Declínio Das Trevas

2 Um Castelo de Contos de Fada


Os primeiros raios de sol daquela manhã primaveril banhavam os musgos espalhados pelas pedras cinzentas dos muros do castelo de Brennenburg. Envolvido pelo silêncio e frescor daquelas horas matinais, um visitante aproximava-se.


A primeira vista plena que Daniel teve da construção fez o jovem arqueólogo pensar em um cenário de contos de fadas. A luz solar projetava-se por arcos e frestas, dando uma atmosfera onírica à arquitetura gótica do lugar. Daniel sentiu suas esperanças renovarem-se diante de uma paisagem tão impressionante.


O jovem pousou sua pequena mala de viagem no chão e procurou no bolso interno do colete pela carta escrita por Alexander, o barão do lugar. Releu a assinatura caprichada. Estava cético quanto à capacidade desse nobre prussiano, ainda encerrado nos tempos medievais a julgar por sua moradia, em ajudá-lo. Porém, tal era seu tormento que agarrar-se-ia desesperadamente a qualquer chance de salvar-se da maldição que o perseguia.


Daniel dobrou a carta com cuidado, mas não tornou a guardá-la. Planejava mostrá-la como apresentação e prova de que era um convidado do barão. Limpou o suor que havia em sua testa. Certamente não estava apresentável o suficiente para um encontro com um nobre, mas fora obrigado a caminhar até o castelo, visto que nenhum aldeão aceitou conduzi-lo através da trilha estreita e íngreme por entre uma floresta de pinheiros ou mesmo alugar um cavalo.
Não que não fosse estranho essa gente simples temer um estrangeiro pedindo uma carruagem ou montaria em plena madrugada, mas Daniel não pode deixar de notar que, muito mais que desconfiados, os aldeões pareciam aterrorizados por sua chegada súbita. Sentindo-se um tanto constrangido por causar tanto alarde e vendo que não conseguiria sequer hospedagem, decidiu que poderia caminhar.


Até surpreendeu-se com sua atitude, subindo corajosamente por uma trilha desconhecida e pouco iluminada, quando ainda faltava para o amanhecer. Será que estava despistando a Sombra? Um arrepio atravessou seu corpo, o fato é que certamente ele não conseguia imaginar-se sentindo mais terror. Cada instante era uma memória terrível das mortes que presenciara graças a essa Sombra em seu encalço.


Apertou a carta firmemente com a mão esquerda e, com a direita, agarrou a alça da mala surrada onde levava seus poucos pertences e aquela coisa maligna responsável por tanto infortúnio.