Notas iniciais
Bem, eu sou um pouco ansiosa para a escrever, mas, de qualquer forma, deixaria para postar o capítulo apenas na segunda-feira. A minha queridíssima professora de Introdução ao Jornalismo me deu uma pilha de textos e uma síntese para fazer até terça. Então, agora é o momento em que vocês me perguntam o porque de ter decidido postar mais cedo. A minha leitora maravilhosa (e acho que todas as pessoas que escrevem gostariam de ter alguém como ela acompanhando suas histórias), se fez ainda mais fantástica deixando uma recomendação para mim! Jibrille, obrigada por me confiar sua primeira recomendação, logo no meu segundo capítulo! Obrigada por acreditar na história e me fazer continuar! Obrigada de coração! Esse capítulo é para você!

Beth Greene

Deixei meus ombros caírem enquanto observava o carro sumindo no horizonte. Eu não saberia dizer qual sentimento era mais intenso em mim: o medo ou a insegurança. Só desejava com todas as minhas forças que eles voltassem logo e trouxessem Maggie com eles. Minha irmã e meu pai eram a única família que ainda me restava e eu não suportaria perdê-los, não agora, depois de todas as perdas que já tivemos.

Era estranho ter Rick longe da prisão, eu tinha a sensação de estar desprotegida e vulnerável, e isso era incômodo. Eu queria ajudar de alguma forma, mas tudo o que eu podia fazer era sentar e esperar. Com esse pensamento em mente, subi alguns degraus até a passarela onde Rick geralmente fazia a ronda da noite e sentei-me ali, abraçando meus joelhos. Em uma oração silenciosa pedi a Deus que tudo desse certo e que ninguém se ferisse.

Olhei para o pátio exterior e encarei as dezenas de walkers que vagavam sem rumo nas proximidades da cerca, e não pude deixar de me perguntar quando foi que deixamos de ter tanto medo da ameaça que nos cercava. Tentávamos ter uma vida normal, construir uma moradia segura, o mais semelhante do que tínhamos antes dessa doença se espalhar, mas a verdade é que o perigo estava apenas a alguns metros de distância. Eles nunca descansavam, estavam sempre lá, esperando uma oportunidade para levar alguma pessoa que amamos, e até nós mesmos. Seria prepotência demais pensar que eles nunca me atingiriam. Logo eu, logo a garota que mal pode segurar uma arma sem tremer. Eu gostaria de fazer muito mais pelo grupo, mas tudo o que eu podia fazer agora era cuidar do bebê. Ninguém me confia às tarefas mais arriscadas, e eu continuava ali, tentando fingir que haveria sempre alguém para me proteger ou me salvar.

O céu estava começando a escurecer e uma brisa gelada soprava em minha direção. Decidi voltar para os blocos da prisão. Era hora da mamadeira do bebê, e talvez meu pai quisesse fazer alguma oração para que todos chegassem bem. Encontrei Carl no caminho, e como sempre ele estava cabisbaixo.

— Ei, Beth. Estava mesmo indo chamar você. Não é seguro ficar lá fora quando anoitece — disse ele olhando para cima, a fim de me encarar.

— Tudo bem, eu preciso preparar a mamadeira do bebê, e Carol deve estar cansada de segurá-la — sorri ao acompanhá-lo pelos corredores, encontrando Carol em uma cela com a criança nos braços.

— Judith — comentou Carl, adentrando na cela. — O nome dela é Judith.

Apenas acenei em concordância. Estava feliz em saber que agora teríamos um nome além de Bravinha para nos referirmos à criança. Um dos prisioneiros — Axel, se não me falha a memória — estava ao lado dela, e Carol não parecia muito à vontade com a situação. Sentei-me ao seu lado e ela sorriu levemente. Carol ainda parecia muito fraca, e não devia se esforçar passando tanto tempo carregando Judith para todos os lados.

— Pode deixar que eu cuido dela, está bem? — estendi meus braços para a pequena e Carol entregou-a, massageando os braços em seguida.

­— Acho que passei tempo demais com ela no colo — murmurou levantando-se e caminhando um pouco, como se estivesse com o corpo dormente.

— Ei, Judy, você se comportou com a tia Carol? — brinquei com o bebê, alisando seu rostinho de porcelana.

— Você cuida bem dela — o prisioneiro comentou. — Tem irmã mais nova?

— Não — dei de ombros sem lhe dar muita atenção.

— Quantos anos você tem? — ele continuou.

— Dezessete — respondi embalando o bebê que começava a resmungar. Provavelmente tinha fome.

­ — Dezessete? Interessante... — encarei-o por um momento, sem entender onde ele estava querendo chegar.

— Posso falar com você? — Carol chamou-o em um tom rígido, e ele simplesmente levantou-se a seguiu.

Carl saiu da cela deixando-me sozinha com Judy, então resolvi me levantar e preparar sua mamadeira. Talvez ela se sentisse melhor se eu trocasse sua fralda e lhe limpasse com os lencinhos umedecidos que Daryl havia encontrado em sua última busca. Sentia-me bem tendo o bebê tão perto de mim; ela era como um calmante para minha angústia, e sentir o cheirinho que provinha dela fazia com que minha esperança na vida se fortalecesse um pouco mais.

O lampião da cozinha já estava aceso, mas um pouquinho de luminosidade ainda adentrava na prisão, tornando meu trabalho um pouco mais fácil do que na última noite. Acendi o fogareiro e coloquei a chaleira d'água para aquecer. Por mais que eu tentasse me distrair, não conseguia para de pensar em como Rick e os outros estavam se saindo naquela cidade. Há algum tempo eu havia deixado de me preocupar tanto com os walkers, e com o passar dos meses, eu tinha muito mais medo dos vivos do que daqueles que vagavam sem rumo. Eu nunca sabia o que esperar dos outros sobreviventes; a maioria havia se tornado agressiva e hostil, e eu realmente não conseguia confiar nas pessoas como fazia antigamente.

— Você se importa se eu cantar uma canção? — sussurrei para a menina em meus braços. Seus olhinhos estavam entreabertos, e eu sabia que se a ninasse mais um pouco, ela logo ressonaria tranquila.

Não era apenas por ela que eu sentia a necessidade de cantar. Talvez trouxesse um pouco de calma para mim, como nos velhos tempos, quando minha mãe colocava um vinil qualquer para tocar, rodopiando comigo nos braços pelo quarto.

The moon was bright, the night was clear. No breeze came over the sea when Mary left her highland home and wandered forth with me.

"The flowers be-decked the mountainside, and fragrance filled the vale, but by far the sweetest flower there was the Rose of Allendale".

Cantarolei baixinho, caminhando lentamente como se me deixasse levar pelo ritmo da canção, e como de costume, Judy já dormia antes mesmo de chegar ao refrão.

— É uma bela música — papai sussurrou às minhas costas. Eu não sabia há quanto tempo ele estava parado ali, mas não era como se ele nunca tivesse me visto cantar.

— Essa música me lembra a mamãe... — comentei desligando o fogareiro e colocando uma colher de fórmula da mamadeira do bebê.

— Eram tantas músicas que seria impossível lembrar cada uma delas — ele sorriu um pouco, mas sabia que no fundo ele sentia tanta falta dela quanto eu.

Eu nunca conseguiria lembrar-me de todas, mas a grande maioria estava viva em minha memória. A voz de minha mãe era doce e delicada, e tenho certeza que apenas uma canção interpretada em sua voz seria capaz de curar o mais ferido dos corações. Ela era assim, simplesmente a melhor pessoa do mundo, e seria impossível esquecer-me dela, por mais cruel que o mundo tivesse sido, e por mais pessoas que já tivesse me tomado. Mamãe continuaria sendo aquela que faria mais falta.

Agitei a mamadeira após despejar a água quente, então a depositei sobre a bancada, cobrindo com um guardanapo. Agora que Judy estava dormindo, não havia razões para alimentá-la. Quando ela realmente sentisse fome, a pequena acordaria chorando, como fazia de costume. Acompanhei meu pai até a escadaria principal do bloco, sentando-me ao seu lado e ajeitando a menina em meus braços para que seu corpinho não ficasse dolorido. Eu estava profundamente orgulhosa dele; mesmo tendo a perna amputada brutalmente, agora ele já estava totalmente habituado com as muletas, e eu nenhum momento reclamava sobre o que tinha acontecido. Ele sabia que Deus tinha planos, e talvez fosse por isso que Rick tinha agido tão rápido, evitando que a infecção se espalhasse. A verdade é que era isso que Rick fazia: ele salvava pessoas.

Recostei minha cabeça no ombro de meu pai e deixei que ele acariciasse meus cabelos. Não importava quantos anos eu tinha, ou o quanto eu havia amadurecido durante esses meses, quando estava ao seu lado eu sempre me sentiria uma garotinha frágil que precisava de aprovação para todas as decisões que fosse tomar. Eu não me importava de me sentir assim ao lado dele, desde que eu tivesse dimensão da realidade quando do lado de fora da prisão.

Quando meu corpo começou a ficar dolorido e o metal da escada pareceu ficar gelado demais, levantei-me e depositei uma Judy totalmente apagada sobre a cama da cela mais próxima, voltando para ajudar meu pai a se levantar. Carl se juntou a nós logo depois, trazendo consigo uma caixa com munição e alguns pentes para serem recarregados.

— Finalmente Judith parece estar dormindo bem — papai comentou, observando o corpinho esticado na cama.

— Como estamos de fórmula? — Carl perguntou, largando mais um pente recarregado de volta na caixa.

— Acho que o suficiente para mais um mês — comentei rapidamente.

— Vou buscar mais com a Carol no final da semana — Carl apontou após um longo suspiro.

— Até lá seu pai e os outros já terão voltado — encarei-o enquanto sorria, tentando ser um pouco otimista, por mais que minhas entranhas quisessem pensar o contrário.

— Não sabemos disso — ele deu de ombros seriamente. — Nesse momento, Judith é a única família que tenho — completou pensativo.

Minha garganta apertou-se por ouvir Carl dizendo aquelas coisas. Eu queria pensar que tudo daria certo e que todos ficariam bem, mas por que ele não podia me ajudar um pouco com aquilo? Meu pensamento foi interrompido pelo alto estrondo vindo do fundo do bloco.

— O que foi isso? — questionei alarmada.

—Veio daqui de dentro — papai respondeu.

— Foi a Carol? — Carl indagou também.

— Ela está na torre de vigia com Axel — meu pai disse após um momento.

— E se eles voltaram e tiveram algum problema? — suspirei nervosa, colocando-me de pé em um átimo.

— Vou ver se eles estão na torre — papai completou virando-se para porta.

— Como mais alguém chegaria aqui dentro? — perguntei diretamente para Carl.

— O interior da prisão está cheio de errantes que vieram do lado de fora. Alguém poderia ter tido a mesma ideia — ele respondeu apressadamente, armando-se. — Estou indo.

— Não, Carl, você não pode — tentei impedi-lo, colocando-me a sua frente. Ele era apenas uma criança, e eu não podia ficar sozinha com Judy. E se alguma coisa acontecesse?

— Meu pai iria até lá — ele confrontou-me de forma firme demais para um simples garoto. De qualquer forma, eu sabia que ele tinha razão, então acabei deixando que ele fosse.

Entrei na cela com Judith e tomei-a em meus braços, aprontando-me para o caso de ter que me apressar para deixar a prisão. Ela sequer fez menção de acordar quando a apertei com um pouco mais de força contra meu peito. Tudo o que pude fazer foi sentar-me naquela cela e esperar que Carl ou papai voltassem com notícias. E mais uma vez eu era apenas a garotinha cuidando do bebê, sem poder ajudar aqueles que amo, colocando-os em perigo em troca da minha segurança. Isso não era certo, eu precisava inverter aquela situação, mas tudo o que eu conseguia sentir era medo e mais medo.

Ouvi tiros vindo do interior da prisão e isso serviu apenas para deixar-me ainda mais preocupada. Se Rick estivesse aqui ele saberia o que fazer, saberia nos guiar. Glenn, Daryl e ele resolveriam o problema, assim como fizeram quando os prisioneiros se rebelaram. O problema é que agora eu estava sozinha. Carl estava lá dentro, lidando com alguma coisa perigosa e armada; papai havia saído atrás de Carol e Axel, e alguma coisa ruim podia ter acontecido com eles. Meu corpo tremia e algumas gotas de suor se formavam em minha testa, por mais que não estivesse fazendo esforço algum.

Passos se aproximavam cada vez mais, e percebi que Carl falava com algumas pessoas. Ele não parecia com raiva ou assustado, estavam apenas discutindo alguma coisa, então resolvi me aproximar lentamente. Havia um grupo ali dentro, e algum deles não havia resistido, provavelmente uma mulher, pelas roupas que usava. O mais forte do grupo estava preparando o martelo para acertar-lhe o cérebro fazendo com que ela não retornasse, mas, por mais que ela não sentisse dor aquilo me parecia muito cruel. Carl saiu do bloco onde eles estavam e uma mulher — muito parecida com o homem do martelo — pareceu assustar-se quando ele trancou-os lá dentro.

— Ei! O que você está fazendo? — ela questionou alterada.

— Você nos trancou aqui? — o homem que possuía o martelo juntou-se a ela.

— Abra essa porta! — a moça insistiu um pouco mais agressiva.

— Essa sala é segura, vocês ficarão a salvo aí dentro — Carl deu de ombros, recuando alguns passos e sendo acompanhado por mim. — Terão água e comida.

— Abra essa porta — ela pediu mais uma vez, caminhando até a grade e ficando a poucos metros de nós.

— Eu não posso — Carl respondeu mantendo a calma.

— Qual é, não somos animais. Não faça isso... — a mulher parecia assustada com tudo o que estava acontecendo, e eu não podia julgá-la.

Nós apenas continuamos parados a sua frente. Eu não podia tomar decisões que envolviam o grupo inteiro, não podia tirá-los dali.

— Ei! Abra isso agora! Vamos! — ela passou então a gritar de forma raivosa, socando a grade com força, o que me fez recuar com Judy em meus braços.

— Sasha! — o maior chamou sua atenção, tentando acalmá-la. — Afaste-se da porta e deixe as crianças irem — eles afastaram-se alguns passos e ela já parecia estar um pouco mais calma. — Apenas olhe em volta. É o melhor que tivemos em semanas. A casa é deles — ele suspirou pesadamente olhando para o corpo estirado no chão. — Temos outras coisas a fazer — concluiu pesaroso.

Judith começava a resmungar, e aquela era a hora de alimentá-la. Sua mamadeira já devia ter esfriado, e seria bom ocupar minha cabeça cuidando dela até que as coisas se acalmassem.

— Não devíamos ajudá-los? — perguntei a Carl enquanto ele me acompanhava pelo caminho de volta.

— Já ajudei — ele deu de ombros seguindo em outra direção.

Suspirei sem muitas opções. Era difícil lidar com Carl nos últimos dias, mas eu precisava ter um pouco de paciência. Eu não era o exemplo de superação após perder minha mãe; pelo contrário, apenas me deixei abater, querendo seguir o mesmo destino que ela, até mesmo tentando suicídio. Carl não, ele estava sendo forte, mantendo a cabeça fria e tomando conta de nós, mesmo sendo muito novo para aquilo. Ele precisava de ajuda e conforto, contudo, ninguém havia conseguido se aproximar o suficiente, nem mesmo seu próprio pai.

— Seu pai vai voltar logo, Judy — sussurrei para o bebê que me olhava com seus olhinhos claros e questionadores.

Usei aquela frase como um mantra. Tudo o que eu precisava era estar segura novamente, e sabia que aquilo só aconteceria quando Rick retornasse com os outros. Eu já sentia falta de Maggie, por mais que a tivesse visto ainda naquela manhã. Eu queria que todos estivessem bem, queria fazer com que nossa vida parecesse o mais normal possível, apesar de saber que nada poderia ser de fato normal desde que a doença começou a espalhar-se.

Deixei que a menina faminta sugasse com voracidade o líquido da mamadeira, aproveitando para embalá-la enquanto ela o fazia. Eu sabia que ela logo dormiria novamente. Estava escuro lá fora, e já era tarde. Estava na hora de nos recolhermos a nossas celas, rezando para que o dia seguinte trouxesse boas notícias, e foi exatamente o que tentei por na cabeça quando deitei-me na cama ao lado de uma Judy desacordada e tranquila.

Notas finais
A música que a Beth canta é Rose of Allendale - Black Mary. Quem estiver interessada na tradução, segue o link: http://sadnessaddicted.blogspot.com.br/2010/09/rosa-de-allendale.html Obrigada a todas que me acompanham e tem favoritado a fic. Espero que vocês também deixem sua opinião nesse capítulo! Obrigada por lerem e até a próxima!