“Dançamos a tarde toda! Eu mostrei para elas como fazer. E depois Rhiannon deu uns toques na coreografia. É perfeita para dançar em grupo”, a eguinha rubra dizia animada para Weather. O pônei turquesa olhava feliz para a amiga. Não a via animada daquela forma há muito tempo, pois não encontrara mais horários para conversar com ela ou para buscá-la no trabalho desde que ele mesmo começara a trabalhar. Fazia algumas semanas desde que ela já não era mais faxineira. Can-Can ainda não tinha se apresentado durante a noite no Sun, sequer ia lá à noite, mas estava ansiosa para subir no palco.

“Eu vou dançar junto com a Sky e a Gale, temos quase a mesma altura, então vai ficar bonito na apresentação! E você devia ver essas duas, aposto que ia adorar elas”, Can-Can falou com um toque de malícia na voz.

Weather revirou os olhos e retrucou, “Se você gosta tanto assim delas, aposto que devem ser umas coisinhas lindas”. Can-Can assentiu. A chaleira chiou no fogão, a pônei de cristal foi verificá-la. Era a primeira vez que se fazia chá na casa da jovem, o novo salário lhe dava novas regalias. Um pequeno amontoado de revistas agora ficava jogado ao lado do sofá, Weather perguntou do que aquilo se tratava.

“Às vezes elas vêm aqui em casa; estávamos conversando um dia e de repente começaram a falar de uma cantora e dançarina que eu não conhecia. Sapphire Shores, já ouviu falar? ‘O problema de Germane é que parece uma cidade de mil anos atrás, tudo é velho por aqui’, a Sky disse. Elas me mostraram uma revista e eu fiquei sabendo de um monte de coisas que não fazia ideia. Aí comecei a comprar várias”, Can-Can explicou enquanto servia o chá em duas pequenas xícaras de porcelana. “Já ouviu falar de música eletrônica? Dizem que é uma nova moda, Gale disse que devíamos ir em Baltimare qualquer dia desses para uma festa. Estou pensando em ir.”

Weather pegou uma das revistas entre os cascos e começou a folheá-la, sentado no sofá. Os assuntos eram variados: música, teatro, política, economia, livros, filmes. Filmes, ele pensou. “Can-Can, já foi no cinema?”, perguntou. Germane só possuía um cinema, e as entradas eram bem dispendiosas.

“Sim, fui com as garotas. Foi divertido”, a eguinha rubra respondeu prontamente. O pégaso deu um gemido em concordância. “E o que mais você fez com essas duas?”, ele perguntou.

“Além de ir ao cinema? Bem, eu mostrei para elas as minhas praças preferidas, fomos comer uns pãezinhos na Dame Freud, levei a Sky numa livraria que a Sticks frequentava, porque ela queria um livro novo... ei, eu sei o que você está insinuando. Não seja bobo, são minhas amigas”, a eguinha disse entre risos.

“E elas vêm muito por aqui?”, Weather perguntou. Can-Can achou que o amigo estava agindo de forma estranha, até assemelhava-se um pouco a Turner. Uma suposição boba passou pela cabeça da eguinha, que deu um meio sorriso sacana.

“Hum... eu acho que alguém aqui está com ciúme das minhas amigas”, Can-Can sugeriu enquanto abraçava carinhosamente o pégaso e sentava ao seu lado, oferecendo uma xícara. “Não tem por que se preocupar. No meu coração você tem um lugar cativo.”

Weather pegou a xícara e não respondeu nada. Não estava com ciúmes, era outra coisa. Mas os gestos e as palavras da pônei de cristal fizeram com que um leve rubor surgisse em seu rosto. Aquele era o terceiro mês desde a morte do pai, e Can-Can conseguia sorrir e brincar de novo, graças as novas amigas, ao novo trabalho, e principalmente ao próprio Turner, que lhe deixara uma música.

“Ah, sabe que eu estava mexendo nas coisas do papa de novo outro dia e encontrei as receitas de ensopado dele? Tem uns vinte! Vinte ensopados diferentes, dá para acreditar?”, Can-Can falou distraída. Weather assentiu entre risos. Chegara a provar um dos ensopados do pai da amiga certa vez, e estava delicioso. Tanto tempo de vida com tão pouco dinheiro havia feito com que o garanhão cinzento se tornasse especialista em sopas baratas, porém gostosas.

O pégaso olhou para uma vitrola que agora estava no canto da sala, era nova, assim como as cortinas nas janelas da sala e do quarto. “Eles estão pagando você mesmo que ainda não tenha feito nenhum show?”, o pônei turquesa perguntou desconfiado.

“No Sun, todas as apresentações precisam ser perfeitas. Herr Grandiose tem um público muito exigente no cabaré. E a minha dança é nova, assim como a música do papa, que Herr Often Bass precisa finalizar, e ainda tem os figurinos e iluminação que precisam ser pensados. Então estamos só ensaiando por um tempo; é como um investimento. Todo mundo sabe que vai ser um sucesso!”, Can-Can esclareceu, orgulhosa. “Estou pensando em colocar um papel de parede aqui na sala. Sabia que essas paredes já foram amarelas?” Uma rápida olhada mostrou para Weather as paredes quase esverdeadas da casa da amiga.

“As garotas disseram que viriam aqui em casa hoje à noite. Por que não fica para conhecê-las?”, a eguinha rubra sugeriu, logo após tomar um gole do chá de camomila. Fez uma cara feia, o gosto do líquido era estranho. Convenceu-se de que aquele deveria ser o tipo de gosto que se adquire e tomou outro gole.

“Eu não posso. Hoje peguei o turno da noite. Vai chover durante a madrugada, então diga para as suas amigas não saírem daqui muito tarde”, Weather aconselhou.

“Você vai fazer chover só para que elas não fiquem muito tempo aqui ou essa chuva já estava agendada há muito tempo? Hein?”, Can-Can provocou o amigo.

“Juro pela princesa Luna que essa chuva já estava agendada”, o pégaso respondeu com um sorriso no rosto. A eguinha rubra bateu no ombro dele com um casco e o chamou de bobo.

“É sério, é sério. Já estava agendada mesmo”, Weather insistiu rindo.

“Tem certeza que não pode ficar? Elas devem chegar daqui a pouco, o sol já está se pondo”, Can-Can murmurou. Weather recusou o convite gentilmente mais uma vez. Não podia ficar, mas falou que voltaria outro dia para compensar. O pônei turquesa tomou o chá todo de uma vez e precipitou-se para sair. A eguinha rubra o acompanhou até a rua e despediram-se. Depois de um beijo no rosto, Weather levantou voo e se foi.

Skylark e Nightingale tinham acabado de virar a esquina, vinham acompanhadas de outros três pôneis. Uma pônei terrestre, de pelo cor de chocolate, manchado por branco nas costas, na barriga, e no rosto; tinha os olhos de um ciano muito bonito, a crina e cauda muito longas, eram de um louro muito claro; ao lado dela, um jovem garanhão de pelos dourados, a crina e cauda curtas eram de um tom pouco mais escuro, os olhos castanhos escuros; e um pouco mais atrás, outro garanhão os seguia, este, de pelos alaranjados, crina e cauda em vários tons de amarelo em dégradé, e olhos ametistas.

“Eu vi! Quem era aquele?”, Skylark bradou ainda se aproximando. Sorria de orelha a orelha.

“Um amigo. Eu o convidei para ficar e conhecer vocês, mas ele não podia”, Can-Can respondeu distraída, olhando para o céu ainda podia enxergar Weather ao longe. Ficou preocupada com o pégaso, ele tinha agido de uma forma incomum. Mas antes pudesse pensar mais a respeito do melhor amigo, Skylark a abraçou por trás, praticamente pulando em cima de suas costas. “Hum... Mana, ele não quis conhecer a gente!”

“Ou a Can-Can falou muito mal da gente, ou a porta do estábulo dele abre pro outro lado”, Nightingale retrucou, ácida.

“Ei! Não é nada disso”, Can-Can protestou rapidamente.

“Hum... ela parece ter certeza... isso quer dizer alguma coisa, não é?!”, Skylark sugeriu com um tom de voz malicioso, e encostou um casco no focinho da eguinha rubra, que enrubesceria se pudesse. Também não é nada disso, Can-Can pensou. Antes que pudesse dizer algo, Nightingale interferiu, “Mas se o interesse dele é esse, devíamos ter dito que o High vinha com a gente. Aí os dois potros podiam se conhecer um pouquinho”.

“Ei!”, o unicórnio dourado disse ríspido.

“É brincadeirinha, seu bobo. Ou será que está irritadinho por ter perdido a oportunidade de achar um namoradinho pra você?”, Nightingale falou, seu sorriso muito satisfeito. O unicórnio dourado torceu o focinho em desagrado. Gale pediu desculpas, achando graça. As irmãs podiam ser um tanto inconvenientes, mas ambas tinham bom coração.

“Então, você falou mal da gente?”, Skylark perguntou. Ainda abraçava a pônei de cristal e falava perto de seu ouvido.

“É claro que não”, Can-Can respondeu.

“Mana, já pode parar de bobagem e fazer as apresentações”, Nightingale interviu, como se tivesse pressa. Skylark assentiu.

“Bem, o unicórnio sensível ali é Gold High. Ele trabalha no balcão do Sun, servindo bebidas”, Sky falou; em seguida largou Can-Can e se aproximou do unicórnio, depois empurrou ele para perto da amiga para que a cumprimentasse. A pônei de cristal ficou com a estranha sensação de que já havia visto aquele unicórnio em algum lugar. Então foi a vez da égua castanha ser apresentada. “Essa maravilha aqui é Light Rain, ela vai dançar com a gente. Rhiannon disse que o show ficaria mais bonito num quarteto”, Nightigale apresentou. Rain se aproximou de Can-Can e a cumprimentou com um “olá” gentil, e um sorriso encantador. A Marca da égua era como uma pequena poça d’água na qual uma gota acabara de cair criando leves ondulações, Can-Can reparou. O outro unicórnio foi apresentado brevemente como Stand Still, e era um dos seguranças do cabaré.

“Quem deveria guiar os pônei para dentro da casa não deveria ser a nossa anfitriã?”, Skylark perguntou em voz alta, passando pela entrada. Nightingale já estava lá dentro. High e Still permaneciam no batente sem saber ao certo se deveriam entrar ou não, logo mais, adentraram na casa. “Eu já sou da família. Posso tomar certas liberdades”, Nightingale respondeu lá de dentro.

“Oh! Por favor, entre”, Can-Can disse para Rain, que ainda estava na calçada ao seu lado. A égua sorriu mais uma vez e acompanhou a anfitriã para dentro de casa. A pônei manchada tinha um trotar altivo e gracioso. Skylark e Nightingale mostraram a casa para os unicórnios; mesmo não havendo muito para mostrar. Não muito tempo depois, uma das irmãs estava com a cabeça dentro no forno, avaliando a possibilidade de usarem para fazer uma torta. A outra dava uma olhada nos alforjes que trazia consigo, revirava o conteúdo dentro deles com cuidado. “Bem, é só colocar o forno pra pré-aquecer e dar um pulo no mercadinho mais próximo”, Skylark anunciou, tirando a cabeça de dentro do forno. “Eu vou lá se a Can-Can me der indicações.”

“O mais próximo fica a dois quarteirões daqui. É só virar à esquerda quando chegar na esquina e seguir”, a eguinha rubra respondeu fazendo sinais com os cascos para não haver erro. Sky assentiu e logo mais voltava para a rua.

Rain prostrou-se ao lado da vitrola no canto da sala, mexia no pequeno monte de discos. “Coloca algo animado, não quero saber de música lenta”, Nightingale avisou. High sentara-se no sofá, tirou dos alforjes duas grandes garrafas de vidro esverdeado e começou a conversar com a pônei bege. Can-Can não prestava atenção no que diziam. Foi até Rain para ajudá-la a escolher um disco.

“De que tipo de música você gosta?”, Can-Can perguntou, olhando para o rosto da égua manchada. O focinho arredondado, a expressão serena, uma pequena pinta no rabo do olho esquerdo; a face da égua parecia uma pintura.

“Sinceramente, adoro dançar. Mas quando estou em casa, prefiro músicas mais relaxantes. Eu acho que a Gale não vai gostar se eu escolher”, Rain respondeu, remexendo os discos com cuidado. “Acho melhor você fazer isso.”

Can-Can sabia exatamente que disco colocar na vitrola, não demorou mais que uns segundos para escolher uma nobre seleção de músicas calmas para criar um clima acolhedor. Quando Gale protestou, a eguinha rubra bradou, “Minha casa, minha música!”

Rain agradeceu com um sorriso amável no rosto. “Se precisar de alguma coisa, qualquer coisa, é só falar”, Can-Can retrucou com alguma sugestão na voz. A égua malhada não pareceu perceber.

“Vamos ter que esperar a Sky voltar ou podemos começar a tomar o champanhe?”, High perguntou com desinteresse mal disfarçado. “Sabe, nós podíamos já ter começado o jogo quando ela chegasse.”

“Jogo?”, Can-Can perguntou.

“Precisamos de uma garrafa vazia pra começar mesmo, acho que a Sky não vai se importar muito”, Gale disse, mesmo sabendo que aquilo era mentira. “Venham, vamos beber um pouco.”

Rain virou-se para olhar o sofá onde High, Still e Gale disputavam lugar. O rabo da égua chicoteou levemente o rosto de Can-Can durante o processo. A pônei manchada pediu desculpas, sorriu para a de cristal, ergueu um pouco a cauda e trotou em direção aos outros pôneis na sala. Olhou para trás e sinalizou com a cabeça para que Can-Can a seguisse. A eguinha rubra, atônita pela visão que acabara de ter, mas contente, a seguiu.

“Vamos pegar leve porque a Can-Can nunca brincou de girar a garrafa”, Nightingale avisou maliciosa. “E acho que nunca bebeu champanhe também. Essa noite vai ser divertida.”

*** *** ***

Can-Can acordou zonza e com um leve latejar na cabeça. Estava na cama, sentou-se e olhou para a janela. Uma pequena abertura entre as cortinas deixava um feixe de luz do sol penetrar no quarto, irritando seus olhos. A jovem coçou a cabeça e ficou pensando na noite anterior. Rain, Can-Can pensou com um meio sorriso no rosto. Tinha beijado a égua manchada, graças ao famigerado e instigante jogo que Nightingale resolvera começar. Quando a primeira garrafa de champanhe terminara, a eguinha rubra já estava mais do que disposta a beijar quem quer que fosse o pônei para que a garrafa apontasse. Mas, em algum momento da noite já beijava Rain antes da garrafa parar de girar. E pelo que se lembrava, a égua parecera gostar.

Deitou-se de novo, espalhando o corpo pela cama para espantar a preguiça. Sentiu algo roçar em suas costas. Sentou-se mais uma vez e procurou o quer que fosse. Havia um bilhete no colchão, um pequenino pedaço de papel dobrado. Nele estava uma breve mensagem, escrita numa grafia alongada e um pouco tremida:

Can-Can,

Queria dizer que agradeço pela noite maravilhosa. Me diverti bastante. E adorei você ter escolhido um disco para mim, foi adorável. Espero que possamos ter outros momentos como esse.

Com carinho, Rain.

P.S.: Você flerta muito mal. Mas fica fofa quando o faz.

Releu o bilhete três vezes, sorrindo. “Rain?!”, a eguinha rubra disse para si mesma, não era capaz de conter sua animação. Espera, quando foi que ela deixou esse bilhete aqui e eu não percebi, Can-Can questionou-se mentalmente. Franziu o cenho, tentando se lembrar de mais coisas. Tinha passado muito tempo agarrada com Rain na sala e, sem querer, as duas estragaram o jogo, afinal, as irmãs não viam tanta graça em jogarem apenas em quatro pôneis. Logo, apenas preocupavam-se em terminar a segunda garrafa e comer a torta que Skylark quase deixara queimar no fogão. Como nunca tinha bebido nada alcoólico, e como havia bebido até muito para uma primeira vez, a pônei de cristal sentiu-se mal e pediu para ser levada ao quarto. Rain a deixou na cama com cuidado, então a potra rubra adormeceu. Burra, Can-Can pensou. Gostaria de ter continuado acordada, e prometeu para si mesma que não beberia muito de novo.

Pulou para fora da cama e saiu do quarto. A sala de casa estava uma bagunça. Havia cacos de vidro amontoados num canto, a pilha de discos fora completamente revirada, as almofadas do sofá estavam jogadas pelo chão, uma das cortinas da janela da sala estava caída no chão, alguém havia esbarrado no caixote de panelas e o derrubado. Can-Can torceu o focinho, aborrecida. Como se não bastasse o latejar, fraco, porém insistente, em sua cabeça, teria de limpar a casa. Após banhar-se rapidamente, começou a arrumar as coisas devagar. O relógio na parede marcava pouco mais de meio-dia. Can-Can não estava com fome, logo, limitou-se a continuar sua vagarosa arrumação. Uma batida na porta fez com que tomasse um susto.

“Can-Can?”, chamou a voz de Weather do outro lado. Largou o caixote de panelas como estava, no chão, e foi atender a porta. Ao abri-la, sorriu um tanto sem jeito.

“Clean! Oi, hum, não presta muita atenção na bagunça, por favor”, ela o recebeu. Fez um sinal com o casco para que ele entrasse. Weather observou a casa. Parecia que um pequeno furacão havia passado por ali na noite anterior.

“Se quiser, eu posso voltar outra hora”, ele sugeriu surpreso.

“Não, não. Não precisa, é só me dar um tempinho e eu dou um jeito em tudo. Se quiser, faço um chá para nós”, Can-Can respondeu contente, apesar da dor de cabeça.

“Eu... preciso conversar sobre uma coisa”, Weather disse inquieto. A eguinha rubra fitou o rosto do amigo. O pégaso rapidamente se propôs a ajudá-la na arrumação. Logo mais, tudo no seu devido lugar, os dois pôneis encaravam-se, ambos sentados no sofá, a chaleira aquecendo sobre o fogão. Can-Can pediu, apreendiva, para que Weather dissesse o que estava acontecendo. O pégaso respirou fundo e procurou as palavras certas.

“Bem, eu estou pensando em sair da cidade. Já juntei dinheiro suficiente pra ir pra Cloudsdale e alugar um quarto enquanto tento conseguir emprego. Não deve demorar pra achar trabalho lá”, ele disse tudo de uma vez. Can-Can encarou-o meio confusa, perguntando-se se aquilo era uma despedida. Weather esperou que ela dissesse alguma coisa.

“Achei que você tinha esquecido dessa ideia de ir embora”, ela falou pensativa. Completou com uma risadinha histérica e incrédula, “Você e essas suas coisas de pégaso.”

“Não são coisas de pégaso. Quer dizer, até são, morar em uma cidade nas nuvens e tal. Mas não é só isso. Eu não quero ter nascido e morrer no mesmo lugar. Não quero ter visto os mesmos pôneis todos os dias até ficar velho. O mundo tem muito mais pra mostrar, não acha? Talvez eu nem goste tanto assim de Cloudsdale e vá pra outro lugar depois, quem sabe?! Mas eu quero ir”, Weather explicou. Era um pônei de alma livre, difícil de entender. Can-Can deu um sorriso resignado; seu melhor amigo ia partir. Era quase irônico o quanto a eguinha rubra sentiria falta de um pônei que, quando conhecera, era tão irritante e abusado.

“Eu vou sentir tanto a sua falta”, Can-Can sussurrou, a voz vacilante quase sumindo antes de terminar a frase. Ela olhou para os próprios cascos por um momento. “Quem é que eu vou chamar de idiota agora?”, ela tentou brincar, mas a sua voz ficou esganiçada e pareceu um lamento. O latejar em sua cabeça havia parado, pelo menos. Não conseguiria suportar aquela situação com aquele badalar irritante e doloroso. Respirou fundo e piscou os olhos para evitar lágrimas.

Weather afastou suas patas dianteiras uma da outra, oferecendo um abraço que Can-Can não demorou em aceitar. A pônei de cristal sempre se sentira muito à vontade nos abraços do amigo e aconchegar-se em Weather só podia ser comparado ao aconchego de Turner. Olhou diretamente para o rosto do jovem garanhão, seus focinhos quase encostavam um no outro.

“Vou sentir falta disso”, ela sussurrou e apertou o abraço.

Weather a beijou. Pela primeira vez ela não resistiu à investida que tomou todo o ar dos pulmões dos dois. Ao conseguirem largar os lábios um do outro, arfavam deitados no sofá, Can-Can por cima do corpo de Weather. Ela olhava para o rosto dele – nunca parecera tão amável. Weather deu seu melhor meio sorriso sacana, apesar do olhar confuso.

“Eu pensei em deixar uma carta por debaixo da sua porta no dia que eu fosse partir, mas achei melhor vir dizer que... eu ficaria, por você”, Weather disse, sua respiração entrecortada. “Eu ficaria por você mesmo antes, e agora então...”

Can-Can teve de conter o choque que foi ouvir aquilo. Gostava do pégaso de verdade. Mas como poderia prendê-lo em Germane, se o que ele mais queria era sair dali para morar num lugar onde ela jamais poderia ir? Parecia injusto, por mais que ela tivesse vontade de tê-lo por perto. Não queria ser para Weather o que o pai dele foi para a Dame Flight: um motivo para ficar no chão.

“Na verdade, esse foi apenas um beijo de despedida. É para que se lembre de mim. Para que tenha sempre em mente quem é a melhor pônei”, Can-Can mentiu. “Depois desses anos, achei que você merecia um.”

“Safada. Então isso foi uma brincadeira de muito mau gosto? Você bem que podia dar uma chance pra nós dois”, ele insistiu. A eguinha rubra relevou o fato de ter sido chamada de safada e, por pouco, não se rendeu. Sempre desdenhara do melhor amigo, se evadia das tentativas bobas de flerte dele, nunca dava chance para que ele se engraçasse demais com ela, porém, Weather era quem estivera sempre ao lado dela nos últimos anos, quem lhe dava os abraços de que ela tanto precisava, quem lhe dava coragem para seguir em frente, quem lhe apoiava incondicionalmente. E a simples ideia de perdê-lo havia despertado algo de muito especial dentro dela, um tipo de carinho diferente. Eu estou ficando maluca, que Celestia me ajude, Can-Can pensou. Respirou fundo antes de responder, “Por que você não fica satisfeito em receber um beijo de despedida? Sempre quer mais... eu conheci uma pônei”. O entendimento foi visível nos olhos do pégaso. As palavras dela o magoaram, de certa forma. Foi a primeira vez em muito tempo que Can-Can mentiu olhando nos olhos de outro pônei; amava Weather, e sequer sabia algo de Rain que não fosse seu nome. Em outra circunstância, a escolha seria óbvia, beijaria o pégaso de novo, faria até mais, e só a ideia disso fez o rosto da pônei aquecer de súbito, num rubor imperceptível. Mas aquele não era o caso, precisava colocar as vontades – ou o sonho, se assim se puder chamar – do pégaso em primeiro lugar. Can-Can não podia tirar dele as asas, a liberdade, o desejo de conhecer o mundo que havia fora dos portões de Germane. Ela aconchegou o próprio corpo em cima do dele. Deitou a cabeça sobre o peito de Weather e ficou ouvindo-o respirar.

“Você vai escrever para mim pelo menos uma vez por mês”, ela ordenou baixinho. “E quero que me conte tudo sobre Cloudsdale. Sobre o trabalho. Sobre os pôneis. E se arrumar uma namorada, espero que ela seja boa de verdade e mereça você.” O pégaso aquiesceu e apertou o abraço contra a amiga.

“Vou no próximo final de semana. Nós bem que podíamos ir no cinema algum dia desses, sabe? Só nós dois”, Weather sugeriu num sussurro.

“Eu ia adorar”, Can-Can respondeu. “Mas bem que as garotas podiam ir conosco. Você parecia interessado nelas, ontem.”

“Fiz perguntas sobre elas pra saber se você ia ficar em boa companhia quando eu não estivesse mais por aqui”, ele explicou com um riso quase envergonhado. “Tive medo de que você ficasse sozinha.”

Can-Can olhou de novo para o rosto de Weather, sorriu e sussurrou, “Você é um amor. Eu vou ficar bem. Papa me disse para sempre contar com a Fräulein Balance, que ela me ajudaria.” O jovem garanhão fitava Can-Can como se tentasse apreender cada detalhe do rosto dela. Permaneceram agarrados no sofá, sequer davam atenção à passagem do tempo.

“Essa pônei que você conheceu, como ela é?”, ele indagou finalmente.

“É bonita, a voz dela é gostosa de ouvir, ela gosta das mesmas coisas que eu”, Can-Can disse num misto de verdade e mentira. Aparentemente mentia bem, porque Weather de nada desconfiava; talvez a confusão de sentimentos que o jovem sentia estivesse nublando seu pensamento o suficiente para que as palavras vagas de Can-Can fossem acreditáveis. “Quer mesmo falar sobre isso?”, a eguinha perguntou insegura, torcendo para que ele dissesse não; e foi o que Weather fez.

“Esse beijo, foi só coisa de despedida mesmo? Mesmo, mesmo?!”, Weather inquiriu seriamente – não podia acreditar por completo nisso. Uma boa parte de si sabia que aquilo tinha sido especial. “Não parece o tipo de coisa que você faria.”

Can-Can passara boa parte da vida pensando em namorar outras eguinhas, que geralmente eram mais bonitinhas, mais sensíveis e muito mais beijáveis, no entanto, era inegável que também já pensara em se relacionar com potros. Apesar de que a maior parte desses momentos tiveram a ver com seus dias de ciclo. O fato era que Weather estava ali, ela acabara de perceber que gostava dele, e tinha que dar um jeito para que ele não desistisse de ir por causa dela.

“Eu prefiro as potras, lembra?”, Can-Can mencionou em voz baixa. Usar verdades para mentir parecia deixar as mentiras mais monstruosas. Infelizmente, para ambos, aquele argumento parecia irrefutável. Weather respirou fundo e sorriu cheio de ternura para a amiga. “É uma pena, nós temos tanta coisa em comum. Eu também gosto de potras. Poderia dar tão certo entre nós”, ele brincou. Can-Can deu um risinho, seu coração havia se apaziguado. Mais uma das muitas habilidades de Weather: transformar momentos – no mínimo – complicados em brincadeiras; algumas melhores que outras.

“Se você não tirar esse casco do meu lombo agora, arrebento a sua cara”, a pônei rubra ameaçou. O abraço gentil de Weather tinha adquirido um certo teor de sensualidade há algum tempo, e a pônei de cristal tinha que mandá-lo parar. “Você não tem jeito mesmo.”

“E você não estava parecendo se importar”, Weather retrucou. Seu casco dianteiro esquerdo se movimentava, agora calmo, sobre a Marca da eguinha rubra, fazendo carinho. Can-Can não queria realmente que ele parasse, mas tinha medo de acabar fazendo uma besteira, porque então as mentiras que contara seriam inúteis. Apoiou os cascos dianteiros no peito do pégaso e ergueu o corpo, estava sentada sobre ele, e prestes a sair do sofá.

Weather passou o casco dianteiro direito sobre a coxa da pônei de cristal. Com dois cascos bobos no corpo dela, o jovem sorriu seu sorriso mais sacana. Se Can-Can pudesse ficar mais vermelha do que já era, com certeza ficaria. Não soube o que dizer, e Weather mantinha-se quieto, fazia carícias leves na coxa e na Marca dela. Um certo clima pairava no ar; a pônei de cristal desesperou-se.

Talvez pudesse ter se deixado levar, não fosse pela chaleira que chiou alto, dando-lhe o motivo que precisava para se afastar dele. Eu estou ficando maluca, Can-Can pensou aborrecida ao trotar vacilante para apagar o fogão.

“Você não namorou nenhum outro pônei desde a Sticks, não é?”, Weather perguntou enquanto se ajeitava no sofá. Can-Can respondeu com um aceno de cabeça negativo; estava nervosa. “Está com receio?”, ele continuou. A eguinha trotou até a caixa onde ficavam guardadas as louças e mais uma vez respondeu negativamente com um aceno de cabeça. Weather insistiu, “Você sabe que eu não seria capaz de te magoar. Não da forma que ela fez”.

Can-Can respirou fundo e retrucou, sem encará-lo, “Não é isso. Algumas coisas não são para ser, sabe?”. Logo mais, servia o chá nas duas pequenas xícaras de porcelana deixadas no braço do sofá. “Nós dois, não é para ser”, ela concluiu. Can-Can começava a ficar triste com o quão insistente Weather podia ser. De fato, não queria que ele partisse, porém, tampouco queria prendê-lo; a cabeça da jovem égua parecia prestes quebrar. Papa, eu queria muito que você estivesse aqui agora, ela pensou. Turner saberia o que a filha deveria fazer, ou, pelo menos, daria um safanão no pégaso por não entender que Can-Can o estava dispensando. Às vezes, pais-corujas fazem muita falta.

“Quer açúcar no seu chá?”, ela perguntou. Estava pensativa e foi buscar um saquinho com cubos de açúcar sem sequer ouvir a resposta do amigo.

“Certo. Eu me rendo”, o pégaso declarou, dando de ombros. “Não vou continuar com isso. Dá pra ver que você ficou incomodada, desculpa. Mas ainda gostaria muito de ir no cinema com você.” Ela não quer nada com você, seu idiota, aceita, onde é que você estava com a cabeça, Weather pensou.

“Eu disse e repito, ia adorar”, Can-Can respondeu aliviada. Weather apenas olhava-a no rosto. Se por um lado gostaria de sair da cidade, por outro doía-lhe pensar que estaria deixando também a melhor amiga sozinha.

“Promete pra mim que você não vai fazer nenhuma besteira quando eu não estiver mais por aqui pra te salvar?”, ele perguntou, estranhamente sério em cada palavra.

“Eu sei me cuidar, não sei?!”, Can-Can replicou. Tomou um gole generoso de chá e voltou a encarar Weather, que tinha uma sobrancelha erguida para ela. Fosse falta de confiança ou apenas preocupação o que Weather nutria naquele olhar, a pônei de cristal abriu a boca para protestar, mas, por fim, preferiu concordar, “Eu prometo. Vou tomar cuidado”.

Sentados lado-a-lado no sofá da sala, permaneceram em silêncio por um tempo, tomando suas xícaras de chá que eram perigosamente equilibradas sobre seus cascos. Can-Can desviou o olhar da xícara para o recinto, ficou pensando em como a sua sala estava diferente de como costumava ser, olhou para o pequeno e novo armário no qual agora eram guardadas as louças; ficava ao lado do caixote de panelas. Imaginou o novo papel de parede que queria colocar no cômodo. Manteve a mente ocupada com a casa para não pensar muito que Weather não estaria mais ali na semana seguinte. Infelizmente não deu muito certo. Pior ainda, se por um lado Can-Can queria que ele saísse dali para que ela pudesse chorar, por outro queria passar o máximo de tempo que conseguisse perto dele. Perder o melhor amigo era uma coisa difícil; e parecia injusto isso acontecer no momento em que a potra superara de fato a morte do pai. Can-Can não resistiu ao impulso de perguntar, “Você vem me visitar, às vezes?”

“O que você acha?”, ele retrucou com um meio sorriso. “É claro que sim. Passo aqui até mesmo antes de ir ver os meus pais.” Os dois ainda tinham uma semana, mas falavam como se fosse a última vez que veriam um ao outro – e sequer se davam conta disso. Can-Can estava muito confusa por sentir o que estava sentindo pelo pégaso. Ela mexia nervosamente as patas traseiras. Trocaram palavras em voz baixa até que todo o chá tivesse sido consumido. Marcaram a ida ao cinema para o sábado à noite. Quando Weather foi embora, a eguinha rubra voltou ao sofá e se deitou. Ainda era possível sentir o cheiro do amigo ali; ele tinha um perfume muito agradável. Can-Can lacrimejou; sentia-se também aborrecida. Arrependia-se de nunca ter percebido o quanto Weather era importante para ela.

No entanto não podia deixar-se abater. Enxugou as lágrimas dos olhos com um casco e ergueu o corpo do sofá. Ao fazer isso, lembrou-se do instante em que estivera sobre Weather. Ele a tivera extremamente vulnerável por um segundo, nunca havia sido segurada daquela forma. Perguntou-se por que ele não havia feito mais nada. Talvez Weather quisesse que algo entre eles partisse dela, para que pudesse abrir mão de sua ida sem arrependimentos. Can-Can lembrou-se de como ele costumava matar aula para vê-la dançar. Ele escolhia algum telhado onde pudesse ter uma boa visão do show, arrastava uma nuvem até lá para protegê-lo do sol e ficava observando. Também sempre colocava nuvens no céu sobre Can-Can para fazer sombras para a amiga. Naquela época Turner fazia vista grossa para o pégaso; não entregava o matador de aulas, mas exigia que ele estudasse mais em casa para não tirar notas baixas.

A pônei de cristal bufou no sofá. Não é como se eu não fosse falar com ele nunca mais, ela pensou.

Gostava dele da mesma forma que gostara de Sticks? Verdade seja dita, não – mas paixões de adolescência são sempre mais fortes, diga-se de passagem. Sentia atração por ele da mesma forma que sentia por Rain? Mais ou menos. O que estava sentido por ele? Can-Can se importava com Weather e amava-o de alguma forma, mas não estava certa de que era daquela forma. E ainda que estivesse verdadeiramente interessada nele, não podia deixar que o sentimento transbordasse, para o próprio bem de Weather. Não se perdoaria se intervisse no sonho de vida do amigo.

Passou o resto daquele dia sozinha, em casa.