Delirium
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Quando Cesar, o faz-tudo, começou a aparar a grama, às sete, eu já estava de pé, observando-o em seu movimento metódico. Linhas retas. Indo. Voltando. Seus olhos pareciam desfocados.
Talvez estivesse tão vazio quanto eu.
Eu estava vestida, com chaves nos bolsos e celular na mão desde às seis. Diane mandara uma mensagem no dia anterior, pedindo que nessa primeira vez esperasse-os para que pudéssemos, juntos, buscar Libby.
Também queria ver como eu funcionava no volante, já que o encargo de dirigir a menina também estava em minhas funções.
Eu a esperava, portanto. Como uma criança impaciente, aguardei por minutos a fio seu carro despontar no extremo visível que a janela servia. Senti a ansiedade me causar comichões — desde que eu chegara, parecia sempre prestes a uma crise.
Pisquei algumas vezes, garantindo a mim mesma que nada estava fora de ordem. Eu apenas estava estressada. Sem muito destino em minha nova rotina. No final de semana eu teria um ensejo, portanto, as coisas se organizariam. Não teria mais de ficar tentando adivinhar os eventos futuros.
Essa era a esperança. Estava tudo bem. Tinha que estar.
Colle manobrou o carro até a entrada. Estacionou de maneira relapsa, como se estivesse com pressa. Uma Diane de óculos escuros e postura cansada desceu, enquanto o marido se voltou para o porta-malas, descarregando-o. Ele parecia bem. Não aparentava o cansaço da esposa.
Percebi, naquele segundo, que ele era envolvido por uma aura de arrogância. Era inerente. Como se seus problemas fossem maiores do que os de outras pessoas. Suas demandas mais urgentes. Como se existir perto de outras pessoas o exigisse demais. Ao pousar a mala escura no chão, Colle percebeu que estava sendo espionado. O homem não disfarçou o descontentamento. Diane seguiu o olhar de Colle, encontrando-me. Ela levantou os óculos quando acenei para ela. Minha host fez sinal com a mão, chamando-me.
Verifiquei minha aparência no espelho antes de descer as escadas. Saltei dois degraus por vez, aterrissando no primeiro andar em tempo recorde. Diane tinha um sorriso caloroso quando eu me aproximei.
— Demorei? — brincou ela, envolvendo-me em um abraço maternal. Olhei por cima de seus ombros. Colle nos observava de cenho franzido. — Como eu disse antes, não consigo passar muito tempo em casa.
— Tenho pressa, Diane — Colle resmungou, entrando no carro.
A mulher fez uma careta.
— Querida, deixemos a questão da direção para amanhã, pode ser? — ela piscou algumas vezes, o cansaço revelando pequenas rugas ao redor dos olhos. Não as tinha percebido antes. Além disso, a maquiagem parecia cobrir uma mancha azulada sob os olhos. — A viagem foi longa, estou totalmente sem energia para enfrentar outra hora dentro desse carro. Robert vai acompanhá-la nessa primeira vez.
O frio que surgiu dentro de mim rapidamente espalhou-se para todos os extremos do corpo. Meus instintos gritavam desesperadamente para eu dar as costa, mas o que eu fiz foi muito diferente: dei um esboço de um sorriso para a mulher em minha frente, gritei mentalmente e caminhei até o carro.
Fiz a menção de abrir a porta dos passageiros quando a voz grave de Colle me alcançou:
— Não sou seu motorista particular — ele esbravejou. — Você pode vir na frente.
Obedeci.
Uma vez sentada, passei o cinto de segurança. O carro tinha um cheiro amadeirado, limpo — talvez aquele fosse o cheiro do homem ao meu lado, mas eu não queria pensar que ele estava tão perto. Me sentia vulnerável.
Encarando as mãos, pensei em como gostaria de ter tido a oportunidade de ter alguma conversa com Hilda sobre aquela família.
Diane parecia um livro aberto. Séria, mas de sorriso doce. Elegante sem soar esnobe. O marido, por outro lado… Tinha aquela aparência de quem se julga superior. O constante olhar de cima, como quem está farto de ter de lidar com tudo aquilo que não gira em torno de seu próprio umbigo. Aquela presença que causa irritação ao ser apenas imaginada.
Colle deu ré, tomando a rua. Em poucos minutos, a paisagem passou a se transformar. O ambiente citadino, urbano demais, deu lugar a um arvoredo denso. A chuva pesada ainda não havia cessado e as plantas brilhavam em seu cume verde.
— A paisagem de saída é bem mais receptiva do que a de entrada — comentei. Não estava tentando puxar conversa. Não conscientemente, ao menos. As palavras simplesmente deslizaram.
Virei-me para o homem. A carranca em seu rosto parecia ainda mais proeminente. Maxilar trincado, lábios comprimidos. Parecia, realmente, estar com dor. Tive de me segurar para não ser petulante, sobretudo porque eu sabia a resposta de minha pergunta: ele estava incomodado com minha presença.
Colle não me respondeu. O alvoroço dentro de mim faziam minhas mãos suarem. Eu não sabia o que dizer — e se deveria dizer algo. Ele era rude. Eu não gostava dele. Mas a situação já era constrangedora o suficiente. Continuei a olhá-lo, por fim.
Eu não era tão patética assim.
Queria uma resposta.
Afinal, eu não estava falando sozinha. Eu sabia que ele tinha ciência do meu olhar sobre ele. E sabia que estava sendo terrivelmente inapropriada. Ao menos, era proposital dessa vez.
Eu queria ser.
E, de toda forma, queria olhá-lo. Analisar os traços de seu rosto. Senti o frio tornar-se outra coisa quando absorvi a curva de seu maxilar, a barba por fazer. Tinha algo de inevitável em seus lábios, nas sobrancelhas escuras e em seus olhos inflexíveis.
Colle se remexeu, e eu escondi a satisfação. Seu olhar se desviou do trânsito por um segundo, encontrando-me. Ele parecia desconcertado. Tamborilou os dedos no volante antes de se prestar a falar.
— Gein, o prefeito, ainda não demandou seus esforços destrutivos para esses lados. Por enquanto, a meta dele é tornar somente o lado norte um polo industrial. Os cidadãos estão contentes, a promessa é de que, para o próximo ano, a taxa de desemprego desapareça. A verdade dessa narrativa é questionável, mas é uma doce ilusão. Logo, ele tem tido grande aprovação e, consequentemente, aval para dilapidar os recursos naturais. Pensando a longo prazo, essa é uma escolha que precisa de uma certa reflexão, se é que entende onde quero chegar.
Claro que eu entendia.
Observei a paisagem novamente. Soava quase mágico para mim pensar na quantidade de vida existente ali. Vivendo no mais caótico equilíbrio. Acabei triste quando me dei conta que, em alguns anos, tudo se resumiria a fuligem. Era uma sensação dúbia. Eu tinha plena noção de como era não ter dinheiro. Da sensação de estar desempregada. Sabia, contudo, que a intenção do prefeito não era a de ajudar a sua população — era a de lucrar em cima dela.
Encostei a testa no vidro, concentrando-me na vista. Colle não tornara a falar, e eu não esperava que fosse. Apreciei os vales imponentes, a diversidade de árvores. Não percebi quando o sono chegou. Só me dei conta de ter dormido quando a chuva se tornara pesada.
O barulho era forte. Pisquei, ainda aturdida do cochilo. Não era possível ver muito além de água torrencial através dos vidros.
— Estamos longe? — questionei, virando-me para Colle. Peguei-o me encarando. Sua cabeça estava inclinada no encosto, a postura esticada. Tinha desânimo nos olhos quando assentiu.
Há quanto tempo estava me observando?
Balancei a cabeça, sacando o celular.
— Aqui não tem sinal, como é possível presumir.
Olhei-o de soslaio, evitando o impulso de mostrar a língua, tal como uma criança. Ele solicitava esse tipo de comportamento. Parecia estar desafiando minha paciência e maturidade. Eu estava começando a pensar que se tratava de um jogo.
Um jogo infantil e descabido.
Era óbvio que a situação era desconfortável. Não era como se eu, propositalmente, nos tivesse colocado nela.
Mas ele estava agindo como se esse fosse o caso.
Eu não tinha culpa de sua esposa estar cansada. Muito menos deles serem péssimos pais e terem enfiado uma adolescente em um internato.
Abri o aplicativo de mensagens. Havia mensagens de Libby. Quarenta minutos antes ela enviara duas fotos. Na primeira, me mostrava suas malas prontas e os tênis coloridos calçados. Na outra, tinha olhos revirados. Um delineador verde fluorescente adornava o rosto bonito.
Ela parecia Colle, de certa forma.
Eu sabia que ele não era o pai biológico. Mas havia arbitrariedade no olhar, uma sombra impaciente pesando no semblante.
Diane não tinha nada daquilo.
Quando chegarem, vou ter 40 anos.
Sorri. Ela tinha senso de humor, ao menos.
Mesmo ciente de que a mensagem só seria enviada depois, respondi:
Nesse momento, me encontro ilhada. Seu delineado está perfeito. Pode me ensinar?
Tirei o cinto e me contorci em direção a janela. Voltei a câmera para meu rosto e fingi sofrimento, ao passo que minha mão indicava o dilúvio do lado de fora. Anexei e enviei as mensagens.
— Você está em horário de trabalho — disse Colle.
Ah, jura?
Levantei os olhos do celular para encará-lo. Continuava naquela posição estranha, esticado, a cabeça voltada para frente apesar de ter atenção em mim.
— Estou falando com meu trabalho — mostrei o celular para ele. Ele verificou por um segundo. Franziu o rosto, confuso.
— Falou com Libby durante a semana?
Ponderei por um segundo. A garota estava de castigo. Portanto, eu não deveria ter colaborado com sua rebeldia. Ainda assim, comigo ou não, ela teria usado o telefone.
Eu não iria mentir.
— Sim — encolhi os ombros, olhando para o parabrisas. — Sei que ela estava proibida de ligar o telefone. Não deveria tê-lo feito. Não vai voltar acontecer.
Colle se contorceu no banco.
— Sim, sim. É melhor que não faça — parou, de repente. Olhou-me diferente, algo lhe ocorrendo. — Na verdade, peço que mantenha contato. Ela não me respondeu. Diene também não deve ter conseguido. Libby está chateada e, mesmo se não estivesse, sabe que não somos coniventes com esse tipo de comportamento. Então, se ela confiar em você… — deu de ombros, resignado. — Bom, pode ser útil.
Assenti, mesmo desgostosa com o tom. Eu tinha feito algo de errado. Tinha sido conivente com um comportamento ruim. Estava provando ser incapaz de exercer um bom trabalho e ainda sequer tinha conhecido a menina. No entanto, ao menos, fui útil em alguma escala.
Segurei a vontade de rolar os olhos.
Eu estava sendo implicante.
Deslizei no banco, as pernas dando sinais iniciais de dormência. Encarei o nada, tentando me desligar da situação. Pensei em Jack. Colle teria de gostar de mim. Do contrário, jamais permitiria a presença dele em sua casa.
— Tem namorado? — ouvi-lo perguntar. Demorei a conectar sua voz à pergunta.
Virei minimamente a cabeça.
— Não.
— Morava sozinha?
Tentei disfarçar a confusão em meu rosto. Por que, de repente, ele estava interessado?
— Tenho um filho pequeno — contei, com pesar.
O homem arregalou os olhos, endireitando-se no banco.
— O que você disse?
Sorri, brincalhona.
— Jack, um persa preto.
Colle me lançou um olhar enviesado, mas vi algo de diferente em seus lábios. Um levantar discreto. Aquilo poderia ser a ameaça de um sorriso.
Ou podia não ser nada.
Mas eu sabia que era.
Levantei-me, me curvando no painel do carro. Toquei o vidro, desembaçando uma pequena fração.
— Acho que podemos ir, a chuva parece ter diminuído.
O som de fora permanecia alto. As nuvens, no entanto, pareciam estar se tornando mais claras e a ventania tinha cessado.
Recoloquei o cinto quando Colle deu partida. Temerosa em relação a estrada, fixei meus olhos no horizonte tomado por neblina pesada. Não notei quando o prédio despontou, imponente e assustador.
O carro reduziu a velocidade, tomando a pista da esquerda. Seis prédios cinzas ergueram-se. Senti arrepios percorrerem meus braços. Gélido e afastado, cercado por vegetação densa.
Como diabos crianças eram encarceradas nisso?
Fiz grande esforço para segurar minha língua enquanto uma faixa de paralelepípedos nos conduzia até o prédio principal. Colle se enfiou na fila de carros caros. Um grande chafariz adornava a praça principal. Uma figura lânguida ocupava o papel protagônico da construção. Parecia uma mulher, ainda que estivesse desbotada e propositalmente abstrata.
— Fique de olho, Elizabeth está em algum lugar aqui — avisou, abrindo uma fração de nossas janelas
Coloquei minha cabeça para fora, buscando por cabelos loiros e delineado neon. Um mar de crianças e malas em todo meu campo de visão. Passei os olhos pela calçada, mas, novamente, fui atraída para a estátua medonha. Parecia frágil demais.
Então, a vi.
Sentada na própria mala, Libby me encarava.
Fuzilava.
O contato súbito e intenso me balançou.
Retribuí o olhar com os lábios secos. Ela esboçou um pequeno movimento nos lábios — um sorriso duvidoso, como o do pai.
— Acho que é ela ali — fiz sinal com o queixo, indicando para Colle. Ele anuiu, arrastando o carro para alcançá-la.
Ela não se levantou de imediato. Seus olhos continuavam cravados em mim. Tive certeza de poder tocar o ar entre nós, a vibração estranha que ela parecia emanar. Poderia estar me amaldiçoando.
Ou me contando segredos.
Ela se levantou, depois do que pareceu horas. Um funcionário a acompanhou, mantendo o guarda-chuva sobre sua cabeça. Era alta para a idade. Esguia e charmosa como a mãe. Os cabelos estavam presos em um rabo de cavalo alto. A saia do uniforme feito uma calcinha e os botões da camisa revelando um decote modesto.
Desfilou até nós, olhos em mim.
— Está te intimidando — Colle sussurrou. — Têm de ter paciência.
Intimidadora.
Anotei mentalmente.
Libby abriu o porta-malas, encaixando sua mala. Escorregou para dentro do carro em um segundo.
— Oi, querida — Colle cumprimentou. — Não mereço um beijo?
A garota demorou para servir alguma reação. Quando decidiu acatar, curvou-se sobre o vale entre os bancos da frente, depositando um beijo barulhento na bochecha do pai.
Ele riu, bem humorado.
Constatei que o que me dera antes não era nada além de uma aprovação educada. O que eu presumi ser um sorriso, era, muito provavelmente, um espasmo. O que ele deu a filha era um sorriso de verdade. Amplo e genuíno; todo o rosto acompanhando-o em seu humor.
— Oi, Libby — testei, tímida.
Seu rosto voltou-se lentamente para mim. Ela semicerrou os olhos expressivos, varrendo-me em uma análise pouco discreta.
— Oi, Elena — respondeu, imitando meu tom acanhado.
Malvada.
— Elizabeth — o pai repreendeu.
Seus lábios se curvaram em um sorrisinho zombeteiro.
— Você é bonita — balançou a cabeça em satisfação, encarando o pai. — Não acha, Robert? — meu rosto queimou no mesmo instante. Me neguei a encará-lo. Libby também não esperou uma resposta, jogando-se no banco de trás. Ela nem sequer parecia ter ambicionado uma resposta. O ímpeto era o de me constranger. Ela tinha conseguido. — Isso vai ser interessante.
Colle nos encaminhou para a saída. Alguns metros depois, pude encarar a estátua de perto. Os cabelos longos caiam em ondas abertas, emoldurando o rosto oval. A mulher não possuía olhos, boca ou nariz. Haviam, no entanto, pequenas asas despontando das laterais de sua cabeça.
Era bonita de um jeito aterrorizante.
— O que vai ser interessante? — questionei, enfeitiçada pela mulher petrificada.
— Se apaixonou pela Linden? — Libby perguntou, a voz mais baixa. Aproximou-se de sua janela e do meu banco. O calor de suas palavras tocando meu pescoço. — Estava aqui antes mesmo dos prédios serem construídos. A construtora se deparou com ela ainda nas fases iniciais do projeto. Deixaram ela ficar.
— Quem é ela?
— Ninguém sabe. Só há o nome, esculpido na pedra. Dizem ser do final do século XIX — deu de ombros. — Mas isso não importa, afinal. Mesmo sem história e sem rosto, todos acabam obcecados por ela. Todo ano um novato arrogante acha que vai evocar o espírito de Enel Linden.
— Espero que não consigam — sussurrei de volta. — Ela já deve ter visto muito.
— Tem medo de ser exposta, Elena? — vi Colle se remexer no banco, incomodado. Me espremi contra o banco para encarar a garota petulante, seu sorriso venenoso em ápice. — Costuma esconder coisas?
— Todos nós, não? — Arqueei uma sobrancelha. Eu sabia que ela não era nenhuma santa imaculada. A garota cheirava a problema e desamparo. Gostava de chamar atenção.
Eu tinha um ensejo do que isso significava.
— Todos nós. — Concordou ela, o sorriso esmaecendo.
Libby enfiou fones no ouvido. Colle ligou o rádio.
Me espalhei no banco por mais uma eternidade, a cabeça percorrendo um looping enfermo: pensamentos que nasciam em Elizabeth, percorriam Colle e recomeçavam em Enel Linden.
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