Delirious

18 18. Coincidência? Vai vendo.


Capítulo 18. Coincidência? Vai vendo.

Narrado por Miguel:

Ao contrário do que muitos esperavam o homem grande de cabelos cor de fogo, não matou ninguém, apenas censurou o filho com os olhos. Imagino que tenha sido por que o mesmo estava fazendo barulho na porta de casa. Depois do breve momento de tensão, ele entrou sem dizer uma palavra a mais. Deu para perceber claramente que o anão não é o tipo de filho que retruca com o pai, não importa qual seja a circunstância.

Ah, queria tanto que fosse obediente comigo também. Se bem que... perderia a graça se baixasse a cabeça para tudo que eu determinasse. Enfim... Nem sei mais o que quero. Porém ainda sim, a presença de seu pai era mesmo intimidadora, tremi minhas pernas quando ele chegou com aquela voz grossa parecendo um sargentão, mas... passou.

Depois do recado silencioso do meu sogrão, fomos convidados a nos retirar de sua casa, e assim conduzidos por um “pedaço de gente” a uma praça no meio da noite, no final da rua.

— Por sua culpa, pensei que meu pai fosse me matar, satisfeito? — Ele gritava e olhava para mim apontando o dedo. Pablo estava do meu lado mascando chiclete e fazendo balõezinhos num descaso até risível. — Pra começo de conversa porque você está aqui, já disse várias vezes que não era para aparecer na minha casa de surpresa...

O percurso estava sendo bem barulhento, ele e o amigo idiota ficavam me desafiando e gritando comigo como se eu fosse o bichinho de estimação deles. Eu estava indignado com toda aquela merda, meu chiclete já estava até sem gosto, sem cor e duro. Fora o fato de ter encontrado esse loiro maldito na casa do anão, quer dizer que ele pode aparecer lá quando dá vontade e eu não?

— Nat, seu idiota será que não consegue enxergar que esse maldito só quer ferrar com você? — falou o asno loiro.

— Cala a bo- — Estava a ponto de calar a boca e quebrar a cara desse mauricinho metido a besta.

— Cala a boca, Matheus! O papo é reto não tá vendo? — Nessa hora o balão do chiclete do Pablo estourou fazendo um barulho alto.

O encarei e notei que Pablo estava tão chocado quanto eu com aquilo, realmente não esperávamos que o anão fosse me defender.

— Maldito! Seu inútil arrombado! Só estou tentando te ajudar... — e blá, blá, blá, os dois começaram a discutir sem parar.

Detive meus passos encostando de leve no ombro do Pablo num pedido mudo para que parasse de caminhar também.

— O que foi? — perguntou ele.

— Arrasta esse asno pra longe daqui, quero conversar a sós com o anão.

Pablo me olhou com cara de cú.

— Tá tirando onda da minha cara? — questionou revoltado. — Como eu faço isso? O cara me odeia, como arrastá-lo daqui, só se for na porrada. — Abri a boca para dizer alguma coisa, mas ele me interrompeu. — Não sei no que tá pensando, mas não vai dar certo, o franguinho vai pirar se nos ver brigando.

— Eu sei, mas com esse maldito aqui eu não vou conseguir me aproximar. O cara não desgruda.

— Azar é o seu mano, quem mandou deixar o franguinho comandar a relação, se tivesse feito ele entrar na linha do seu jeito a essas alturas não precisaria passar por isso. Te fode! — riu com desdém.

— Faça alguma coisa! — Trinquei os dentes irritado com seu descaso. E com aquele papo escroto. Às vezes ele vem com umas idéias que...! Definitivamente a relação de Pablo e Piêtro não faz bem ao meu amigo.

— Eu? Eu não vou fazer nada. E tem mais... Tô indo embora! Se vira aí com as tuas putas.

— Não, não, não. Volta aqui! Pra começo de conversa a culpa é sua, se não tivesse ficado de frescura para irritar seu priminho nada disso teria acontecido. Vai ter que dar um jeito de me ajudar a concertar essa merda toda.

Pablo respirou fundo e olhou para o loiro e depois voltou a olhar para mim.

— Cara, não há mesmo o que fazer, eu odeio esse cara e ele me odeia.

— NAT! MATHEUS!

Olhamos sobre o ombro pra ver quem chegava e lá estava a nossa salvação.

Pablo me mandou um olhar muito significativo e eu entendi o recado na mesma hora. Era o outro amigo do Natan, ele estava todo arrumadinho cabelo molhado, perfume e roupas limpas.

Pablo puxou-o pela gola da camisa.

— Ei, o que é isso? — Ele começou a se debater aborrecido por ter sido pego desprevenido, mas quando nos viu mostrou um sorriso amarelo e começou a se explicar, embora não fosse necessário fazê-lo. — Eu não fiz nad-

Apenas ignoramos.

— Tá! A gente já sabe. — Me adiantei para não prolongar com sua tagarelice. — Olha só, eu quero te pedi um favor.

— Pra mim? — Perguntou olhando para os lados.

— É, pra você. — o moleque deu de ombros e eu comecei a falar, Pablo fez menção de fugir, mas impedi sua fuga. — Você vai me esperar, não importa a hora que eu sair daqui, ouviu? — Pablo cruzou os braços aborrecido, pensei que fosse bater pé ou mandar eu me foder, mas permaneceu ali paradinho.

Voltei minha atenção para o moleque que já me olhava apreensivo.

— Então... quero que você leve essa sua amiguinha loirinha para longe daqui, pois estou querendo levar um papo sério com o anão, pode fazer isso?

O moleque com cara de boboca me encarou com desconfiança.

— Poder... Eu até posso, mas o que vou ganhar em troca? — Quanta petulância desse moleque filho da puta! Depois a gente mata uma praga dessas é preso e as pessoas querem saber por quê somos tão cruéis.

— Que tal um soco no meio da cara? — Respondeu um Pablo com os punhos cerrados.

— Hun... Não obrigado. Eu passo essa. Tchauzinho! — Respondeu o moleque rindo.

Pablo se enfureceu e o puxou pelo colarinho da camisa perfumada.

— Tá ficando abusado. — Ameaçou entre dentes.

Interrompi.

— Calma, calma assim não vamos chegar a lugar nenhum. — segurei o punho cerrado do Pablo antes que acertasse a fuça do moleque e acabasse ferrando mais minha situação com o anão. — Te dou dez reais e você some com aquele monstrengo.

— Porra, só dez? Que miséria. — Lamentou.

— É Pablo, acho que uma surra não faria tão mau assim. — Falei rangendo os dentes. — Pega a porra do 'dez pila e some! Ou te arrasto pra dentro daquele banheiro sujo e imundo, abaixo tua calça e o meu amigo aqui — apontei pro Pablo — Vai te fazer ver estrelas.

— E aí, é pegar ou largar? — Cutucou Pablo sorrindo sádico e mexendo no cós da própria calça.

O moleque engoliu seco.

Depois de pegar os dez reais se aproximou da dupla — que estava tendo uma discussão nada amistosa. A desculpa que usou foi que esqueceu algo na casa da biba loira, foi difícil convencer o traveco a largar o anão. Ele usou vários argumentos, entretanto no fim teve que largar a chupeta sem opções, dizendo que ia com o moleque mercenário, contudo voltava.

É, mas eu tenho uma péssima notícia para te dar biba: Infelizmente não estaremos mais aqui.

Quando finalmente ficamos sós, Pablo tentou fugir novamente, porém dessa vez não impedi. Enfim... Sós.

Natan estava sentado no carrossel, sentei ao seu lado e logo me surgiu a duvida: como iniciar um assunto?

— Finalmente sós, hein pensei que esse otário não fosse desgrudar nunca mais. — Desabafei tentando iniciar um assunto.

— Ele é meu amigo, bata duas vezes nessa boca suja antes de falar dele, tá legal?!

Rodei os olhos, detesto quando ele começa a defendê-lo. É irritante. Queria que esse asno loiro sumisse da vida do Natan para sempre. Depois dessa pequena troca de diálogos nos calamos o que acabou trazendo uma calmaria gostosa, um silêncio agradável, no entanto eu comecei a ficar ansioso com seu silêncio. Por mais difícil que fosse admitir sei que ele sentiu minha falta, não havia dúvidas ainda levando em conta sua reação quando me viu na porta de sua casa. De repente seu celular começou a tocar, ele tirou do bolso e atendeu:

— Alô. — do outro lado da linha gritava uma voz masculina revoltada: “Imbecil, até que horas pretende ficar aí com esse lixão?” — Não grita no meu ouvido arrombado!

Ouvi um: “arrombado é a mãe”, e na mesma hora soube quem era e que ódio senti.

— Esse maldito realmente não se toca. — resmunguei e já fui puxando um cigarro do bolso.

Natan ainda ficou um tempo no telefone de frescura com esse imbecil, durante aquela ligação fiquei ao seu lado soltando bufos e resmungos descontentes a todo instante até a ligação ser finalizada. A essas alturas ele já me lançava olhares fulminantes, aquilo me fez sorrir e de alguma forma amenizou o clima ruim entre nós.

Após guardar o bendito celular ele me deu um empurrão me fazendo cair sentando no chão. Por causa da franja que tampou meu rosto a principio não vi sua expressão, porém já estava temendo pela minha inútil vida, ele deveria estar muito puto comigo, precisava aprender a me controlar afinal o anão era o anão.. Uma vez anão, sempre anão. Porém, uns tempos atrás estava fragilizado... e impossibilitado de se defender por causa da cadeira, mas agora não... Agora ele estava muito bem recuperado.

Retirei a franja que tampava meus olhos, podendo enfim ver seu rosto e me surpreendi quando me deparei com um Natan me encarando com as duas mãos na boca se contendo ao máximo para não cair na gargalhada. Demorei séculos para processar toda aquela informação, nem tive tempo de articular um raciocino, só deu tempo de me levantar e bater na roupa para tirar o excesso de poeira e uma sonora gargalhada preencheu o silêncio daquela praça me deixando ainda mais atônito. Quer dizer que ao invés de ficar revoltado e quebrar minha cara, ele ri?

Ele riu? Mesmo?

Depois de passar a súbita crise de risos, me encorajei a perguntar:

— E aí, o que vamos fazer agora? — a pergunta saiu como quem não queria nada, afinal não adiantava a gente ficar naquela embolação toda e nunca chegar num consenso.

— Você eu não sei, mas eu estou indo para casa do Matheus. — Fechei a cara na mesma hora. Mas a aquelas alturas estava muito cansado e não tinha mais forças para começar uma nova briga com ele.

(#)

— Deu vinte e quatro com setenta. — Anunciei depois de passar todas as compras de uma senhora de meia idade.

Nos dias que não tenho turno integrado na escola, trabalho num supermercado em um pequeno período da manhã. Poucas pessoas sabem sobre isso, na verdade só Pablo e Pietro, até porque ninguém tem nada a ver com o que faço da minha vida.

Moro com meus pais, mas me sustento sozinho. Passo a maior parte do meu tempo fora de casa e não divido minhas despesas com ninguém.

No meu trabalho sou “um faz tudo”, faço tudo mesmo! Tudo, tudo, tudo! Tudo devagar quase parando isso sim.

Sou caixa, açougueiro, estoquista enfim tudo...

A cliente me encarou boquiaberta e eu naquele momento já estava prevendo tudo que aconteceria a seguir e não deu outra. Logo a velha estava a indagar com aborrecimento sobre os preços altíssimos dos produtos e começou a se queixar que aquilo tudo era inflação, que o Brasil estava perdido e blá, blá, blá...

Arg, vai tomar no cú velha.

— Minha senhora este é o valor das suas compras, calcule a senhora mesmo se quiser confirmar. — tentei falar soando o mais paciente possível, porém ela continuava a tagarelar junto comigo. Cheguei a um ponto onde já não queria mais falar e passei a encará-la com cara de paisagem.

O gerente foi chamado e depois de muito discutirem conseguiram resolver. Ela pagou.

Mais tarde meu coordenador me retirou do caixa para me colocar nos corredores, para estocar e colocar preços nos produtos que chegaram naquela manhã. Aquilo não me incomodou, prefiro ficar sozinho ao invés de lidar com os clientes, embora a clientela sempre me pare nos corredores para perguntar alguma coisa.

Meu rendimento no trabalho é sempre... lento. Muito lento... Mas isso não incomoda ninguém, ás vezes dou uma fugida para fumar um cigarro na rua e volto quase meia hora depois.

— Moço. — Olhei para o lado, encontrando uma moça. — Só tem essa marca de arroz? Não tem uma mais barata, não?

Perguntou ela, respondi que não. Ela estalou os lábios aborrecida, e eu fiquei um tempo encarando-a esperando por mais alguma pergunta idiota, mas no fim nada mais me perguntou. Voltei minha atenção para a caixa caída no chão retirando os pacotes dela e colocando os preços para depois enviá-las a prateleiras. Gosto desta parte do serviço pois me distraio bastante, as horas passam rápido e também aprecio o barulhinho da pistolinha que aplica as etiquetas dos preços nos pacotes.

— Punk?! — Olhei sobre o ombro me surpreendendo, lá estava o anão. Parado no meio do corredor me olhando como se eu fosse um E.T, pensei em sorrir, mas quando meus olhos recaíram na figura loira ao seu lado com cara de aborrecimento, estreitei os olhos compartilhando o mesmo sentimento de raiva. — O que faz aqui?!

— Eu trabalho aqui. — Respondi me erguendo e encarando sua pequena figura.

— Aqui? Sério? — Ele se surpreendeu. — Nem sabia que você trabalhava, pensei que vivia as custas dos teus pais.

E riu depois de dizer isso, não ri da piada, mas também não foi o que realmente me incomodou, o que estava me tirando do sério era o loiro ao seu lado. O silêncio pairou e Natan ficou constrangido quando se deu conta que trocávamos faíscas.

— Ei, será que vocês não conseguem se dar bem? É tão difícil de se aturarem? — perguntou ele, porém não houve nenhuma resposta de ambas as partes.

— Nat, vou no açougue e depois na padaria, estarei no caixa te esperando. — Anunciou ele

Silêncio. Natan esperou ele sair e voltou sua atenção a mim.

— Fui surpreendido, nunca imaginei que você pudesse estar tão perto. — comentou um pouco encabulado. — desde quando trabalha aqui?

Vou contar um segredo: há uns meses atrás descobri que neste mercado havia um cara que me devia um dinheiro, um amigo me passou esta informação, obviamente que no mesmo dia que descobri que o otário que me devia uma grana trabalha aqui, vim cobrá-lo. Vamos deixar bem claro que não gosto de usar violência com ninguém, ok? Mas a grana era alta e eu precisava daquele dinheiro, portanto fui atrás cobrar o que era meu com intenção de arrebentá-lo.

Entrei no mercado e o encontrei no caixa, sem pensar duas vezes peguei-o pela gola da camisa e o levei para fora. A principio não bati nele, cobrei o que me devia e no meio disso vi uma figura muito conhecida entrar no mercado acompanhado de um loucão de pelegão crespo. Era ele, o anão e seu amigo idiota.

Quando eles saíram os segui, olha, eu posso ser loiro, mas não sou burro, lerdo talvez, mas burro não. Depois de descobri onde habitava, retornei ao supermercado para cobrar minha divida e tive a brilhante ideia de fazer um trato com o idiota que me devia dinheiro, fiz ele se demitir e convencer seu chefe a me contratar, tudo isso apenas para ficar perto do anão.

Todas as manhãs ele vinha comprar pão e eu ficava observando-o de longe, mas nem notava que eu estava lá. Sempre observando-o.

Enfim... segredos, muitos de nós temos.

— Desde a semana passada. — menti, ele não precisava saber a verdade.

— Nossa que legal, posso conseguir uns descontos contigo. — disse dando um soquinho no meu ombro e em seguida riu.

Acabei amenizando minha postura aborrecida, mas só um pouco. Ainda vou fazer aquele idiota largar do osso.

Osso que me pertence por sinal.