A semana passou voando e os ensaios no Sun ficaram mais intensos. Skylark e Nightingale ainda tinham certa dificuldade para acompanhar os seis minutos ininterruptos da dança. Can-Can tentava se manter concentrada, mas Weather e Rain estavam a todo momento rondando sua mente. E a égua malhada, que agora fazia parte do grupo, dançava ao lado de Can-Can nos ensaios, o que podia, vez ou outra, causar distrações. No entanto, não demorou para que a eguinha rubra percebesse que a pônei terrestre não queria nada sério. Na verdade, Rain possuía certa fama de promíscua na casa – gostava de nutrir amizades coloridas. Não era de admirar que as irmãs a tinham achado tão interessante. Infelizmente, descobriu isso de uma forma muito ruim: Rain passou uma tarde de ensaios inteira flertando com Skylark, e na hora de irem embora, saíram juntas. Nightingale também foi deixada para trás, no Sun.

“Duas safadas”, Gale afirmou, amarga. Estava com Can-Can no grande salão, ambas sentadas em uma das mesas, descansando. “Podiam ter convidado a gente também.”

“Tem certeza de que queria ter ido com elas?”, a eguinha rubra questionou.

“E eu lá ia ter alguma coisa a perder? Acho que não”, a pônei bege respondeu pensativa. “Apesar de que à três desse jeito não é muito a minha praia.”

“A sua irmã estaria lá, lembra?”, Can-Can retrucou em tom de reprimenda.

“Ah, deixa eu te contar um segredinho: eu já quase dividi um parceiro com a minha irmã uma vez. Demos uma festinha juntas com uns amigos meus. O papai expulsou a gente de casa por isso”, Gale contou com um sorriso sonhador, mas cheio de certo cinismo. Can-Can levantou uma sobrancelha em estranhamento para a amiga e perguntou o quanto daquilo era verdade. Um olhar da pônei terrestre bastou para que Can-Can soubesse que ela falava sério.

“Deixa eu adivinhar, você está bem a fim da Rain, não está?”, Gale murmurou. A pônei de cristal não respondeu, não sabia ao certo o quanto estava interessada naquela égua agora pois, pensando bem, tinham apenas bebido e trocado uns beijos bêbados.

“Fica triste não! Aposto que ela volta a procurar você qualquer dia desses”, Gale brincou cheia de maldade. Can-Can torceu o focinho; não gostara da brincadeira. “Não faz essa cara de bravinha pra mim, no fundo você nem ia se importar se a Rain aparecesse na sua casa de noite pra tomar um chá ou comer uma torta.”

Can-Can cruzou as patas e fuzilou a amiga com o olhar. Gale não cedeu, e manteve uma expressão de superioridade no rosto.

“Não, acho melhor ser apenas amiga dela”, respondeu Can-Can, desviando o olhar para os próprios cascos como se ponderasse algo.

“Apenas amigos, é assim mesmo que ela gosta”, retrucou a pônei bege, cujo sorriso só aumentava ao ver a frustração da amiga que ficou sem palavras. “Deixa disso. Aproveita a vida. Você não tá namorando ninguém, e tanto quanto eu sei, seu amigo pégaso não dá no couro, então qual o problema de se divertir sem compromisso? Eu não vejo nenhum.”

Can-Can abriu a boca para defender Weather, mas sabia que se dissesse algo, Nightingale usaria isso para fazer alguma outra piada maldosa. Por fim, assentiu. Não havia mesmo problema nenhum em se divertir um pouco. A pônei terrestre fez um sinal com o casco para o unicórnio dourado que estava atrás do balcão do bar, organizando copos e garrafas. High trotou até elas trazendo consigo, magicamente, uma garrafa de vinho e três taças.

“Ninguém vai reparar que sumiu. Que tal?”, ele perguntou. Nightingale e Can-Can recusaram. “Tá bom. Que seja leite, então.” Após devolver as taças e a garrafa a seus devidos lugares, voltou para a mesa com três copos de leite quente.

“Alguém realmente compra isso por aqui?”, Can-Can perguntou com um sorrisinho desdenhoso na cara.

“Difícil de acontecer. Acho que só eu uso a máquina de café do bar”, High retrucou e deu de ombros. A eguinha rubra tomou um pouco do leite, estava muito bom. “Às vezes eu tenho a impressão de que já tinha visto você em outro lugar.”

“Eu costumava dançar nas praças da cidade quando era mais nova. Pode ter me visto numa delas”, a pônei de cristal respondeu vagamente e tomou outro gole de leite.

“Eu não ia muito nas praças, mas trabalhei numa doceria há alguns quarteirões de uma”, High mencionou pensativo. Can-Can se deu conta, naquele instante, de que aquele pônei era o atendente da doceria em que estivera no dia em que Sticks havia terminado o namoro com ela. O unicórnio estava um pouco diferente daquela época, usava o corte de cabelo muito curto e com gel dos empregados masculinos do Sun, sua expressão era mais madura, mas era, definitivamente, ele! Can-Can mencionou o dia em que tinham se visto pela primeira vez.

High lembrou-se de imediato, sorriu e disse, “Nunca tinha visto uma pônei tão tristinha como naquele dia. E você saiu de lá sorrindo! Aquele pégaso conseguiu mesmo tirar você do buraco”.

“Que pégaso?!”, Gale interferiu interessada.

“Era o Clean”, Can-Can respondeu.

Nightingale perguntou se a pônei de cristal e o pégaso turquesa se conheciam há muito tempo. Quatro ou cinco anos, a pônei de cristal pensou; assentiu para a amiga. Tomou mais um pouco de leite e voltou a pensar na partida de Weather. Faltavam dois dias para que ele fosse embora. Amanhã vamos ao cinema, a jovem dançarina pensou.

“Namoradinhos de infância, aposto”, Gale adivinhou.

“Mais ou menos”, Can-Can respondeu com um leve sorriso nos lábios, lembrando do passado. Gale fez mais uma piadinha maldosa envolvendo a possível frustração da pônei de cristal ao descobrir que o pégaso não gostava tanto dela assim porque lhe faltava “algo”. Can-Can não deu atenção, mas sua expressão se fechara e o sorriso sumira. High deu uma cotovelada na pônei terrestre para que calasse a boca. Nightingale pediu desculpas.

“Gale, o que você faria se estivesse prestes a perder o seu amigo mais querido?”, Can-Can questionou, olhava fixamente para o copo de leite.

“O que quer dizer?”, a pônei bege indagou curiosa. Com um suspiro longo a eguinha rubra abriu o coração e desabafou em voz baixa. Em nenhum momento, ao falar, encarou Nightingale ou High. Apenas contava sua história com Weather, excluindo uns e outros detalhes, como Sticks, ou o acordo que fizeram quando jovens. E quanto mais falava sobre como o pégaso a ajudara e era especial para ela, com cada um dos abraços, dos sorrisos, dos olhares, todas as piadas e brincadeiras – até mesmo as maldosas ou sem graça –, os voos que fizeram, os lanches que comeram juntos, até mesmo as potras que cochichavam sobre, Can-Can se dava conta de que amava tudo nele. E a vida tinha dado um jeito de levá-lo para longe. Ou pior, ele estava partindo por pura vontade.

“E por que você simplesmente não fica com ele, ué?!”, Gale disse, o tom em sua voz era quase indignado. Can-Can pensava, mas não havia um modo fácil de explicar o que sentia pois nem mesmo ela sabia o que era.

“Há anos ele quer sair da cidade. E vai para um lugar que eu não posso ir. Eu não quero que ele fique por minha causa”, Can-Can respondeu e suspirou. Nightingale ficou calada, encarando a pônei de cristal, procurava formular alguma frase, mas nada lhe vinha à mente. Se pudesse, diria que existiam milhares de pégasos que viviam e morriam no chão por toda Equestria; mas bem sabia que existiam outros tantos pégasos que viviam e morriam sobre as nuvens de Cloudsdale. Os pôneis alados pertencem ao céu, sempre dissera a professora da escola na qual Gale estudara quando era uma potrinha. E Can-Can sabia, para sua infelicidade, que Weather nascera para estar sobre as nuvens. A Marca dele já dizia isso.

Nightingale bufou e disse para o ar, “Vou matar a Sky. Ela não devia mesmo ter levado a Rain embora. Você precisa muito mais daquela égua safada do que a minha irmã”. High deu outra cotovelada na pônei terrestre e lhe lançou um olhar censurador. Gale não quisera soar insensível, apenas tentara quebrar o gelo com uma de suas gracinhas.

“Eu queria ter asas”, Can-Can disse num muxoxo.

“Ei, pra quê tanto drama? Ele vai voltar pra visitar você, ele já disse isso. E ainda, apesar da Gale e da Sky não serem grande coisa, você tem elas como amigas, e a mim também se quiser”, High gracejou, gentil. Nightingale olhou com desgosto para o unicórnio. Ele respondeu mostrando a língua. A eguinha rubra sorriu para a cena boba dos dois.

O pônei dourado foi até o balcão e trouxe de lá um pedaço generoso de torta de creme. “Quase ninguém pede torta também. Eu nem sei porque o pessoal da cozinha se dá ao trabalho”, ele mencionou dando de ombros.

Can-Can teve uma sensação de estranha nostalgia ao vê-lo servindo torta mais uma vez em tempos difíceis. Agradeceu e deu uma mordida na sobremesa.

“Não tem pra mim, não? Seu cretino?!”, Gale instou, severa. High revirou os olhos e foi buscar outro pedaço. A pônei bege sorriu, mordeu a torta e, ainda mastigando, falou, “Ele só tá indo embora porque você tá deixando. E se você tá deixando, é pelo motivo certo. Não tem por que ficar triste por isso”. Ponderando sobre as palavras de Gale, Can-Can se acalmou. Havia certa razão no que a pônei terrestre tinha dito, afinal.

“Ah, tem mais uma coisa, se a Sky levou a Rain lá pra casa, eu vou dormir na sua essa noite. Não tô nem um pouco a fim de ouvir minha irmã fazendo barulho no quarto do lado durante a madrugada”, Nightingale anunciou aborrecida.

“Oras, mas não era você que queria ir com elas?!”, Can-Can retrucou.

“Se a minha maninha me quisesse por lá, ela teria me convidado. Eu tô de fora de seja lá o que elas vão fazer”, Gale explicou desgostosa e bufou.

Can-Can não pôde conter um leve riso.

Gale a olhou de esguelha e exclamou ameaçadoramente, semicerrando os olhos, “Não devia ficar rindo de uma pônei que pode dormir na sua casa essa noite, sabia?”

“E desde quando você representa alguma ameaça pra ela?”, High interferiu, brincando. “Aposto que a Can-Can é mais ameaça pra você do que você pra ela. Lembra de como ela encheu a Rain de beijos no outro dia? É melhor tomar cuidado.” Gale e High riram juntos.

Constrangida, Can-Can falou, “Sério, eu nunca mais bebo com vocês”. Os outros dois pôneis riram mais alto. Permaneceram ainda por pouco tempo no salão, pois o sol se punha e o Sun começava a se preparar para receber seus ilustres convidados. High despediu-se amistosamente e foi para a área dos empregados vestir seu terno. Nightingale e Can-Can saíram do cabaré pela saída de funcionários, trotaram até a esquina em que seus caminhos se separavam – as irmãs moravam num pequeno apartamento perto do centro.

“Eu falei sério sobre dormir na sua casa. Vou lá em casa, se as duas estiverem num rala e rola infernal, apareço na sua porta com alguma comida”, Gale afirmou já aborrecida por antecedência. Can-Can concordou com um sorriso e deu adeus à amiga. Por fim, seguiu seu caminho para casa, no bairro periférico de Low Brazier, rua Fillyworth, número 1325.

Acostumara-se – não felizmente – a chegar em casa e não mais ir direto ao quarto para ver como o pai estava. No primeiro mês após a morte de Turner, esquecia que ele não estava mais por lá, e entrar no quarto e encontrar a cama vazia dava-lhe um aperto no coração. Can-Can deixou seus alforjes no sofá e, após tomar um banho demorado para recuperar as energias, começou a preparar o jantar. O ensopado daquela noite seria o de alho poró com alecrim e queijo. Poderia, bem verdade, comprar ingredientes para fazer um belo jantar, mas os ensopados eram rápidos, fáceis de fazer e lembravam o pai, então preparava-os na maior parte da semana, e aos poucos pegava o jeito.

Enquanto mexia o conteúdo da panela com uma colher de pau, pensava em como sua grande estreia no Sun podia estar próxima: Often Bass tinha a música pronta; a coreografia tinha uma execução perfeita em oito entre dez ensaios; a iluminação da apresentação não teria grandes surpresas, apenas holofotes comuns, com o adendo de não serem posicionados de modo que sua luz incidisse diretamente sobre a pônei de cristal, para não ofuscar a plateia. A única coisa que ainda não ficara pronta era o figurino das bailarinas. Can-Can ficava ansiosa ao pensar nas roupas que usariam para dançar. Sabia que usariam vestidos. Se teriam rendinhas e babados, ela não fazia ideia, mas quando se tratava do Sun, seria natural que fosse algo muito pomposo e cênico. Imaginava-se de vestido e sorria boba, consigo mesma.

Lembrou de como tinha planejado comprar uma bela vestimenta para si certa vez, economizando uma parte do novo salário de dançarina vedete. Ainda queria, assim como as potras da praça das camélias, parecer uma boneca, infelizmente só se dera conta do quão dispendiosos eram aqueles vestidos no dia em que visitou uma modista. Existia preço até para a tiragem de medidas – que não foi barata –, sem falar que mesmo o tecido mais econômico não podia ser chamado realmente de econômico, e para fazer o vestido perfeito em todos os seus detalhes, necessitavam de pelo menos vinte metros tecido, apesar de Can-Can não fazer ideia de como seria possível usar vinte metros de tecido sem que sobrasse nada. Fora isso havia os gastos com o desenho da modista, o trabalho das costureiras e da lavanderia. Além do vestido, tinha de conseguir dinheiro para os sapatos, os laços e o chapéu que combinasse com a roupa. Se dependesse de vestidos para ficar bonita em Germane, Can-Can estaria acabada. Por sorte não precisava de roupas extravagantes para chamar atenção; era mais bela que a maioria. Uma coisa, porém, pôde comprar: maquiagem. Skylark e Nightingale a ensinaram a usar quando vieram passar um dia na casa da amiga. Can-Can aprendeu que não podia usar pó de arroz, pois, sendo uma pônei de cristal, seu rosto ficaria estranho ao não reluzir enquanto o resto de seu corpo o fazia; também não usava batom, sua pelagem rubra permitia que usasse apenas tons muito claros, metálicos, ou preto para ter algum destaque, e não lhe caíam muito bem nos lábios. Por fim, descobrira que poderia usar lápis e sombra de olho, isso a deixara satisfeita. No pequeno estojo de maquiagem que deixava junto aos livros da estante, no quarto, ficavam dois lápis de olho e três cores diferentes de sombras: uma violeta (sua preferida), um amarelo próximo à tonalidade de seus olhos e uma branca que Can-Can usava raramente e combinava com seus cabelos. Sky havia dito para que comprasse cílios postiços, mas a ideia fora rejeitada, pois a pônei de cristal não via real necessidade neles.

Duas batidas na porta e um chamado indicaram que Nightingale tinha chegado. Can-Can abriu a porta rapidamente e voltou para mexer o ensopado. A pônei bege trazia consigo uma pequena trouxa de pano que continha dois pães, um generoso pedaço de queijo e uma garrafa de suco de laranja. Gale colocou a trouxa sobre o armário de louças e perguntou, “Já pensou em comprar uma mesa, hein?”

“Já, mas passei tanto tempo comendo no sofá que me acostumei”, Can-Can murmurou sem tirar os olhos da panela. “Então, as duas estavam lá...”, mencionou como quem não quer nada.

“Sim, mas a Sky me prometeu que não iam demorar muito lá e que iam passar a noite fora. Minha querida maninha tava se arrumando pra noite”, Gale ironizou, revirando os olhos. A eguinha rubra perguntou-se por que, então, a amiga aparecera ali. “Eu não queria jantar sozinha”, Gale completou em voz baixa, como se lesse os pensamentos da pônei de cristal.

“Posso perguntar uma coisa?”, Can-Can indagou. Gale assentiu. “O papa de vocês, ele expulsou vocês de casa e deixou por isso mesmo?”

“Papai e mamãe eram um casal bem conservador, sabe? Quando acharam as duas filhas dando uma festa no quarto de casa... com potros e tal... não foi bonito”, Gale murmurou sem alegria alguma. “Claro, a gente já tava mais do que crescidas e eu realmente pretendia conseguir um emprego e morar sozinha. Isso só acelerou o processo. Mas eu não queria ter parado de falar com o papai.”

O caldo começaria a borbulhar a qualquer momento, Can-Can extinguiu o fogo e encarou a amiga. “Pararam mesmo de se falar?”, perguntou cética.

“A Sky queria que a gente pedisse desculpas. Nessa época eu já tava trabalhando num clube noturno, dançando. Eu disse pra ela que a gente podia sair de Manehattan e ser mais feliz, que o meu dinheiro economizado dava pra isso. A gente ficou mudando de cidade desde então, procurando emprego. Em algum momento a Sky parou de se importar com o papai e a mamãe, como se a família agora fosse só nós duas. Uma vez no mês eu escrevo pra mamãe e deixo vários endereços pra que ela possa mandar alguma resposta. Ela nunca responde”, Gale falou, parecendo desconfortável. “É quase irônico porque, quando eu penso nas nossas vidas com eles, era tão chato, tinha um milhão de regras idiotas, mas eu queria que eles ainda falassem com a gente.”

“Por que não vão até Manehattan falar com eles?”, Can-Can perguntou enquanto pegava duas tigelas no armário de louças.

“Não vou gastar dinheiro nessa viagem pra chegar lá e eles fecharem a porta na minha cara”, Gale exclamou amargurada. A pônei de cristal despejou o ensopado nas duas tigelas e deixou-as em cima do armário, junto com os pães e o suco. “O jantar está servido”, anunciou, molhou um pedaço de pão no ensopado e o mordeu. “E está gostoso.”

Nightingale aproximou-se, pensativa, do armário que usariam como mesa. Can-Can torcia para que não tivesse deixado a amiga triste com a conversa. Precisava colocar um novo assunto em pauta. “Já falou com Rhiannon sobre os figurinos?”, perguntou de boca cheia.

“Ah! Ela disse que a modista tá quase terminando. Quando o desenho estiver pronto, vai ser num piscar de olhos que teremos os vestidos pra dançar, as costureiras que trabalham pro Sun fazem as coisas mais rápido que pégaso faz corrida”, Gale disse, sua expressão suavizara. Can-Can sorriu e recebeu um sorriso de volta.

“Você está tão ansiosa quanto eu?”, a pônei de cristal indagou logo antes de morder mais um pedaço de pão.

Gale assentiu de imediato, “Mas eu acho que devia estar mais ansiosa que você. Afinal, quem criou os movimentos foi você! A música tem até seu nome. Esse show é todo seu”.

“Acho que é por isso mesmo que eu estou nervosa”, Can-Can retrucou distraída. “O show é todo meu, e eu preciso brilhar mais que nunca. E mais do que qualquer outra vedete”, gabou-se sonhadora e deixou seu olhar se perder pela sala, imaginando coisas grandiosas para o futuro.

Nightingale encarou a amiga com falso desgosto e murmurou, “Acho que alguém aqui tá começando a ficar exibida e boboca”.

A eguinha rubra ficou sem reação, arrependida de ter dito aquelas coisas. “Não, eu não quis...”, tentou se justificar.

Foi interrompida pela amiga, que disse, “Calma. Não é como se você estivesse falando mentiras. Você nasceu pra isso mesmo. Não devia ficar envergonhada por saber que é boa”.

Aliviada, Can-Can absorveu profundamente as palavras da amiga.

“Cá entre nós, se alguma dançarina do Sun pode virar uma estrela, ela é você”, Nightingale murmurou.

Sorrindo, um tanto envergonhada e, ao mesmo tempo, orgulhosa, a pônei de cristal baixou os olhos para a tigela de ensopado em sua frente e agradeceu o elogio. “Mas você bem que podia não ofuscar muito minha maninha e eu, afinal, a gente também precisa comer”, Gale brincou entre uma mordida e outra.

Entre brincadeiras e risadinhas, as duas pôneis terminaram o jantar satisfeitas. Nightingale fez questão de lavar a louça, Can-Can enxugou e guardou tudo. A pônei bege mencionou que por volta daquela hora Skylark e Rain já não deviam mais estar no apartamento; disse que deveria ir e apertar o passo, pois já era tarde e estava cansada. Gale foi levada até a porta, atravessou o batente e virou-se para falar, “Ei, você vai sair com o seu amigo amanhã, não vai?”

Can-Can assentiu, tornando a preocupar-se. A conversa até aquele instante havia feito com que se esquecesse completamente de Weather.

“Aproveita o seu momento com ele. Aproveita ao máximo e tenta não se arrepender, tá?”, Gale disse e piscou o olho direito. A eguinha rubra foi até ela, abraçou-a carinhosamente e disse em seu ouvido, “Vou aproveitar ao máximo o nosso tempo. E quanto a você, vê se chega direito em casa, por favor. Vou ficar preocupada com você trotando por aí, à noite, sozinha”.

“Não seja boba, o pior que pode acontecer comigo é achar um pônei pra aquecer minha cama”, Gale respondeu, sorrindo de forma afetada.

“Não brinca com essas coisas, por favor”, Can-Can censurou com seriedade. Nightingale deu um suspiro e concordou. As duas abraçaram-se mais uma vez e, logo mais, a pônei terrestre se foi.

*** *** ***

A manhã seguinte chegou logo e Can-Can tinha muito o que fazer durante o dia. Arrumou a casa, saiu durante a manhã para procurar um papel de parede para a sala e comprou novos lençóis de cama. Fazia as coisas de forma distraída porque Weather não saía de sua mente. Voltou ainda antes do almoço e comprara uma torta no caminho de casa para não precisar cozinhar. Trocou a roupa de cama e arrumou também o quarto; reorganizou os livros na estante, tirando a poeira deles, e limpou até mesmo a flauta do pai. Limpava sua casa como limpava o Sun quando ainda era uma faxineira – tudo deveria ficar impecável. Há algum tempo comprara uma mesa de cabeceira, onde costumava deixar as partituras e receitas do pai para lê-las de vez em quando – ao acordar ou antes de dormir. Reorganizou-as na estante junto com os livros. A cópia surrada e desgastada pelo tempo de A Pena e o Lírio que possuía ainda era legível e jamais tivera a coragem necessária para jogá-la fora. Arrumou os papéis do pai na mesa de cabeceira.

Lavou o banheiro minuciosamente. Antes do final da tarde, o lar da eguinha rubra estava mais do que organizado. Ela sorriu orgulhosa pelo próprio trabalho. A partir daquele momento, teria apenas que esperar a hora de Weather vir buscá-la. Não se sentia ansiosa daquele modo desde o dia em que reencontrara Sticks após não se verem durante semanas. Seu coração batia mais forte, como se quisesse pular do peito. Respirou fundo para se acalmar e colocar as ideias no lugar.

Tomaria um banho demorado naquela noite, faria o seu melhor para colocar a maquiagem sem erros, pois ainda era difícil usar os cascos para passar lápis de olho. Passaria quase uma hora escovando a crina e a cauda. Não usaria sua costumeira fita para prender os cabelos da cabeça; os deixaria ao natural. E com as fitas da cauda faria um laço muito pomposo – e que levaria muito tempo e esforço para ser terminado – na base do rabo.

Finalmente, Can-Can olhava-se no espelho do banheiro. Estava pronta, deslumbrante. Sorriu para o reflexo e em seguida suspirou. Trotou formosa para a sala; quase tinha a ousadia necessária para erguer o queixo por completo. Uma das primeiras coisas que Rhiannon havia ensinado para a pônei de cristal era como uma vedete de um lugar chique como o Sun deveria trotar: altiva, confiante, quase inalcançável. Raramente Can-Can praticava esse requinte todo ao trotar, mas aquela era uma noite especial, queria impressionar Weather, queria que o amigo tivesse o melhor dela para se lembrar quando estivesse longe. O relógio marcava oito horas quando terminou de se arrumar. O pégaso devia aparecer a qualquer momento.

A batida leve na porta seguida do nome da pônei de cristal sendo chamado anunciou que ele se encontrava do lado de fora. Can-Can respirou fundo, colocou seu melhor sorriso no rosto e abriu a porta. Weather vinha com seus alforjes e o cabelo meio bagunçados do rápido voo que fizera de sua casa até ali. O jovem garanhão tinha um olhar abobalhado, sua boca semiaberta.

“Olá!”, Can-Can cumprimentou o amigo animadamente e deu-lhe um abraço apertado.

O pégaso balbuciou uma resposta confusa, a mente dele ainda tentava apreender como a eguinha rubra estava bonita. Retribuiu o abraço com carinho, quando se afastaram ele passou seu olhar de cima para baixo nela e disse, “Você está linda”. O sorriso da eguinha aumentou e ela agradeceu. Um silêncio meio constrangedor pairou entre os dois à medida que Weather estava sem palavras e Can-Can esperava o amigo dizer que deveriam ir.

Após um breve momento, a jovem pigarreou e disse, “Vamos?”. A fala dela fez com que o pégaso saísse de seu mundinho de pensamentos impressionados. Weather piscou os olhos várias vezes e concordou. Ele virou para a calçada e, antes que pudesse fazer menção a trotar, Can-Can já estava ao seu lado.

O pégaso levantou a asa direita e perguntou, “Posso?”.

“Fique à vontade”, Can-Can respondeu, encostando-se mais no corpo do amigo e recebendo o toque gentil da asa que foi colocada sobre suas costas. Trotaram lado-a-lado, Can-Can fazia suas passadas confiantes, há algum tempo já não olhava para o chão ao caminhar. A cabeça de Weather virou para trás, espiando o laço no rabo da eguinha rubra.

“Gostou?”, ela perguntou ao reparar que ele a observava.

Weather olhou-a nos olhos, e com seu costumeiro meio sorriso na face, brincou, “Vai querer que eu passe a noite falando de como você está estonteante, amorzinho?”.

A pônei de cristal não o ouvia chamá-la daquela forma há muito tempo. “Idiota”, ela retrucou ainda entre risos. “Mas nem seria tão ruim se você ficasse falando o quão linda eu sou.”

Então foi a vez do pégaso de rir. Ele revirou os olhos enquanto bradava com ironia todos os adjetivos de beleza que conhecia para ela. “... e não há, nem nunca haverá, um traseiro tão maravilhosamente brilhante quanto o seu!”, ele terminou com seu sorriso mais malicioso no rosto.

Can-Can ergueu o queixo e fechou os olhos por um segundo e, em sua pose mais envaidecida, disse, “Se essa última parte fosse mentira, talvez eu ficasse ofendida”. Rebolou de modo a fazer com que seu flanco batesse no do pégaso. Ele revirou os olhos mais uma vez e suspirou.

“E se eu disser que a última parte foi a única verdadeira?”

“Meu casco vai parar no seu olho”, Can-Can ameaçou em falsa raiva.

Weather desculpou-se entre risos, “Tudo bem, tudo bem, é tudo verdade. Você é a eguinha mais bonita que eu já tive o prazer de beijar”.

“Você tinha que dizer que eu sou a eguinha mais bonita de todas!”

“Mas aí eu poderia estar dizendo uma grande mentira”, Weather provocou.

Can-Can torceu o focinho como se estivesse ofendida. “Já chamei você de idiota hoje?”, ela retrucou num tom brincalhão. Weather assentiu contente.

A caminhada até o cinema foi tranquila, a noite estava amena e, como ainda era cedo, muitos pôneis vagavam pelas calçadas. Weather e Can-Can conversaram animados durante todo o percurso – a dançarina falava ao amigo sobre como as coisas estavam indo no cabaré. O pégaso escutou tudo com interesse, e em seguida contou sobre como os pais estiveram indecisos sobre deixá-lo ir – como se pudessem, de alguma forma, impedi-lo. Os pôneis que olhavam o jovem casal trotando pelas calçadas ficavam, mesmo que não demonstrassem, inspirados por um amor tão jovial; poucas coisas eram tão bonitas de ver quanto dois jovens pôneis namorando – mesmo que, neste caso, não estivessem de fato namorando. Can-Can pôde jurar que uma égua de idade avançada tinha sorrido para ela no caminho. Weather, no entanto, pôde jurar que vira alguns de seus antigos casos lhe lançando olhares furiosos.

Chegaram ao cinema com tempo suficiente para comprar os ingressos e a pipoca. Bastava saber que filme iriam assistir.

“Então, qual você prefere?”, o pégaso perguntou, olhava para o cartaz com os horários das sessões e filmes.

“Gosto de filmes de desenhos, quando vim aqui com as garotas, eu as convenci a assistir um filme de um leãozinho. Se eu soubesse que o pai dele morria, não teria visto. Fiquei chorando na cadeira por uma meia hora”, a pônei de cristal disse melancólica, como se fosse uma potrinha.

“Que tal se nós assistirmos esse?”, Weather sugeriu, colocando um casco no cartaz em cima do nome do filme que pretendia assistir.

“Esse é sobre o quê?”

“Conta a história de um pégaso que se apaixona por uma pônei bonitinha, mas eles não podem ficar juntos porque ele é um príncipe e ela é só uma pônei do campo”, o pégaso explicou distraído, na esperança de que toda eguinha gostasse de filmes românticos.

Ao ouvir a sinopse da história, Can-Can estancou por um segundo. Puxou o casco do amigo de cima do nome do filme e quando o leu mal pôde acreditar.

“Fizeram um filme d’A Pena e o Lírio?!”, ela exclamou de queixo caído e com a voz esganiçada, tamanha sua surpresa. “Vamos ver esse, por favor!”

Weather aquiesceu contente. Logo mais comprava os ingressos no caixa. Can-Can sentia-se um tanto culpada, pois esquecera de trazer alguns bits para ajudar a comprar a pipoca. No entanto o companheiro fazia questão de pagar o passeio todo. Entraram na sala do cinema, Can-Can estava ansiosa pelo filme e Weather preocupado em equilibrar a pipoca. Sentaram-se em seus lugares e esperaram.

“Eu leio esse livro desde potrinha. Papa lia junto comigo. Queria muito que esse filme tivesse sido lançado antes...”, Can-Can falou em voz baixa. Adoraria que Turner estivesse ali. Weather passou um casco por trás do pescoço da amiga, apoiando-se em seus ombros, e puxou-a para mais perto. Ela sorriu. As luzes na sala começaram a diminuir, o filme estava prestes a começar.

*** *** ***

“Esse filme é uma droga!”, Can-Can dizia insatisfeita ao sair do cinema batendo os cascos com força no chão. “Nunca li nada sobre aquele dragão. A guerra com o país de Hooftorn devia ser só um plano de fundo e nós devemos ter visto pelo menos uma hora de batalhas! E aquele pégaso está muito longe de ser bonito para os padrões das pôneis sãs, aliás, ele deve ser feio até mesmo para os padrões de qualquer criatura.”

Weather tentava conter o riso ao ver a amiga esquentadinha daquela forma. Ele estava satisfeito, afinal, para um romance aquele filme tinha doses generosas de ação. E apesar da amiga não ter gostado nem um pouco da inclusão de um dragão na história, o jovem garanhão considerava a luta contra a criatura escamosa a parte mais empolgante do filme todo.

“Sério, como é que não conseguiram achar um ator mais bonito?”, a eguinha rubra questionava ressentida. Sentia como se alguém muito maldoso tivesse tentado estragar sua obra favorita. Porém não admitiria que, no fundo, não gostara do filme mesmo porque ele não tinha nada que lhe lembrasse de Turner. As descrições que o pai inventara sobre os personagens, sobre a terra, sobre os castelos, tudo era muito mágico quando dito pelo pai da jovem. E o que acabara de ver não tinha nada parecido com o que o flautista contara; e mesmo sabendo que seria impossível, Can-Can nutria uma esperança que de alguma das coisas que o pai inventara pudesse estar ali. O filme não lembrava a obra que pai e filha imaginavam juntos e tampouco lembrava a obra original como foi escrita e concebida; era uma dupla decepção. O livro é muito melhor, Can-Can pensou.

“Não sabia que você se interessava tanto assim por príncipes”, Weather disse vagamente.

“Não me interesso. Mas se a Lírio, sendo a pônei mais bela do reino, se apaixonou por ele, eu acredito que ele deveria ser, no mínimo, muito bonito. Ou pelo menos galante! E aquele ator não é nada disso”, Can-Can explicou, e relinchou frustrada. O pégaso balançou a cabeça como se ponderasse.

“Pelo menos a Lírio é bonitinha”, o jovem garanhão falou.

“Ela é linda! Adorei a atriz”, Can-Can retrucou contente. Quando Weather lançou um olhar sacana para a amiga, ela fez pouco caso, dizendo simplesmente, “Adorei mesmo”.

O pégaso colocou a asa sobre as costas da amiga de novo e disse que já estava ficando tarde. Can-Can assentiu e começaram a longa caminhada de volta para casa. A eguinha rubra fazia questão de apontar todos os pontos do filme que não gostara, alguns que eram mesmo ruins, outros por puro capricho, enquanto caminhavam. Weather defendia a obra, afirmava que as lutas tinham sido interessantes; infelizmente isso não era capaz de convencer a amiga de que existia algo de fato bom naquele filme que não fosse Lírio. Conforme se aproximavam dos últimos quarteirões para chegar na casa da pônei de cristal, ela diminuía o ritmo de suas passadas, como se não tivesse pressa alguma. Parara de falar, deixando Weather monologar sobre o dragão.

Estava nervosa, muito nervosa. Seu melhor amigo partiria na manhã seguinte. Sem arrependimentos, a noite foi maravilhosa, ela pensou.

Weather levou a amiga até a porta de casa e abraçou-a com carinho. “Eu não sei se vamos voltar a nos ver antes que eu vá. Preciso despachar as minhas coisas bem cedo na carroça alada e o voo até Cloudsdale é longo”, ele disse.

Can-Can tremeu, aquele era seu último momento com Weather. Uma ideia passou rapidamente por sua cabeça, e se pedisse para o amigo passar a noite ali, com ela? Poderia fazer a proposta naquele instante, mas as palavras não apareceram em sua boca. Não queria se arrepender; mas sabia que se arrependeria, fizesse ou não a pergunta. Várias possibilidades do que poderia acontecer passaram pela cabeça da pônei: e se Weather desistisse de partir? E se ele não desistisse, ela morreria de saudades dele do mesmo jeito, mas teria um motivo a mais para ficar deprimida. E se aquele estranho sentimento que crescera dentro dela fosse consequência do seu período mais fértil chegando? Não, isso não é, pensou. Can-Can respirou fundo.

“Eu vou sentir tanto a sua falta”, ela sussurrou de cabeça baixa.

“Mando uma carta pra você ainda amanhã, quando chegar em Cloudsdale”, ele assegurou, apertando o abraço. “E vou escrever pra você toda semana, prometo.” Can-Can assentiu em silêncio, fez um esforço enorme para não lacrimejar. Weather, nervoso, pôs-se a tagarelar, disse que viria visitá-la quando pudesse, que traria presentes e repetiu a parte que escreveria toda semana; ele também estava emotivo.

Ela afastou-se do abraço apenas o suficiente para que pudesse olhá-lo nos olhos; tentou brincar, “Quando você vier, traga uns presentes bem caros, porque nesse dia eu já serei famosa”.

“Pode deixar”, ele retrucou baixinho. Abraçaram-se mais uma vez. Desprenderem-se um do outro foi difícil para ambos, mas Weather precisava ir. Ele trotou até a calçada e preparou suas asas.

Auf wiedersehen”, Can-Can despediu-se dele em voz alta em voz alta.

Weather soprou um beijo para a pônei de cristal, olhou para ela por mais um tempo e finalmente subiu para os céus, deixando-a sozinha no batente da porta.

Can-Can entrou em casa e fechou a porta atrás de si. Uma lágrima mal contida escorreu por seu rosto. Sentou no chão, apoiou as costas na porta e ficou ali, respirou fundo e lutando contra a vontade de chorar. Ele vai ficar bem, ele está indo morar em outro lugar, só isso, não tem por que chorar – dizia a voz em sua cabeça – é muito egoísmo meu querer que ele fique para sempre do meu lado. As lágrimas não mais ameaçavam cair pelo rosto de Can-Can após algum tempo. Ergueu-se, trotou para o quarto e deitou na cama de costas para cima, o rosto afundado no travesseiro. Virou a cabeça para olhar o laço em seu rabo. Com um casco, deu um puxão que desfez o intrincado nó.

Can-Can suspirou, pensativa. Foi melhor não ter proposto nada, pensou. Aconchegou-se entre os lençóis, ficando sobre seu lado esquerdo. Fechou os olhos e ficou pensando em Weather até cair no sono. Sonhou que tinha pedido para que ele passasse a noite junto dela, e ele havia aceitado.