Dear Sister
1 Witches On Fire
Notas iniciais
If this is to end in fire
Then we should all burn together
Watch the flames climb high into the night
A natureza estava agitada. As arvores vestiam suas grandiosas coroas de folhas alaranjadas simbolizando a chegada do outono e o vento estava fresco contra a pele quente da garota que ressonava tranquilamente; o sol pálido entrava por sua janela iluminando sua mesinha de cabeceira onde um de seus livros grossos e sem graça repousava. Catarina adorava tirar sarro de sua cara por isso.
Seu cabelo negro estava jogado pelos travesseiros, emaranhados um nos outros assim como os lençóis sedosos se embrenhavam em suas pernas brancas.
Um pequeno pássaro amarelo pousou em sua janela e se pôs a cantar uma de suas belas cantorias (a mais triste, podia apostar), a respiração da garota na cama deixou de ser uniforme se tornando espessa e rápida. Se espreguiçou pressionando os braços para o colchão e os olhos fielmente fechados.
Bufou de raiva e abriu os olhos para a luz amarelada e para o passarinho a olhando com grandes olhos brilhantes. Praguejou e, antes que pudesse pegar o que mais se aproximava de si (no caso, uma bolinha de papel de um de seus cadernos) e atirar certeiramente, avistou Mary Jane se estendendo no chão com o olhar predatório em rosto e se atirar para a janela em direção ao pássaro que voou antes que se machucasse.
Sorriu para a gata sentada ao seu lado, os olhos grandes e verdes pareciam ter o poder de enxergar sua alma e ler cada pedacinho de si. Se apoiou nas mãos e se levantou, pendendo o pescoço para trás e estralando suas juntas.
O clima em seu quarto estava agitado como se uma festa estivesse para acontecer e, ao pensar isso, Serena rapidamente arregalou os olhos. Festa! A festa de sua escola deveria ser hoje e ela já deveria estar se preparando se quisesse 'abalar' como dissera a Catarina no dia passado.
Virou a cabeça bruscamente para a mesinha a procura de seu relógio o qual marcava exatamente 13hras. Sorriu abertamente e disparou para fora de sua cama, se enrolou nos lençóis mas seguiu fielmente para seu banheiro.
Parou em frente ao espelho e sorriu pegando sua escova de cabelos e escovando meticulosamente cada fio.
– Hoje vai ser um dia maravilhoso. Nada vai me atrapalhar! — murmurou olhando para a gata em sua cama.
Seus olhos azuis cristalinos observando cada movimento do felino. Prendeu os fios compridos em uma trança de lado e lavou o rosto antes de escovar os dentes. Lavou o rosto sentindo a água sobre sua pele sardenta mas, afinal, o importante é que 20 minutos mais tarde ela saia de seu quarto ainda em seus pijamas de flanela listrados que sua mãe insistira em comprar.
O corredor amarelo estava brilhante conforme ela saltitava para a direita em direção ao quarto de sua irmã que ficava ao lado do seu, a sensação do chão frio contra a pele quente de seu pé a fazia ir mais rápido, desejando por mais calor; a porta estava fechada mas não se preocupou em bater apenas a abrindo e sendo atingida pelo cheiro de flores e verão que circundava sua irmã.
A garota repousava de costas contra o colchão, os braços jogados para os lados e os pés para fora do lençol; Serena sorriu maliciosa e correu até a cama da outra pulando sobre seu corpo, seu joelho esquerdo se chocou contra a cama e o direito certeiro sobre a coxa da bronzeada que arfou abrindo os olhos assustada.
– Vamos acordar, lindinha! Temos uma festa para ir!
Catarina sorriu dolorida para a irmã, seus olhos azuis esverdeados brilhando de felicidade.
– Aposto que só está animada pois Jimmy vai estar lá!
Serena corou brilhante e sorriu largamente, rindo logo em seguida e saindo de cima da irmã, se instalando ao lado dela na cama sentada sob seus calcanhares.
– Talvez, mas aposto uma margarita que você está louca para ver Thomas e seus olhos castanhos.
Ambas riram alto desta vez, acompanhadas pelo som da água corrente vindo do banheiro onde sua irmã escovava os dentes. O sorriso deixou o rosto de Serena lentamente, olhou pela janela a tempo de ver uma folha voar e as nuvens se moverem mais rápido que o normal.
– A natureza está agitada, você sabe, algo ruim vai acontecer… — sussurrou mais para si que para sua irmã.
Os olhos azuis esverdeados olharam pelo espelho para o rosto da garota que parecia hipnotizada pelo mundo lá fora. Suspirou e enxugou a boca na toalha macia.
– Não gosto que fale destas coisas. Bruxaria é perca de tempo. — comentou em alto e bom som.
(…)
O cheiro de panquecas, chocolate, suco de morango e manga preencheu suas narinas rapidamente ao entrar na sala de jantar de sua casa. As paredes laranjas pareciam finalmente se encaixar com as cortinas brancas e compridas que enfeitavam as janelas para o jardim e a grande porta de vidro para o quintal.
Sua mãe cantarolava enquanto distribuía pratos, talheres e copos pela mesa. Uma colher mexia o suco enquanto uma panqueca fritava no fogo, panqueca essa que Polly correu a virar e jogar sobre um prato para as garotas.
Serena se sentou em sua cadeira de sempre ao lado direito o que a dava a vista perfeita da cozinha, Catarina se sentou a sua frente e a mãe sentou-se ao topo da mesa.
– Estão de bom-humor, isso deve ser bom ou ruim? — destrutivo, era isso que ela queria dizer.
Serena soltou uma risada curta e balançou os cabelos negros.
– De minha parte, ao menos, isso é uma coisa ótima. Catarina já é outra história…
A outra gargalhou e jogou uma migalha de panqueca na irma que se esquivou. Polly riu antes de se servir.
– Chega de brincar, sirvam-se logo pois já deveriam estar se arrumando para o baile, imagino.
Pegaram suas panquecas e suas caldas, encheram os copos com suco de morango e se puseram a comer. Se limitaram a poucas palavras durante a refeição, Catarina parecia interessada em tudo menos em conversar com sua mãe e irmã.
Terminaram a refeição, colocaram suas louças sob a pia e voltaram ao quarto para se preparar.
No final da tarde ambas garotas se preparavam para entrar em suas roupas, paradas em frente a eles, cada uma em seu respectivo quarto, como se fosse uma decisão que mudaria suas vidas.
Catarina suspirou profundamente e se vestiu, ajeitando os cabelos novamente em frente ao espelho e calçando os saltos. Sua maquiagem enfeitava perfeitamente seu rosto e os cabelos jogados sob um ombro, dando uma sensação rebelde como se ela tivesse acabado de acordar.
Sorriu e se virou em direção a porta de seu quarto decidida a ir ver sua irmã e seguir para o baile.
Abriu a porta e atravessou o corredor, entrou no quarto para se deparar com uma garota absolutamente atrapalhada revezando entre se maquiar e vestir sua saia. Riu alto atraindo a atenção da outra, Serena virou seu rosto lentamente, os olhos arregalados como pires de chá.
– Ai meu Deus, quer me deixar mais nervosa que já estou? — a garota relaxou e continua a subir o ziper da saia.
– Relaxa, somos a atração da festa de qualquer maneira. — foi até a penteadeira onde a garota estava e pegou em seu ombro a fazendo sentar na cadeira branca — Deixa que eu te ajudo.
Pegou a escova da garota e passou em seus fios ajeitando-os e os jogando para trás em cascatas por suas costas. Pegou o chapéu preto que repousava sobre a mesa e o colocou sob sua cabeça.
– Prontinho.
Sorriram e Serena levantou pegando sua pequena bolsa da cama e ajeitando sob um dos ombros. Catarina pegou em seu braço e a conduziu para baixo, apagando a luz de seu quarto.
(...)
Atravessaram o gramado em frente a escola atraindo olhares de alguns alunos que conversavam ali. A música podia ser ouvida duas quadras de distância, e a faixa grande e brilhante na fachada do prédio continha simples palavras.
' Baile para alunos do 3o ano.'
E, em letras pequenas:
' Temática Bruxas de Salem'
Catarina sentiu o sangue ferver ao ler tais palavras pois sabia que a escola nunca organizara algo do tipo e seria muita coincidência duas supostas 'bruxas' estudarem no mesmo ano que a escola decide preparar tal evento.
– Vamos lá, não deve estar tão ruim! Pelo menos poderemos tirar sarro da roupa dos outros... — Serena murmurou dando de ombros e seguindo, puxando sua irmã pelo braço.
Realmente, diversão parecia não faltar ali dentro.
O teto normalmente amarelo queimado mantinha um tom bonito e obscuro de roxo, havia estrelas prata provavelmente feitas de isopor espalhadas pelo teto e pelas paredes. Um globo de dança estava perfeitamente colocado ao topo do salão, refletindo todo tipo de cor sobre as pessoas abaixo; sob o palco alguma banda sem graça tocava alguma musica pop sem graça que não se encaixava ao local e situação. Pessoas dançavam e conversavam pelo salão enquanto alguns professores observavam parados no canto com seus drinques sem álcool.
Assim que pisaram no local os olhares se viraram discretamente e os sussurros mal intencionados começaram a brincar com suas orelhas, Catarina suspirou e vestiu a melhor pose de superior que conseguia afinal, tudo aquilo era graças a si e a sua irmã.
Aliás, Serena já caminhava por entre a multidão até a mesa de drinques onde duas garotas estavam encostadas bebendo em seus copos azuis.
– Com licença. — Serena limpou a garganta chamando atenção para si.
As garotas pararam de tagarelas sobre Derek e sua nova namorada, olharam para a Young mais nova e resmungaram antes de deixar a mesa. A morena agarrou dois copos e encheu com o líquido roxo avermelhado da vasilha raivosamente, murmurando sobre dar a alguém uma péssima catapora e um câncer no útero.
– Já estava pensando em me deixar pra trás? — Catarina perguntou sorrindo para a irmã.
– Na verdade a noite mal está começando e eu não pretendo te largar nem sequer por um minuto!
Entregou para a irmã seu copo e brindaram animadamente com promessas silenciosas de uma noite maravilhosa.
Riam do vestido de alguma garota quando foram atrapalhadas por uma garganta sendo limpa e uma voz forte e incrivelmente suave.
– As damas aceitam uma bebida?
Era Peter e seu grupinho de amigos idiotas e nerds com garrafas térmicas em mãos. As irmãs trocaram olhares e sorrisos rápidos antes de estenderem seus copos para ele.
O resto da noite foi como um borrão divertido de cores, corpos suados e músicas sem graça para elas porém não durou tanto assim e logo Anna estava subindo ao palco com seus longos cachos loiros platinados, olhos azuis e vestido vinho não tão bonito contra sua pele bronzeada.
Anna era a típica garotinha mimada que acredita reinar sobre os outros apenas por ser Presidente do Conselho Estudantil e participar de toda e qualquer fofoca do momento. Ela pegou no microfone com as pontas dos dedos pintados de azul, limpou a garganta e começou a falar.
– Tenho a honra de informar, nessa magnífica noite de Novembro que, como de costume, coroaremos duas pessoas especiais. Porém como o tema da festa deve ser importante para duas pessoas em especial, nada seria mais justo que entregar para elas. — parou de tagarelar apenas para se virar por poucos segundos e pegar duas coroas, de rainhas — Uma salva de palmas para as nossas irmãs bruxas, Serena e Catarina Young!
A multidão se virou para onde as duas se encontravam e os risos, palmas e assovios mal intencionadas ficaram cada vez mais alto ao redor das duas, Catarina sentiu os olhos lacrimejarem e, quando se virava para deixar o local avistou Serena atravessando a porta.
Catarina corria atrás da irmã como se aquilo fosse salvar sua vida até seus pulmões começarem a queimar clamando por ar, os joelhos travarem e sua respiração ofegante até demais. Se apoiou nos joelhos dobrando levemente seu corpo enquanto murmurava sobre sua irmã ser imprudente e desobediente.
Depois de alguns poucos minutos respirando continuou a caminhar atrás da irmã, virando a esquina onde a garota virara mais cedo.
O cheiro era de madeira queimando e de natureza sendo destruída. As casas ao seu redor pegavam fogo e algumas pessoas já saiam de dentro delas com seus celulares em mãos prontas para ligarem ao corpo de bombeiros.
– Que inferno...? — sussurrou ao observar a floresta no final da rua de onde o fogo parecia estar vindo — Puta merda.
Se pôs a correr mais ainda até alcançar as árvores e chegar perto de onde vinha as chamas. No meio da clareira se encontrava sua irmã ajoelhada em frente ás chamas que queimavam cada vez mais, deixando um rastro de destruição por onde passavam; ao seu redor havia um circulo onde tudo que se encontrava ali permanecia intacto de sua fúria mas isso não impediu Catarina de suspirar e se sentir cúmplice de tudo aquilo. O ar deixou seus pulmões novamente (não sabia se era necessariamente pela fumaça ou pela culpa).
– Serena, o que exatamente você fez? — perguntou lentamente para a irmã que levantou virando-se para a outra.
– Vamos sair daqui. — agarrou no cotovelo de Catarina e a arrastou para longe de sua obra.
(...)
"Querida avó, acho que se lembra da sua amável filha mais velha que fugiu de casa sem dar explicações e com certeza quase lhe matou. Acreditaria se te dissesse que ela teve duas filhas? Pois é, mais duas para dividir a herança..."
– Para, muito rebelde! Você realmente espera que ela nos aceite em sua casa com você escrevendo algo do tipo? — Serena resmungou se inclinando sobre o ombro da irmã para ler.
Catarina revirou os olhos e só não argumentou pois sabia que a garota estava certa porém ainda deu uma de suas respostas afiadas.
– Então que tal você parar de resmungar como uma velha e vir escrever?
– Garanto que faço melhor que isso.
Catarina se levantou trocando de lugar com a irmã que retirou o longo chapéu preto e colocou a sua frente. Pegou na lapiseira azul e se inclinou sobre a folha para começar a escrever.
"Querida avó, primeiramente gostaria de lhe dizer que sinto muito por apenas estar lhe enviando uma correspondência agora, depois de tantos anos. Espero que entenda o fato de só sabermos de sua existência através do testamento de minha mãe.
Espero também não estar lhe incomodando já que não é com este propósito que lhe envio esta carta. A dor que sentimos é grande mas imagino que a sua seja maior comparada a nossa por isso respeitaremos qualquer decisão que tome.
Eu e minha irmã apenas temos você como família e como mamãe deixou claro no testamento a guarda passaria para você caso morresse antes de completarmos 18 anos!
A qualquer decisão que tome, peço que nos responda imediatamente ao que receber esta carta.
Com muito carinho, suas adoráveis netas Catarina e Serena Young."
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