Delirium
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Na manhã seguinte, meu celular despertou mais estridente do que o normal. Sufoquei-o com o travesseiro. Me levantei, relutante, rastejando até o banheiro. A ducha me fez um pouco mais acordada e quando encontrei meu reflexo no espelho, eu parecia menos deplorável do que há dez minutos antes. Fora uma noite de sono calma. Ainda assim, estava cansada. Pela viagem e pelo desgaste mental que uma nova rotina acarreta.
Enfiei-me em uma roupa simples e discreta, prendi os cabelos e ajeitei a postura para encontrar a família no andar debaixo.
Libby estava no colégio. Conhecê-la pessoalmente somente seria possível no final da semana. Enquanto isso, uma das funções era a de me encarregar de fazer chamadas de vídeo, a fim de ajudá-la com os deveres extraclasse e lhe dedicar atenção nos momentos de solidão. Diane me contara que essa era uma prática nova. O semi internato em que a menina estudava tinha recentemente aliviado as rédeas, sobretudo para os mais rebeldes. Toda a arbitrariedade era um pouco demais e isso estava causando transtornos aos pais — e incômodos é tudo que famílias com filhos encarcerados de cinco dias a seis dias por semana não esperam.
Diane me dissera não ter tempo para as chamadas da filha, mesmo as triviais. Extremamente insensível, eu pensei. Tive medo da situação emocional que eu poderia encontrar na garota. Mas eu era paga para entreter, não para julgar a mãe, portanto engoli a seco minha constante má impressão.
Estava ansiosa, no entanto. Não sabia como me comportar, sobretudo porque a menina, meu maior encargo dentro da casa, não estava presente.
O que eu faria, afinal?
Já havíamos conversado sobre isso. A família sabia da minha pesquisa. Diane me disse que aos finais de semana eu seria de Libby e de suas necessidades. Na semana, eu teria de reservar pouco mais de meia hora, tempo que as regras do colégio permitia por dia, para acompanhá-la no que fosse preciso. Não teria de limpar nada, visto que a bagunça a qual eu era responsável não existiria. Se fosse do interesse de Regina, a governanta, eu deveria auxiliá-la em alguns momentos. Mas Diane me deixou claro que a mulher trabalhava para a família há anos, que possuía todo um modus operandi para desempenhar suas funções e que odiava interferências. Então, deveria ajudá-la somente quando isso me fosse solicitado.
Nenhum problema.
Entretanto, minha função para aquela família ainda era turva. Minha host dissera que seus colaboradores tomavam café na mesa, junto a família. Era a única informação que eu tinha em mãos naquele momento.
Desci as escadas, o nervosismo retumbante no peito. Umedeci os lábios secos quando tive a visão parcial da mesa. Colle estava de costas. Diane, sentada a seu lado, exibia um perfil sorridente e xícara nas mãos. Desci mais um degrau e avistei Regina.
Era uma mulher na casa dos sessenta, de roupa engomada e cabelos rigorosamente contidos em um coque alto. Tinha uma aparência severa, olhos densos e apresentação pessoal de quem trabalhava em um escritório cheio de formalidades da década passada.
Como diabos ela limpa e cozinha com essas roupas?, perguntei-me, temendo ter de fazer igual e, sobretudo, arrependida por ter optado por jeans e t-shirt quando, à minha frente, eu tinha pessoas que pareciam ter saído diretamente de uma edição da Forbes.
Agilizei os passos quando a atenção repousou em mim.
— Bom dia — cumprimentei, tímida, sem saber exatamente pra onde olhar ou onde sentar. Olhei para Diane, depois para Regina e, finalmente, para Robert Colle.
Segurei no encosto da cadeira, as pernas líquidas feito água. Eu sabia que ele era bonito. Todos eram. Diane poderia facilmente ser uma modelo totalmente dentro dos padrões: era magra, alta, curvas delicadas, rosto impecável. Era a visão de uma mulher rica, feita para os holofotes. O tipo de beleza que você acha que todo o mundo precisa conhecer, extraordinariamente comercial.
Mas Colle era… Arrebatador. Seus olhos eram tão gélidos e severos quanto os de Regina. Alinhado no terno escuro, fazia o tipo rico-sexy-reservado. Dedicou-me um olhar rápido, analítico e em meio segundo tornou a se preocupar com a comida em seu prato.
Desviei rapidamente o olhar, temendo ter me demorado demais.
— Querida, esse é o meu marido — Colle estava a caminho de uma garfada e não se preocupou em interrompê-la por minha causa, limitando-se a levantar as sobrancelhas, numa saudação deturpada. Diane balançou as mãos em minha direção. — Regina, essa é Ellie, nossa au pair.
Au pair.
Bom, era uma deixa.
— Muito prazer, menina — a senhora me estendeu a mão. Apertei-a, me curvando sobre a mesa para alcançá-la. Ela me encarou por um segundo, os olhos mais brandos do que antes. — Sente-se, sim?
Me sentei ao lado de Diane.
— Como foi a noite? — minha host perguntou, me passando prato e talheres.
— Irretocável, eu diria — pensei por um momento. — O studio é incrível. Muito obrigada.
Diane sorriu, doce e deslumbrante.
— Que bom que gostou.
Eu não sabia mais o que dizer ou como dizer. E ninguém ali parecia realmente entusiasmado para uma longa conversa. Tratei, então, de tomar meu café em silêncio.
Regina se levantou dez minutos depois, recolhendo o seu prato.
— Tenha um bom dia, Diane. Bom trabalho, Sr. Colle — ela se virou, carregando suas louças. Antes de tomar a saída, olhou-me por cima dos ombros. — Me desculpe, menina. Havia me esquecido de você. Tenha um bom dia, também. Não precisa vir até mim para oferecer qualquer ajuda. Aproveite para conhecer a casa, para estudar.
Eu concordei, controlando-me para não rir diante da assertividade. Diane, por outro lado, deixou escapar uma risadinha enquanto também abandonava a mesa.
— Eu avisei, ela odeia interferências — eu percebi. — Estou indo para minha viagem, querida. Imagino que esteja familiarizada com a casa e, se não estiver, sinta-se à vontade para perguntar. Regina pode tirar qualquer eventual dúvida.
— Perfeito — eu disse. — Muito obrigada.
Ela se curvou em direção ao marido, agarrando-lhe o rosto com as duas mãos. Delicada e elegante, o beijou de forma casta. Me dei conta de que estava atrapalhando. Fiz menção de me levantar, mas Diane se apressou, impedindo meus movimentos com os braços.
— Não é necessário, já estou de saída. Lamento me ausentar logo diante da sua chegada, mas é trabalho, e eu não posso me abdicar — eu estava surpresa por ela se importar. Afinal, eu não era uma convidada, era uma funcionária. Estava ali para facilitar sua vida, não para ser uma de suas obrigações. Sorri para ela, murmurando um agradecimento. Ela lançou um olhar perspicaz na direção do marido. — Não se assuste com ele, certo? Tem essa expressão de dor constante. É monossilábico, mas não morde. Talvez seja ríspido. Mas não leve para o pessoal, ele é assim com todo mundo.
Observei a expressão de Colle mudar. Vi, talvez, a menção de algo soturno. Mas ele reprimiu, somente me olhando de soslaio.
A austeridade combinava com ele. Com seus traços fortes. Era ainda mais bonito dado a inacessibilidade.
A mulher sussurrou algo em seu ouvido. Ele assentiu, arrastando-a para ele. Me senti uma espécie de voyeur, então voltei a atenção para a mesa. Para os talheres de prata, as travessas de cerâmica.
Pensei que Colle se levantaria logo após a saída de sua mulher, mas não o fez. Encarei meu prato repleto de frutas, enquanto acompanhava a sombra de sua movimentação pelo canto do olho.
Remexi na cadeira, concentrado-me em engolir. Não esperava ter de conversar com ele, visto que ele não parecia, realmente, querer engatar algum diálogo comigo. Mas sua presença era pesada. E, além disso, sentia seu olhar queimando meu rosto.
— Você é jovem — disse ele, depois de alguns minutos. Soou quase como uma acusação. Analisei-o descaradamente, buscando o nexo de sua constatação. Ele terminara a refeição mesmo antes de Diane se despedir. Estava, então, me espreitando. — Vinte anos? Vinte e um?
— Vinte e três — respondi. — Não tão jovem assim.
Ele me lançou um olhar entediado.
— Ah, claro que não — sua voz tinha um tom sarcástico e, ao julgar pela feição repleta de escárnio, eu sabia que ele me achava uma idiota. — Senil, eu diria.
Eu quis rir.
— Algum problema por eu ser jovem? — questionei, levando em conta o tom ácido infiltrado em suas respostas.
Seus olhos se fixaram nos meus.
— Não — ele sacudiu a cabeça, afastando o corpo da mesa e recostando-se na cadeira. — Mas considerando que seu trabalho aqui é cuidar de uma outra jovem, pressinto que você vai fazer um trabalho miserável.
Eu pisquei uma vez. Depois outra. Sabia estar com a boca aberta, revelando como a ofensa tinha me atingido. Ele pescou seu guardanapo na mesa. Limpou-se, mesmo diante do meu olhar injuriado. Revirei os olhos, voltando a cabeça para minha comida.
— Não tenho que provar nada a você — sibilei, sem olhá-lo. — Tenho que mostrar minha capacidade para a sua mulher e, principalmente, sua enteada. Então, tendo a acreditar que seus agouros são, perdoe-me pela petulância, dispensáveis.
Ouvi quando ele saiu da mesa, mas não me incomodei em ser cordial.
Fale com o autor