Notas iniciais
Uma observação pra todos: O Ben tem dupla personalidade e a outra metade dele é a Meg, ou seja, quando o capítulo fala sobre Ben e Meg está se falando do mesmo corpo, mas não exatamente da mesma pessoa. Ben/Meg são o(s) personagem(ns) da Syrena e a Ayra é da Sweet Death

Quatorze anos antes — 12 de Maio de 2019 ás 22h14min

Ben Finn suspirou enquanto encarava a criança sentada a sua frente, já faziam meses que Meg a havia resgatado da morte que teria ao lado da mãe, mas a menina havia se fechado para o mundo e não importava o que fizessem, ela ainda estaria em silêncio.

Tessa era seu nome e isso era tudo que Ben sabia sobre ela. Meg havia deixado um bilhete algumas semanas atrás com essa informação enquanto o psicólogo de ambos explicava melhor a história. Mãe morimbunda pedindo para que salvasse sua filha, a garotinha em desespero e uma decisão que Ben nunca conseguiria fazer.

Ele supunha que era por isso que Meg era necessária em sua vida — e, no fim, ele gostava dela.

— Tessa, nós temo que ir para o refeitório, já passou da hora do jantar há muito tempo e eles provavelmente vão acabar dando nossa porção para outras pessoas se não nos apressarmos. — Ele tentou, sem nenhum sucesso.

A garotinha que não aparentava ter mais de oito anos nem parecia se importar com o que o homem falava e Ben, por mais que amasse crianças, não sabia como lidar com uma menina traumatizada que não se comunicava e só sabia brincar com uma boneca de pano velha e olhar para o nada. Ele decidiu então que faria a única coisa que podia para tentar entrete-la: tagarelar.

— Sabe, quando eu era criança gostava de construir coisas. Quer dizer, ainda gosto. Eu pegava qualquer coisas que achasse que podia se transformar em uma máquina e passava dias construindo alguma coisa... que nem sempre funcionava. Mas, enfim, hoje em dia consigo fazer com que quase todas funcionem. Melhor que o Barry, sabe? Barry era um cara com quem comecei a trabalhar na NASA e ele estava sempre tentando ser melhor que eu, ele...

— Você não respira?

Ben congelou, seus olhos presos na garotinha a sua frente que não aparentava ter mexido um músculo desde a última tentativa de contactá-la. O homem ponderou a chance de estar ficando louco por alguns segundos até que ela pareceu suspirar e virou sua cabecinha em sua direção, encarando-o e destruindo qualquer possibilidade de não ter sido ela a falar.

— Você está falando?

Tessa revirou os olhos, soltou a boneca sobre a mesa e desceu da cadeira em um pulo. Os olhos negros com uma inteligencia impressionante o olharam de cima á baixo.

— Sabe, as vezes eu prefiro quando a Meg está aqui. Ela não fala tanto. — Tessa reclamou, mas algo em sua expressão parecia apontar para outras emoções.

O homem sabia que não havia nenhum sinal de um sorriso na menina, mas seu olhar parecia menos nublado e continha certo tom de divertimento. Seu coração se aqueceu ao perceber que a estava entretendo de verdade e que ela não falava sério sobre sua falação.

— As vezes? — Perguntou.

A garotinha revirou os olhos novamente e então deu de ombros.

— Você está cuidando de mim e, mesmo que sinta falta da minha mãe, não posso negar que vocês dois provavelmente vão ser minha familia daqui pra frente. — Confessou — Eu só tenho dez anos. Posso ser inteligente, mas preciso de você, com falação ou sem. Além do mais, você não é tão chato quando não está tagarelando sobre alguma coisa aleatória... e a Meg não sabe arrumar meu cabelo direito, as tranças sempre ficam tortas.

Ben riu e Tessa aproveitou a oportunidade para segurar sua mão e o arrastar em direção a porta. O homem se deixou levar pela menina enquanto se sentia realmente feliz pela primeira vez desde a perda da irmã nas imediações dos muros e a perda de consciência para que Meg trouxesse uma criança para suas vidas; Ben sentia que aquele era um ótimo começo.

Atualmente — 5 de Outubro de 2033 ás 15h05min

Tessa apertou os botões da senha que abriam a porta do armamento, houve um som de pressão sendo liberada e a passagem se abriu para revelar a movimentação dentro da área.

A área de Armamento é um lugar grande em tons metalicos onde as armas estão acumuladas nas paredes por todos os lados. Não existem muitas pessoas nessa área de trabalha, então as mesas são bem separadas para que exista privacidade e, ao mesmo tempo, certa fiscalização feita pelos colegas.

A morena não dá nenhum sinal como a maioria faria, essa é uma das vantages de seu posto e de ter sido criada por Ben e Meg, ambos extremamente competentes em sua área. Tess olhou em volta a procura de sua família, acenando para Ayra — e talvez corando um pouco — quando avistou a loira em sua mesa. Ayra acena de volta um pouco distraída e Tess se encolhe em si mesma.

— Você fica tão bobinha quando vê garotas bonitas.

Pratt se sobressalteia pelo susto, olhando por cima do ombro para encontrar Meg a olhando com um semblante entediado. A mais nova rosna, preferia sinceramente que fosse Ben a encontrá-la em uma situação assim.

— Você tem o melhor timing do mundo, mãe. — Ironiza.

Meg sorri, um sorriso menos afiado do que o normal pelo uso de seu titulo. A mais nova sempre tivera mais facilidade de chamar Ben de pai já que nunca havia conhecido o pai biológico, mas Meg nunca poderia ser melhor que a mãe biológica de Tessa. A garota passara muito tempo se recusando a chamar-la pelo titulo, mas elas haviam resolvido isso algum tempo atrás. Irene era sua mãe, Meg também era. Nenhuma das duas era melhor que a outra, ambas a amavam com todo o coração. Ambas mereciam o titulo.

— Você sabe, eu adoro te deixar envergonhada e o único jeito de fazer isso hoje em dia é quando você vê alguém que te chama atenção. Aliás, não tenho ideia do motivo poque você nunca tenta nada com nenhuma dessas pessoas.

Tess cora. O olhar fixo nos próprios pés e um suspiro pronto para escapar por seus lábios. Nunca tivera uma auto-estima baixa, sabia que era bonita e podia arranjar alguém se procurasse... e esse era o problema, ela não queria procurar. Ambas as mães sempre lhe passaram segurança e as ideias de que não precisava de ninguém para se sentir o suficiente, ela cresceu protegida de qualquer preconceito social que pudesse intervir em suas opiniões sobre gênero, amor e família. Mas, no fim, Tess queria um grande amor. Ela queria fugir da história de seus pais biológicos, sua mãe havia achado o pai bonito e o procurado. Eles namoraram e Chris parecia maravilhoso, até Irene engravidar e o mesmo sumir da face da Terra. Não antes de deixar sua mãe com um olho roxo e um braço quebrado no ínicio de uma gravidez, claro.

Ela desejava sinceramente que seu pai já tivesse levado um tiro no crânio a essa altura. Mas desejava ainda mais conhecer as pessoas de uma forma diferente e, talvez, fugir de ter uma história parecida.

Era insano? Tess sentia que sim, mas toda a vez que tentava falar com alguém que achava atraente com intenções que não fossem só uma bela noite e nada mais, ela travava. Um medo irracional se apossava de seu corpo e ela acabava recuando. Meg não sabia disso e Tessa não sabia como explicar, então simplesmente deu de ombros e soltou o ar preso em seus pulmões por tempo demais.

Meg suspirou e sinalizou a sua mesa de trabalho, esgueirando-se para sentar-se na única cadeira dali. Tess revirou os olhos para a tentativa de ser discreta da mãe, isso nunca funcionava.

— Sem querer ofender, querida, mas porque diabos você está aqui?

"Delicada como sempre." Tess pensou, sorrindo. Os olhos caindo sobre o corpo da mãe. Sempre foi estranho ter Ben e Meg dividindo o mesmo corpo, mas era fácil diferenciar um do outro. A jaqueta de couro da mãe era uma boa pista — e uma peça de roupa que havia passado para o guarda-roupa da mais nova, também —, mas suas personalidades eram a grande diferença. Meg era durona, impulsiva demais e o tipo de mãe que ensinou Tess os melhores lugares para chutar um cara se ele a fizesse sentir ameaçada, já Ben é mais calmo porém fala demais e tem uma energia sem fim. Ben é o cérebro e Meg, os músculos.

Era até divertido ter essa dinâmica. Poder olhar nos mesmos olhos azuis enquanto aprendia a atirar ou a usar elementos quimicos para fazer uma bomba caseira. Pena que ela nunca conseguiu aprender a concertar armas, o que a traz de voltar ao motivo de estar ali.

— Minha arma quebrou, preciso que alguém concerte. — Finalmente respondeu, pegando a arma do bolso e a soltando sobre a mesa.

— Você podia pedir para a Ayra...

Mãe!

— Okay, já entendi. Não vou falar mais de nada disso.

— Você me faz parecer ter treze anos de novo.

— E você não tem?

— Eu tenho vinte e quatro, mãe.

— E qual a diferença?

— MÃE!

Meg sorria e Tessa corava como se ainda fosse uma adolescente. A mãe de criação tinha esse poder de deixa-la assim não importando como. Quando era uma adolescente acabavam sempre em cenas como essa, mas hoje era bem mais fácil lidar com o temperamento da mãe, uma vez que Tessa dividia muito dele. Mas, as vezes, os velhos hábitos permanesciam.

— Pode deixar a arma aqui. — Meg disse, um grande sorriso tomando seus lábios. — Você tem a outra pistola, amanhã você vai ir nos visitar e eu te entrego.

— Papai não tem como saber o que você planeja. — Tess lembrou.

— Bobagem! Nós desenvolvemos um sistema de post-its há muito tempo.

Tessa revirou os olhos pelo pouco caso da mãe, enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta e se enclinou por cima da mesa para depositar um beijo na bochecha a mais velha. Meg lhe lançou um sorriso e acenou com a cabeça. Seus olhos seguindo a filha enquanto se afastava e, ao passar pela mesa de Ayra, se encolhia um pouco.

Meg riu sozinha, pegando seu bloquinho de post-its para deixar uma das muitas mensagens do dia para Ben. Foi uma surpresa ao notar que as folhas não estavam em branco e sim com uma frase escrita com caneta vermelha. Encarou a pequena folha por algum tempo, esperando que algo acontecesse, mas não houve nada além da dúvida.

"Não confie nem em ti, as vezes os monstros estão dentro de nós mesmos"

Notas finais
EU JURO QUE ESSA HISTÓRIA TÁ SUPER SE ESCREVENDO SOZINHA, JURO! Gente, acho que esses primeiros capítulos vão ser mais curtinhos pra apresentar a vida dos personagens normalmente até a reviravolta inicial da história. Well, espero que gostem