Passava do meio dia quando Daniel despertou de um sono agitado e levantou depressa, julgando-se atrasado para a audiência com o barão, por mais que ele tivesse insistido que formalidades excessivas não eram necessárias.


O jovem olhou ao redor, procurando lembrar-se onde havia deixado sua camisa mais apresentável. O quarto de hospedes que o barão lhe oferecera era amplo e ricamente decorado com belas tapeçarias. Havia uma lareira, excelentes móveis de madeira entalhada, talvez importados da França e uma confortável cama de dossel, com cortinas vermelhas. Das janelas imponentes, era possível ver a encosta repleta de pinheiros e, bem de longe, parte do vilarejo sob Brennenburg.


Daniel encontrou a camisa pendurada no encosto de uma cadeira e a vestiu com certa pressa. Notou que alguém havia levado a bandeja em que, algumas horas mais cedo, um delicioso lanche havia sido servido. Daniel achava estranho pensar em empregados rondando seu sono e arrumando as coisas enquanto ele dormia. Nunca possuíra dinheiro para tamanho luxo, sem falar que a maior parte da sua vida havia sido passada entre sua casa em Mayfair e a universidade.


Tentou, em vão, ordenar os cachos castanhos diante de um espelho próximo ao guarda-roupas. Seu cabelo estava um pouco mais crescido do que seria razoável para um homem de sua idade e que não era um nobre. Notou que possuía profundas olheiras e deu-se conta que fazia um bom tempo que não conferia a própria aparência e por isso descuidara-se em dar um bom corte no cabelo.


Estava pronto para sair, quando notou que havia esquecido o item mais importante. Então voltou-se para a mala que havia sido deixada em um canto do dormitório e retirou de lá um objeto esférico, envolvido por uma grossa camada de tecidos, pois temia tocar diretamente em algo evidentemente maligno.
Daniel procurou evitar a todo custo o pavor e a tremedeira que o assolavam na presença da relíquia e encaminhou-se para a biblioteca, ali perto, onde o barão Alexander disse que o esperaria.


–§-


– Entre! – uma voz grave, de sotaque levemente germânico, respondeu às batidinhas na porta da biblioteca.


Daniel encontrou Alexander sentado em uma confortável poltrona de veludo vermelho escuro, lendo um livro cujos caracteres impressos na capa deviam pertencer ao alfabeto hebraico.


– O Velho Testamento dos judeus e cristãos. – Alexander explicou, pondo o livro de lado. Seu tom de voz dava a entender que ele não era nenhum dos dois. – Contém fábulas muito interessantes, sabia que há um personagem que possuí o mesmo nome que o seu?


Diante de tais palavras, Daniel franziu o cenho, imaginando se aquilo era alguma brincadeira. O barão deve ter percebido, porque logo acrescentou:


– Ah, que bobeira, é claro que sabe. Vocês são anglicanos na Inglaterra, afinal. – Alexander pigarreou – Perdoe as distrações de um homem velho. Agora, venha, sente-se aqui ao lado. – ele apontou outra poltrona, igual a que ocupava.


Quando Daniel acomodou-se no móvel ao lado de Alexander, o barão pareceu finalmente notar o objeto que o jovem carregava consigo.


– É ele? O orbe? – Alexander perguntou, seu tom de voz novamente sério e imponente.


Daniel respondeu que sim.


– Deixe-me vê-lo.


– Não sei se é uma boa... – Daniel começou a falar. Seu desejo era livrar-se do orbe, não ficar examinando a peça e, provavelmente, atiçando seu guardião.


– Não tema, Daniel. Nada nos atingirá, não aqui e nem a essa hora do dia. – Alexander disse, procurando convencer o rapaz.


Daniel assentiu, embora ainda se sentisse hesitante. Pegou o orbe com cuidado e o depositou sobre a mesinha entre as duas poltronas, ao lado do livro em hebraico que Alexander estivera lendo a pouco. Em um gesto rápido, puxou os tecidos envolvendo o objeto.


Era perfeitamente esférico. Sua superfície era vítrea e tão escura que parecia até mesmo roubar a iluminação ao seu redor. Se fosse olhada com atenção, a escuridão em seu interior parecia uma substância arenosa movendo-se lentamente. Emanava dela uma força magnética tão grande, que era estranho que não fosse tão forte quando encoberta. Daniel imaginou se isso tivesse a ver com um estado psicológico induzido pelo contato visual com aquilo que se temia, porque ele sentia a cabeça pesar mais e mais a cada instante perto daquela coisa. Alexander, por outro lado, mostrava um sorriso muito satisfeito. O barão estendeu a mão, tocando a superfície do orbe. Daniel afundou contra o encosto da poltrona e percebeu que estava suando frio.


As janelas cheias da luz exterior estavam cada vez mais longe, Daniel soube que seria esmagado pela escuridão que o rodeava. A Sombra estava próxima, com as garras ao redor de seu pescoço, frágil diante de tamanho poder. Tentou gritar, mas a pressão em seu peito impediu que o fizesse. Náusea e tontura. Medo e aquela pedra cheia de sangue, sempre em sua mente, o crânio partido. Gritos, de crianças. De pessoas que ele conhecia. Dor e todo aquele sangue. Se morresse não teria que ver mais nada...


Ele era alto. Havia uma aura azul e tons de vermelho e dourado. Sua voz pronunciou uma palavra de comando, uma palavra que Daniel não conhecia e nem sabia se seria capaz de pronunciar. Os olhos de Daniel fecharam-se, mas não para a escuridão da morte e da Sombra, porém uma escuridão bem-vinda, um conforto à exaustão de quase um mês passado em claro e ao terror que o orbe infundia em sua mente.

Notas finais
Amanhã tem mais um! ^^