Can-Can acordou no final da tarde. Apesar do clima frio, sentia calor. Sua grande noite estava prestes a começar. Arrumou-se rapidamente e saiu de casa. Seu trote era nervoso pelas calçadas, e chegou ao Sun em tempo recorde, apesar do sol já posto. Os portões da entrada principal já estavam abertos. O porteiro da esquina usava um terno discreto, porém muito bonito; tinha a crina com gel e penteada impecavelmente para trás, do jeito que os empregados do sexo masculino deveriam usar.

A pônei de cristal adiantou-se, dobrou a esquina e entrou na ruela lateral que dava para a entrada de empregados. Reparou pelas janelas do cabaré que todas as luzes estavam acesas. Ao entrar pelo pequeno portão dos trabalhadores, reparou também que o velho pônei porteiro à noite era substituído por um jovem que usava o mesmo terno e penteado do outro no portão principal. O jovem garanhão sorriu de orelha a orelha para ela. Can-Can devolveu um cumprimento educado e entrou no palacete.

A primeira coisa que a vedete percebeu foi o barulho no lugar. Na verdade, como nunca havia estado no Sun à noite, não fazia ideia de como eram as coisas por lá naquele horário.

Um grupo de pôneis apressadas passou por Can-Can, conversavam em voz alta, riam e faziam brincadeiras umas com as outras. Rain vinha com elas. A égua manchada reparou na amiga parada no corredor e chamou-a.

Can-Can apressou-se para alcançar a turba de pôneis e trotar ao lado de Rain. A expressão curiosa no rosto da pônei de cristal fez Rain explicar, “Essas são Jinggle Twist, Bright Melody, Charming Pace, Loving Lily, Marvelous e Black Beauty. São nossas colegas. Elas vão fazer o show inicial hoje”. Can-Can não sabia quem era quem, mas assentiu.

“Adivinhem quem está na casa hoje”, uma das pôneis murmurou.

“Quem?”, as outras perguntaram.

“Diva”, a primeira anunciou com grande pompa, recebendo gritinhos excitados e palavras surpresas das companheiras.

“Quem é Diva?”, Can-Can cochichou para Rain.

“Nunca ouviu falar da Diva?”, Rain retrucou descrente.

Can-Can balançou a cabeça negativamente e esperou.

“Diva é uma antiga vedete do Sun que conseguiu ficar famosa como nenhuma outra jamais conseguiu. Ela faz grande sucesso por toda Equestria. Ela já cantou e dançou até para as princesas. Já se apresentou pelos teatros mais chiques de também. Um show dela custa milhões”, Rain explanou com certa admiração. Can-Can ouviu tudo com um tipo de fascínio infantil, imaginou que se aquela tal Diva conseguira ficar famosa ao ponto de apresentar-se para as princesas, ela também podia conseguir.

O grupo de dançarinas passou pelos vestiários dos empregados e continuou a descer o corredor, viraram uma esquina e bateram numa porta que Can-Can até então não se dera conta da existência, porque nunca tinha ido até ali.

“Odeio quando trancam essa porta”, uma das dançarinas bufou insatisfeita. Não muito tempo depois, um jovem garanhão destrancou a fechadura e deu passagem a elas.

Entraram na série de corredores dos camarins, que eram cheios de araras de roupas com figurinos usados e por usar, pedaços de cenários de shows, e éguas que trotavam apressadas por todos os lados.

Apenas Rain e Can-Can sobraram no meio da confusão dos corredores, pois logo o grupo com o qual estavam se desfez com as pôneis seguindo para seus camarins.

“O camarim de vocês é no final do corredor, à direita”, Rain deu as instruções com um casco apontado para onde a amiga deveria ir. “Você vai encontrar Sky e Gale lá. Daqui a pouco eu volto para falar com vocês.” A égua malhada virou para o lado oposto e trotou entre pôneis e vestimentas.

Can-Can mal conseguia acreditar na quantidade de dançarinas que iam de um lado para o outro por ali. Quase esbarrou em colegas duas vezes antes de achar o camarim. A porta estava aberta e ela viu Skylark e Nightingale sentadas em duas cadeiras, cada uma tinha a sua frente uma penteadeira abarrotada de maquiagem, escovas para crina e todo o tipo de produtos de beleza. Havia uma terceira penteadeira ao lado das outras duas, e estava vazia.

Sky passava um batom vermelho sobre os lábios e fazia biquinho para o próprio reflexo.

Foi Gale quem reparou na pônei de cristal que estava à porta.

“Can-Can, entra e fecha a porta. Não aguento mais ficar ouvindo esse pessoal todo aí fora”, Nightingale disse enquanto aplicava pó de arroz no rosto. A eguinha rubra fez como a amiga disse e dirigiu-se rapidamente para o lugar sem dona na sala. Além das penteadeiras que ficavam na parede do lado oposto ao da porta, na sala havia também uma extensa arara de roupas com os figurinos das jovens à direita; e uma portinha que levava a um banheiro, além de um sofá e uma mesinha com duas jarras, uma com água, outra com suco, à esquerda. Os recipientes eram imbuídos com uma magia que mantinha os líquidos dentro deles gelados.

“Gostou do camarim? É todo nosso”, Skylark disse animada.

Can-Can assentiu contente e perguntou, “Rain não fica aqui conosco?”

“Ela tem um camarim só dela”, Nightingale respondeu, surpreendendo a amiga com a resposta.

Após um pigarro para chamar atenção, Skylark falou sorrindo, “O pessoal da casa deixou algumas maquiagens pra gente aí nas gavetas, dá uma olhada”. Can-Can vasculhou a penteadeira rapidamente, achou dois batons novos e um potinho de pó de arroz. Pôs os achados sobre a penteadeira e colocou junto com eles uma escova que sempre trazia consigo nos alforjes.

“Espera. Você não trouxe mais nada?”, Gale perguntou indignada, levantando uma sobrancelha.

Can-Can olhou para o que tinha na penteadeira, depois olhou para as amigas e deu de ombros.

“Sorte sua que a gente te ama”, Skylark disse revirando os olhos. Logo, as irmãs dividiam suas coisas com a pônei de cristal.

Can-Can ficou um tanto constrangida com o ato, mas isso não a impediu de protestar, “Garotas, vocês sabem que batom não fica bem em mim e... espera, brilho labial? É serio?” Skylark deu uma risadinha, tomou de volta o brilho que havia passado para a penteadeira da amiga e substituiu-o por um conjunto de cílios postiços. Após a divisão, a pônei de cristal perguntava-se o que deveria usar. Foi pelo mais fácil: primeiramente passou um hidratante no rosto. E como sua maquiagem limitava-se a lápis e sombra de olho, estava pronta não muito tempo depois.

Nightingale olhou cética para a eguinha rubra. “Não demos um monte de coisa pra você só usar isso”, repreendeu. “Sky, segura ela.”

Antes que a pônei de cristal percebesse o que estava acontecendo, Skylark a segurava pelos cascos e Nightingale aproximava-se para aplicar os cílios. Depois do pequeno momento de tensão no qual pensou que Gale poderia fazer algo errado e arrancar-lhe um olho, a pônei de cristal suspirou aliviada – cílios postiços não eram tão estranhos assim, eram até bem bonitos.

“O que mais dá pra fazer com ela?”, Gale perguntou reflexiva.

“Já sei”, Sky retrucou. Em seguida, desenhou uma pintinha próxima ao rabo do olho esquerdo de Can-Can. “Todo mundo adora uma dessas.”

Com um movimento brusco, Skylark retirou a fita que a amiga usava na crina e pôs-se a escovar os cabelos prateados com cuidado.

“Eu acho que posso fazer isso sozinha”, Can-Can sugeriu, meio aborrecida. Ouviu o movimento de abrir e fechar da porta do camarim e um trote calmo chamou sua atenção. Uma olhada no espelho revelou que Rain havia chegado. A maquiagem da égua manchada era impecável e leve, mas possuía muita beleza mesmo em simplicidade. Rain tinha uma expressão de curiosidade no rosto.

“O que estão fazendo?”, perguntou ao chegar ao lado de Sky.

Foi Gale quem respondeu, “Estamos arrumando nossa irmãzinha caçula que não sabe fazer isso sozinha”.

Can-Can protestou baixinho e foi ignorada pelas outras pôneis. Rain ofereceu-se para ajudar e, com a boca, deu um puxão no rabo da eguinha rubra para tirar-lhe as fitas. A pônei de cristal respirou fundo e tentou ao máximo não pensar que Rain mexia em sua cauda.

“Não sei porque você usa essas coisas. Sua cauda fica muito melhor sem aquele monte de enlaces”, Rain falou, estava sentada e escovava calmamente o rabo da amiga.

Papa costumava amarrar ela desse jeito quando eu era bem pequena. Eu uso assim porque me faz lembrar dele”, Can-Can explicou tomada de nostalgia. Desejou mais uma vez que seu pai pudesse estar na plateia naquela noite. Rain mencionou que era uma lembrança bonita para levar consigo; fez a vedete vermelha sorrir.

Skylark terminara de escovar os cabelos da amiga e tinha ido ao banheiro. Nightingale continuava a maquiar-se concentrada.

Rain deu uma olhada no relógio na parede em cima das penteadeiras. O show de abertura já devia ter acontecido. “Eu vou ver o que está acontecendo no palco agora. Volto depois”, anunciou ao erguer-se sobre as quatro patas. Antes de ir, aproximou seu rosto da cabeça de Can-Can e sussurrou-lhe ao ouvido, “Adorei essa pintinha”. Deu um beijo discreto atrás da cabeça da pônei de cristal e saiu. Isso fez com que a eguinha rubra recordasse que tinha de desconvidar as amigas.

“Eu estive pensando, acho que não vamos poder comemorar a estreia lá em casa, hoje”, Can-Can disse evasiva. Nightingale virou o rosto para olhá-la e perguntar por quê.

“É que eu tenho um tio que está muito doente. E minha prima não sabe muito bem o que fazer, e como eu cuidava do papa desde potrinha, ela pediu minha ajuda”, a pônei de cristal mentiu descaradamente e um tanto vacilante. Não fazia por mal, fazia apenas por querer discrição em sua vida intima – ainda assim sentia-se culpada. Sentiu-se mais culpada ainda quando Nightingale concordou e desejou melhoras ao tio imaginário.

“Acho que a gente podia fazer uma viagem até Baltimare, ou ao Império de Cristal nas próximas semanas. Finesse deve decidir nossos dias de apresentação ainda amanhã, mas é certo que nenhuma dançarina vai todo dia pro palco. Devemos ter dois ou três dias de folga, dá pra fazer um passeio curto e comemorar de verdade a nossa estreia. O que acha?”, Gale sugeriu. Skylark saíra do banheiro e pegou a conversa pela metade.

“O que foi?”, Sky perguntou.

“Cancelamos a saidinha de hoje porque Can-Can tem que cuidar do tio. Tô falando pra ela dos planos de irmos todas em Baltimare”, Nightingale resumiu. Skylark assentiu insatisfeita.

Can-Can pediu desculpas à amiga. “Não precisa se desculpar. Tá tudo bem. Aliás, esse seu tio, você não fala muito dele”, Skylark retrucou, parecia desinteressada.

“Oh! Ele mora do outro lado da cidade, não nos falamos tanto quanto gostaríamos e eu geralmente não tenho muitas novidades sobre ele”, Can-Can mentiu de novo, dessa vez não havia hesitação em sua voz, falara de forma mais convincente. As irmãs assentiram em uníssono.

“Bem, se for pra ir em Baltimare, temos que ir na La Luna”, Skylark disse com um sorriso afetado no rosto.

“La Luna?”, Can-Can perguntou curiosa.

“É uma boate mequetrefe que a Sky adora”, Gale interferiu antes que sua irmã pudesse explicar. Skylark franziu o cenho, aborrecida.

“Mequetrefe é você! La Luna é o melhor lugar naquela cidade, tem as melhores músicas e as melhores bebidas também”, Sky contradisse com vigor. “E você só sai sozinha de lá se quiser.”

“Eu posso até ser mequetrefe, mas você é uma vadia...”, Gale retrucou raivosa.

“Vadia é a mãe!”

“É a mesma que a sua!”

E assim as irmãs começaram mais uma de suas intermináveis discussões. Can-Can limitava-se a observar e rir baixinho dos absurdos que uma pônei dizia à outra. Skylark e Nightingale conseguiram diminuir a tensão da pônei de cristal enquanto brigavam. O nervosismo da apresentação praticamente sumira.

Os gritos das irmãs fizeram com que um pônei desconhecido abrisse a porta para ver o que acontecia ali dentro. Era um dos intendentes do cabaré, que perguntou se tudo estava bem. As pôneis beges se entreolharam e responderam que não havia problema algum. O pônei assentiu e fechou a porta. Um silêncio estranho tomou conta do recinto.

Sky foi a primeira a falar, “E se a gente fosse ver como o papai e a mamãe estão?”

Nightingale desviou seu olhar de volta para o próprio reflexo no espelho. Bufou como se ainda estivesse irritada. “Eles não querem ver as nossas caras, lembra?”, indagou chateada.

“Mas se a gente for de barco, vai passar por Manehattan mesmo. Não custa nada. Só uma meia horinha basta, depois a gente segue o nosso caminho”, Sky insistiu e fez biquinho como um potrinha teimosa. “Eu duvido que eles iam bater a porta na nossa cara.”

Gale fuzilou a irmã com o olhar.

“Pelo menos não de novo”, Sky concluiu insegura.

“O papai expulsou a gente de casa, quer me explicar o que pode ter mudado de lá pra cá?”

Skylark pensou um pouco antes de responder, “Talvez ele tenha se arrependido”.

“Então por que nenhum dos dois responde as minhas cartas?”

Derrotada, Sky suspirou, foi de volta para seu lugar e começou a escovar a crina devagar.

Can-Can finalmente intrometeu-se, “Sabe, teve uma vez que papa ficou estranho comigo, me tratou como nunca tinha tratado. Nós brigamos muito. Mas, aconteceu que, no fim, ele estava muito triste por ter feito o que fez. Ele apenas levou muito tempo para entender que eu não tinha feito nada errado. Nenhum pai fica bravo para sempre”. Nightingale deu um relincho aborrecido e continuou a verificar a própria maquiagem.

Skylark virou-se para Can-Can e sorriu.

“Se quiser, eu vou com você para vê-los”, a pônei de cristal sugeriu para a amiga de olhos cinzentos.

“Se você aparecer junto com a Sky, ele vai achar que vocês fornicam e vai expulsar as duas no casco, tenho certeza”, Gale declarou azeda. Skylark fitou a irmã, mostrou a língua, olhou de novo para Can-Can e agradeceu.

“Quando a gente estiver lá, vou pedir pro papai escrever uma carta pra essa cabeça dura”, Sky brincou. “Assim ela para de ser tão chata e faz as pazes com ele.”

Can-Can assentiu e olhou para o relógio na parede. “Que horas é a nossa vez?”, perguntou. Skylark deu de ombros.

“Algum pônei vai vir avisar quando faltar uns trinta minutos pra nossa vez”, Gale explicou. “Rain disse que é sempre assim.”

As três pôneis passariam a próxima meia hora conversando, faziam planos para a possível viagem. Baltimare possuía uma série de teatros e parques que a eguinha rubra queria muito conhecer. Skylark estava interessada quase que unicamente na vida noturna da metrópole. Nightingale pensava em rever velhos amigos. Em dado momento conversaram, sonhadoras, sobre compras e todas as lojas maravilhosas que poderiam visitar.

“Ah! Os vestidos em Baltimare são muito mais baratos. Você pode voltar de lá com dúzias deles”, Skylark contou animada para Can-Can, que ouvia falar da cidade com brilho nos olhos, imaginando a grandeza dos prédios, os lugares fantásticos para visitar e o modo de vestir dos pôneis de lá.

“E eles vão adorar seu sotaque. Todos os pôneis de lá adoram. Você vai ficar cheia de pretendentes! Principalmente no La Luna”, Sky falou com um tom de malícia.

“Por Celestia! Será que dá pra você parar de falar da porcaria do La Luna?!”, Gale retrucou e bufou de raiva.

Antes que as duas pudessem começar mais um bate-boca, Can-Can interveio, “Não briguem, vamos. Pensem em como a viagem pode ser legal”. Nesse instante, Rain entrou sorrindo no camarim e deixou a porta aberta.

“As apresentações de hoje estão lindas, vocês deviam ver. E fiquei sabendo que a Diva vai fechar a noite e que nós dançamos logo antes dela subir no palco”, a égua malhada anunciou contente; estivera a maior parte do tempo daquela noite nos bastidores, observando os shows das colegas.

“Vamos abrir o show da Diva?!”, Sky disse eufórica. Poderia começar a pular de alegria a qualquer momento. Rain assentiu.

“Diva?”, uma voz familiar veio da entrada do camarim. Era Rhiannon. “Ela está aqui? Hoje? A Diva?”

As quatro vedetes assentiram em uníssono. A pégaso rósea não pareceu muito feliz. Virou-se e trotou para a porta que levava ao corredor pelo qual Rain e Can-Can tinham entrado na área dos camarins. Rain e Skylark ficaram observando a instrutora desaparecer pela porta.

“O que houve?”, Can-Can perguntou. As pôneis deram de ombros.

“O que será que deu nela?”, Nightingale murmurou.

Uma pônei veio da porta que Rhiannon usara, desviou de um grupo de dançarinas que galopavam pelo corredor e trotou calmamente. Ao passar pela porta do camarim, Rain a chamou e perguntou sobre a instrutora. A pônei respondeu que a égua rósea havia ido embora pela saída de empregados, mas não sabia o porquê.

“Que estranho. Nós estávamos conversando sobre a Diva, ela ouviu e saiu quase galopando daqui”, Rain comentou.

“Diva? Ah, então tá explicado”, a pônei concluiu.

“Como assim?”, Skylark intrometeu-se.

“Vocês não sabem? As duas se odeiam”, a pônei respondeu entre risos.

“Mas por quê?”, Can-Can perguntou. A vedete estranha deu de ombros, disse que ninguém sabia ao certo o porquê, que estava atrasada e devia ir. Partiu tão rapidamente quanto chegara.

“Que estranho”, Skylark atestou.

“Bem, acho que a nossa instrutora não vai ver a gente dançar”, Gale mencionou, deu de ombros e resolveu fazer pouco caso da situação.

“Falando nisso, Sky, eu convidei a Fräulein Balance para nos ver hoje”, Can-Can informou. Skylark sorriu de orelha a orelha. Rain perguntou de quem as duas falavam, e a pônei de cristal explicou que se referia a égua que lhe ensinara a ler, escrever e calcular.

Um intendente apareceu na porta e avisou que elas tinham trinta minutos para ficarem prontas. Rain galopou para seu próprio camarim. Skylark, Nightingale e Can-Can ajudaram-se umas às outras a se vestir. As irmãs fizeram um belo coque para prender os cabelos da eguinha rubra e colocaram-lhe a pena rosa entre os cabelos. O processo de vestir os corpetes foi difícil, perderam muito tempo precioso tentando manusear os enlaces com seus cascos. As saias, no entanto, foram facilmente vestidas, assim como as meias de renda. Can-Can olhou-se no espelho e admirou o próprio reflexo por algum tempo; sempre quisera usar um vestidinho como aquele, nunca antes se sentira tão bonita. Fez um olhar sedutor para si mesma, em seguida colocou um casco sob o próprio queixo e fez um beicinho; riu sozinha. Sky e Gale olhavam para a amiga com pequenos sorrisos em seus rostos; também estavam bonitas, as três juntas pareciam uma trupe de bonecas. Nightingale testou rapidamente um movimento de dança, a saia de babados era bem leve e cada passo era quase revelador e sensual, da forma que a apresentação exigia.

Can-Can trotou para o centro da sala e deu uma boa olhada no próprio flanco. A roupa lhe caía muito bem. Deu uma pirueta e observou o balançar da saia. Sorriu de orelha a orelha como uma potrinha; não se sentia boba por estar tão feliz com algo tão simples.

“Olha só a nossa irmãzinha. Tá tão feliz!”, Skylark brincou, falava com uma voz de bebê. “Dá vontade até de apertar essas bochechinhas vermelhas.”

“Vou pegar mamadeiras pra vocês duas”, Gale debochou.

“Humpf!”, Can-Can bufou e torceu o focinho, contrariada. “Vocês estão com inveja porque eu fico muito melhor que vocês no vestido”, gabou-se vaidosa. As duas irmãs fingiram surpresa pela ousadia da pônei de cristal e deram passos para trás afastando-se dela. Skylark ironizou, “Mana, cuidado! A beleza dela pode nos matar”.

“Pode cegar a gente, isso sim”, Nightingale respondeu entre risos. As duas irmãs gargalharam. Can-Can deu as costas para as amigas e ergueu o queixo, altiva, como se não se importasse.

Sky trotou para perto da pônei de cristal e prostrou-se ao seu lado. “Ficou bravinha, foi?”, disse e fez um beicinho. Nightingale parou do outro lado da vedete vermelha e sorriu. Um segundo de expectativa tomou conta do recinto enquanto as irmãs esperavam por uma resposta.

“Eu posso cegar mesmo?”, Can-Can perguntou receosa.

As amigas a abraçaram com força. Nightingale respondeu, “É claro que não, potra boba. No máximo ofusca um pouquinho, quando está muito feliz. Mas feliz é como a gente mais gosta de você”.

Can-Can devolveu o abraço das amigas carinhosamente; Gale não costumava falar coisas tão doces quanto aquela. As três pôneis ficaram abraçadas por mais algum tempo, compartilharam palavras amistosas e desejos de boa sorte para a apresentação que estava prestes a vir. Rain encontrou-as ainda daquele modo ao entrar no camarim. As pôneis não se moveram, surpresas.

Um meio sorriso surgiu nos lábios da égua manchada, que disse de forma serena, “Espero não estar atrapalhando nada”.

Can-Can olhou mesmerizada para Rain. A égua ficara linda na roupa de dança. A cor-de-rosa dava um ar de graça e vida ao rosto branco e a crina loura de Rain. Skylark e Nightingale entreolharam-se ainda sem deixar o abraço, em seguida observaram a expressão bobalhona na cara da eguinha rubra.

“Tem espaço pra você também, se quiser”, Sky brincou.

Rain trotou para o abraço sem pestanejar. Can-Can ficou a poucos centímetros do pescoço da égua loira; ao respirar, sentiu o perfume forte e adocicado que ela usava. Tão rapidamente quanto abraçou, Rain afastou-se das outras dançarinas e falou que deviam ir logo para os bastidores, pois a apresentação que antecedia a delas já estava pela metade.

As quatro trotaram ágeis entre os montes de pôneis que lotavam os corredores. Todos tomavam o máximo de cuidado para não esbarrarem nas roupas delas. Algumas pôneis lançavam olhares curiosos e admirados para o grupo uniformizado que tomara o corredor que levava aos fundos do palco.

“Ei Rain! Você trocou a gente pelas novatas?!”, uma pônei gritou de dentro de um camarim de porta aberta enquanto as quatro dançarinas passavam.

“Troquei sim!”, Rain retrucou em tom brincalhão.

“Espero que você não se arrependa!”

“Não vou. E quando nos ver em cima do palco, você vai ficar de boca aberta!”

“Veremos!”

Rain riu. Explicou para as amigas que aquela era uma das colegas com as quais dançara até mudar de grupo. Disse que não se dera muito bem com uma das pôneis daquele grupo, apesar das outras serem adoráveis.

Trotando concentrada, Can-Can repetia mentalmente para si que tudo daria certo e que a plateia iria amar sua dança, e, se não sua dança, pelo menos a música do pai. Chegou com as amigas aos bastidores por uma porta de acesso na extrema esquerda e ao fundo do palco, onde puderam ver os minutos finais de uma das apresentações mais aclamadas do Sun, na qual o grupo de dançarinas usava ternos de corte feminino e tirava algumas das peças durante a música; levavam a plateia à loucura facilmente.

As quatro vedetes ansiosas podiam ver um pedaço do público, apesar de não poderem ser vistas dali. A casa parecia cheia. Can-Can encheu-se de expectativas.

“Vejam, aquele ali é o juiz Rights. Ele está com o prefeito e alguns assessores naquela mesa ao fundo”, Rain indicou, sua voz tentava ser um pouco mais alta que a música. “E me disseram que alguns pôneis de Canterlot estariam aqui, essa noite. Falaram no príncipe Blue Blood, mas não sei se é verdade.”

Ao ouvir a palavra “príncipe” Skylark deu um largo sorriso. Já pensava que teria de dar um jeito de fazer com que fosse notada pelo membro da realeza. Nightingale revirou os olhos; como bem conhecia sua irmã, podia imaginar como ela deveria estar impressionada e interessada.

Herr Grandiose está numa das mesas mais próximas do palco... olha ele ali!”, Rain disse e apontou com um casco. O dono do cabaré era o pônei mais gordo que já se vira. Uma figura redonda e alaranjada, vestida num finíssimo terno; conversava animadamente com alguns amigos que se sentavam na mesma mesa. O pomposo bigode de Grandiose movia-se frenético enquanto o pônei contava uma de suas histórias para os amigos.

Can-Can vasculhou a plateia em busca de sua professora. Não demorou muito para encontrá-la: Balance estava sentada numa das mesas ao fundo do salão, usando seu melhor vestido de festa e bebericando um copo d’água enquanto observava seus arredores; não parecia muito à vontade com o ambiente. Na verdade, estava cansada e torcia para que Can-Can subisse logo ao palco, pois ainda precisava corrigir provas naquela noite.

O show terminou e as dançarinas saíram do palco por uma porta lateral no canto oposto ao qual a vedete vermelha estava. Can-Can respirou fundo, a qualquer momento um pônei diria para ela e suas amigas subirem no palco. A ordem foi dada não muito tempo depois. Os holofotes estavam apagados, não se podia ver nada em cima do tablado. As quatro pôneis trotaram rapidamente para suas posições e observaram a casa cheia. Todas as mesas e lugares no balcão do bar estavam ocupados por pôneis. Skylark perscrutou o salão em busca do príncipe, mesmo sem saber como ele era; achava que saberia se o visse. Rain fechou os olhos para se concentrar. Can-Can fez uma prece breve para a princesa da noite – aquela deveria ser a melhor de sua vida. Nightingale balanceava o próprio peso entre uma perna e outra, nervosa – aquilo era diferente de tudo o que já havia feito. Um rápido anúncio da estreia de uma nova dança foi feito por um intendente pelos alto-falantes do Sun. As luzes foram ligadas sobre o palco, revelando as quatro dançarinas sorridentes. Uma salva de cascos receptiva e animada surgiu da plateia. Alguns garanhões assoviaram e gritaram o nome de Rain, que soprou um beijo para o salão, arrancando mais gritos e assovios.

Como no ensaio, as quatro fizeram uma breve reverência à plateia e bateram seus cascos uma única vez no palco para sinalizar a Often Bass que a orquestra deveria começar a música. A melodia de Turner não demorou a tomar conta do recinto, e quando o fez, as vedetes começaram sua lúdica, ágil, saltitante e, ainda assim, sensual apresentação. Os pôneis que observavam a dança se dividiam entre os que estavam impressionados demais para ter alguma reação àquele show tão diferente, e aqueles que gritavam e batiam seus cascos animadamente nas mesas para acompanhar a música. Can-Can não parou de sorrir um segundo sequer durante todos os seis minutos em que se moveu incansável sobre o palco. Seus pelos fulguravam com uma intensidade invulgar e revelavam a grande satisfação que ela sentia por finalmente estar em frente a uma plateia de verdade, fazendo o que nascera para fazer. Por estar próxima às amigas em vários momentos do show, podia ver com facilidade como elas se saiam. Rain era uma profissional experiente, fazia sua parte com esmero, seus movimentos eram executados com habilidade, seu sorriso era brincalhão e seu olhar sugestivo. Nightingale e Skylark faziam o seu melhor, estavam muito bem, apesar de Sky ter vacilado uma vez. As palavras de Rhiannon sobre cair ficaram muito vivas na mente da pônei bege assim que subiu no palco.

No entanto, a apresentação foi perfeita. Ao terminarem a dança com um movimento sincronizado, os pôneis da plateia levantaram de seus assentos e bradaram animados pelo show. Can-Can arfava e admirava seu público. Conseguiram conquistá-los e nada de ruim acontecera. As vedetes fizeram reverências leves e saíram do palco no tempo designado para que a próxima apresentação não atrasasse. Usaram a mesma porta que o grupo anterior havia usado e desapareceram da visão dos pôneis que ainda rugiam e batiam cascos no chão e nas mesas com alegria.

“Conseguimos!”, Skylark bradou ao adentrarem o corredor dos bastidores. Abraçou a irmã com força, Gale retribuiu o abraço com um gritinho.

Rain desviou o olhar para o teto, como se estivesse distraída e usou o próprio flanco para acertar o de Can-Can. A pônei de cristal agarrou a égua manchada num abraço passional – estava muito feliz. Logo, as irmãs se atiraram no abraço das outras duas pôneis e, mais uma vez, as quatro estavam abraçadas.

“Vocês estiveram perfeitas, novatas”, Rain brincou.

“Ah, mas é claro que a gente estava. Só na cabeça da Rhiannon que existe a menor possibilidade de eu cair”, Skylark retrucou ofegante.

Can-Can riu. De repente o corredor no qual estavam começou a ser ocupado por pôneis curiosos que trotaram pelo quarteto sem interesse nelas; alguns conversavam excitados a respeito de Diva. A estrela estava prestes a subir no palco para cantar.

“Vamos dar uma olhada também. Antes que não dê mais para passar”, Rain disse e precipitou-se para voltar pelo corredor pelo qual tinham vindo. Skylark era apenas uma pônei terrestre, mas naquele instante pareceu mais um pégaso, tamanha sua rapidez para voltar aos bastidores. Can-Can acompanhou a égua loira de perto, seguida por Gale. Uma quantidade generosa de pôneis se acotovelavam no corredor pela oportunidade de ver Diva no palco. Can-Can e Rain passaram entre alguns pôneis gentis que as parabenizaram pela apresentação. Ficaram a poucos metros da porta, podiam ver Skylark mais à frente. Nightingale ficara para trás, conversando com um garanhão no corredor.

Os olhos de todos os pôneis estavam fixos na porta que as dançarinas usavam para chegar ao palco, no canto oposto. Diva apareceria a qualquer minuto. Quando um grito excitado fez-se ouvir mais à frente, Can-Can ficou na ponta dos cascos para poder ver. Do outro lado do palco acabara de aparecer uma pônei de cristal de pelos cerúleos, crina e cauda onduladas, muito longas e rosadas; e olhos castanho-claros. Ela usava um elegante vestido de gala. O chifre em sua cabeça brilhava, produzindo uma aura rosa semitransparente.

“Diva!”, Skylark gritou emocionada.

Diva entrou no palco e lançou um olhar breve e muito amistoso para os pôneis nos bastidores. Logo, fitou a plateia que a recebia como se fosse uma deusa. Trotou calmamente até a ponta do palco, ao centro, onde fora colocado um microfone. Quando a pônei cerúlea começou a cantar, Can-Can não conseguiu acreditar no que ouvia, era a voz mais bela que já entrara por seus ouvidos. A voz era hipnotizante, atrativa, agradável e poderosa. A primeira música durou por volta de três minutos. Três minutos de um cantar angelical, etéreo. A salva de cascos para Diva pareceu durar o dobro da música. A cantora agradeceu a todos e, com um pigarro, fez seu chifre reluzir. Um flash rosa cegou a todos por um instante. Can-Can piscou os olhos algumas vezes até sua visão voltar ao normal. Quando conseguiu enxergar de novo, no palco havia agora, também, outros pôneis. Um deles tinha consigo uma guitarra, outro, um baixo elétrico e o terceiro, uma bateria. Diva tinha mudado de roupa magicamente; agora usava um colam negro e seus cabelos estavam penteados de um modo quase selvagem.

A música produzida a partir daquele momento foi completamente diferente do canto lírico entoado até então. Foi a primeira apresentação de rock que Can-Can viu de perto. Uma atrás da outra, todas as músicas eram igualmente empolgantes e bonitas.

Franzindo o cenho, Can-Can perguntou-se como nunca tinha lido a respeito de Diva em nenhuma revista. Pensou em comprar mais revistas especializadas em música no futuro.

Após o término súbito de uma música sobre aves canoras, Diva fechou os olhos por um segundo e deixou o nome de sua próxima música escapar entre os lábios, “Rhiannon”. O público rugiu animadamente, ávidos por ouvir mais daquela linda voz. Can-Can olhou curiosa para Rain assim que ouviu o nome da coreógrafa ser pronunciado.

Rain retornou o olhar, deu de ombros e disse, “É um dos maiores sucessos dela”. A música era belíssima em tudo; fosse melodia, fosse letra. Todos os pôneis nos bastidores permaneceram incansáveis, ali, sobre as patas, observando o show. Pelo menos uma hora se passou e Can-Can não havia saído do lugar. Entre uma música e outra, observou que Nightingale tinha convencido um garanhão a deixá-la subir em suas costas e acompanhava a apresentação com o olhar de cima da pequena multidão no corredor.

“Ainda quer ficar por aqui? Minhas pernas estão começando a doer”, Rain disse, de repente. Pelo ritmo das coisas, o show não duraria muito mais, logo, Can-Can concordou e as duas seguiram de volta pelo corredor que levava aos camarins. Foram seguidas não muito tempo depois por Gale. Ao entrar no camarim, tiveram uma surpresa: a maior parte da sala estava coberta de buquês. Flores de todos os tipos e bilhetes escritos de todas as formas revelavam o apreço que tinham causado a determinados pôneis na plateia. Ganharam até mesmo um buquê com um bilhete assinado pelo prefeito. Can-Can trotou para sua penteadeira; lá jazia um lírio e, ao lado dele, uma pequena nota que dizia:

Aposto que seu papa ficaria muito orgulhoso. E talvez um pouco enciumado pela forma como que você ficou mostrando as pernas! Mas, acima de tudo, ele teria ficado feliz por ver sua pequena em cima de um palco. Você estava linda. Eu amei sua dança. Onde ele estiver, eu sei que ele está sorrindo. Também estou muito feliz por você. Obrigada por ter me chamado para esse momento tão importante na sua vida. Te desejo tudo de melhor. Sempre.

B.

Can-Can sorriu de leve ao terminar de ler. Em seguida, cheirou o lírio e mordeu-o – estava delicioso. Obrigada, Fräulein, pensou. Gale mastigava pétalas de rosas ali perto enquanto lia um bilhete de algum ricaço com ironia. Rain ria enquanto passava seus olhos rapidamente por bilhetes e mais bilhetes, buscando por algum que fosse interessante.

“Achou algo legal, por aí?”, Gale perguntou, de repente, à vedete vermelha.

“Uma notinha escrita pela Fräulein Balance. Ela gostou do nosso show”, a eguinha rubra replicou contente. Nightingale assentiu e voltou a recitar, com desdém, as palavras de um admirador. Algum tempo depois, Skylark entrou no camarim, os pelos do corpo e o figurino estavam totalmente bagunçados por ter disputado espaço com outros pôneis para assistir ao show de Diva. A pônei bege ainda arfava; trotou vacilante até sua cadeira.

“O melhor show de todos os tempos”, disse pausadamente, sua voz entrecortada pela dificuldade para respirar. “Não acredito que vocês perderam o final.” Sky permaneceu sentada, respirando. As outras olhavam para ela como se esperassem algo. “O que foi?”, perguntou confusa.

Can-Can fez um movimento leve com uma pata, apresentando o camarim cheio de flores para a amiga. Foi quando Skylark percebeu que a sala estava lotada de buquês. Com um gritinho estridente e animado, a pônei bege pôs-se a procurar por algum bilhete do príncipe Blue Blood. “A melhor noite de todas!”, anunciou com a voz exausta.

Rain riu exausta. Nightingale revirou os olhos e sorriu. Can-Can voltou a admirar as palavras de Balance silenciosamente.

“Quem é Lorde Herzen?”, Nightingale perguntou de repente. Segurava um bilhete acinzentado entre os cascos. O papel exalava uma colônia masculina bastante agradável.

Rain pensou um pouco e respondeu, “É um dos amigos mais próximos de Herr Grandiose. É um grifo de outro país. E sim, ele é mesmo da realeza por lá”. Um sorriso leve apareceu nos lábios de Gale. As palavras do tal lorde eram lisonjeiras e sensíveis.

“Ele está nos convidando para jantar”, Gale mencionou interessada.

“Vai aceitar o convite?”, Rain questionou preocupada.

“Não parece ser um cara mau.”

“Nenhum deles parece.”

“O Sr. Grandiose seria amigo de um crápula?”

Rain permaneceu calada. Era sabido que Herr Grandiose escolhia muito bem seus amigos. E jamais convidava indivíduos reconhecidamente mal-intencionados para sua mesa. Já vira o grifo na mesa do dono do cabaré algumas vezes e, se Gale se cuidasse, provavelmente não haveria o que temer.

“Se vai mesmo aceitar esse convite, tire o figurino, retoque a maquiagem e peça para algum dos intendentes te escoltar até a mesa dele”, Rain aconselhou. “Não beba demais. E se ele se aproximar muito, afaste-se.”

Nightingale respirou fundo e assentiu.

“Ué, achei que ele tinha convidado todas nós”, Sky interferiu.

“E convidou”, Gale disse.

Skylark deu um enorme sorriso e afirmou, “Pois bem. Eu vou”.

“Não, maninha. Você não vai”, Gale respondeu de modo imperioso. Acabara de dar uma ordem à irmã, que procurou palavras para protestar, mas, por fim, cedeu. Skylark jamais deixava de cumprir as ordens que a irmã lhe dava, mesmo que ficasse contrariada ou ofendida.

Nightingale retirou sua vestimenta rapidamente no banheiro. Dobrou-a às pressas e deixou-a, ainda meio amarrotada, em cima da penteadeira. Retocou a maquiagem, penteou a crina e perguntou às amigas se estava bonita. Após a confirmação de sua beleza, foi ao corredor e pediu que um dos intendentes a acompanhasse até o salão.

“Ela sempre fica com a melhor parte”, Skylark murmurou emburrada.

“Por que não foi junto com ela? Gale não pode impedir você”, Can-Can disse sem entender. Sky bufou e voltou-se para o espelho, para tirar a maquiagem do rosto em silêncio. Não contrariava ordens diretas da irmã porque geralmente estes mandamentos eram relacionados a sua segurança e ao carinho que Gale nutria por ela. Nightingale assumira um papel quase materno para com a irmã depois que as duas foram expulsas de casa.

“Bom, agora me resta ir pra casa dormir”, a jovem bege falou frustrada.

“Sabe que algumas das garotas ficam até mais tarde na sala de jogos conversando?”, Rain perguntou de forma vaga.

“Espera. A gente tem uma sala de jogos?!”

“Fica no final do corredor. Descendo à direita.”

“Vejo vocês amanhã”, Skylark despediu-se breve e animadamente ao sair do camarim em direção à sala de jogos. A expressão curiosa no rosto da vedete vermelha fez Rain explicar que a sala de jogos era composta por um barzinho e uma mesa de bilhar e, apesar de parecer pouca coisa, ficava bastante divertida em algumas noites.

“Eu vou lá no camarim tirar essa roupa. Quando eu voltar, podemos ir?”, Rain perguntou. Can-Can assentiu de imediato; fez o seu melhor para esconder a ansiedade. Quando a pônei malhada deixou o camarim, a eguinha rubra pôs-se a tirar a maquiagem do rosto, em seguida retirou a roupa de dança e pendurou-a com cuidado num dos cabides da arara no canto da sala. Olhou para si mesma no reflexo do espelho, mal podia acreditar que tudo havia ocorrido bem. E apesar de ainda precisar se acostumar com a correria e estranheza do Sun durante a noite, já amava sua nova vida. Começara a trilhar um caminho ao estrelato. Pensou na quantidade absurda de pôneis importantes que a viram dançar naquela noite e que a adoraram.

Naquele instante, sozinha no camarim, Can-Can se deu conta de que as praças jamais lhe dariam o que os palcos poderiam dar – o dinheiro, a fama, a sensação de ser adorada e aclamada –; as praças não poderiam mais satisfazê-la. Prometeu a si mesma que não voltaria a dançar na rua para ganhar esmolas. Sua dança agora pertencia aos palcos. Sorriu. Rain não demorou muito a voltar.

As duas saíram do cabaré para aproveitarem o resto da noite juntas.