Não tinha paredes, em open space, com um toque colonial, como toda a casa tinha. Observei minha cozinha, passando os dedos na geladeira, então no cooktop e no microondas. O banheiro era grande. Minha cama era de ferro forjado. Um recamier no mais puro branco debaixo da janela com vista para rua. Prateleiras vazias, que eu esperava poder encher.

Eu tinha que estar muito agradecida, pensei. Extasiada.

Naquela noite, quando me deitei, fechando meu dossel púrpura, tentei ficar feliz. Um bom salário, uma casa confortável, um trabalho aceitável.

Fechada em minha própria cabana, tentei me sentir protegida.

Os Colle tinham de ser bons.

Notas finais
Delirium está disponível no Kindle Unlimited. Caso queira ter acesso a obra completa, para poder lê-la de uma vez, é possível encontrar em: https://amz.onl/emTOB9t