Notas iniciais
Vocês devem querer a minha cabeça em uma bandeja enfeitada com flores, não é? Gente, sinto muito, sinto muito mesmo pela demora, mas andei enrolada com uns assuntos pessoais. Vou tentar compensar e postar direitinho de agora em diante, prometo pra vocês, só... Não me matem! ;-;

Rick Grimes

Minhas mãos estavam firmes no volante enquanto eu dirigia de volta para a prisão. Apenas Glenn, Maggie e Michonne estavam naquele carro, e minha cabeça vagava longe, pensando em tudo o que havia acontecido naquelas últimas doze horas. O ataque, o tiroteio, o quase sequestro de Daryl, e principalmente o fato de ter descoberto que Merle e Andrea ainda estavam vivos. Aliás, era justamente por esse motivo que Daryl havia decidido nos deixar: para continuar ao lado de sua família. Eu realmente não conseguia entende-lo. Merle nunca fora uma boa companhia e influência, e jamais o imaginaria dividindo o mesmo espaço que Beth ou as outras mulheres da prisão. Daryl havia trocado toda a segurança de casa e toda a confiança que depositávamos nele para vagar por aí com seu irmão insano, apenas por possuírem o mesmo sangue. Eu o considerava meu braço direito, mas essa não era minha preocupação no momento. Carol e ele haviam estabelecido um relacionamento próximo desde a época da fazenda, e eu não fazia a menor ideia de como contaria a ela que Daryl havia nos deixado.

Espiei pelo espelho retrovisor e encontrei o olhar de Glenn. Seu rosto maltratado e coberto por escoriações provocadas pela tortura de Merle. Engoli o nó que se formou em minha garganta ao pensar no que Daryl se tornaria agora que havia voltado a conviver com o irmão. Lembrava-me bem dos tempos em que me juntei ao grupo e mal ouvíamos sua voz. Michonne continuava impassível ao meu lado, sem dizer uma palavra. Maggie sustentava uma expressão tão vazia que era impossível decifrar o que se passava em sua mente, já a minha, era tomada por pensamentos muito claros e definidos.

Beth. Beth. Beth... Aquele nome povoava grande parte dos meus pensamentos, sendo substituído vagas vezes por Judith e Carl. Eu não sabia ao certo o porquê daquela pequena figura loira ter se tornado tão constante em meus pensamentos, mas a segurança que seu abraço inocente me causava era algo realmente assustador. De certa forma eu me via preso àqueles braços magrelos. Era impossível explicar, e sentia-me horrível por aquilo. Beth era uma garotinha, poucos anos mais velha que meu próprio filho. Além do mais, a presença de Lori era quase palpável aonde quer que eu fosse. A pressão, a dor, a responsabilidade, e, por fim, aquela mínima fagulha de paz que havia no fundo do poço. A única razão para me preocupar era que aquela pequena fagulha tinha nome, além de cintilantes olhos azuis cor-do-céu.

Suspirei profundamente ao avistar os portões e as torres imponentes da prisão. Aproximando-me um pouco mais, reconheci Carol e Carl me esperando logo no portão. Sentia-me aliviado por estar em casa, com a minha família. Após cruzar o primeiro portão foi impossível permanecer no carro. Tudo o que pude fazer fora pedir para Michonne assumir o volante enquanto corria em direção a Carl, abraçando-o com força e agradecendo a Deus por todos estarem aparentemente bem. Observei de soslaio quando Carol aproximou-se da janela do carro, procurando alguém em específico. Não sabia quais palavras deveria usar para contar-lhe a verdade sobre Daryl. Como se lesse meus pensamentos, aquela pergunta logo veio.

— Onde está Daryl? — ela perguntou, e pude sentir um pequeno misto de desespero em sua voz.

— Está tudo bem, ele está vivo — procurei acalmá-la antes que de fato pudesse pensar o pior. — Encontramos o irmão dele. Eles foram embora — disse rapidamente, desviando de seus olhos marejados e tristonhos.

— Eles fugiram? — questionou em um fio de voz, e apenas acenei em comprovação. — Daryl fugiu? Ele foi embora? — Carol continuou a questionar, sua voz tornando-se embargada a cada palavra. Sentia como se a qualquer momento ela pudesse desabar, ali na minha frente.

Caminhamos em silêncio em direção à prisão, e passei meus braços sobre os ombros de Carl e Carol. Carl parou por um momento para fechar um dos portões, então deixei que Carol chorasse abraçada a mim. Deveria ser difícil para ela, assim como estava sendo para todos nós. Ao chegar ao pátio, meus olhos instintivamente procuraram por uma figura baixa e loira, e não demoraram a encontrá-la abraçada a irmã e ao pai. Assim que me viu, Beth sorriu daquela forma inocente e doce que apenas ela sabia sorrir, e caminhou a passos largos em minha direção, abraçando-me. Permiti-me aspirar o cheiro de seus cabelos por um breve instante, antes que ela se afastasse e depositasse um suave beijo em minha face. Nossos olhares se encontraram por alguns segundos e me vi perdido naqueles grandes olhos, e, então, ela correu de encontro à Maggie.

Passei minhas mãos pelos cabelos disfarçadamente, como se estivesse fazendo algo muito errado, apesar de não ter feito nada de mais. O olhar indiferente dos outros apenas confirmava que aquilo não era nada além de uma demonstração inocente de carinho, e por um momento me perguntei o que me fazia pensar que fosse algo diferente. Acenei para Carol e Carl para que eles acompanhassem os outros para o interior da prisão enquanto Hershel aproximava-se. Provavelmente tinha algo importante a dizer.

— Você voltou, como sempre — ele cumprimentou-me, mas pude perceber que havia algo muito mais complicado por trás daquele aperto de mão. — Mas parece que temos outros problemas em mãos.

— Sim — respondi ao entender que a preocupação dele era sobre Woodbury.

— Você deu uma olhada neles?

— Ele colocou Daryl e Merle um contra o outro, com uma plateia inteira incentivando-os a lutar até a morte. Que tipo de mente doentia faz isso?

— O tipo de mente criada por esse mundo, filho — Hershel respondeu em um suspiro. Ele continuou com a mesma expressão abatida, então tive certeza de que havia algo mais.

— Qual o problema? Aconteceu algo com o bebê? — inquiri ao passo que rezava internamente para que não fosse nada com Judith.

— Não! Beth tem tomado conta dela. Come como um cavalo, dorme como uma pedra — Hershel logo negou, trazendo-me um pouco de alívio.

— Mas, então, o que é?

— Quando vocês estavam fora... — iniciou com um pigarro, como se escolhesse as palavras. — Um grupo, Rick. Algumas pessoas conseguiram entrar pelo muro caído aos fundos da prisão. São boas pessoas, mas a decisão não cabe a mim.

Engoli em seco enquanto esfregava meus olhos ardentes com uma de minhas mãos. Suspirei frustrado com mais esse impasse. Mais pessoas significava mais força, ao mesmo tempo que significava mais problemas, mais desconfiança, mais responsabilidade. Não estava preparado para aquela decisão, mas precisava tomá-la, e era justamente por isso que todos o estavam esperando. Apressei o passo para entrar na prisão, e Carl — que estava de olho nos sobreviventes — levantou para abrir as grades, cedendo passagem para Heshel e eu. Preferi não encará-los e nem mesmo trocar alguma palavra com eles antes de ter um minuto ao menos para refletir.

Ao chegar ao corredor das nossas celas, avistei uma Beth sorridente descer as escadas de forma apressada enquanto trazia Judith nos braços. Ela parecia alheia a toda confusão e maldade que havia fora dos portões. Na verdade, mesmo que consciente, era como se nada afetasse a aura de inocência e pureza que ela emanava. Questionei-me quando foi que passei a enxergar todas aquelas qualidades na Greene, e não consegui definir desde quando seu sorriso havia se tornado um bálsamo para minha insanidade. Ela sorriu — aquele sorriso tão doce e meigo — e aproximou-se de mim, estendendo Judith em minha direção.

— Ela meio que tem os olhos da Lori — sussurrou ao passar a pequena para meus braços. — Não acha?

Lori. Lori. Lori. Aquele nome trazia à tona toda a dor e sofrimento que tentei trancafiar no fundo do meu ser. Toda a dor que tentei curar com o sorriso da menina a minha frente. Era como se a simples menção dele deixasse a ferida aberta ainda mais exposta e infeccionada. Como fui tolo ao me enganar. Ninguém seria capaz de arrancar a minha dor quando nem mesmo eu era capaz de fazê-lo.

— Rick? Você está bem? — aquela voz de sinos e o toque delicado em meu braço me fizeram voltar à realidade.

Acenei uma única vez antes de devolver Judith aos seus braços magrelos e depositar-lhe um beijo sobre a cabeça. Beth suspirou como se algo a incomodasse, e logo se sentou sobre os degraus, ninando o bebê que aparentava estar sonolento. Aproveitei o momento para ir até a cela onde Hershel cuidava dos ferimentos de Michonne, observando-o enquanto limpava seus cortes. Ela parecia muito machucada, mas eu pouco me importava. Quando precisávamos dela para lutar contra o Governador, ela havia simplesmente sumido. Era minha vez de retribuir o "favor".

— Quando ela vai poder cair fora? — questionei a Hershel.

— Talvez demore um pouco. Acho que teve uma concussão — respondeu já se levantando para sair da cela.

O acompanhei, encontrando Carol e Axel conversando sobre a morte de Oscar, e os outros membros do grupo pareciam reunir-se ao meu redor, como se esperassem instruções ou qualquer coisa do tipo. Aquilo tudo era frustrante e cansativo. As minhas decisões não afetavam apenas a mim ou a minha pequena família, elas afetavam a um grupo inteiro de pessoas que arriscariam sua vida lá fora se eu dissesse que era o mais seguro a se fazer. O peso da responsabilidade estava acabando comigo.

— E agora? Acha que o Governador vai retaliar? — a voz de Beth chegou aos meus ouvidos, fazendo com que eu me virasse para encará-la. Provavelmente Maggie havia lhe contado brevemente os acontecimentos logo que chegamos.

— Acho — Maggie confirmou mais ao fundo.

— Deixe que tente — respondi tentando acalmar o desespero que ameaçava se instalar ali. A única certeza que eu tinha era que faria o possível e o impossível para mantê-los seguros.

— Ele parece ter uma cidade toda. Estamos sem pessoas e sem armas — Carol tomou a palavra. A realidade me acertou como um soco no estômago, mas eu jamais mostraria fraqueza, não quando todos contavam comigo.

— Poderíamos usar alguns reforços — Hershel interveio lembrando-me dos sobreviventes.

Não havia mais como adiar, era hora de tomar a decisão. Com um aceno positivo segui para onde eles estavam, trazendo os outros em meu encalço. Uma mulher, dois homens e um garoto nos aguardavam ali, e em seus olhos havia um misto de medo e esperança, como se sua vida dependesse do meu sim. Não gostava nada daquilo, mas era hora de por os prós e os contras na balança, e se ter estranhos naquele ambiente significasse ter que dormir com um olho aberto, atento a cada movimento deles, eu já tinha minha resposta.

— Sou Tyreese — o mais alto e forte deles levantou-se e caminhou em minha direção, estendendo sua mão para um cumprimento que apenas recusei. — Sasha, Allen, Ben — ele indicou os outros após longos segundos de silêncio.

— Como chegaram aqui? — perguntei mesmo sabendo de antemão que entraram pelos fundos da prisão. Queria pô-los a prova.

— Pelos fundos. Falha de incêndio na parte administrativa — respondeu prontamente.

— Aquela parte está tomada de errantes. Como chegaram tão longe?

— Não chegamos. Perdemos nossa amiga Donna no processo.

— Eles estavam na sala de ginástica — Carl disse alto às minhas costas.

— Você os trouxe aqui?! — rebati severo. Carl sabia que não deveria confiar em qualquer um. Por que justo ele havia feito aquilo?

— Ele não teve escolha — Hershel intercedeu por ele ao meu lado.

— Sinto muito por sua amiga. Sabemos como é — murmurei ao acaso, dando uma brecha para que eu pudesse considerar a decisão por mais um momento.

— Hershel disse que podemos ser úteis. Somos acostumados a trabalhar duro. Buscaremos nossa própria comida, ficaremos longe. Podemos ajudar com o problema envolvendo o outro grupo — Tyreese continuou.

— Não — respondi uma única vez. Por mais tentadora que a proposta parecesse, não valia a pena ter que abrigar estranhos na prisão. Como Hershel havia dito, o mundo havia corrompido muitas pessoas, e as aparências enganavam.

— Por favor. Está como os "dez indiozinhos" lá fora. Estamos sozinhos — a mulher suplicou às costas dele.

— Não — repeti cruzando meus braços de forma firme.

— Nós podemos conversar sobre isso. Não podemos apenas... — Hershel tentou argumentar, mas não deixei que continuasse.

— Já passamos por isso antes. Com Thomas, Andrew, e veja o que aconteceu — os prisioneiros eram o melhor exemplo de que confiar nas pessoas erradas poderia ser fatal.

— Mas Axel e Oscar não eram como eles — Carol comentou.

— E onde Oscar está agora? — bradei impaciente. Nada mudaria minha decisão. Era por ela que eles esperavam, não? Por que estavam tão infelizes com ela agora? — Não posso me responsabilizar.

— Mas já é o responsável — Tyreese respondeu, trazendo minha atenção de volta para ele.

— Rick — Hershel chamou-me para um canto afastado. — Você tem feito muito por nós. Agradeço muito por isso, todos nós. Devemos nossas vidas a você. Temos feito tudo o que você pede, sem questionar, mas preciso dizer que você está errado nessa decisão. Precisa começar a dar chances para as pessoas.

Encarei a cada rosto naquele grupo, parando em Carl, em Judith, e então em Beth. Seria injusto colocar a vida deles em risco apenas por medo daquelas pessoas não corresponderem às minhas expectativas? Hershel estava certo. Suspirei por um momento e esfreguei meus olhos, encarando o teto, perdendo o fôlego com a majestosa figura em branco que me encarava escorada ao parapeito da passarela. Não... Ela estava morta! Por que estava voltando? Por que havia decidido me assombrar?!

­ — Não, não, não! — me vi negando diversas vezes enquanto fechava os olhos e tornava a abri-los. Ela continuava lá, com a mesma expressão impassível, encarando-me com aqueles olhos acusadores. — Por que você está aqui? O que quer de mim?! — questionei a ela, mas tudo o que ela fazia era me encarar como se eu não fosse digno de uma resposta. — Vá embora! Eu não posso te ajudar! — gritei mais alto, e aquilo pareceu diverti-la. Ela parecia deliciar-se em me torturar daquela forma. — Você está morta! O que ainda está fazendo aqui?

Tudo ao meu redor parecia girar e as pessoas corriam apavoradas, fugindo de mim. Por que ela estava fazendo aquilo? Eu já estava louco, insano, fora de mim! Por que ela precisava me fazer descer ainda mais baixo? Por que ela voltou justo agora que eu havia conseguido um pouco de paz?

Todos haviam saído dali, deixando-me sozinho com aquele fantasma maldito. Permiti-me cair de joelhos enquanto chorava inconsolavelmente. Era tudo culpa dela, sempre fora. Eu sempre dei o máximo de mim para protegê-la, sempre fui um bom marido, sei que fui. Nunca levantei a voz, nunca a ofendi, e nunca a deixei sozinha em casa, e tudo o que ela fez foi arrumar discussões e mais discussões, uma atrás da outra. Antes mesmo de o mundo ir para o buraco ela já havia feito isso conosco, mas eu sempre pensei que poderia consertar as coisas, e então ela me traiu. E mais uma vez eu tentei ser o marido perfeito. E de que tudo isso adiantou quando eu fui julgado por matar seu amante e meu melhor amigo por causa dela?! Tudo por causa dela. Por causa dela eu estava chegando ao fundo do poço. Tudo por causa dela. Pela morte dela, e pela culpa que ela deixou em mim. Tudo por culpa dela.

Notas finais
E então? Se ainda existir alguma alma viva e bondosa que leia isso, espero os comentários de vocês.