Delilah
15 Extra 2: Todo mundo merece um final feliz
Notas iniciais
Esse capítulo é um presentinho especial para a Sara. Uma tentativa minha de me redimir por todo o sofrimento que causei com os eventos nessa história.
Agradeço pelas reviews!
Boa leitura
Emily estava um caco.
Ela havia acabado de deixar Peter na casa que Arthur dissera estar vivendo. Ele não deu muitos detalhes a respeito e ela tampouco desejava saber. Ainda era tudo tão recente, mesmo depois de assinados os papeis do divórcio e definida a guarda de Peter – sem qualquer grande litígio, porque Arthur se mostrou conivente demais com qualquer opção dada por Emily ou seu advogado. Tão recente em sua cabeça, porque dois anos só era um tempo recente a depende do referencial psicológico.
O fato era que ela ainda estava bastante chateada com Arthur por tudo. Longe da raiva avassaladora que a acometeu na época do divórcio, o que ela sentia era uma mescla de arrependimento e nostalgia pelo casamento que podia ter dado certo, mas foi um fiasco.
Estava se sentindo sozinha e infeliz.
Ela amava Peter com todo o coração e dispensava ao filho o melhor tratamento do mundo e toda a sua atenção. Nunca o incitou contra o próprio pai – embora algumas vezes fosse incapaz de disfarçar sua própria amargura com Arthur na frente do filho. E apesar do suporte que recebera das amigas, da família e mesmo de Francis, de uma coisa ela sentia falta: da cumplicidade e companheirismo que sempre tivera com Arthur.
Mas talvez fosse assim mesmo que as coisas funcionavam: meio dramáticas e trágicas para uns, como ela mesma, meio felizes e realizadas para outros, como seu ex-marido, que pelo que ouvira finalmente havia se acertado com aquele sujeito, Alfred.
Curiosamente, ela nunca conseguiu odiar Alfred.
E tampouco conseguia achar a felicidade do ex algo injusto. O que era injusto era o fato de ela ainda estar na mesma.
Ela suspirou profundamente, quase que em um lamento por todo o baixo astral que a circundava. Estava caminhando pelo píer da cidade, onde costumava ficar o asilo no qual Alfred trabalhava. No lugar dele, contudo, erguia-se um novo centro comercial.
“Nem sempre as coisas mudam para a melhor.” Pensou consigo mesma.
O dia estava morno, mas ventava muito. Emily permaneceu alguns bons minutos apenas contemplado o imóvel em reforma e pensando nas coisas mais aleatórias imagináveis. Mas não estava tão distraída a ponto de não perceber uma pessoa se aproximar.
Aproximar era exagero. A moça, que ainda parecia estar na casa dos vinte e tantos anos de idade, parou a uns três metros de distância dela. Vestia um casaco lilás adornados com pelos, talvez sintéticos, talvez não, e tinha um grande laço na cabeça. De algum modo, a moça parecia uma modelo, porque ela tinha uma pele tão clarinha que de longe até parecia porcelana. Emily corou de leve e desviou o olhar quando a moça olhou na sua direção e pareceu perceber que estava sendo observada.
“É injusto, não é?” Ela ouviu a mulher falar. “Destruir um lugar como esse para fazer um centro comercial. Aí costumava ser um asilo. Um bom asilo, na verdade.”.
Emily sabia, é claro que sabia. Ela assentiu em resposta.
“Sinto uma pontinha de vergonha em dizer que parte da culpa disso foi minha.” Ela suspirou, ganhando novamente a atenção de Emily e um olhar curioso. Quase como se percebesse o questionamento silencioso, continuou. “Meu irmão é dono de um grande conglomerado de companhias. Dentre elas, uma de construção, que é a responsável por haver comprado esse lugar.” Explicou. “A pessoa que sugeriu esse lugar em particular fui eu.”
“Por quê?” Emily se viu perguntando com um crescente interesse.
A moça deu de ombros.
“Vingança. Contra um rapaz que conheci.”
“O que ele fez de tão terrível?”
“Nada.” Ela riu. “Talvez seja porque ele tenha se recusado a ceder às minhas chantagens. Eu deveria admirá-lo, eu acho. Afinal, ele desafiou o meu irmão mais de uma vez. Inclusive quando ele usou a própria casa para realocar os velhinhos daqui do asilo.”
Emily assentiu, não sabendo o que dizer. Ela estava um pouco surpresa pelo gesto de caridade do sujeito do qual a mulher falava, já que poucas pessoas fariam o mesmo. Ela viu a moça se aproximar até ficar cara a cara com ela, como se a analisasse.
“Inclusive... Você me lembra um pouco ele.”
Emily rolou os olhos. Aparentemente, havia muitos sósias masculinos dela pela cidade.
“Bom, não importa. Você é bem mais bonita que ele, de qualquer jeito.”
O cumprimento a fez corar violentamente e Emily realmente não soube se aquilo foi um comentário solto ou um tipo de flerte.
“O-Obrigada, eu acho.”
Em retorno, ela recebeu um sorriso. A moça estendeu-lhe a mão.
“Me chamo Natasha. Você?”
“Emily.” Ela sorriu, estendendo a mão de volta.
“Tem um café aqui perto, inaugurou semana passada. Eu estava esperando que meu irmão fosse lá comigo para vermos se é realmente bom, mas ele anda tão ocupado que acho que nunca virá. Você me acompanharia? É por minha conta.”
Bom, Emily pensou, por que não?
Fale com o autor