De Repente, uma Lady
1 Prólogo
Olívia tinha 21 anos quando o Marcus, seu pai, a requisitou em seu quarto. Ela sabia que o que quer que ele fosse falar, não ia ser bom. Fazia pouco mais de um mês que o pai adoecera, foi tudo tão de repente! A primeira coisa que fizeram, claro, foi chamar o doutor Campbell, médico da família, cuidava de Olívia desde que ela nasceu. Ele com certeza saberia o que estava errado com seu pai. Pelo menos, foi o que a menina pensou. Campbell ficou horas, que mais pareciam dias, dentro do quarto principal da Mansão Kent, com Marcus. E saiu de lá sem um diagnóstico e cheio de recomendações. Marcus tinha que ficar de repouso, nada de esforços de nenhum tipo. O médico deixou um unguento para passar nas manchas rosadas que apareceram na pele do pai, e uma porção de chás para amenizar a febre e a dor de cabeça, e falou que voltaria no dia seguinte. E assim foi, até se passar uma semana e os sintomas só terem piorado. O doutor resolveu que seria melhor chamar alguns amigos do tempo de faculdade para averiguarem melhor o quadro médico. Aparentemente, era uma doença nova, da qual nenhum tinha informação concreta, só especulações. E de lá para cá, Marcus só tinha piorado e os médicos estimavam no máximo mais uma semana.
— Mandou chamar, papai? – Olivia perguntou, ao chegar no quarto. Após uma crise de tosse, Marcus respondeu.
— Sim. Sente-se, Liv. – Respondeu da cama, onde fazia um esforço para estar sentado. O assunto parecia sério. Liv se acomodou na poltrona que ficava ao lado da cama do pai, e só então percebeu a presença de outro senhor, que logo foi apresentado.
— Liv, este é o senhor Lewis. Ele é meu advogado. – O senhor magro, de olhos grandes e sinceros, acenou com um sorriso.
— É um prazer finalmente conhecê-la, senhorita Olivia. O seu pai fala muito de você. – Falou o homem com simpatia.
— O prazer é todo meu, senhor Lewis. – A menina forçou um sorriso. O senhor Lewis não merecia sua antipatia, ele não tinha culpa do motivo pelo qual fora solicitado. Mas ela não conseguia evitar, era muito doloroso ter sido chamada para discutir sobre negócios ocasionados pela morte de seu pai, que se aproximava cada vez mais. Ela voltou o olhar para o enfermo na cama e se sentiu destruída por dentro. Do mesmo jeito que aquela maldita doença estava acabando com ele. Estava mais magro e cheio de olheiras. E o pior de tudo, é que ela estava de mãos atadas. Não podia fazer nada.
— Liv, querida! Está me ouvindo? – Marcus chamou.
— Sim, papai! Me perdoe! O que estava dizendo? – E outra vez, se pôs a forçar um sorriso. Ela precisava ser forte por ele.
— Estávamos falando do seu dote, querida. – Seu pai respondeu com tranquilidade.
— Meu dote? – Ela praticamente gritou, mas logo percebeu que havia se alterado, e se desculpou. – Perdão, papai. Mas para que preciso de um dote se não estou pensando em me casar? – Perguntou amavelmente.
— Mas agora precisa começar a pensar. Eu sei que você não gosta do assunto, mas estou partindo, minha querida. E não gosto nada da ideia de deixa-la desamparada.
— Não vou ficar desamparada, papai. O senhor tem uma fortuna que nem eu, junta com 10 filhos seríamos capazes de gastar. E também tenho a Mary. – Se obrigou a falar sobre o assunto, mesmo que não a agradasse nada.
— Sei disso, Liv. Mas infelizmente, no mundo que vivemos, uma mulher sozinha não é aceita pela sociedade. E não quero isso para você.
— Sociedade? E desde quando o senhor se importa com isso? Desde quando eu me importo com isso, papai? – Perguntou séria, até porque era verdade. Eles nunca tinham dado importância para a sociedade aristocrática, por que começar agora?
— Pois deveria. Isso é uma das coisas que tenho para falar para você. – Marcus devolveu no mesmo tom de seriedade. – Está na hora de começar a se importar com a sociedade, porque você fará parte dela. Não terá mais a mim para protege-la e eu sou o errado por não a ter preparado para isso antes. Primeiro vamos falar do seu dote, está bem? – O tom extremamente sério de seu pai, juntamente ao seu estado delicado de saúde, não lhe deixaram outra alternativa, a não ser simplesmente aceitar.
— Sim, senhor, papai!
— Bom! – Aprovou Marcus. – Então vamos primeiramente ao dote. Já fiz todos os acertos com Lewis, ele está aqui somente para protocolo. Como você já sabe, você é minha única herdeira, e logo, após a minha morte, tudo que possuo será seu. – O homem fez uma pausa para tomar ar, respirar estava cada vez mais difícil. Alguns segundos depois, Marcus continuou:
— 85% dos meus bens serão adicionados ao seu dote. – Os olhos de Liv quase saíram de órbita e Marcus percebeu o susto da filha e como se lesse seu pensamento, acrescentou... – Sei que é muito dinheiro, mas quero garantir que nunca vai faltar nada para você, mesmo que eu não esteja aqui.
— Não vai faltar nada para mim, nem para os meus filhos, nem para os meus netos, ou tataranetos. – Liv brincou. Marcus sorriu.
— Trabalhei muito na vida, nada mais justo que eu possa garantir a sua vida e a dos seus filhos. Mas continuando, Lewis cuidará para que seu dote seja entregue quando os arranjos do seu casamento forem feitos. Seu marido precisará falar com ele também. E por falar em marido, com um dote desses, muitos homens irão aparecer, Liv. E eu quero que você me prometa que escolherá sabiamente. E que se casará por amor. Me prometa isso, Liv. Prometa isso para o seu velho e moribundo pai. – Marcus esticou o braço num gesto que pedia as mãos da filha, e assim que ela estendeu a mão, ele apertou com força, apelando.
— Eu prometo, papai. – Falou, tentando afastar as lágrimas. Ela precisava ser forte.
— Bom! – Respirou aliviado, por que dessa vez, sua filha teimosa simplesmente concordou, sem discutir. E continuou o que estava falando... – A segunda parte que eu queria conversar com você é que assim que eu me for, você se mudará para a cidade.
— O que? Mas por que? – Protestou.
— Não me interrompa, Olivia. – Marcus ralhou. – Você se mudará para a cidade, para a casa do Marquês de Belgrave. Ele é um velho amigo e já está sabendo de tudo. Ele irá acolhê-la e ajudá-la. Você debutará em Londres e também participará socialmente das temporadas. – Olivia esperou um tempinho, para ter certeza que seu pai tinha acabado.
— Mas papai! – Começou a protestar, mas logo foi interrompida.
— Sem mas, Olivia. É assim que deve acontecer. É sabendo que você estará segura que me tira um pouco dessa agonia que eu estou vivendo. Por favor, não tire isso do seu velho pai. – Marcos pediu.
— Sim, senhor papai! Perdão. – Falou se sentindo culpada e egoísta.
— Obrigada, Liv. Os outros 15% da sua herança serão destinados para você usar até que se case. Acho que é mais do que suficiente. – Liv apenas assentiu com a cabeça.
— Bom, acho que era só isso, Lewis. Agora gostaria de um momento a sós com a minha filha. – O advogado se despediu e rapidamente deixou os aposentos do cliente e amigo. Após ele ter se retirado, Liv se sentou ao lado do seu pai na cama e apoiou a cabeça em seu ombro, em silêncio.
— Eu sei que é difícil para você, Liv. Mas você tem que me prometer que vai ser forte. – Marcus pediu.
— Eu prometo, papai!
— E eu prometo que vai dar tudo certo! – O pai tentou consolar.
— Te amo! – Liv falou, contendo as lágrimas.
— Eu também amo você, minha bonequinha! – Marcus respondeu, com o líquido salgado escorrendo pelo rosto.
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