– Hazel? – Daniel murmurou, sentindo a pressão suave de uma palma contra sua testa, medindo a temperatura. Sua consciência ainda transitava entre a realidade e o mundo dos sonhos, mas lembrou logo que sua irmã estava muito longe, em um hospital psiquiátrico britânico e ele estava em um castelo encantado em um país distante, um lugar onde jamais imaginou que poria os pés em sua vida. Pouco a pouco, tornava-se mais ciente dos arredores. Reconheceu o vermelho das cortinas presas ao dossel, as tapeçarias e o espelho na parede do quarto. Era um dia claro. Havia dormido por muito tempo? Seu corpo estava dolorido, mal tinha forças para espreguiçar-se. Fechou os olhos, tendo dificuldade até mesmo em piscar.

Quando Daniel finalmente despertou, a noite encobria o céu e a lareira estava acesa, apesar da temperatura amena da estação. Formas brancas e brilhantes circulavam sobre seus olhos. Não, não flutuando sobre os olhos, ele pensou, haviam sido desenhadas na superfície escura que era a cobertura do dossel. Embora tivesse aprendido a reconhecer uma porção de sinais ideográficos na faculdade de Arqueologia, Daniel não fazia ideia que símbolos eram aqueles, dispostos em um círculo sobre sua cabeça. Levantou as mãos para esfregar os olhos e notou que haviam sinais parecidos, também pintados com aquela tintura perolada, em seus pulsos.

– É um círculo de proteção, Daniel. Manterá a Sombra afastada, pelo menos por alguns dias.

Daniel teve um sobressalto ao entender que ainda não estava livre. Levantou-se o suficiente para conseguir sentar na cama e percebeu que Alexander estivera todo o tempo ocupando uma cadeira próxima à sua cabeceira. Perto dele, havia uma tigela com água fresca e um pedaço de pano. Daniel baixou a cabeça, sentindo-se muito constrangido.

– Por quanto tempo eu estive desacordado? – perguntou.

Alexander estendeu a mão e pressionou o ombro do rapaz, de uma forma que parecia quase um carinho confortante. O barão sorriu para o jovem e levantou da cadeira que ocupava.

– Quatro dias, Daniel. Se serve de algum alento, você já chegou nesse castelo muito doente, na fronteira do esgotamento físico e mental. Diria que sua recuperação foi até bastante rápida.

Daniel suspirou e ajeitou-se sob as cobertas. Observou Alexander andar pelo quarto. As chamas da lareira faziam a sombra do homem alongar-se e fragmentar-se em várias decomposições de cinza, bruxuleando pelas paredes e sobre a cama de Daniel. O barão começou a entoar um cântico baixo em uma linguagem desconhecida. A voz grave preenchia o quarto e envolvia Daniel, causando-lhe um forte sentimento de proteção. Cada vez que o canto subia um tom, parecia multiplicar-se em um coro de vozes masculinas e os desenhos formando um círculo sobre o rapaz pareciam mais vivos e brilhantes, como se aquela tintura de aspecto tão puro estivesse respondendo às palavras de Alexander.

– Você é um tipo de mago? – Daniel murmurou, sonolento, quando Alexander terminou a canção. Reconhecia que era uma pergunta tola e infantil, mas nunca havia visto algo como o que acabara de presenciar.

Como esperado, Alexander riu da pergunta, mas seu riso não era uma repreensão, pois ele respondeu, pouco antes de cobrir os olhos de Daniel com a palma da mão e fazê-lo dormir:

– Pode-se dizer que sim, Daniel.

–§-

Os dias seguintes foram de rápida recuperação e logo Daniel estava caminhando pelo castelo, explorando a biblioteca e escrevendo uma série de notas sobre o encanto que sentia pelo lugar em seu diário de viagens. Aprendeu logo que, apesar do aparente esmero com que havia sido cuidado, Alexander era um homem ocupado, a julgar pelo fato que sumia por todo o dia a partir das primeiras horas da manhã e retornava apenas para fazer companhia ao visitante durante o jantar, onde parecia entusiasmar-se em ouvir sobre o dia de Daniel, as leituras que ele havia feito e se havia recuperado a saúde.

Daniel teria descrito esses primeiros dias como um bocado solitários, apesar do deslumbramento de descobrir um novo detalhe do castelo a cada dia, porque não apenas via pouco o barão, como também era evitado pelos servos do lugar. Todas as vezes que tentava aproximar-se de um deles, quando estavam entretidos por algum afazer nas instalações de guarnição localizadas sob o saguão de entrada, os serviçais afastavam-se depressa, resmungando em alemão e mal dando tempo que Daniel pudesse ver-lhes a face, apenas conseguindo sentir o forte cheiro de vinho permeado por sálvia e cravos que desprendiam.

Outra coisa que havia chamado sua atenção era a fonte do hall. Havia notado aquela estranha decoração no primeiro dia de sua estadia em Brennenburg. Era uma escultura feiosa, consistindo de uma base côncava da qual prolongava-se um pilar na forma da coluna dorsal humana e cuja ponta era uma face esculpida em mármore, parecendo um botão de flor estranho e gigante. Na borda da concha havia sido esculpido um par de pernas, como se um homem tivesse tombado e se afogado em seu interior. Após examinar a instalação por alguns momentos, Daniel sentiu-se tão mal e tão incomodado pela bizarrice do objeto que passou a evitar olhar muito diretamente para ele, chegando a virar o rosto quando tinha que passar em frente do mesmo.

Esses eventos eram pormenores diante de outras preocupações, porém. Alexander assegurou a Daniel que o orbe estava guardada em um lugar seguro e o jovem não podia negar que sentia um grande alívio em não estar mais tão próximo daquele terrível objeto. Por outro lado, pressentia que a Sombra estava próxima, rondando o castelo, talvez esperando que o círculo de proteção marcado em seus pulsos desaparecessem por completo.

– Daniel, algum problema? – Alexander perguntou, atraindo a atenção do arqueólogo. Estavam em meio ao jantar e a conversa sobre amenidades havia esvaído-se fazia algum tempo. Daniel esticou os braços, mostrando a pintura quase apagada. Era a primeira vez que tocava nesse assunto após todos esses dias.

– Você disse que isso era um círculo de proteção. Um tipo de barreira sobrenatural, correto?

– Exatamente. – Alexander respondeu, com simplicidade.

– Veja, eu não sou um homem dado a crendices. Mas as coisas que vi nesses tempos... – Daniel falou, percebendo sua voz repentinamente rouca e um pouco trêmula – E aquilo que você fez, você afastou a Sombra. Eu não... – ele suspirou e deixou que os braços tombassem – Essa proteção não irá durar para sempre, não é?

– Receio que não. – disse o barão, parecendo divertir-se com a premonição do que viria a seguir.

– Ensina-me tais artes, meu senhor. Ensina-me por favor para que possa proteger-me diante desse demônio. – Daniel pediu, mal contendo um certo desespero em seu modo de falar. O barão ergueu a mão esquerda e, com um semblante compreensivo, fez um sinal para que Daniel se acalmasse.

– Não se esqueça, Daniel, que sou um bom anfitrião e prometi que afastaria para sempre o guardião que atraíste por acidente. Se ainda não o fiz, é porque o ritual de banimento requer exaustivo preparo.

O jovem empertigou-se em seu lugar e manifestou que ia falar algo, mas foi interrompido por Alexander:

– Porém, se assim deseja, torná-lo-ei meu assistente e aprendiz. Compartilharei com você o que puder de meus conhecimentos mágicos e alquímicos. Saiba apenas que o ocultismo é um pesado fardo e se não agir com cautela, é sempre alto o preço a ser pago.

Os olhos esverdeados do jovem iluminaram-se ante a possibilidade de aprender ensinamentos desconhecidos. Fez uma breve reverência ao barão e o agradeceu por tamanha gentileza, pois Daniel notou que em momento algum Alexander pedira alguma recompensa em troca de sua ajuda e sabedoria.

– Serei eternamente grato, meu barão.

Alexander fez um breve maneio, erguendo ligeiramente o queixo robusto.

– Vou ensinar algo muito importante para você nesse exato instante, meu caro. – ele disse, fazendo as sobrancelhas do rapaz levantarem até quase tocar a raiz do cabelo. Daniel também inclinou-se para a frente, quase derrubando a taça de vinho, para não perder uma palavra. – Não tema as coisas sobrenaturais, pois estas não passam de criações humanas e, como tal, são facilmente manipuláveis à vontade de qualquer pessoa.

Notas finais
Inspira a autora dessa fanfic: http://www.youtube.com/watch?v=Hpuu_xODUpo :B