Delirium
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Mesmo depois de quatro dias naquela casa, eu padecia na mais repleta ociosidade. Diane permanecia fora, a trabalho. Libby me ligara na segunda, avisando-me que não conseguiria me contatar durante a semana, pois, devido ao seu comportamento, suas ligações haviam sido suspensas. Lamentei. Eu estaria ainda mais perdida no primeiro final de semana, sem mesmo ter falado com a garota o mínimo necessário para estabelecer algum tipo de vínculo.
Colle estava desaparecido desde o café da manhã do primeiro dia. Suspeitei que estivesse, tal como sua mulher me adiantou, enfiado no escritório. Encorajada pela curiosidade, questionei Regina. Ela me avisou que ele não costumava ficar em casa na ausência completa da família. Eu quis perguntar para onde ele ia. Contudo, pela expressão que fora lançada sobre mim assim que a interroguei acerca do sumiço, ela teria dito em alto e bom som que aquilo não era da minha conta.
E não seria mentira.
Portanto, enfiei minha curiosidade em um buraco, soterrei-a e me deleitei do fato de que eu tinha todo esse tempo livre para mim. Coloquei minha pesquisa em primeiro plano, adquirindo um ritmo que me deixou satisfeita. Descansei o suficiente para começar a me sentir entediada e consegui, até mesmo, ler um livro que não fosse de puro pedantismo acadêmico. Gozei, assim, do sentimento inigualável de poder me dedicar a uma leitura de puro entretenimento. Você acaba sentindo falta de ficção cálida e entorpecente quando tudo que tem a ler se resume a artigos prolixos.
Imaginava — desejava, na verdade — que alguém fosse aparecer no dia seguinte, já que se tratava de uma sexta. Eu teria de buscar Libby no sábado de manhã. Não seria uma experiência ruim ter o primeiro final de semana juntas sem a presença dos pais. Teríamos mais liberdade de explorar. Mas eu estava curiosa para sentir o terreno. Queria poder observar a dinâmica daquela família, sentir em qual espaço eu tinha me enfiado.
E, além de tudo, seria absolutamente infeliz que deixassem a menina com uma estranha, considerando que passaram dias sem vê-la.
À noite, abandonei meu quarto pela primeira vez no dia — eu poderia, facilmente, viver nele. Tinha tudo o que eu precisava. Entretanto, estava começando a me sentir sufocada. Especialmente porque os pensamentos sempre se afunilavam, escorrendo para um único ponto: Colle. Seus olhos não saíram de minha mente e peguei-me desejando vê-lo. Uma curiosidade descabida.
Desci as escadas. As luzes estavam todas apagadas. Poderia ser assustador caso eu não gostasse da sensação de estar sozinha comigo mesma. Caminhei até a sala principal, onde a parede de vidro oferecia vista para toda a área de lazer. As luzes que cercavam a piscina estavam acesas, refletindo-se no interior da casa. Uma penumbra em tons de azul.
Algo me incomodava. A quietude parecia anormal — frágil demais. Como se num passo em falso eu pudesse causar um mar de cenários nefastos. Não me importava em ficar sozinha. E a sensação de ter tudo para mim, mesmo que aquilo não fosse meu, era prazerosa.
Mas eu seguia perdida — e tinha de achar um rumo o mais rápido possível.
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Na sexta, meu despertar foi repleto de inquietude. Me senti nervosa assim que meus olhos se abriram. Levantei-me sem muita demora. Depois de um banho, já estava na cozinha, seguindo os passos de Regina.
A senhora me olhou cheia de impaciência quando finalmente percebeu que eu não a deixaria em paz. Que me ignorar não me faria desistir.
— O que você quer, menina? — perguntou.
Suspirei alto, alcançando uma das etiquetas sobre a mesa. Regina estava etiquetando os alimentos do armário, trocando validades e descartando os vencidos. Não era de se admirar. Comida demais para uma casa sem uma quantidade substancial de moradores.
Antes que eu pudesse escrever algo, a mulher arrancou a caneta e o adesivo de minhas mãos, afastando-me com um tapa.
Não causou nenhuma espécie de dor, mas o susto me fez tomar alguns passos de distância.
— Ei — reclamei. — Eu só quero ajudar. Passar o tempo.
Regina comprimiu os lábios.
— Não preciso de ajuda — ela se debruçou na ilha da cozinha, escrevendo em uma das etiquetas e colando-a em um pote hermético repleto de aveia. — Você não tem que estudar?
Eu tinha, sim. Mas estava ansiosa para fazer qualquer coisa que não fosse investigar, tentar ler nas entrelinhas. A família fantasma e seus mistérios pareciam-me bem melhores que o pedantismo acadêmico da lista infinita de textos que esperavam por mim.
E, ao fim e ao cabo, eu estava morando na casa deles.
Merecia saber.
Onde eu estava me metendo, sobretudo.
E depois, caso sobrasse espaço, saber sobre os segredinhos mórbidos que minha imaginação fértil estava produzindo em escala fordista.
— Já estudei o suficiente por hoje — menti. Eu não estava atrasada, mas tampouco me localizava perto do ponto onde poderia diminuir o ritmo. — Não quero pesar a mão e ter um bloqueio, sabe.
O olhar que veio em seguida deixou claro que Regina não acreditava em absolutamente nenhuma de minhas palavras.
— Veja, menina, amanhã terá um dia cheio. Deveria aproveitar para descansar e ganhar tempo.
Ela tinha razão, mas eu simplesmente não conseguia parar de pensar.
Queria saber como Libby foi parar em um internato. Para onde Diane tinha viajado. Onde diabos Colle estava.
Eu sabia que a mulher que se encontrava em minha frente tinha a resposta para todas as minhas perguntas — mesmo para aquelas que eu ainda não tinha me dado conta. Eu sabia, também, que ela jamais me daria qualquer pista.
Eu teria que trabalhar nisso.
Murcha, me recolhi depois de perguntar, uma última vez, se não tinha algo em que eu poderia ser útil: a resposta veio rápida e certeira — eu seria útil se a deixasse trabalhar sem interrupções.
Justo.
Voltei para o meu quarto. Puxei meu celular do bolso antes de me jogar na cama. Desanimada, abri o aplicativo de mensagens. Em tese, Libby estava sem celular. Decidi testar a sorte, no entanto, já que a prática, usualmente, foge das teorias arbitrárias.
Sua casa sempre é tão vazia?
Mandei a mensagem junto a uma imagem minha. Uma selfie em que eu fingia dormir. Não demorou para que ela me respondesse.
Anexara, como eu, uma foto.
Tinha mãos na boca, em sinal de espanto. Parecia mais velha do que realmente era, com os cabelos descoloridos e maquiagem pesada.
Porra, você é muito nova. E eu achando que mamãe tinha me contrato uma velha raquítica.
Eu ri alto.
Você não é a primeira a comentar sobre minha idade. Não se engane, mocinha. Posso ser mais severa do que uma velha raquítica, já que tenho mais energia do que uma. Começando pelo telefone: não estava de castigo?
Ela me enviou uma série de fotos revirando os olhos.
Eu estou, mas isso não me impede de passar todo meu dia dentro do banheiro. Nele, nenhum inspetor pode me revistar. :)
Quer dizer, se for um inspetor feio. Se for um bonito, quem sabe.
Abri a boca. Jesus. Eu tive de ler duas vezes para, finalmente, acreditar.
Mesmo que seja um terrivelmente bonito, a resposta é pelo-amor-de-deus-não. Você vai me ligar e, antes disso, gritar. Pelo visto, terei de ter uma conversa com sua diretora.
Abri as imagens que ela tinha me mandado. Ela parecia realmente estar no banheiro. Eu não sabia se deveria rir ou chorar.
Foi uma brincadeira. Nem ao menos gosto de homens, sobretudo os heteros.
Astuta, pensei.
Saia desse banheiro e procure algo para fazer. Estudar é uma boa opção. Até amanhã.
Eu era uma hipócrita. Em minha mesa de estudos, a prova do crime.
Mas ela não sabia disso.
E enquanto ela não soubesse, eu era uma voz de autoridade.
Ou pateticamente tentava ser.
Talvez Colle tivesse razão.
O medo me fez parar de respirar, principalmente quando abri, mais uma vez, suas fotos. Encarei uma adolescente de quase dezesseis anos, simulando ter o dobro e, principalmente, uma feição de quem atraía problemas. Não que eu julgasse o livro pela capa, mas também fui adolescente — e havia exercitado a paciência das pessoas ao meu redor com muito além do que colorir os cabelos e me encher de piercing.
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