Os meses passaram muito rapidamente para a égua rubra.

Foi acertado que o grupo de vedetes faria uma temporada de seis meses com apresentações todas as quartas e sextas-feiras. Can-Can passou a ter fãs. Garanhões adoradores e éguas admiradas conheciam seu nome e gritavam por ele quando a jovem entrava no palco. A cada quinze dias o grupo de dançarinas recebia vestidos novos para o show. Silk continuava a ser a égua mais antipática que as vedetes conheciam; agora, porém, tinha um ódio especial pela pônei de cristal, pois ficara sabendo por fofocas que Rain saía junto com ela à noite, de vez em quando. Silk retorcia-se em seu ciúme doentio toda vez que via algum pônei avermelhado ou de crina prateada.

Can-Can e Rain não namoravam. Saíam e por vezes dormiam nas casas uma da outra, mas jamais se denominavam outra coisa que não amigas.

Durante um de seus costumeiros falatórios pelo cabaré, Skylark mencionou que as amigas gostavam de “se divertir uma com a outra”, e foi responsável por começar a fofoca que chegou aos ouvidos da modista – mas jurava que não havia sido de propósito. No início a pônei de cristal ficava constrangida quando conversas sobre suas intimidades vinham à tona, mas com o tempo passou a se importar cada vez menos. Rain sempre fizera pouco caso, afinal.

Nightingale, agora amigada ao Lorde Herzen, costumava aparecer no camarim com convites extravagantes de bailes e festas dadas por alguns pôneis que frequentavam a mesa de Herr Grandiose. Geralmente os convites eram recusados pelas amigas e pela irmã, pois não se sentiam tão à vontade na presença daqueles pôneis de alta estirpe – os avisos de Rhiannon para tomar cuidado e algumas histórias de antigas vedetes foram capazes de fazer até mesmo Sky não querer se envolver.

Fora o fato de que aceitar convites implicava que precisariam comprar roupas de festa, e Can-Can usava o dinheiro dos primeiros meses de shows para melhorar sua casa. O casebre em que crescera e fora criada estava muito diferente: todas as paredes haviam recebido uma nova demão de tinta cor pérola; os azulejos do banheiro foram trocados para pedras que alternavam vários tons de azul piscina e marinho; as janelas do quarto e da sala tinham cortinas de algodão; agora havia, além do armário para louças, o armário para panelas e um armarinho que servia de despensa na sala; também uma singela mesa circular de madeira fora comprada, veio acompanhada de um conjunto de quatro cadeiras e ficava no canto inferior direito do cômodo; o sofá agora era recoberto por uma capa para deixá-lo mais bonito; e novas roupas de cama enfeitavam a cama nova da dançarina. Sua casa já nem mais parecia aquele casebre paupérrimo no qual sempre viveu. Agora era apenas um casebre, mas um bonitinho, e Can-Can tinha muito orgulho dele.

Mas, às vezes a égua rubra aceitava as propostas de Gale para irem em festas mais humildes, de amigos ou vizinhos, e permitia-se tentar algumas paqueras de uma noite; eram raras ocasiões, porém.

Esse era o novo ritmo da vida da jovem égua. E ela o adorava! A única forma de sentir-se ainda mais satisfeita seria se Turner ou Weather estivessem ali. Em compensação, o melhor amigo de Can-Can nunca deixava de mandar suas cartas semanais, e em cada uma delas revelava suas alegrias, suas tristezas, suas perspectivas e preocupações da vida em Cloudsdale. O pégaso conseguira o trabalho que queria: mover tempestades tropicais. Vivia de adrenalina, o perigo das descargas elétricas não o intimidava. Fizera vários amigos no trabalho e no prédio onde morava. Conhecera uma égua, chamada Storm Call, e estavam em caminhos de engatar um relacionamento sério. Na última carta que Can-Can respondera, deixara muito claro que queria saber tudo sobre tal pônei, para saber se era “boa o suficiente” para o amigo.

Can-Can fazia visitas esporádicas aos pais de Weather a fim de saber como o casal estava. Também visitava Balance em alguns finais de semana – geralmente levava Skylark consigo quando o fazia, pois a pônei bege ficara muito amiga dos alunos da Fräulein.

Rhiannon ainda coordenava as coreografias das vedetes e treinava as novatas. Nunca chegaram a lhe perguntar sobre Diva; a desavença das duas permaneceria em segredo.

Os seis meses se passaram num piscar de olhos. A égua rubra sentia que aqueles haviam sido os melhores de sua vida, pois ficara conhecida, divertira-se bastante, reformara a casa, tinha boas amigas e nada dera errado.

Um dia após a última apresentação da temporada, Can-Can voltou ao Sun para saber o que seria feito a partir de então.

Após as temporadas de show, as dançarinas geralmente eram remanejadas para grupos de dança em apresentações diferentes. Finesse transferira Skylark e Nightingale para um dos shows de maior sucesso da casa; Can-Can ficou surpresa ao ver as amigas provando terninhos no camarim.

“Advinha quem vai deixar a plateia maluca nas terças?”, Skylark ronronou.

Sentada em frente à penteadeira, Gale lutava contra a gravata borboleta que usava. “Eu sei que eu não vou. Não consigo tirar nem a gravata, imagina as calças!”, reclamou, dando um nó estranho na gravata sem querer.

“Aposto que você vai ficar profissional nisso”, Can-Can escarneceu.

“Então, já falou com Finesse? Ele estava procurando por você. Não tá doida pra saber em qual show vai ficar nessa temporada?!”, Skylark interveio animada.

A pônei de cristal assentiu com vigor. Queria muito saber que dança faria, e torcia bastante para não acabar num grupo de vedetes antipáticas. Algumas pôneis conseguiam ser realmente chatas. “Aliás, alguma de vocês sabe onde a Rain vai ficar?”, perguntou.

“Ouvi falar que passaram ela pro show de abertura”, Gale replicou incerta. O show de abertura do Sun era o único que acontecia todas as noites do ano todo. A maior parte das apresentações era substituída ou alterada após seis meses e geralmente só voltavam a acontecer após outros seis meses ou um ano. As dançarinas que abriam a noite da casa eram as que mais trabalhavam, porque além de se revezarem em dois grupos, um para segundas, quartas, sextas e domingos, e outro para terças, quintas e sábados, muitas vezes também participavam de outras apresentações, fossem como participantes integrais de grupos, fossem como tapa buracos de casos extraordinários. Eram também as pôneis mais conhecidas e portadoras dos maiores salários do cabaré.

Can-Can imaginou a amiga malhada dançando todas as noites, incansável e bela. Despediu-se brevemente de Sky e Gale e partiu para a sala da administração. Perguntava-se se teria de mudar de camarim; estava acostumada a se arrumar com as amigas e não queria perder isso. Bateu na porta da sala três vezes e entrou. Duas secretárias redigiam documentos velozmente em suas mesas, mal deram atenção à égua que entrara e se dirigia para a porta ao fundo do cômodo, que levava ao escritório do intendente chefe. Lá dentro Finesse organizava enormes pilhas de papéis importante em sua grandiosa e extravagante mesa de mogno. Percebeu a pônei que se aproximava e usou sua magia para pôr uma cadeira para ela do outro lado da mesa. Comportada, Can-Can sentou e esperou que o intendente terminasse o que estava fazendo. O velho unicórnio parecia distraído e fazia o trabalho sem muita concentração. Seu chifre emitia um brilho avermelhado que levava papéis de um lado para o outro, separando-os em pilhas em cima da mesa. Após alguns instantes de silêncio, o pônei marfim respirou fundo; o brilho de magia em seu chifre sumiu. Ele recostou-se na cadeira e encarou a vedete com um olhar sério, porém sem a rigidez costumeira.

“Imagino que tenha vindo saber sobre a sua situação”, comentou.

A égua rubra assentiu em silêncio, esperava ansiosa.

“Can-Can, veja bem...”, Finesse murmurou e ela não gostou nada do tom incerto na voz dele. “Sabe que normalmente as dançarinas alternam as apresentações a cada seis meses. Geralmente não há problemas, mas acontece que nem sempre temos trabalho para todas. A contratação de Skylark e Nightingale junto com o seu aparecimento foi muito fortuita, de fato, porque puderam formar um grupo novo para uma dança nova, mas acontece que não podemos mais continuar com o mesmo show de vocês, os clientes podem se cansar dele.” Quanto mais o unicórnio falava, mais nervosa a pônei de cristal ficava na cadeira; as pernas traseiras de Can-Can balançavam irrequietas. Ela entendia que os shows deveriam ser renovados com o tempo, e que uma temporada fora podia atiçar certa saudade nos fãs, mas quando Finesse colocava que a plateia podia se cansar de sua dança, parecia algo muito idiota de se dizer. Fora isso, temia não querer saber onde ele pretendia chegar dizendo aquilo tudo.

“Acontece que tivemos algumas demissões recentemente e ao transferir suas amigas para outros grupos, acabamos sem ter onde colocar você”, ele declarou calmo. Can-Can engoliu em seco e nada disse.

“Temos um grupo que ficou desfalcado em uma pônei, mas acontece que o seu pelo não torna as coisas viáveis. Teríamos de refazer a sequência de luzes da apresentação inteira, e ela depende muito da iluminação. Teríamos gastos grandes por causa disso, e essa dança pode ser feita com uma vedete a menos, basta uma reorganização de coreografia muito simples, entende? Bom, eu vou precisar ser direto: não temos emprego para você nesta temporada.”

Pasma, a égua rubra quase deixou o queixo cair. Como pode não ter trabalho para mim, questionou-se mentalmente. Mal acreditava no que acabara de ouvir. Balbuciou coisas ininteligíveis por alguns segundos, procurando formas de protestar contra tamanha injustiça. Frustrada e sem opções, elevou a voz e disse em tom feroz, “Como assim?!”

Em circunstâncias normais Finesse teria, de imediato, calado a boca do pônei que ousara gritar com ele, no entanto não tinha como não se apiedar da vedete naquele momento.

“Minha jovem, entenda...”, ele começou a dizer com sua voz mais mansa, mas foi interrompido por uma Can-Can cheia de fúria e com pouca vontade ouvir.

“Entender o quê? Que vocês estão me colocando para fora? Isso lá é coisa para se entender? Vou ficar sem emprego!”

Finesse não respondeu, apenas respirou fundo e esperou que ela terminasse de falar.

“Eu sou alguma coisa aqui dentro, não sou?! Meus fãs não vão gostar nada de saber que fui expulsa daqui. Você vai se arrepender!”, ela protestava envaidecendo-se. Quando fez menção a continuar a falar, o intendente-chefe perdeu a paciência e bateu um casco na mesa com toda a força que tinha.

A pônei de cristal quase caiu da cadeira, tamanho susto.

“Agora vamos! Pare com isso. Seus fãs? Seus fãs são fãs do Sun, não seus. Não se iluda. Esses pôneis idolatram e esquecem as vedetes mais rápido que os Wonderbolts voam”, ele vociferou assustador. Can-Can encolheu-se na cadeira, não lhe ocorria responder coisa alguma. Finesse acalmou-se um pouco antes de continuar, “Sei como deve estar se sentindo. Eu também não julgo isso tudo uma coisa muito justa, mas, como deve saber, o Sun não funciona de graça, e ainda temos que visar o lucro de Herr Grandiose. As mudanças necessárias para a sua recontratação são dispendiosas e não necessariamente são garantia de lucro no futuro. Eu quero pedir desculpas em nome do cabaré e de Herr Grandiose. Sentimos muitíssimo”.

A égua rubra mal conseguia conter a vontade de revoltar-se contra o intendente. Que garantia melhor de lucro futuro haveria que não fosse ela? Não acreditava que ele ou o proprietário da casa sentiam qualquer compaixão. Estavam jogando-a no olho da rua e a única coisa que tinham para dizer-lhe era que sentiam muito? Can-Can usou, mentalmente, todos os xingamentos que conhecia contra os dois pôneis.

Magicamente, Finesse retirou duas cartas lacradas de uma das gavetas em sua mesa. Passou o primeiro envelope pela mesa; dentro dele havia o último salário da vedete e um bônus como pedido de desculpas. A segunda carta, ele segurou entre os cascos.

“Eu tenho um amigo no sul da cidade. Ele é dono de uma taberna bem movimentada e pode estar precisando de algum show diferenciado para divertir os clientes. Isto aqui é uma carta de indicação. Acho difícil ele não empregar você, pelo menos por alguns dias, depois de ler o que está escrito aqui”, Finesse explicou e ofereceu o segundo envelope.

Can-Can pegou a carta. Olhou para o papel em silêncio, desejando ter alguma forma de convencer Finesse a deixá-la ficar. Nada lhe veio à mente. Suspirou, devastada.

“É o máximo que posso fazer por você, minha jovem. Sinto muito”, o intendente disse em voz baixa, porém decisiva. Era a deixa para que a vedete fosse embora. Can-Can segurou as duas cartas com os dentes e saiu do escritório do unicórnio, passou pelas secretárias que mais uma vez não lhe deram atenção, virou à esquerda no corredor e foi para os camarins. Quando entrou na pequena sala, foi direto para sua penteadeira, deixou as cartas caírem em cima dela e sentou-se na cadeira. Seus pelos menos cintilantes que o normal e a expressão miserável no rosto chamaram atenção das amigas que tinha ignorado ao entrar.

“Can-Can? Tá tudo bem?”, Skylark perguntou preocupada.

Nenhuma resposta veio, então Nightingale falou, “Algum problema?”

A égua de cristal baixou a cabeça e pôs-se a encarar os próprios cascos tristemente. As amigas se aproximaram dela e deram-lhe um abraço coletivo carinhoso, mesmo sem saber o que havia acontecido. Como uma potrinha, a vedete vermelha contou sobre a conversa que tivera com Finesse entre leves soluços. Sky e Gale entreolharam-se muito preocupadas.

Gale dava tapinhas reconfortantes nas costas da amiga e Skylark sussurrava gentilmente para apaziguar, “Shh, calma. Tudo vai dar certo. A gente ajuda. Não seja boba, ninguém vai deixar você passar dificuldades”. Porém, Can-Can estava mais triste por perder o emprego de seus sonhos do que pela possibilidade de passar dificuldades.

“Ele me deu uma carta de indicação”, a égua de cristal mencionou entre soluços. Gale pegou a carta e leu o endereço para a qual se destinava. Passou-a para a irmã e voltou a abraçar a amiga.

“Não se preocupe. Nós vamos lá com você e vai dar tudo certo. Amanhã você já vai estar empregada de novo”, Skylark assegurou. Can-Can assentiu e apertou o abraço.

Neste momento Rain entrou no camarim. Sorriu ao ver a cena em sua frente e disse, “Acho que isso está virando costume”.

Can-Can virou para a égua manchada com uma lágrima escorrendo pela face esquerda. Surpreendeu-a.

O sorriso de Rain sumiu e foi substituído por uma expressão consternada. “O que houve?”, ela perguntou. Can-Can ajeitou-se na cadeira para ficar de frente para a recém-chegada e estendeu as patas dianteiras, pedindo um abraço.

Rain quase galopou até o abraço apertado da amiga que choramingava. Olhou para Sky e Gale em busca de explicações. As irmãs contaram o que acontecera e mostraram a carta. A égua malhada esfregou um casco nas costas da amiga a fim de acalmá-la e disse em voz baixa, “Mein liebe, não tem por que chorar, vamos. Eu conheço o lugar que Finesse disse para você procurar. Não é nada ruim”.

“É sério?”, Can-Can perguntou com a voz esganiçada.

Rain assentiu e disse, “Acho que você pode até mesmo gostar de lá”.

É muito fácil para ela dizer, não foi ela a demitida, a pônei de cristal pensou amargurada; lançou um olhar duvidoso e aborrecido à égua loira. Empática, Rain abraçou-a com força e pediu desculpas em voz baixa.

Após ser reconfortada pelas amigas, Can-Can levantou da cadeira e enxugou os olhos. Pegou os alforjes e encheu-os com as coisas que ficavam em sua penteadeira: suas maquiagens e pentes. Respirou fundo, despediu-se das amigas e fez menção a sair do camarim. Skylark perguntou se não gostaria de passar a noite no apartamento dela e da irmã. Can-Can recusou o convite com educação e saiu. Olhou atentamente cada canto do Sun enquanto ia em direção à saída – queria guardar memórias do lugar, pois não se imaginava voltando ali em um bom tempo. Cruzou com Rhiannon pelo corredor e a coreógrafa deu-lhe uma saudação amistosa. A égua rubra não parou para conversar e respondeu com um resmungo baixo que a pégaso rósea não conseguiu entender e estranhou bastante.

A pégaso voou por cima de Can-Can, pairou sobre ela e perguntou se havia algum problema. Sisuda, a vedete vermelha respondeu, “Preciso ir”, e seguiu caminho. Deixou Rhiannon no corredor com uma expressão confusa no rosto.

Can-Can não queria tê-la tratado mal, porém não queria continuar conversando. A única coisa que queria naquele momento era chegar em casa, deitar na cama, dormir e fingir que nada daquilo tinha acontecido. Apenas bufou quando o porteiro se despediu dela no portão de empregados. Trotou pelas calçadas frustrada e com raiva, batia os cascos com força no chão em cada passada. Alguns pôneis viravam as cabeças ao vê-la se aproximar fazendo tanto estardalhaço.

Não têm emprego para mim, a voz em sua cabeça repetia, como pode? Uma parte de si queria muito gritar, tamanha era sua indignação.

Chegar em casa foi um alívio. Can-Can recolheu algumas cartas que tinham sido jogadas pelo carteiro por debaixo da porta e foi sentar-se no sofá para descansar. Após um tempo em silêncio e sozinha, acalmou-se completamente. Arrependeu-se de ter sido grosseira com Rhiannon e prometeu a si mesma que pediria perdão assim que fosse possível. Deixou os alforjes no chão ao lado do sofá, pegou as cartas e verificou-as uma por uma. A primeira que abriu foi a de seu pagamento, fez cálculos rápidos e soube que se economizasse poderia passar um mês apenas com aquele dinheiro. Deixou a carta de indicação ainda lacrada. Abriu as contas de água e de luz; refez seus cálculos e percebeu que poderia passar quase um mês com o dinheiro que tinha, a conta de água havia ficado mais cara; no entanto, não se preocupou demais com isso, afinal, era tempo mais que o suficiente para conseguir um novo trabalho, mesmo que não fosse um emprego ideal.

A simples ideia de voltar a ser faxineira passou voando pela cabeça da jovem égua e fez com que ela torcesse o focinho em desgosto.

Finalmente, foi pega de surpresa ao perceber que havia uma carta de Weather entre os envelopes que tinha em seus cascos. Sorriu, abriu o envelope e pôs-se a ler o que dizia o amigo.

“Can-Can,

Acho que eu, mais do que ninguém, deveria saber se a Stormy é boa pra mim ou não, não é? Mas eu vou falar um pouquinho dela. Ela é bem esquentadinha, estamos sempre discutindo um com o outro por coisas idiotas; mas cada reconciliação vale muito a pena. Sério, você não faz ideia! (Risos)

Talvez você até possa dizer que eu seja suspeito para falar, mas ela não perde em beleza para nenhuma outra pônei que eu já tenha visto. Mas muito além disso, ela é muito companheira, esperta, divertida, e consegue rir de todas as minhas piadas! Tem o sorriso mais meigo que eu já vi. O olhar mais sincero também. Essa pégaso é uma coisa inacreditável. Algum dia, se puder, apresento vocês duas e aí você vai entender tudo isso que eu disse. Eu não lembro agora se mencionei que nos conhecemos no trabalho; ela é minha superior e ficava brigando comigo todos os dias, temendo que eu fizesse alguma besteira. Agora ela briga comigo dez vezes mais, mas agora ela briga por ficar preocupada; outro dia eu quase fui acertado por um raio. Se não fosse por ela, nem sei se teria a oportunidade de enviar essa carta.

Por hoje é só. Meus horários estão apertados e tenho que ir. Espero que tudo esteja bem por aí. Até.

Com muito carinho, Weather.

P.S.: Reparei que dessa vez o Jon colocou até meu riso na carta. Esse cara não perde uma! (Mais risos)”

A égua rubra terminou de ler a carta e largou-a no sofá. Deu um sorriso ao imaginar o escriba do correio redigindo as cartas do amigo. Depois pensou que Weather falara bastante e, ao mesmo tempo, nada, da namorada. Aquele idiota está apaixonado, Can-Can pensou contente. Estava feliz por ele. Decidiu que não escreveria uma resposta de imediato. Não queria escrever sobre a demissão.

Suspirou e pegou a carta de indicação de Finesse. Estava endereçada a um tal de Herr Keep, na avenida Promontory, 402. Pelo que sabia, o lugar deveria ficar próximo a saída sul da cidade, que dava para a estrada que ia em direção à Manehattan.

Can-Can lembrou que não chegara a combinar um horário com as amigas que a acompanhariam. Bufou frustrada. Acordaria cedo na manhã seguinte e ficaria esperando; se até o almoço nenhuma delas aparecesse, iria sozinha. A jovem passou o resto do dia lendo suas revistas e tentando não pensar no cabaré. Ao pôr do sol, fez um ensopado de cebolinha e salsa e pôs-se cedo para dormir. Naquela noite, sonhou que trotava sozinha por uma estrada interminável; dia e noite.