Deathbed — Interativa
4 Mundo
Notas iniciais
Cinco anos atrás — 23 de Maio de 2028 ás 06h24min
Ayra Garvey sentiu certa nostalgia por um momento ao olhar no espelho da própria casa após acabar de acordar. O reflexo de seus olhos castanhos melados, a pele clara e os cabelos loiros a lembravam do irmão gêmea á muito perdido e de sua mãe que talvez estivesse vagando em algum lugar como um zumbi.
Tinha apenas dezesseis anos, mas a NOVA BASE não se importava com isso.
Ela ganhou o direito de entrar para a área do Armamento e uma casa veio com isso, obrigando-a a se mudar da casa do pai. Eles, de certa forma, viam os jovens como novas emcubadoras e seria mais rápido transforma-los nisso se acabassem se tornando independentes mais rápido. Ayra não reclamaria, era bom ter sua casa e ela não pretendia se tornar o que eles queriam de qualquer maneira.
Mas ela tinha receio, o mundo havia se tornado apenas os muros e, as vezes, olhava para os lados e a única coisa que podia ver eram paredes fechadas. Aves dificilmente apareciam nos céus e nenhuma das crianças nascidas durante ou depois do vírus — assim como ela — havia visto o mar com seus próprios olhos. Eles estudavam e se aperfeiçoavam, Ayra sentia esse desejo em seus ossos, mas se perguntava o motivo.
O mundo não era mais mundo, o mundo era o muro.
Esses sentimentos pareciam nunca sumir, por mais que parecessem loucos ou sem sentido. Ayra sabia que alguma coisa iria sair errado algum dia.
Decidiu, finalmente, que teria de se mover para chegar ao Armamento no horário certo. Desembaraçou os cabelos curtos com a ponta dos dedos, colocou uma calça e moletom mais quentes e prendeu sua franja com uma tiara. Calçou os sapatos o mais rápido que pode e pensou se teria tempo de ir ao refeitório, dando de ombros para si mesma ao perceber que não estava com fome.
Seu olhar vagou para a janela, os céus cinzas pareciam combinar com o próprio humor, apatico e pensativo. Ayra podia sentir o peso de algo que se aproximava devagar e sorrateiro, era um peso na ar que a lembrava morte e dor, era a forma como as pessoas haviam começado a se encolher mais em si mesmas, era como ver os Caçadores não saindo mais de dentro dos muros, era como solidão. Ela só esperava que aquilo não viesse tão cedo ou fosse alguma invenção de sua mente.
Mas Ayra sentia em sua alma que algo iria vir e só restaria rezar para que as vidas que ainda existiam não se tornassem cinzas.
Atualmente — 5 de Outubro de 2033 ás 15h05min
A loira resmundou um pouco ao perceber que não conseguia se concentrar depois que Tessa entrara para falar com Meg — ou ela imaginava que fosse Meg, ela tinha o corpo masculino de Ben com seus olhos azuis, cabelos não muito compridos e rosto gentil, embora fosse fácil de distingui-los pela forma de agir.
Pratt era uma mulher bonita e Ayra nunca conseguiu tirar a imagem que ficara presa em seu cérebro do verão antes de entrar para o Armamento em que ela havia tido aulas de tiro com Tessa, ainda que sentisse que não precisava. A mais velha usava as menores roupas que Ayra já tinha visto, a pele negra brilhava ao sol de verão e os olhos castanhos clareavam quando a luz os acertava da forma correta. Lembrava-se como Tess segurou suas mãos na posição certa, quase a abraçando, arrumando seu corpo na posição que Ayra já conhecia há muito tempo, mas não conseguia se concentrar o suficiente para fazer. Os cabelos negros compridos colocados para o lado para que não a irritassem e um lindo sorriso se formando em seus lábios.
Desde aquela época, Ayra não conseguia ficar na mesma sala que Tessa sem se distrair ainda mais do que seu normal e isso se tornava um pouco complicado quando tinham que trabalhar juntas.
Garvey soltou um grunhido, deixando seu rosto bater levemente contra a mesa de trabalho, ignorando os fios e peças de metal que a cercavam. Era extremamente irritante não conseguir fazer algo simples como o que fazia antes, montar um pequeno sistema eléletrico para um pedido era fácil, mas seu lapso de concentração e as situações que só poderiam acontecer em dias assim complicavam seu trabalho.
Levantou-se da mesa com um suspiro e se dirigiu a Meg.
— Vou dar uma volta. Qualquer coisa é só deixar na minha mesa que eu volto logo.
Meg lhe lançou um sorriso de quem sabe de algo e assentiu, voltando ao trabalho. Ayra resolveu que iria ignorar a situação e seguiu para fora da sala sem se importar com as outras pessoas da sala.
Tecnicamente, era proíbido fazer pausas assim, mas ninguém do Armamento seguia as regras por ser uma área complicada de se trabalhar. Quando se monta ou concerta algo é muito fácil acabar em um beco sem saída e precisar que uma pausa para revigorar seus pensamentos. A Alimentação normalmente fornece café nesses momentos, mas Ayra preferia se dirigir até a área de treino e sentir o barulho dos tiros e o caos calculado a acalmando e deixando suas ideias menos enevoadas.
A área de treinamento tem o tamanho da metade do Armamento, mas ainda é grande, tendo a parte ao ar livre para lançamento de facas e treinos com armas brancas e a parte fechada para treinamento com armas bélicas. Ayra se dirigia a parte fechada, mas parou ao notar quem treinava com facas entre os novatos na Guarda.
Woori parecia distraída e Ayra teve que juntar toda a sua força de vontade para não assusta-la enquanto estava com as facas e causar um acidente. A mais nova acertava um boneco repetidamente em seus pontos vitais, os que, ao menos, emcapacitariam um zumbi facilmente. Os cabelos castanhos avermelhados nos ombros balançavam acompanhando seus movimentos e sua franja se prendia na testa com o suor. A coreana parecia estar muito concentrada e, para a mais velha, parecia até um pouquinho engraçado ver Woori tão séria. Ela era uma bola de animação e movimento o tempo inteiro, mas tinha que deixar suas caracteristicas um pouco de lado para ser boa no que fazia.
Ayra se aproximou fazendo bastante barulho, mas Woori só lhe deu atenção quando o boneco estava em pedaços. Seu treino era importante e, mesmo que ela aquisesse muito simplesmente se virar e falar com a amiga, precisava acaba-lo antes. Ela suava, estava cansada e precisava dormir antes de sua proxima patrulha, mas sorriu brilhantemente para Ayra.
— Unnie*! — Exclamou alegremente.
— Oi, novata.
Woori revirou os olhos. Ayra começara a chama-la de novata quando ambas treinavam por ela estar um ano atrás da loira e nunca havia parado, mesmo que ambas já estivessem trabalhando, mesmo que em áreas diferentes.
A loira sentia falta de Wooria a maior parte do tempo, se tornaram muito próximas com o passar dos anos e eram o mais perto que se podia ter de uma melhor amiga que a outra tinha nos dias atuais, mesmo sendo opostos em muitos aspectos. As vezes, se odiavam um pouco pelas divergências que tinham, mas sempre acabavam voltando aos velhos hábitos de encontros com conversas não muito silênciosas e um bom nível de cumplicidade. Ela até mesmo sabia sobre seu irmão e sua mãe, além de ser a pessoa para quem Ayra havia reclamado sobre a situação que havia sido relembrada mais cedo com a intervenção de uma certa Tessa Pratt.
— Você está muito vermelha. — Woori murmurou, um sorriso provocante se espalhando por seus lábios. — Eu conheço muito bem os seus motivos para ficar vermelha, Unnie.
Ayra resmungou, Woori é um anjo de otimismo e até carinho, mas havia sempre aquela pontinha de rancor e provocação. Garvey culpava a pinta na bochecha esquerda da amiga, aquela deveria ser a prova fisica de qualquer coisa ruim que ocupava o coração da coreana.
E mesmo assim a deixava com um rosto mais fofo e bonito do que já era, embora a mesma odiasse coisas muito fofas.
— Não se atreva. — Respondeu.
— Ah, eu me atrevo sim. Seu probleminha começa com um T, né, Unnie?
— Eu totalmente te odeio.
— Não odeia não.
— Cala a boca, Woori!
Woori riu, ela era a única pessoa com quem Ayra se sentia confortável para agir sem uma seriedade total porque sabia que a mais nova nunca pensaria menos dela por isso. A coreana sabia muito bem sobre a inteligência da loira e de tudo que ela era capaz. Depois de muitos anos e muitos problemas... Ayra confiava nela.
— Preciso voltar para o armamento, novata. Tenho algumas coisas pra terminar e deixei Meg cuidando de qualquer coisa então não posso demorar. — Suspirou a loira.
A castanha enclinou a cabeça levemente, o olhar estreitando-se sobre sua amiga e então suspirando. Havia alguma coisa estranha no ar, algo que Woori não conseguia alcançar e envolvia Ayra.
— Tudo bem. Vou te visitar assim que puder, Unnie, e quero saber o que está acontecendo.
Ayra lhe lançou um olhar um pouco confuso, não entendendo o que a mais nova queria dizer, mas deu de ombros ao pensar que pudesse ser sobre o assunto anterior. Woori voltou a se concentrar em suas facas por um momento e a loira começou a se afastar, lançando um aceno na direção quando a outra pareceu fazer o mesmo.
Era bom encontrar Woori, lhe tirava um peso das costas que Ayra nem tinha ideia que estava ali. As vezes, cinco minutos de conversa entre as duas podiam transformar um dia horrível para a loira em algo muito melhor. Ela supunha que eram para isso que amigos serviam, a NOVA BASE não dava muita informação sobre esse tipo de coisa e seu pai também não.
A loira enfiou as mãos nos bolsos pensativa e estranhou ao sentir uma textura estranha onde deveria estar o tecido. Havia um papel amassado em seu bolso que Ayra tinha certeza não estar lá pela manhã e, ao desdobra-lá, seu coração pareceu acelerar no peito.
Ela sabia que algo iria vir desde que havia chegado na NOVA BASE, era tudo perfeito demais para dar certo. Ela lembrava do olhar do pai em direção aos muros e de como tudo era dificil, se lembra do caminho que tomou e de como teve que crescer. Tudo aquilo havia vindo de uma sociedade segura e ela sabia que muros não os protegeriam.
Ayra Garvey estava certa na única coisa que ela não desejaria estar.
Algo estava vindo.
"Os muros salvaram. Os muros irão matar"
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