DdAH: O Colégio de Winterhold
10 Destroços de Pedra Antiga
Savos Aren e a comitiva do jarl se afastaram, rumando ao oeste para contornar as paredes arruinadas de Winterhold. Mas Vorstag, Kharjo e Faendal ficaram para trás. Deixando Nerevelus e Molvirian soltos pastando, foram sentar-se ao lado de Ralof.
— Muito bem! Muito bem! A caçada terminou e finalmente nos encontramos outra vez, num lugar que nenhum de nós jamais pensou visitar — disse Vorstag.
— E agora que os grandes foram discutir questões importantes — disse Faendal — os caçadores talvez possam descobrir as respostas para seus próprios pequenos enigmas. Seguimos suas pegadas até a floresta, mas há ainda muitas coisas sobre as quais eu gostaria de saber a verdade.
— E há muita coisa, também, que queremos saber sobre vocês — disse Ralof. — Soubemos algumas coisas por intermédio de Paarthurnax, o Velho Dragão, mas isso não é o suficiente.
— Tudo a seu tempo — disse Faendal. — Nós fomos os caçadores, e vocês devem nos fazer um relato de suas aventuras em primeiro lugar.
— Ou em segundo — disse Kharjo. — O relato cairia melhor depois de uma refeição. Estou com a cabeça inchada; e já passa do meio-dia. Vocês, os vadios, podem consertar a situação conseguindo-nos um pouco das coisas que vocês disseram que saquearam. Comida e bebida poderiam compensar um pouco de sua dívida para comigo.
— Então você será servido — disse Ralof. — Vai comer aqui, ou com mais conforto no que resta da casa de guarda de Ancano — ali adiante, sob o castelo? Fizemos nosso piquenique aqui, para ficarmos com um olho na estrada.
— Menos que um olho! — disse Kharjo. — Mas eu não vou entrar em nenhuma casa de daedra; nem tocar na carne que comem ou em qualquer coisa que eles tenham maltratado.
— Eu não pediria que fizessem isso — disse Ralof. — Nós mesmos já estamos cheios de dremoras para o resto da vida, não é, Meeko? Mas havia muitas outras pessoas em Winterhold. Ancano foi sábio o suficiente para não confiar em seus dremoras, pois eles não eram bem seus, mas de algum príncipe terrível das histórias. Tinha homens para guardar seus portões: alguns de seus servidores mais fiéis, eu suponho. De qualquer forma eles tinham privilégios e boas provisões.
— E skooma? — perguntou Kharjo.
— Não, acho que não — disse Ralof rindo. — Mas essa é outra história, que pode esperar até depois do almoço.
— Então vamos almoçar! — disse o khajiit.
Ralof e Meeko foram na frente; passaram pelos escombros e chegaram a uma porta larga à esquerda, no topo de uma escada, que se abria diretamente para um grande cômodo, com outras portas menores na extremidade oposta, e num canto uma lareira com chaminé. O cômodo fora cortado na rocha, e devia ter sido escuro outrora, pois suas janelas só se abriam para a pedra Mas a luz agora entrava pelo teto quebrado. Na lareira havia lenha queimando.
— Acendi uma pequena fogueira — disse Ralof. — O fogo nos alegrou em meio à neblina. Havia poucos feixes, e o pouco de lenha que conseguimos encontrar estava molhada.
Mas na chaminé há uma grande corrente de ar: parece que ela sobe pela rocha, e felizmente não foi bloqueada. Uma fogueira é útil. Vou preparar umas torradas. Receio que o pão seja de três ou quatro dias atrás.
Vorstag e seus companheiros sentaram-se em uma das pontas de uma longa mesa, Ralof desapareceu através de uma das portas internas.
— Há uma despensa ali dentro, e fora do alcance das enchentes, por sorte — disse Ralof, conforme ele voltou carregado de pratos, tigelas, taças, facas e comida de variados tipos. —E você não precisa torcer o nariz para as provisões, Mestre Kharjo — continuou. — Não é coisa de dremora, mas comida humana, como diz Malatar. Vão querer vinho ou cerveja? Há um barril lá dentro — bem razoável. E isto aqui é carne de porco salgada da melhor qualidade. Ou então posso cortar algumas fatias de toicinho defumado e grelhá-las, se quiserem. Lamento que não haja nenhuma verdura. As entregas foram interrompidas nos últimos dias! Não posso lhes oferecer nenhuma outra coisa como acompanhamento a não ser manteiga e mel para os pães. Estão satisfeitos?
— Muito satisfeitos — disse Kharjo. — A dívida está bem reduzida.
Os três logo ficaram bem ocupados com a refeição; Ralof, sem qualquer embaraço, resolveu comer outra vez. Meeko mordiscava uma carne dura jogada a ele nos pés de Ralof.
— Precisamos fazer companhia aos nossos convidados — disse ele.
— Está cheio de cortesias esta manhã — disse rindo Faendal. — Mas talvez, se não tivéssemos chegado, vocês estivessem comendo para fazer companhia um ao outro de novo.
— Talvez; e por que não? — disse Ralof. — Passamos muito mal com os dremoras, e comemos muito pouco por vários dias antes disso. Parece que faz muito tempo que não conseguimos comer a contento.
— Parece que isso não lhes fez mal algum — disse Vorstag. — Na verdade, estão com uma aparência extremamente saudável.
— É sim — disse Kharjo, olhando-os de cima a baixo por sobre a borda de sua taça. — Veja só, seus cabelos estão duas vezes mais limpos e arrumados do que quando nos separamos, e Meeko está muito mais forte do que quando o achamos naquela cabana; eu poderia jurar que vocês dois cresceram, se isso fosse possível para seres da idade de vocês. Pelo menos esse Malatar não os deixou passar fome.
— Não deixou mesmo — disse Ralof. — Mas os gigantes só comem queijo, e queijo não é o suficiente para nos satisfazermos. Os queijos dos mamutes podem ser nutritivos, mas a gente sente a necessidade de alguma coisa mais salgada. Até mesmo troll-doce não seria nada mal para variar.
— Vocês comeram queijo de mamute, é? — disse Faendal. — Então acho provável que os olhos de Kharjo não estejam enganados. Muitas canções estranhas foram cantadas sobre os queijos dos gigantes.
— Já me contaram muitas histórias esquisitas sobre essas criaturas — disse Vorstag. — Nunca entrei em suas terras. Vamos, contem-me alguma coisa sobre elas e sobre os gigantes!
— Os gigantes — disse Ralof. — Os gigantes são... bem, os gigantes são completamente diferentes, para começo de conversa. Mas os olhos, os olhos são muito esquisitos. — Ele tentou algumas palavras desajeitadas que foram acabando em silêncio. — Oh, bem — continuou ele —, vocês já viram alguns de longe... eles os viram, de qualquer forma, e disseram que vocês estavam a caminho... e verão muitos outros, eu espero, antes que deixemos este lugar. Vocês devem tirar suas próprias conclusões.
— Calma! Calma — disse Kharjo. — Estamos começando a história pelo meio. Gostaria de uma narrativa na ordem correta, começando pelo dia estranho em que nossa sociedade foi rompida.
— Você vai ouvi-la, se houver tempo — disse Ralof. — Mas primeiro se já terminaram de comer — vocês devem pegar esses frascos de skooma e bebê-los. E então, por um tempo, podemos fingir que estamos a salvo outra vez em Riverwood, ou em Alta Hrothgar. — Pegou uma pequena bolsa de couro cheia de frascos roxos e verdes. — Tenho um monte — disse ele. — Vocês podem levar o quanto quiserem, quando partirmos. Fizemos um bom trabalho de salvamento esta manhã, Meeko e eu. Há um monte de coisas flutuando por aí. Foi Meeko quem achou dois pequenos barris, que as aguas carregaram de alguma despensa, julgo eu. Quando os abrimos, descobrimos que estavam cheios disto: frascos de uma skooma tão boa que melhor não se poderia desejar, em ótimo estado.
Kharjo pegou um pouco, despejou contra a palma das mãos e cheirou.
— Parece boa, e o cheiro também é ótimo — disse ele.
— E é boa! — disse Ralof. — Meu caro Kharjo, isso é skooma de Elsweyr, sua linda terra! Nos barris havia a marca registrada dos Tojay-raht, para quem quisesse ver. Como chegou até aqui eu não posso imaginar. Talvez para uso particular de Ancano. Nunca soube que o açúcar da lua chegasse até tão longe. Mas agora vem bem a calhar.
— Viria — disse Kharjo —, se eu tivesse um narguilê adequado. Infelizmente perdi o meu nas Cataratas Ermas, ou antes. Não há nenhum cachimbo no meio de todas as coisas que vocês saquearam?
— Não, receio que não. Não encontrei nenhum, nem mesmo aqui nas salas de guarda. Ancano guardou esse regalo para si mesmo, ao que parece. E acho que não adiantaria nada bater às portas do Colégio e pedir-lhe um narguilê! Vamos ter de beber, como fazemos quando a necessidade aperta. Isso anula a dívida entre nós? — perguntou ele.
— Sem dúvida — exclamou Kharjo. — Meu nobre soldado, isso me deixa profundamente endividado para com você.
— Bem, vou voltar ao ar livre, para ver o que o vento e o céu estão fazendo! — disse Faendal.
— Vamos com você — disse Vorstag.
Saíram e se sentaram sobre as pedras empilhadas à frente do portão. Agora conseguiam enxergar o vale lá embaixo: a névoa estava se erguendo e se dissipando na brisa.
— Agora vamos descansar aqui um pouco! — disse Vorstag. — Vamos nos sentar sobre os escombros e conversar, como diz Savos, enquanto ele está ocupado em algum outro lugar. Sinto um frio que nunca senti antes. — Embrulhou-se em sua capa marrom, escondendo a ombreira metálica, e esticou as longas pernas. Depois deitou-se e engoliu uma golada de skooma.
— Vejam! — disse Ralof. — Encapuzado, o guardião, está de volta!
— Ele nunca esteve ausente — disse Vorstag. — Sou o Encapuzado e o Guardião da Alvorada também, e pertenço a Haafingar e a Cyrodiil.
Fumaram em silêncio por um tempo, ao sol, que oblíquo penetrava no vale, através de nuvens brancas suspensas no oeste. Faendal estava deitado e quieto, olhando para o céu e o sol com olhos fixos, cantando baixinho para si mesmo. Finalmente sentou-se. — Venham agora! — disse ele. — O tempo está passando e a névoa se dissipando, ou pelo menos está para mim, não sei para vocês, pessoas estranhas, que cobrem a visão de névoa com esse líquido. E a história?
— Bem, minha história começa comigo acordando no escuro e me vendo todo amarrado num acampamento de dremoras — disse Ralof. — Deixe-me ver, que dia é hoje?
— Doze de Primeira-Colheita — disse Vorstag. Ralof fez alguns cálculos nos dedos. — Apenas dezesseis dias atrás! — disse ele — Parece que já faz um ano que fomos capturados. Bem, apesar de metade disso ter sido como um sonho ruim, devo dizer que vieram depois três dias horríveis. Não vou entrar em detalhes: as chicotadas, a nojeira, o mau cheiro, e tudo aquilo; não vale a pena recordar. — Com isso ele mergulhou num relato do último combate de Erik e da marcha dos dremoras de Forgulnthur até o Labyrinthian. Os outros faziam sinais afirmativos com a cabeça nos pontos em que o relato se encaixava com suas suposições.
— Aqui estão alguns tesouros que você deixou cair — disse Vorstag. — Ficará feliz em tê-los de volta. — Desafivelou o cinto embaixo de sua capa e tirou dele uma faca em sua bainha.
— Ora, ora! — disse Ralof. — Nunca esperava vê-la outra vez! Marquei alguns dremoras com a minha, mas Orakhven tirou-nos as facas. O ódio com que ele as olhava! No início achei que ia me golpear, mas ele as jogou longe, como se queimassem suas mãos.
— E aqui também está seu broche, amuleto — disse Vorstag. — Guardei-o a salvo, pois é um objeto muito precioso.
— Eu sei — disse Ralof. — Foi um sofrimento separar-me dele; mas que mais eu poderia fazer?
— Nada mais — respondeu Vorstag. — Alguém que, numa necessidade, não consegue jogar fora um tesouro está acorrentado. Você fez a coisa certa.
— Cortar as cordas de seus pulsos, isso foi um lance de esperteza! — disse Kharjo. — Nesse momento a sorte o ajudou, mas você agarrou a oportunidade com as duas mãos, poderíamos dizer.
— E nos impôs um belo enigma — disse Faendal. — Fiquei pensando se vocês não tinham criado asas.
— Infelizmente não — disse Ralof. — Mas você não estava sabendo sobre Agronavekh. — Ele estremeceu e contou o resto sobre aqueles momentos horríveis: as mãos em forma de pata, o hálito quente e a força terrível dos braços peludos de Agronavekh.
— Toda essa história sobre os dremoras de Skuldafn, Sethdoth, como dizem eles, me deixa preocupado — disse Vorstag. — O Devorador de Mundos já sabia demais, e seus servidores também; e Agronavekh evidentemente enviou alguma mensagem para o outro lado das montanhas depois da briga. O Devorador de Mundos estará olhando na direção de Winterhold. Mas, de qualquer forma, Ancano está num dilema que ele mesmo criou.
— Sim, qualquer que seja o lado vencedor, sua perspectiva é ruim — disse Ralof. — As coisas começaram a dar errado para ele quando seus dremoras pisaram em Morthal.
— Vimos de relance o elfo vilão, ou pelo menos Savos acha que sim — disse Kharjo. — Nas ruínas do Labyrinthian.
— Quando foi isso? — perguntou Ralof.
— Doze noites atrás — disse Vorstag.
— Deixe-me ver — disse Ralof. — Doze noites atrás... agora chegamos a uma parte da história sobre a qual vocês não sabem nada. Encontramos Malatar alguns dias antes disso depois da batalha; e aquela noite passamos no Descanso da Tempestade, um dos acampamentos dos gigantes. Na manhã seguinte fomos para uma reunião, quer dizer, uma reunião de gigantes e a coisa mais esquisita que já vi em minha vida. Durou todo aquele dia e o seguinte, e nós passamos as noites com um dragão branco. E então, no fim da tarde do terceiro dia do debate, os gigantes de repente explodiram. Foi assustador. Eles estavam tensos como se uma tempestade estivesse se formando dentro deles: então, em uníssono, explodiram. Gostaria que vocês pudessem ter ouvido a canção deles enquanto marchavam. Se Ancano tivesse ouvido, agora estaria a milhas de distância, mesmo que tivesse de correr com as próprias pernas
Se Winterhold for um lugar de pedra fria e duro osso,
Nós vamos todos guerrear quebrar a pedra e seu portão!
— Havia muito mais. Grande parte da canção não tinha palavras, e era como uma música de trombetas e tambores. Era muito contagiante. Mas pensei que fosse apenas uma música de marcha e nada mais, apenas uma canção — até que cheguei aqui. Agora eu sei do que se trata. Descemos da última cordilheira entrando nas montanhas do Monte Anthor, depois do cair da noite Foi nesse momento que senti pela primeira vez que os mamutes caminhavam atrás de nós. Pensei que estava tendo um sonho louco, mas Meeko também tinha notado. Estávamos os dois com medo, mas só depois descobrimos mais sobre o que estava acontecendo. Eram os mayatalar, ou pelo menos é esse o jeito como os gigantes os chamam. Malatar não gosta muito de falar sobre eles, mas acho que são mamutes que são mais inteligentes do que o comum, e foram batalhar com eles. Ficam aqui e acolá no mundo, bem treinados por seus pastores, ou nas suas bordas, silenciosos, vigiando sem parar as árvores; mas nos vales profundos há centenas e centenas deles, eu imagino. Há um grande poder neles, e parece que têm a capacidade de se ocultar nas sombras: é difícil vê-los se movendo. Mas eles se movem. Podem trotar muito rápido, se estiverem furiosos. Você fica parado olhando para o tempo, talvez, ou ouvindo o farfalhar das folhas, e de repente descobre que está no meio de um bosque com grandes mamutes guinchando à sua volta. Seus urros são muito fortes e altivos — é por isso que são chamados de mayatalar, pelo que diz Malatar — mas ficaram esquisitos e selvagens. Perigosos. Eu ficaria apavorado se os encontrasse e não houvesse nenhum gigante verdadeiro para cuidar deles. Bem, no início da noite nós descemos uma longa ravina, para dentro da extremidade mais alta dos planaltos, os gigantes e seus mayatalar berrantes atrás. Não conseguíamos vê-los, é claro, mas todo o ar estava cheio de estalidos. Estava muito escuro, uma noite carregada de nuvens. Marcharam em grande velocidade assim que deixaram as colinas, fazendo um barulho como um vento forte. A lua não apareceu através das nuvens, e não muito depois da meia-noite havia um exército em toda a volta da encosta norte de Winterhold. Não se via sinal de inimigos ou qualquer desafio. Havia uma luz brilhando numa alta janela na torre, isso era tudo. Malatar e alguns outros gigantes avançaram, ficando à vista das grandes torres do Colégio. Meeko e eu estávamos com ele. Estávamos sentados nele. Mas mesmo quando estão nervosos os gigantes conseguem ser muito cuidadosos e pacientes. Ficaram parados feito estátuas, respirando e escutando. Então, de repente, houve uma agitação tremenda. Trombetas soaram e as muralhas do Colégio ecoaram. Pensamos que tínhamos sido descobertos, e que a batalha ia começar. Mas não foi nada disso. Todo o pessoal de Ancano estava partindo em marcha. Não sei muita coisa sobre esta guerra, ou sobre os soldados de Riften, mas parece que a intenção de Ancano era exterminar o jarl e todos os seus homens com um único golpe final. Ele evacuou Winterhold. Eu vi o inimigo partindo: filas intermináveis de dremoras em marcha, tropas deles. E também havia batalhões de homens. Muitos carregavam tochas, e com a luz pude ver seus rostos. A maioria eram homens comuns, muito altos, morenos e com os cabelos escuros, sinistros na aparência, porém não especialmente maus. Mas havia uns outros que eram horríveis: da altura de homens, mas com rostos secos, amarelados, de olhar azul, torto. Sabem de uma coisa, eles me fizeram lembrar imediatamente dos draugrs das Cataratas Ermas: só que ele não era tão obviamente parecido com um draugr como eles.
— Pensei nele também — disse Vorstag. — Tivemos de lidar com muitos desses semi-draugrs e semi-daedras no Forte da Vigília da Névoa. Provavelmente homens mortos, retornados pela arte da necromancia. Agora fica claro que o amigo de Nazeem era um espião de Ancano; mas se estava trabalhando com os vampiros, ou só para Ancano, eu não sei. É difícil saber, com essas pessoas más, quando estão unidos e quando estão enganando uns aos outros.
— Bem, todos os tipos juntos, deviam perfazer dez mil no mínimo — disse Ralof. — Levaram uma hora para passar pelos portões. Alguns desceram a estrada que conduz a Windhelm, e outros se desviaram e foram para o leste. Construíram uma ponte lá embaixo, cerca de uma milha daqui, num ponto onde o rio passa por um canal muito profundo. Todos cantavam com vozes roucas, e riam, fazendo um barulho horroroso. Pensei que as coisas estavam pretas para Riften. Mas Malatar não se mexeu. Ele disse: “Meu negócio esta noite é com Winterhold, com rocha e pedra.” Mas embora eu não pudesse ver o que estava acontecendo na escuridão, acredito que os mayatalar começaram a rumar para o sul, logo que os portões se fecharam de novo. Acho que o negócio deles era com os dremoras. Já estavam lá embaixo no vale pela manhã; ou pelo menos havia uma sombra que ninguém conseguia atravessar com os olhos. Assim que Ancano tinha despachado todo o seu exército, chegou a nossa vez. Malatar nos pôs no chão, dirigiu-se aos portões e começou a golpear as portas, chamando Ancano. Não houve resposta, com a exceção de flechas e pedras que vieram das muralhas. Mas flechas não adiantam nada contra os gigantes. É claro que os machucam, e os enfurecem: como picadas de insetos. Mas um gigante pode ficar crivado de flechas de dremoras como uma almofada de alfinetes, sem que fique seriamente ferido. Isso porque eles não podem ser envenenados, e sua pele parece ser muito grossa, mais resistente que uma casca de árvore. Seria necessário um golpe muito pesado de espada para machucá-los de fato. Eles não gostam de machados. Mas seriam necessários muitos homens com espadas para cada gigante: um homem que golpeia um gigante uma vez não tem uma segunda oportunidade. Um murro dado pelo punho de um gigante amassa o ferro como se fosse uma lata fina. Quando Malatar tinha algumas flechas em seu corpo, começou a esquentar, a ficar positivamente “apressado”, como diria ele. Soltou um grande hum-hom, e mais uns doze gigantes vieram avançando. Um gigante furioso é aterrador. Os dedos dos pés e das mãos simplesmente agarram-se à rocha e a arrancam qual casca de pão. Foi como assistir ao trabalho deles durante uma centena de anos, tudo condensado em alguns momentos. Eles empurravam, puxavam, rasgavam, chacoalhavam, e esmurravam; em cinco minutos esses portões enormes estavam no chão destruídos; e alguns dos gigantes já estavam começando a roer as muralhas, como coelhos num poço de areia. Foi quando eu ouvi um barulho ensurdecedor, muito parecido com aquele terrível rugido que ouvi no incidente em Helgen. Quando olhei para o céu, asas furadas e brancas planavam na noite estrelada. Temi que Ancano já tivesse aliados muito mais fortes do que imaginávamos, mas não foi assim: o dragão era aquele que nos havia acolhido e começou a atear fogo no Colégio. Ele estava do nosso lado. Não sei o que Ancano pensou que estava acontecendo, mas de qualquer forma ele não sabia como lidar com aquilo. Sua magia pode ter fortalecido nos últimos tempos, é claro; mas de qualquer jeito acho que ele não tinha bravura suficiente, nem muita coragem, sozinho num lugar apertado, sem um monte de escravos e máquinas e coisas, se entendem o que quero dizer. Muito diferente do velho Savos. Fico pensando se toda a sua fama não se deveu todo esse tempo à sua esperteza ao instalar-se no Colégio de Winterhold.
— Não — disse Vorstag. — Ele já esteve à altura de sua fama, Tinha um conhecimento profundo, um pensamento sutil, e mãos maravilhosamente habilidosas; e tinha um poder sobre as mentes dos outros. Podia persuadir os sábios e amedrontar as pessoas menores. Esse poder certamente ele ainda conserva. Não há muitas pessoas em Nirn que na minha opinião poderiam ficar a salvo, se fossem deixadas sozinhas para conversar com ele, mesmo agora depois de uma derrota. Savos, Arngeir, e os Barbacinza, talvez, agora que sua maldade foi revelada, e quase mais ninguém.
— Os gigantes não correm esse risco — disse Ralof. — Parece que certa época ele os persuadiu, mas nunca mais vai conseguir isso. E de qualquer forma ele não os entendeu, e cometeu o grave erro de deixá-los fora de suas maquinações. Não tinha planos para eles, e já não havia tempo para planejar nada, uma vez que eles se puseram a trabalhar. Assim que nosso ataque começou, os poucos ratos que sobraram em Winterhold começaram a fugir através de cada furo que os gigantes fizeram. Os gigantes deixaram os homens que não estavam agonizando em chamas fugir, depois de tê-los interrogado, restavam apenas duas ou três dúzias. Não acho que muitos do povo dos dremora, de qualquer tamanho, tenham escapado. Não dos mayatalar: havia uma boa quantidade deles em toda a volta de Winterhold naquele momento, além daqueles que tinham descido o vale. Quando os gigantes tinham reduzido a escombros uma grande parte da cidade, e o que restava de seu povo tinha fugido abandonando-o, Ancano fugiu em pânico. Parece que ele estava junto ao portão quando chegamos: acho que veio assistir à partida de seu esplêndido exército. Quando os gigantes arrombaram os portões e entraram, ele partiu apressado. Eles não o viram no inicio. Mas a noite se abrira e havia uma forte luz das estrelas, o suficiente para que os gigantes enxergassem, e de repente Paarthurnax soltou um grito grave nos céus: “Qethsegol qahnaarin, o destruidor de pedras!” Paarthurnax é uma criatura gentil, mas por isso mesmo odeia Ancano com todas as suas forças: seu povo sofreu cruelmente sob o comando de Alduin antigamente, e ele nem de perto gostaria de ver o comando do Devorador de Mundos novamente. Ele desceu numa planada dos céus, pois ele pode mover-se como o vento quando está enfurecido. Havia uma figura amarelada fugindo, entrando e saindo entre as sombras dos pilares, e já quase alcançava as rampas que conduzem ao Colégio. Mas foi por pouco. Paarthurnax vinha tão veloz atrás dele que por um muito pouco Ancano não foi pego e estrangulado quando se esgueirou pelas pontes. Paarthurnax colidiu contra a primeira torre e a destruiu, mas isso o atrasou. Quando Ancano estava a salvo outra vez no Colégio, não demorou muito para que pusesse em ação algumas de suas preciosas máquinas. Nesse momento já havia muitos gigantes dentro de Winterhold: alguns tinham seguido Paarthurnax, e outros tinham irrompido do oeste e do leste: estavam vagando de um lado para o outro e fazendo um grande estrago. De repente ergueram-se chamas e uma fumaça imunda: as aberturas dos poços em toda a planície começaram a cuspir e vomitar. Vários gigantes ficaram com queimaduras e bolhas. Um deles, que se chamava Matalayar, eu acho, ficou preso no vapor de algum tipo de fogo líquido e queimou como uma tocha: uma cena horrível. Isso os deixou loucos. Eu achara antes que eles estavam realmente furiosos, mas estava errado. Finalmente vi como eles ficam quando se enfurecem. Foi chocante. Eles rugiram e ribombaram e produziram ruídos como trombetas, até que as rochas começaram a se partir e ruir ante O simples barulho deles. Meeko e eu nos deitamos no chão e eu cobri nossos ouvidos. Dando voltas na rocha do Colégio, os gigantes iam a largas passadas, produzindo uma tempestade como um furacão, quebrando pilares, lançando avalanches de pedras para o castelo, jogando grandes lajes de pedra no ar como se fossem folhas. A torre ficou no meio de um tufão. Vi pilares de ferro e blocos de alvenaria subindo feito foguetes dezenas de metros, e se arrebentando contra as janelas do Colégio. Mas Malatar se manteve calmo. Felizmente não sofrera nenhuma queimadura. Não queria que seu povo se ferisse em sua fúria, e não queria que Ancano escapasse por algum buraco em meio à confusão. Muitos gigantes estavam se lançando contra a rocha do Colégio, mas ela os derrotou. É muito lisa e dura. Há alguma magia nela, talvez mais antiga e mais forte que a de Ancano. De qualquer forma, eles não conseguiram agarrá-la nem causar-lhe nenhuma rachadura: eles é que estavam se machucando e contundindo ao se baterem contra a torre. Então Paarthurnax saiu da água e planou no ar, e pingou a água gelada do mar em todos nós como se estivesse chovendo. Ele bateu as asas em cima do Colégio por algum tempo e usou a Voz. Sua voz poderosíssima se ergueu acima de todo o estrondo, de repente, fez-se um silêncio mortal. Rasgando-o, pudemos ouvir uma risada aguda vinda de uma alta janela na torre. Isso provocou um estranho efeito nos gigantes. Antes eles estavam fervendo; nesse momento ficaram frios, sinistros como o gelo, e quietos. Deixaram a planície e se reuniram em volta de Paarthurnax, que pousou na frente de Malatar, completamente imóveis. Ele lhes falou em sua própria língua por uns instantes; acho que estava lhes contando sobre um plano já formado em sua mente havia muito tempo. Depois eles simplesmente desapareceram silenciosamente na luz cinzenta. O dia estava nascendo naquele momento. Ficaram vigiando a torre, acredito eu, mas os vigilantes estavam tão bem escondidos nas sombras e mantinham tamanho silêncio, que eu não conseguia vê-los. Os outros partiram para o oeste. Ficaram ocupados todo o dia, e não os vimos. A maioria do tempo ficamos sozinhos. Foi um dia melancólico, e andamos um pouco por aí, embora procurássemos ficar o máximo possível fora do campo de visão das janelas do Colégio: elas nos observavam ameaçadoramente. Passamos uma boa parte do tempo procurando algo para comer. E também nos sentamos e pensamos, imaginando o que estaria acontecendo em Riften, e o que teria sucedido a todo o resto da Companhia. De vez em quando ouvíamos na distância o estrondo de pedras caindo, e baques surdos ecoando nas colinas. Durante a tarde caminhamos em volta do círculo, e fomos dar uma olhada no que estava acontecendo. Havia um grande bando de mamutes mayalatar na cabeceira do vale, e um outro em volta da muralha oeste. Não ousamos chegar perto. Quando chegou o crepúsculo, Malatar retornou a entrada de Winterhold, estava cantarolando e ribombando para si mesmo, e parecia satisfeito. Parou e esticou os grandes braços e pernas, depois respirou fundo. Perguntei lhe se estava cansado.
“Cansado?”, disse ele, “cansado? Bem, cansado não, mas com o corpo enrijecido. Preciso de um bom pedaço de queijo. Trabalhamos muito; quebramos mais pedras e roemos mais terra hoje do que em muitos longos anos antes. Mas está quase tudo pronto. Quando chegar a noite, não fiquem perto deste portão ou no velho túnel! Pode ser que a água cubra tudo — e por um tempo será uma água ruim, até que toda a sujeira de Ancano seja levada embora. Então o Yorgrim poderá correr limpo outra vez.”
Começou a derrubar mais uma parte das muralhas, como se aquilo fosse um passatempo, apenas para se divertir. Estávamos pensando que lugar poderia ser seguro para deitarmos e dormirmos um pouco, quando a coisa mais surpreendente de todas aconteceu. Ouviu-se o ruído de um cavaleiro subindo rapidamente pela estrada. Meeko e eu nos deitamos e ficamos imóveis, e Malatar se escondeu nas sombras sob o arco. De repente, um grande cavalo veio avançando, como um clarão de prata. Já estava escuro, mas eu pude ver claramente o rosto do cavaleiro: era acinzentado, seus olhos vermelhos brilhavam, e suas roupas eram amarelas. Eu me sentei, observando, de boca aberta. Tentei gritar, mas não consegui. Nem precisou. Ele parou bem ao nosso lado e olhou em nossa direção.
“Savos!”, disse eu finalmente, mas minha voz era apenas um sussurro. Pensam que ele disse: “Olá, Ralof! Que surpresa agradável!”? Na verdade não! Ele disse: “Levante-se, rápido! Onde, em nome do espanto, está Malatar no meio de todo este estrago? Quero vê-lo. Rápido!”
Barbárvore ouviu sua voz e saiu das sombras imediatamente, e foi um estranho encontro. Fiquei perplexo, porque nenhum dos dois parecia surpreso. Savos obviamente esperava encontrar Malatar aqui, e Malatar agiu como se estivesse à toa perto dos portões de propósito para recebê-lo. Já tínhamos contado ao velho gigante tudo sobre as Cataratas Ermas. Mas quando me lembro do olhar esquisito que nos lançou naquela hora só posso supor que ele tinha visto Savos, ou recebido alguma notícia dele, mas não estava disposto a falar nada apressadamente. “Não tenha pressa” é seu mote; mas ninguém, nem mesmo os elfos, pode saber muito sobre os movimentos de Savos quando ele está ausente.
“Hum! Savos Aren”, disse Malatar. “Fico feliz que tenha vindo. Floresta e água, troncos e rochas eu posso dominar; mas aqui há um mago para controlarmos.”
“Malatar”, disse Savos. “Preciso de sua ajuda. Você já fez muito, mas preciso de mais. Tenho que dar conta de cerca de dez mil dremoras.”
Então os dois saíram e fizeram uma reunião em algum canto. Deve ter parecido tudo bastante apressado para Malatar, pois Savos estava com uma ânsia tremenda, e já estava falando num ritmo bem acelerado antes que os dois desaparecessem de vista. Ficaram longe só alguns minutos, talvez um quarto de hora. Depois Savos voltou e veio em nossa direção, e parecia aliviado, quase contente. Só então disse que estava feliz em nos ver.
“Mas Savos”, exclamei eu, “onde você esteve? Você viu os outros?”
“Onde quer que eu tenha estado, estou de volta”, respondeu ele à sua maneira peculiar. “Sim, vi alguns dos outros. Mas as notícias devem esperar. Esta é uma noite perigosa, e preciso cavalgar rápido. A aurora pode ser mais clara e, se assim for, vamos nos encontrar outra vez. Cuidem-se e mantenham distância do Colégio de Winterhold. Adeus!”
Malatar ficou muito pensativo depois que Savos foi embora. Evidentemente, tinha sabido muita coisa em pouco tempo, e estava digerindo a informação. Olhou-nos e disse: “Hum, bem, percebo que vocês não são pessoas tão apressadas como eu pensava. Disseram muito menos que poderiam, e não mais do que deviam. Hum! Esse é um monte de notícias, sem dúvida! Bem, agora Malatar precisa ficar ocupado outra vez.”
Antes que se fosse, conseguimos arrancar dele algumas notícias que não nos alegraram nem um pouco. Mas naquele momento estávamos pensando mais em vocês três do que em Savos, ou no pobre Erik. Pois ficamos sabendo que estava acontecendo uma grande batalha, ou aconteceria em breve, e que vocês estavam nela, e poderiam nunca mais voltar.
“Paarthurnax e os mayatalar vão ajudar”, disse Malatar. Depois se afastou e não o vimos outra vez até hoje cedo. Foi uma noite negra. Deitamo-nos sobre uma pilha de pedras, e não conseguíamos ver nada. Névoa ou sombras cobriam tudo como um grande cobertor em toda a nossa volta. O ar parecia quente e pesado, e estava cheio de ruídos farfalhantes, estalidos e murmúrios semelhantes a vozes passando. Acho que outras centenas de mayatalar estavam avançando abaixo das asas de Paarthurnax em direção à batalha. Mais tarde houve um grande estrondo de trovão ao sul, e clarões e relâmpagos ao longe, sobre Windhelm. De tempos em tempos conseguíamos ver os picos das montanhas, a milhas e milhas de distância, penetrando de súbito na escuridão, brancos e pretos, para depois como o dos trovões nas colinas, mas diferentes. Algumas vezes todo o vale ecoava. Devia ser por volta de meia-noite quando os gigantes fizeram algum tipo de mágica da natureza e derramaram sobre Winterhold uma grande onde de água do mar. A escuridão dos mayatalar tinha passado, e o trovão se afastara. Winterhold começou a se encher de córregos e lagos negros que avançavam cada vez mais. As águas reluziram na última luz da lua, enquanto se espalhavam por toda a planície. De quando em quando, escoavam através de algum poço ou gárgula. Um grande vapor esbranquiçado subia chiando. A fumaça se levantava em ondas. Houve explosões e rajadas de fogo. Uma grande espiral de vapor subia se enrolando, dando voltas e mais voltas no Colégio, até transformá-la numa grande montanha de nuvem, com a parte inferior em chamas, e o topo iluminado pela lua. E ainda mais águas jorravam, até que finalmente Winterhold ficou parecendo uma enorme tigela rasa, soltando fumaça e borbulhando.
— Vimos uma nuvem de fumaça e vapor vindo do sul a noite passada, quando atingimos a abertura do Monte Anthor — disse Vorstag. — Receamos que Ancano nos estivesse preparando algum feitiço.
— Não ele! — disse Ralof. — Naquela hora é mais provável que ele estivesse sufocando e não rindo. Ontem pela manhã a água tinha penetrado por todos os buracos, e havia um denso nevoeiro. Refugiamo-nos naquela casa de guarda ali, e estávamos apavorados. O lago começou a transbordar derramando-se através do velho túnel, e a água cobria os degraus com grande rapidez. Pensamos que íamos ficar presos como dremoras num buraco, mas encontramos uma escada sinuosa na parte posterior da despensa, que nos levou até o topo do arco. Sair foi um aperto, já que as passagens estavam rachadas e meio bloqueadas com pedras caídas perto do topo. Ali ficamos sentados bem acima da enchente e assistimos ao afogamento de Winterhold de novo. Os gigantes continuavam a derramar mais água, até que todas as fogueiras estivessem apagadas e todas as cavernas cheias. Alguns outros carregavam moradores refugiados na casa do jarl para longe da água para salvá-los. A névoa lentamente se juntou e subiu formando um grande guarda-chuva de nuvens: devia ter uma milha de altura. No início da noite havia um grande arco-íris sobre as colinas orientais; e então o pôr-do-sol foi apagado por um chuvisco denso que caía sobre as encostas das montanhas. Tudo ficou muito quieto. Alguns lobos uivavam num lamento, a distância. E isso foi o fim de tudo. Desde então as águas estão baixando. Deve haver saídas em algum lugar nas cavernas lá embaixo, suponho eu. Se Ancano espiar por alguma de suas janelas, vai ver tudo desarrumado, uma desordem sombria. Sentimos uma enorme solidão. Não havia nenhum gigante para conversarmos em meio a toda a ruína, e nenhuma notícia. Passamos a noite ali, em cima do arco; estava frio e úmido, e não conseguimos dormir. Tínhamos a impressão de que alguma coisa podia acontecer a qualquer momento. Ancano ainda está em seu castelo. Havia um ruído na noite como o de um vento subindo o vale. Suponho que os gigantes e os mayatalar que tinham se ausentado estão de volta; mas aonde tinham ido eu não sei. Estava uma manhã cheia de névoa e umidade quando descemos e olhamos ao redor de novo, e não se via ninguém. E isso é tudo o que temos para contar. Parece que o lugar está quase pacífico depois de todo o tumulto. E mais seguro, de certa forma, já que Savos tinha voltado. Consegui dormir!
Então todos ficaram em silêncio por um tempo. Kharjo virou outra golada de skooma. — Há uma coisa que me pergunto — disse ele enquanto limpava a boca —: Estormo. Você disse a Harrald que ele estava com Ancano. Como ele chegou lá?
— Ah, sim, eu me esqueci dele — disse Ralof. — Só chegou aqui esta manhã. Tínhamos acabado de acender a fogueira e de comer alguma coisa quando Malatar apareceu de novo. Escutamos sua voz murmurando e chamando nossos nomes do lado de fora.
“Vim saber como estão passando, meus amigos”, disse ele, “e para lhes dar alguma notícia. Os mayatalar voltaram. Está tudo bem, bem mesmo!”, disse ele rindo e dando tapinhas nas coxas. “Não sobrou nenhum demônio em Winterhold, nem suas armas! E virão pessoas do sul antes do fim do dia; alguns que vocês poderão ficar alegres em ver.”
Mal ele tinha dito isso quando ouvimos o som de cascos na estrada. Corremos para os portões, e eu parei e olhei, quase esperando ver Vorstag e Savos cavalgando à frente de um exército. Mas saindo da névoa veio um elfo sobre um cavalo velho e cansado; ele mesmo parecia uma criatura estranha e toda torta. Não havia mais ninguém. Quando saiu da névoa, viu de repente toda a ruína e o estrago à sua frente. Parou, pasmo, e seu rosto foi de amarelo a quase verde. Estava tão perplexo que a princípio não deu sinal de ter-nos visto. Quando viu, deu um grito, e tentou virar o cavalo e fugir. Mas Barbárvore deu três passadas, estendeu um braço longo e o levantou da sela. O cavalo disparou em fuga, apavorado, e ele rastejou pelo chão. Disse que era Estormo, amigo e conselheiro do Jarl de Riften, e tinha sido enviado trazendo mensagens importantes de Harrald para Ancano.
“Ninguém mais ousaria cavalgar pelo campo aberto, tão cheio de dremoras malignos”, disse ele, “então eu fui enviado. Fiz uma viagem perigosa, e estou cansado e faminto. Desviei de meu caminho em direção ao norte, fugindo dos lobos que me perseguiam.”
Percebi os olhares oblíquos que ele lançou para Malatar, e disse para mim mesmo: “Mentiroso.” Malatar olhou para ele com seu jeito lento e demorado por vários minutos, até que o infame estivesse estrebuchando no chão. Então disse finalmente: “Ha, hum, estava esperando você, Estormo dos Thalmors.” O elfo teve um sobressalto ao ouvir aquele nome. “Savos Aren chegou aqui primeiro. Por isso, sei sobre você o quanto preciso, e sei também o que fazer com você. Ponha todos os ratos na mesma ratoeira, disse Savos, e é isso o que vou fazer. Agora sou o senhor de Winterhold, mas Ancano está trancado na torre; você pode ir para lá e lhe transmitir todas as mensagens que conseguir imaginar.”
“Deixe-me ir, deixe-me ir!”, disse Estormo. “Eu sei o caminho.”
“Você sabia o caminho, não duvido”, disse Malatar. “Mas as coisas mudaram um pouco por aqui. Vá e veja com seus próprios olhos!”
Malatar permitiu a passagem de Estormo, e ele se foi mancando através do arco, seguido de perto por nós, até que atingiu o círculo e pôde ver toda a água que estava entre ele e o Colégio. Então voltou-se para nós.
“Deixem-me ir embora”, choramingou ele. “Deixem-me ir embora! Minhas mensagens são inúteis agora.”
“De fato são”, disse Malatar. “E você só tem duas escolhas: ficar comigo até que Savos Aren e seu mestre cheguem, ou atravessar a água. O que você escolhe?”
O elfo tremeu à menção do nome de seu mestre e colocou um pé na água; mas recuou. “Não sei nadar”, disse ele.
“Não é fundo”, disse Malatar. “A água está suja, mas isso não vai lhe fazer mal, Mestre Thalmor. Entre agora!”
Com isso o patife foi aos trambolhões entrando na água, que atingiu a altura de seu pescoço antes de perder-se de vista à distância. A última visão que tive foi dele se agarrando em algum barril velho ou pedaço de madeira. Mas Malatar foi andando na água atrás dele, vigiando seu avanço.
“Bem, ele entrou lá”, disse o gigante ao retornar. “Vi-o se arrastando escada acima como um rato emporcalhado. Ainda há alguém na torre: uma mão apareceu e o puxou para dentro. Então ele está lá, e espero que a recepção seja a seu gosto. Agora preciso ir e me lavar desse lodo. Estarei lá em cima, na encosta norte, no mar, se alguém quiser me ver. Aqui embaixo não há água limpa, adequada para um gigante beber, ou para se lavar. Então vou pedir a vocês dois que fiquem de olho no portão à espera das pessoas que estão chegando. Quem vem vindo é o Senhor do Lago de Riften, vejam bem! Devem recebê-lo da melhor maneira possível: seus homens travaram uma grande luta com os dremoras. Talvez vocês conheçam melhor que os gigantes a maneira correta nas palavras dos homens para um senhor dessa importância. Houve muitos senhores nos campos verdes na minha época, e nunca aprendi suas falas e seus nomes. Eles vão querer comida humana, e vocês sabem tudo sobre isso, julgo eu. Então achem algo adequado para um jarl comer, se puderem.” E este é o fim da história. Mas eu gostaria de saber quem é esse Estormo. Ele era mesmo o conselheiro do jarl?
— Era — disse Vorstag —; e ao mesmo tempo um espião e servidor de Ancano em Riften. A sorte não lhe foi mais gentil do que ele merecia. A visão das ruínas de tudo o que ele considerava tão forte e magnífico deve ter sido uma punição quase suficiente. Mas receio que coisas piores lhe estão reservadas.
— É sim. Não acho que Malatar o mandou para o Colégio por gentileza — disse Ralof. — Ele parecia sinistramente satisfeito com a coisa toda, e estava rindo para si mesmo quando foi tomar seu banho e beber algo, Ficamos muito ocupados depois disso, vasculhando os escombros e vistoriando tudo. Encontramos duas ou três despensas em lugares diferentes aqui perto, acima do nível da água. Mas Malatar mandou uns gigantes aqui para baixo, e eles carregaram uma boa parte do material.
“Queremos comida humana para vinte e cinco pessoas”, disseram os gigantes. Então vocês podem ver que alguém contou cuidadosamente o número de sua companhia antes que chegassem. Evidentemente a intenção era que vocês três fossem com os grandes. Mas não teriam passado melhor. Enviamos a mesma coisa que guardamos aqui, eu juro. Melhor aqui, porque nós não mandamos bebida.
“E bebida?”, eu perguntei aos gigantes.
“Temos a água do mar e dos rios”, disseram-me eles, “e isso é bom o bastante para os gigantes e para os homens.” Mas espero que os gigantes tenham tido tempo de preparar um pouco de suas próprias bebidas com a água do mar das montanhas, e então poderemos ver a barba de Savos se enrolando toda quando ele voltar. Depois que os gigantes se foram, ficamos cansados e famintos. Mas não podemos reclamar. Nosso trabalho foi bem recompensado. Foi em meio à nossa busca por comida humana que Meeko descobriu a jóia de todo o escombro, aqueles barris de Elsweyr. “Skooma é melhor depois da comida”, eu disse; foi assim que tudo aconteceu.
— Agora entendemos tudo perfeitamente — disse Kharjo.
— Tudo, menos uma coisa — disse Vorstag —: Skooma de Elsweyr em Winterhold. Quanto mais penso nisso, mais eu acho o fato curioso. Nunca estive em Winterhold, mas já viajei por esta região, e conheço bem as terras desertas que ficam entre Estado de Winterhold e a Passagem Branca, de onde vem as mercadorias das províncias ao Sul de Skyrim. Nem mercadoria nem pessoas passaram por ali em muitos longos anos, não abertamente. Acho que Ancano tinha negócios secretos com alguém em Cyrodiil. Podem-se encontrar Estormos em várias outras casas além da do Jarl Harrald. Havia uma data nos barris?
— Havia — disse Ralof. — Foi a colheita de 200, a do ano passado; não, do ano anterior, é claro: um bom ano.
— Bem, qualquer mal que estivesse à solta está terminado agora, eu espero; ou então está além de nosso alcance no momento — disse Vorstag. — Mas acho que vou mencionar o fato a Savos, embora pareça um assunto sem importância em meio às suas grandes questões.
— Fico pensando o que ele estará fazendo — disse Ralof. — A tarde está avançando. Vamos dar uma olhada. De qualquer forma, você pode entrar em Winterhold agora se quiser, Vorstag. Mas a vista não é muito animadora.
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