Delirious
12 12. Especial: difícil mesmo é sair do armário.
Notas iniciais
Capítulo 12. Especial: difícil mesmo é sair do armário.
Narrado por Matheus:
E assim um ano passou-se desde então.
'Tá mentira, ainda é sábado, na verdade falta um minuto para meia-noite. Não fazia a mínima ideia de como começar isso aqui, então forcei um humor que não combina com uma pessoa séria como eu
Ao contrário de muitos que começam se apresentando, falando sobre toda sua vida, idade, a hora que vai ao banheiro, a hora que volta, nome de pai, mãe e irmão, CPF, RG, endereço, estado civil e etc.
Eu vou fazer diferente. Portanto minha vida pessoal não diz respeito a ninguém.
Agora estou deitado na minha cama olhando para o teto. Edu está aqui, o que não é novidade, todo fim de semana ele se enfia aqui em casa. Todo fim de semana mesmo e quando chega segunda-feira não consigo disfarçar a náusea quando vejo sua cara na escola. Não pensem que esta criatura vem aqui na minha casa só para me ver, 'ta? Porque a resposta é não.
Ele vem aqui só pra jogar o meu game e pior que nem disfarça isso. Como, por exemplo, agora: ao invés de ouvir minhas frustrações como um bom amigo faz, está sentado na frente da televisão com pedaço de pão na boca jogando.
Ele chega a babar de tão concentrado.
Enfim. Estou com dificuldade pra tirar da minha cabeça a tarde de hoje. Opa, perdão ontem: já é meia-noite.
Tem algo me incomodando e simplesmente não dá pra engolir. Confesso que tentei várias vezes, mas foi tudo inútil. Ainda tenho flashes e só de lembrar daquele rosto prepotente cheio de si, sinto ganas de destroçar aquela cara.
Nunca passou pela minha cabeça que um dia fosse sentir tanta raiva de Miguel Dorneles. Sério.
Eu pouco me importava com o cara, para mim que se danasse ele e sua turma. Mas agora ambos estão começando a me dar dores de cabeça e são dores insuportáveis.
Me sentei na cama e fiz um bico inconformado para o maldito do Eduardo. Peguei meu gibi do homem aranha e joguei na cabeça dele.
— Porra. Porque fez isso? — perguntou.
— Porque você me irrita. — cuspi frustrado. — Não percebe que preciso desabafar com alguém?
— Nossa que coisa gay. Sério, pare já com isso.
— Vai se fuder. — mandei.
Um minuto de silêncio. Edu voltou sua atenção pro jogo, mas logo apertou no start quando bufei num tom frustrado e consideravelmente alto. Ele suspirou, largou o controle, girou o corpo e me olhou.
— Ok. Fale sobre o que te aflige. — disse ele.
E foi a minha vez de dar um longo e inconformado suspiro. Não tinha com quem conversar, Eduardo jamais entenderia. Na verdade eu não podia, sequer conseguia imaginar nós dois tendo aquela conversa.
Primeiro porque não me sentiria confortável conversando aquilo com Edu. Sei lá, eu não sei bem o que se passa naquela cabeça crespa.
Melhor não, ele não é a melhor pessoa pra conversar sobre isso.
— Quer saber: esquece! — disse a ele simplesmente. Edu me olhou com interrogação.
— Ahn?
— Deixa pra lá. — após dizer isso me ergui sob seu olhar confuso e atento. — Vou pra cozinha.
(#)
No corredor passei na frente do quarto do meu irmão mais novo. Ele se chama Fabrício e tem treze anos. A porta do quarto estava aberta vi que ele tinha companhia, era mais de seus amiguinhos nerds. Cumprimentei e tive a porta fechada na minha cara como resposta. Comecei a berrar feito retardado no corredor.
Maldito.
— Porque fez isso Fabrício? — bufei frustrado por não ter recebido nenhuma resposta. Sendo assim continuei seguindo meu caminho.
Na cozinha abri a geladeira com os pensamentos voando longe.
Miguel & Natan
Miguel & Natan
Miguel & Natan
Era só nisso que pensava. Só nisso. Porra 'tô pirando.
— Presta atenção no que você 'tá fazendo. — olhei mecanicamente pro lado encontrando um rosto igual ao meu, porém com traços mais maduros.
Era meu irmão mais velho: Fernando. Dei um riso sem graça.
— Não adianta nada rir se você continua derramando o leite.
Meus olhos só faltaram saltar pra fora quando percebi que derramava leite no chão. Porra minha mãe vai quebrar minhas fuças.
Respirei fundo.
— Francamente onde ando com a cabeça?! — resmunguei.
Podia não olhar nos olhos do meu irmão, mas sabia que ele estava me observando.
— O que 'tá acontecendo? você anda bem estranho, tudo bem na escola?
— Ahn? Ah sim, tudo bem. — respondi.
— Então, brigou com a Vanessa outra vez?
— Hm. Também mas não é bem este o meu principal problema.
Sorri amarelo. Peguei um esfregão de chão e limpei a sujeira, com Fernando me olhando. Comecei a ficar um pouco incomodado com seu olhar.
— Então o que 'tá te incomodando? — ele questionou.
— E porque o interesse repentino? — perguntei.
Ouvi um suspiro cansado.
— Só estou tentando te ajudar.
Meu irmão é o cara mais compreensível e mais carinhoso do mundo. Vinte e um anos de idade, estuda literatura e, é extremamente calmo. É bastante popular com as mulheres, porém não tem namorada.
Não me pergunte o porquê, pois também não sei. Ele é muito reservado. O que me pergunto agora é: Será que devo falar com ele sobre isso?
Mas... Se ele se emputecer e gritar comigo, me expulsar de casa, me socar e contar pro nosso pai? Vale a pena mesmo arriscar?
— Você 'tá disposto a me ajudar mesmo? — arrisquei na pergunta.
Fernando sacudiu os ombros.
— Se estiver ao meu alcance porque não? — respondeu.
— Jura? — perguntei e ele assentiu. — Certo! Então me beije!
Ele franziu a testa.
— Perdão?
— Me beije! — repeti.
Ele ficou um tempo ali parado em pé e atordoado. Forcei contato visual determinado.
Fernando suspirou e veio ao meu encontro. Depositou um beijo seco na minha testa.
Rodei os olhos.
— Não assim jumento. Na boca. — falei.
— Hã?
— Me dê um beijo na boca e de língua. — alterei minha voz.
— 'Tá tirando uma onda com a minha cara? — perguntou, mas sua voz se mantinha calma.
— Não, estou falando sério.
Fernando forçou contanto visual. Um longo minuto passou-se e nós dois permanecemos naquele dilema. Fui surpreendido quando ele encostou as costas da mão na minha testa.
— Deve estar doente. — disse numa calma de deixar qualquer um irritado.
Dei um tapa na mão dele indignado e falei convicto.
— Não 'to doente porra. 'To falando sério, eu preciso saber como é... Isso 'tá me matando.
— Como?
Crispei os lábios e a fala morreu. Bufei.
— Lembra do Natan? — Perguntei.
— Não, nem sei quem é. — respondeu ele.
— Porra, um cara pequeno, irritadiço? Joga futebol, nós jogamos futebol com ele.
Meu irmão demorou anos para se lembrar de quem era o Natan, depois de um tempo enfim conseguiu se recordar.
— Ah sei.
— Eu acho que ele 'tá tendo um caso com um cara.
— E? — perguntou.
— Como “E”? Meu amigo virou Gay.
— Isso te incomoda? — sua pergunta saiu estranha.
— Não. — antecipei. — Eu acho que não. Ah sei lá, eu andei pensando bastante e cheguei a conclusão de que não aceito o cara que está com ele.
— 'Tá e porque quer que seu irmão te beije na boca?
Respirei fundo, me encostando na geladeira.
— Quero saber o que tem de tão bom nisso?
— Beijando seu irmão mais velho não vai ajudar em nada. Beije seu amigo do vídeo game. — disse ele.
Torci o nariz.
Edu?
— 'Eca! Prefiro morrer. — falei.
— Eu que não vou te beijar, sinto muito.
— Disse que faria qualquer coisa para me ajudar. Mentiroso.
— Eu disse que se estivesse a meu alcance. — Relembrou.
— E isto não está? — quis saber. Ele ficou um tempo em silêncio me olhando fixo.
— Porque tem que ser eu? — perguntou.
— Porque você é... Bonito. — Ergueu uma sobrancelha, intrigado com a minha resposta. — Ah se eu tiver que beijar um cara, então que ele seja bonito.
— Este assunto não tem lógica. — disse por fim.
Ele girou os calcanhares a fim de deixar a cozinha, mas o impedi.
— Dane-se a lógica, só um beijo. Não custa.
— Desculpa, mas não vou fazer isso.
Suspirei inconformado. Escorreguei minhas costas na geladeira sentando no chão.
— O que você faria se eu dissesse que n-... — porra, o que eu 'to fazendo??! — Deixa.
Ficamos completamente mudos. Aquilo era loucura mesmo.
— Acho que está confundido as coisas. Podia tentar com seu amigo do futebol então. Quem sabe ele não possua o que você busca?
Fiquei pasmo.
Com Natan?
Natan?
Mesmo, Natan?
— Ahn?
A resposta não veio, apenas vi meu irmão deixar a cozinha. Droga. Que merda 'tá acontecendo comigo?
Suspirei.
(#)
— Demorou, hein. — Olhei pro Edu, sentado na frente da TV de perfil.
“Beije seu amigo do vídeo game”.
Será? Olhei novamente. Edu não é nada bonito, mas sua lista de ficantes é enorme. Será que ele é tão bom assim?
Bufei.
“Beije seu amigo do vídeo game”.
Porra, não custa tentar. Mas ele é feio. Natan também é. Arregalei os olhos, que merda 'tá acontecendo comigo meu Deus? Porque sempre penso no Natan?
Peguei ele pelo colarinho da camisa olhando aquela cara feia dele.
— Ei, o que 'tá fazendo?
— Cala a boca animal.
Ele franziu a testa, fazendo uma cara horrível. Suspirei.
Fechei os olhos buscando um rosto de uma pessoa bonita... Vanessa. Não, não, espera. Vanessa é mulher não vai funcionar... hm... Um cara bonito... Um cara bonito... Meu irmão?
“Beije seu amigo do vídeo game”.
Meu irmão!
Segurei a sua nuca.
'Tá... Agora estou segurando a nuca do meu irmão, porra não dá, realmente não dá. DÁ UM DESCONTO É MEU IRMÃO CACETE.
Ok, deleto Fernando. Quem... Quem...?
“Podia tentar com seu amigo do futebol então, quem sabe ele não possua o que você busca?”
O-ok, vamos desde o início. Estou segurando a nuca de Natan, alisando os fios suaves do moicano, colando seu corpo com pequenos músculos definidos e firmes ao meu.
Sua boca entreaberta perto demais da minha, sinto sua respiração, o hálito morno tão perto, impregnando minhas narinas... E finalmente grudo minha boca na sua.
Ah é o Natan que estou beijando.
Parece real e é... bom.
Fale com o autor