Ralof voltou para a pequena sala. Estava tudo escuro. Foi só quando reavivou as brasas e jogou mais gravetos na lareira que descobriu que o Encapuzado o tinha acompanhado. Ali estava ele, calmamente sentado numa poltrona perto da porta.

— O senhor disse que poderia me dizer algo do meu interesse — disse Ralof. — O que é?

— Várias coisas eu posso te dizer, Ralof Mata-Dragão — respondeu o Encapuzado. — Mas, é claro, tenho meu preço.

— Que quer dizer? — perguntou Ralof secamente.

— Não se assuste! E só isto: Direi o que sei, e darei bons conselhos ao senhor — mas vou querer uma recompensa.

— E qual será ela?, eu pergunto — disse Ralof. Suspeitava agora que tinha caído nas mãos de um chantagista, e lembrava com certo desconforto que tinha trazido apenas uma pequena quantia em septims. Tudo o que tinha mal satisfaria um patife daqueles, e ao mesmo tempo não era dinheiro que pudesse jogar fora.

— Nada que não esteja ao seu alcance — respondeu o Encapuzado com um sorriso lento, como se adivinhasse o pensamento de Ralof. — Apenas isto: deve me levar junto com o senhor, até que eu queira abandoná-lo.

— Ah, é?! — retorquiu Ralof surpreso, mas não muito aliviado. — Mesmo que precisasse de um companheiro, eu não concordaria com uma coisa dessas, não antes de saber mais sobre o senhor e suas atividades.

— Excelente! — exclamou o Encapuzado, cruzando as pernas e se recostando na cadeira. — Parece que o senhor está voltando ao normal de novo, e isso é ótimo. Até agora foi descuidado demais. Muito bem! Direi o que sei, e deixarei a recompensa por sua conta. Ficará feliz em garanti-la, depois de me ouvir.

— Então prossiga! — disse Ralof. — O que o senhor sabe?

— Muito; muitas coisas obscuras — disse o Encapuzado com uma voz triste. — Mas em relação ao seu negócio... — ele se levantou e dirigiu-se até a porta, abrindo-a e olhando para fora rapidamente. Depois a fechou sem fazer ruído e sentou-se de novo. — Tenho ouvidos atentos — continuou ele, abaixando a voz. — E, embora eu não possa matar um dragão, já cacei muitas coisas ferozes e espertas, e geralmente posso evitar que me vejam, se desejar. Não agüento esperar mais, eu o ouvi dizer enquanto viajava e passava por Riverwood, vou partir, e Savos deve me seguir. Isso me interessou tanto que eu o segui até aqui. Pulei o portão logo atrás de você. Talvez o Sr. Ralof tenha um motivo honesto que faça um mago de renome como Savos Aren segui-lo por vontade própria; mas se for assim, devo pedir que ele seja mais cauteloso.

— Não vejo por que minhas amizades possam despertar interesse em Whiterun — disse Ralof furioso. — E ainda preciso saber o motivo do seu interesse. O Sr. Encapuzado pode ter um motivo honesto para ficar espionando; mas se for assim, devo pedir que se explique.

— Boa resposta — disse o Encapuzado rindo. — Mas a explicação é simples: eu estava procurando um soldado chamado Ralof de Riverwood. Queria encontrá-lo rápido. Sabia que ele estava levando de Riverwood, bem, um segredo que interessa a mim e a meus amigos. Agora, não me leve a mal! — gritou ele, logo que Ralof levantou-se da poltrona e ficou em pé com esgares no rosto. — Cuidarei melhor do segredo do que você. E é preciso muita cautela! — Inclinou-se para frente e olhou nos olhos de Ralof. — Vigie cada sombra! — disse ele em voz baixa. — Vampiros passaram por Whiterun. Na sunda-feira, um desceu pela estrada, pelo que dizem; e outro apareceu mais tarde, subindo a estrada vindo do sul.

Fez-se silêncio. Finalmente Ralof falou: — Deveria ter adivinhado pelo jeito com que o porteiro me cumprimentou — disse ele. — E a proprietária da estalagem parece ter ouvido alguma coisa. Por que fez pressão para que eu me juntasse ao grupo? E por que raios me comportei como um perfeito idiota? Deveria ter ficado aqui, quieto.

— Teria sido melhor — disse o Encapuzado. — Eu teria evitado que tivessem ido para a sala de estar, se pudesse; mas a estalajadeira não permitiu que eu os encontrasse, e se recusou a dar qualquer recado.

— Você acha que ela... — começou Ralof.

— Não, não acho que a velha Hulda tenha más intenções. É só que ela não gosta nem um pouco de vagabundos misteriosos como eu. — Ralof olhou para ele intrigado. — Bem, tenho aparência de patife, não tenho? — disse o Encapuzado, crispando o lábio e com um brilho estranho nos olhos. Mas espero que possamos nos conhecer melhor. Quando isso acontecer, quero que me explique o que aconteceu no final da sua canção, pois aquela pequena travessura...

— Foi puro acidente! Não sabia que me conheciam por este nome aqui em Whiterun — interrompeu Ralof.

— Imagino — disse o Encapuzado. — Acidente, então! Aquele acidente o colocou numa situação perigosa.

— Não muito mais perigosa do que já era — disse Ralof. — Eu sabia que alguém me perseguiria; mas agora, de qualquer forma, parece que esses vampiros perderam meu rastro e foram embora.

— Não deve contar com isso! — disse o Encapuzado categoricamente. — Eles voltarão. E mais estão a caminho. Há outros. Sei quantos são. Conheço esses vampiros. Tão poderosos quanto aqueles da linhagem de Harkon Volkihar, porém mais obscuros, mais corruptos. Não possuem desejo por mortais ou por seu sangue, mas possuem muita raiva escura. — Parou, e seus olhos ficaram frios e duros. — E há algumas pessoas em Whiterun que não merecem confiança — continuou ele. Nazeem, por exemplo. Ele tem o nome sujo na região de Whiterun, e pessoas estranhas o visitam. Deve tê-lo notado em meio ao grupo: um sujeito moreno e sarcástico. Estava bastante íntimo de um dos estranhos do Norte, e eles se esgueiraram para fora logo depois do seu “acidente”. Nem todos esses nortenhos têm boas intenções; e quanto a Nazeem, este venderia qualquer coisa a qualquer pessoa; e seria capaz de fazer maldades só para se divertir.

— O que Nazeem vai vender, e o que o meu acidente tem a ver com ele? — perguntou Ralof, ainda determinado a não entender as alusões do Encapuzado.

— Informações sobre você, é claro — respondeu o Encapuzado. — Um relatório da sua façanha seria de grande interesse para certas pessoas. Depois disso nem precisariam saber seu nome. Parece-me muito provável que saberão de tudo antes do fim da noite. Já é o bastante? Pode fazer o que bem entender a respeito da minha recompensa: levar-me como guia ou não. Mas devo dizer que conheço todas as terras entre Riverwood e o Colégio de Winterhold, pois andei por elas durante muitos anos. Sou mais velho do que pareço. Posso ser útil. Terá que abandonar a estrada aberta depois do que aconteceu esta noite; os vampiros estarão vigiando noite e dia. Você pode escapar de Whiterun, e conseguir avançar enquanto o sol estiver alto, mas não vai chegar muito longe. Eles vão alcançá-lo num local deserto, em algum lugar escuro onde não possa conseguir socorro. Quer que o encontrem? Eles são terríveis!

Ralof o olhava, e via surpreso que seu rosto estava contorcido, como se estivesse sentindo dores, e as mãos agarravam os braços da poltrona. A sala estava muito quieta e a luz parecia ter diminuído. Por um tempo, o Encapuzado ficou parado, com os olhos distantes, como se vagasse em lembranças longínquas, ou escutasse ruídos da noite ao longe.

— É isso! — exclamou ele depois de uns momentos, passando a mão sobre a testa. — Talvez eu saiba mais do que você sobre esses perseguidores. Você os teme, mas não os teme o suficiente, ainda. Amanhã terá que escapar se puder. O Encapuzado pode levar você por caminhos que raramente são usados. Vai deixar que o acompanhe?

Houve um silêncio pesado. Ralof não respondeu; tinha a mente confusa, com medo e dúvidas.

— Não — disse Ralof devagar. — Não concordo. Eu acho, eu acho que você não é exatamente o que deseja aparentar. Começou falando comigo como se fosse um habitante de Whiterun, mas sua voz mudou. Não vejo por que deva nos prevenir para que tenhamos cuidado, e mesmo assim pedir que o levemos, sem garantia nenhuma. Por que o disfarce? Quem é você? O que realmente sabe sobre — sobre meus negócios, e como ficou sabendo?

— A lição de cautela foi bem aprendida — disse o Encapuzado, com um sorriso austero. — Mas ter cautela é uma coisa e vacilar é outra. Nunca chegará a Windhelm, sozinho, e a única chance que tem é confiar em mim. Deve se decidir. Responderei algumas de suas perguntas, se isso ajudar na decisão. Mas por que acreditaria em minha história, se ainda não confia em mim? Mesmo assim, vou lhes contar...

Naquele momento ouviu-se uma batida na porta. Hulda tinha chegado com velas, e atrás vinha Saadia com canecas de água quente. O Encapuzado se retirou para um canto.

— Vim desejar-lhe boa noite — disse a estalajadeira, colocando as velas nas mesas. — Saadia, leve a água para os quartos! — Hulda entrou e fechou a porta. — É o seguinte — começou ela, hesitando e com uma aparência preocupada. — Se lhe causei algum dano, sinto muito. Mas uma coisa vai embora com outra, como devem admitir, e sou uma mulher ocupada. Mas primeiro uma coisa, e depois outra nesta semana sacudiram minha memória, como se diz por aí; e espero que não seja tarde demais. Veja você, alguém me pediu que eu ficasse de olho nuns viajantes de Riverwood, especialmente um de nome Ralof.

— E por que alguém pediria uma coisa dessa? — perguntou Ralof.

— Ah, sabe melhor do que eu! — disse a proprietária com astúcia. —Vou dar com a língua nos dentes, mas me disseram que esse tal de Ralof seria do exército do Jarl Ulfric, e me deram uma descrição que se encaixa muito bem com o senhor, se me permite dizer.

— É mesmo? Então quero ouvi-la! — disse Ralof, interrompendo de modo insensato.

— Um sujeitinho troncudo com bochechas vermelhas — disse Hulda. — Essa descrição não vai ajudar muito, pois corresponde à maioria dos sulistas, minha querida Hulda, diz ele para mim — continuou ela, olhando para Ralof. — Mas esse é mais forte que alguns e mais claro que a maioria, e tem uma covinha no queixo: um camarada empertigado com olhos brilhantes e de cabelos loiros trançados. Peço desculpas, mas quem disse foi ele, não eu.

— Ele disse? E quem é ele? — perguntou Ralof ansioso.

— Ah, foi Savos Aren, se sabe de quem estou falando. Dizem que é um grande mago, muito famoso, mas é um grande amigo meu, mago ou não mago. Mas agora já não sei o que ele vai ter para me dizer, se nos encontrarmos de novo: azedar toda a minha cerveja ou me transformar num toco de madeira, eu acho. Ele é um pouco precipitado. Mesmo assim, o que está feito está feito.

— Bem, o que a senhora fez? — disse Ralof, já ficando impaciente com a lenta elucidação dos pensamentos de Hulda.

— Onde eu estava? — disse a proprietária, parando e estalando os dedos. — Ah, sim! O velho Savos. Há três meses ele entrou direto no meu quarto sem bater. Hulda, diz ele, vou partir pela manhã. Você poderia fazer-me um favor? É só pedir, disse eu. Estou com pressa, disse ele, e não tenho tempo, mas quero que um recado seja levado até Riverwood. Você tem alguém que pudesse enviar alguém de confiança? Posso encontrar alguém, disse eu. Amanhã, talvez, ou depois de amanhã. Faça isso amanhã, disse ele, e então me deu uma carta. O endereço está bem legível — disse Hulda, tirando uma carta do bolso, e lendo o endereço lenta e orgulhosamente (dava valor à sua reputação de mulher letrada):

Sr. RALOF, na casa do Sr. HOD, RIVERWOOD, no ESTADO DE WHITERUN.

— Uma carta de Savos. Para mim! — gritou Ralof.

— Ah! — disse Hulda. — Então conhece o velho elfo?

— É — disse Ralof — e é melhor a senhora entregá-la imediatamente, e explicar por que nunca a enviou. Acho que é isso que veio me dizer, suponho, embora tenha demorado tanto para chegar ao ponto.

A pobre Sra. Hulda parecia embaraçada. — Está certo, senhor — disse ela. — E peço desculpas. Tenho um medo mortal do que Savos vai dizer, se meu esquecimento causou algum mal. Mas eu não a segurei comigo de propósito. Guardei-a a salvo. Depois não consegui encontrar ninguém disposto a ir até Riverwood no dia seguinte, nem no outro dia, e não podia dispensar nenhum dos meus empregados; e então uma coisa atrás da outra afastaram a carta da minha cabeça. Sou uma mulher ocupada. Vou fazer o que for possível para ajeitar as coisas; se houver algo a meu alcance, é só dizer. Deixando a carta de lado, não prometi menos a Savos. Hulda, diz ele para mim, esse meu amigo de Riverwood, ele pode passar por aqui logo. Não se esqueça disso! Mas você não precisa perguntar nada. E se eu não estiver com ele, pode ser que ele esteja em apuros, e precisando de ajuda. Faça por ele o que puder, e eu ficarei grato, diz ele. E aqui está o senhor, e o apuro parece que não está muito longe.

— Que quer dizer? — perguntou Ralof.

— Esses homens vestindo couro vermelho — disse a proprietária abaixando a voz. — Estão procurando você, e se as intenções deles são boas, então sou uma argoniana. Foi na segunda-feira, todos os cachorros estavam uivando e os gansos, berrando. Achei estranho. Saadia veio e me disse que dois homens de aparência estranha estavam na porta perguntando por um soldado chamado Ralof. O cabelo de Saadia estava em pé. E aquele Guardião, o Encapuzado, também andou fazendo perguntas. Tentou entrar aqui para vê-lo, antes mesmo que comessem qualquer coisa.

— Fez isso mesmo — disse o Encapuzado de repente, dando uns passos à frente e aparecendo na luz. — E muitos problemas teriam sido evitados se tivesse permitido sua entrada, Hulda.

A estalajadeira pulou surpresa, — Você! — gritou ele. — Você está sempre aparecendo de repente. O que quer agora?

— Ele está aqui com a minha permissão — disse Ralof. — Veio para oferecer ajuda.

— Bem, talvez o senhor saiba o que está fazendo — disse Hulda, olhando desconfiada para o Encapuzado. — Mas se estivesse na sua pele, não me envolveria com um Guardião da Alvorada.

— Então, ia se envolver com quem? — perguntou o Encapuzado. — Com uma estalajadeira velha que só lembra o próprio nome porque as pessoas o gritam o dia todo? Ele não pode ficar na Égua para sempre. Você iria com ele, evitando os homens em couro vermelho?

— Eu? Deixar Whiterun? Não faria isso por dinheiro algum — disse Hulda, parecendo realmente amedrontada. — Por que o senhor não pode ficar aqui quietinho por uns tempos, Sr. Ralof? Que coisas estranhas são estas que estão acontecendo? O que esses homens estranhos querem, e de onde vêm? Gostaria de saber.

— Sinto muito, mas não posso explicar tudo — respondeu Ralof. — Estou cansado e muito preocupado, e é uma longa história. Mas se quer me ajudar, devo avisá-lo que estará correndo perigo enquanto eu estiver hospedado em sua casa. Esses homens são vampiros e não tenho certeza, mas receio que venham de...

— Eles vêm da Cripta da Caverna Escura — disse o Encapuzado em voz baixa. — Mas suas ordens vêm de Skuldafn. Skuldafn, Hulda, se isto quer dizer alguma coisa para você.

— Socorro! — gritou a Sra. Hulda, ficando pálida. Evidentemente, conhecia o nome. — Esta é a pior notícia que já chegou a Whiterun desde que me conheço por gente.

— É — disse Ralof. — A senhora ainda está disposta a me ajudar?

— Estou — disse Hulda. — Mais que nunca. Embora não saiba o que uma pessoa como eu possa fazer contra, contra... — sua voz falhou.

— Contra a sombra do Leste — disse o Encapuzado baixinho. — Você não pode muito, Hulda, mas uma coisa pequena já é de grande ajuda. Você pode permitir que o Sr. Ralof fique aqui esta noite, sob outro nome, e pode esquecer o nome Ralof até que ele esteja bem longe.

— Farei isso — disse Hulda. — Mas eles não vão precisar da minha ajuda para descobrir que ele está aqui. É uma pena que o Sr. Ralof tenha atraído a atenção das pessoas esta noite, para não dizer mais nada. A história sobre a destruição de Helgen já tinha sido comentada esta noite em Whiterun. Até mesmo a nossa Saadia ficou fazendo suposições naquele cérebro lento; e outras pessoas em Whiterun demoram menos para compreender as coisas.

— Bem, só podemos esperar que os vampiros não voltem tão cedo —disse Ralof.

— Espero mesmo que não — disse Hulda. — Mas sejam eles vampiros ou não, não vão entrar na Égua tão facilmente. Não se preocupem até amanhã cedo. Saadia não vai dizer nada. Os homens estranhos só vão entrar aqui por cima de meu cadáver. Eu e meu pessoal vamos montar guarda esta noite; mas é melhor que vocês durmam se conseguirem.

— De qualquer modo, deve nos chamar ao amanhecer — disse Ralof. Devemos partir o mais cedo possível. Sirva o café da manhã às seis e meia, por favor.

— Certo! Cuidarei de tudo — disse a proprietária. — Boa noite, Sr. Ralof. Boa noite agora! Preciso ir e trancar as portas rápido. Boa noite para todos!

Finalmente a Sra. Hulda saiu, não sem antes lançar outro olhar desconfiado para o Encapuzado, balançando a cabeça. Seus passos se retiraram pelo corredor.

— E então? — disse o Encapuzado. — Quando é que vai abrir essa carta? — Ralof olhou cuidadosamente o lacre antes de rompê-lo. Certamente, a carta parecia ser de Savos.

Dentro vinha a seguinte mensagem, na sua letra forte, mas elegante:

A BANDEIRA DA ÉGUA, Whiterun. 16 de Altocéu, 4E 201.

Caro Ralof,

Recebi uma notícia ruim aqui, e preciso partir imediatamente. É melhor que deixe sua casa logo, e saia de Riverwood o mais tardar antes do final de altocéu. Voltarei logo que puder e seguirei você, se souber que já partiu. Deixe um recado para mim aqui, se passar por Whiterun. Pode confiar na estalajadeira (Hulda). Você pode encontrar um amigo meu na Estrada: um homem, esbelto, moreno, alto, com uma característica marca na bochecha esquerda, que alguns chamam de o Encapuzado. Ele está por dentro de nossos assuntos e ajudará você. Vá para a Alta Hrothgar. Lá espero encontrar você de novo. Se eu não for para lá, Arngeir poderá aconselhá-lo.

Um abraço apressado,

SAVOS AREN, Arque-Mago do Colégio de Winterhold.

PS. Certifique-se de que se trata do verdadeiro Encapuzado. Há muitos homens estranhos na estrada. Seu nome verdadeiro é Vorstag.

PPS. Espero que Hulda envie esta logo. Ela é uma mulher confiável, mas tem uma memória que parece um quarto de despejo: nunca encontramos o que precisamos. Se ela esquecer, vou fazer churrasquinho dela.

Até a vista!

— Realmente, a velha Hulda fez uma grande confusão! — disse Ralof. — Merece virar churrasquinho. Se eu tivesse recebido a carta imediatamente, já poderíamos estar a salvo em Windhelm agora. Mas o que pode ter acontecido a Savos? Ele escreve como se estivesse indo na direção de um grande perigo.

— Há muitos anos que ele faz isso — disse o Encapuzado.

Ralof se virou e olhou para ele pensativamente, lembrando-se do P.S. de Savos Aren — Por que não me disse logo que era amigo de Savos? — perguntou ele. — Teríamos economizado tempo.

— Será mesmo? Será que você teria acreditado em mim antes deste momento? — disse o Encapuzado. — Eu não sabia nada a respeito dessa carta. Tudo o que sabia era que teria de persuadi-lo a confiar em mim sem nenhuma prova, se quisesse ajudá-lo. De qualquer modo, eu não pretendia contar tudo sobre mim de uma só vez, tinha que observar você primeiro, e ter certeza de que realmente se tratava de você. O inimigo já preparou armadilhas para mim antes. Logo que tomei uma decisão, estava disposto a contar-lhe tudo o que quisesse saber. Mas devo admitir... — acrescentou ele com um sorriso estranho. — Esperava que gostasse de mim por mim mesmo. Um homem procurado às vezes se cansa da desconfiança e deseja amizade, mas, nesse ponto, acredito que minha aparência não ajude em nada.

— Não ajuda mesmo — pelo menos à primeira vista — riu Ralof com um alívio repentino, após ter lido a carta de Savos. — Mas beleza não põe mesa, como se diz em Riverwood; além disso, arrisco dizer que vou ficar bem parecido com você depois de passarmos dias deitados em cercas-vivas e valas.

— Seriam necessários mais que alguns dias, ou semanas ou anos, vagando pelas estradas de Tamriel, para que você ficasse parecido com o Encapuzado — respondeu ele. — E morreria primeiro, a não ser que seja feitos de uma matéria mais resistente do que aparenta.

Ralof ficou quieto e olhou para o Encapuzado com desconfiança.

— Como posso saber que você é o Encapuzado de que Savos fala? —perguntou ele. — Você nunca mencionou Savos, até essa carta aparecer. Deve ser um espião me enganando, pelo que vejo, tentando me convencer a ir com você. Você deve ter matado o verdadeiro Encapuzado e tomado as roupas dele. Que tem a dizer sobre isso?

— Que você é um sujeito corajoso — respondeu o Encapuzado. — Mas receio que minha única resposta para você, Ralof, seja esta: Se eu tivesse matado o verdadeiro Encapuzado, poderia matar você. E já teria matado você, sem tanta enrolação. Se eu estivesse atrás de você, poderia arrancar essa sua cabeça AGORA!

Ficou de pé, e de repente pareceu mais alto. Brilhava em seus olhos uma luz, aguda e imperiosa. Jogando para trás a capa, colocou a mão no cabo de uma espada que estava escondida, pendurada ao longo de seu corpo. Ralof não ousou se mexer. Ficou parado, de boca aberta, e apertou o punhal na bainha com força e medo.

— Mas eu sou o verdadeiro Encapuzado, felizmente — disse ele, olhando para baixo na direção dele, suavizando a expressão de seu rosto com um sorriso repentino. — Sou Vorstag, filho de Rorstag, e se em nome da vida ou da morte puder salvá-lo, assim o farei.

Houve um longo silêncio. Finalmente Ralof falou, hesitando.

— Acreditei que era amigo antes de a carta chegar — disse ele — ou pelo menos desejei acreditar. Você me assustou várias vezes esta noite, mas nunca da maneira que os servidores do Inimigo teriam feito, ou pelo menos assim imagino. Acho que um dos espiões dele teria — bem — uma aparência melhor e causaria uma sensação pior, se é que me entende.

— Entendo — riu Vorstag. — Tenho uma aparência feia e causo uma sensação boa, não é isso? Nem tudo o que é ouro fulgura, nem todo o vagante é vadio.

— Então os versos se aplicam a você? — perguntou Ralof. — Não entendi o que querem dizer.

— Eu sou Vorstag, filho de Rorstag, e esses versos acompanham meu nome. — retirou sua espada da bainha, e todos viram que a lâmina brilhava, e parecia mais afiada que uma centena de navalhas. — Este é o orgulho de minha família. Em breve ela será novamente forjada, e há de novo, luzir.

Ralof não dizia nada.

— Bem — disse continuou Vorstag — com a sua permissão, está tudo combinado. O Encapuzado será o seu guia. Pegaremos uma estrada difícil amanhã. Mesmo que consigamos deixar Whiterun sem dificuldades, não é de esperar que possamos sair sem sermos notados. Mas tentarei fazer com que nos percam de vista o mais cedo possível. Conheço um ou dois caminhos que saem desta região sem passar pela estrada principal. Assim que dispersarmos os perseguidores, iremos em direção às Torres Valtheim.

— Torres Valtheim? — disse Ralof. — O que é isso?

— É uma torre, ao oeste da estrada, mais ou menos a meio caminho entre a Alta Hrothgar e Whiterun. De lá se pode ter uma boa vista de toda a região, e teremos uma chance de olhar à nossa volta. Savos vai naquela direção, se for atrás de nós. Depois das Torres Valtheim, nossa viagem vai ficar mais difícil, e teremos de escolher, entre vários perigos, quais iremos enfrentar.

— Quando viu Savos pela última vez? — perguntou Ralof. — Sabe onde ele está ou o que está fazendo?

Vorstag ficou com a expressão séria. — Eu não sei — disse ele. — Vim com ele para o Oeste na primavera. Freqüentemente eu ficava vigiando os limites de Pedra de Shor nesses últimos anos, quando ele estava ocupado em algum outro lugar. Raramente ele permitia que Riverwood e Pedra de Shor ficassem sem proteção. Vimo-nos pela última vez em primeiro de maio: no Amarracéu Norte, na estrada para Ivarstead. Ele me disse que os negócios com você tinham corrido bem, e que você estaria partindo para Windhelm na primeira semana de fogoração. Como sabia que ele estava ao seu lado, fiz uma viagem por conta própria. E a coisa não saiu bem; não há dúvida de que ele recebeu alguma notícia, e eu não estava perto para ajudá-lo. Estou preocupado pela primeira vez desde que o conheci. Deveríamos ter recebido recados, mesmo que ele não pudesse vir em pessoa. Quando voltei, muitos dias atrás, escutei a notícia ruim. Fiquei sabendo que Savos tinha sumido, e que os cavaleiros tinham sido vistos. Foi Anoriath, um caçador élfico amigo nosso, que me contou; e mais tarde me disse que você tinha deixado sua casa, mas não soube de notícia alguma sobre sua partida de Riverwood. Estive de olho na estrada norte, ansioso.

— Você acha que os vampiros têm algo a ver com isso — quero dizer, com o desaparecimento de Savos — perguntou Ralof.

— Não sei de mais nada que possa tê-lo atrasado, exceto o próprio Devorador de Mundos — disse Vorstag. — Mas não perca as esperanças! Savos é maior do que vocês, pessoas de Riverwood, imaginam — geralmente, conseguem enxergar apenas as piadas e os brinquedos dele. Mas esse nosso negócio será sua maior tarefa.

Ralof bocejou. — Sinto muito — disse ele. — Mas estou morto de cansaço. Apesar de todo perigo e preocupação, preciso ir para a cama, ou vou dormir sentado aqui mesmo.

Naquele momento, escutaram uma porta bater; depois, passos vieram correndo ao longo do corredor. Saadia entrou como um raio. Fechou a porta num segundo e depois se encostou nela. Estava sem fôlego. Todos olharam-na alarmados por um momento; depois ele disse, ofegante: — Eu os vi, Encapuzado! Eu os vi! Os vampiros!

— Os vampiros? Onde?

— Aqui, em Whiterun. Me mandaram vigiar do lado de fora. Tinha acabado de voltar e estava parada fora do alcance da luz da tocha, para ver as estrelas. De repente, comecei a tremer e senti que alguma coisa horrível se aproximava sorrateiramente: havia um tipo de sombra mais profunda entre as sombras na estrada, bem atrás da área iluminada pela lamparina. Essa sombra sumiu na escuridão imediatamente, sem fazer um ruído. Não vi cavalos.

— Para que lado essa coisa foi? — perguntou Vorstag, repentina e abruptamente.

Saadia se assustou, ao notar o estranho pela prime ira vez. — Continue — disse Ralof. — Este é um amigo meu. Depois eu explico.

— Parece que ela subiu a Estrada, em direção ao leste — continuou a rubroguarda. — Tentei ir atrás. Mas é claro que desapareceu quase imediatamente; mesmo assim, contornei a esquina e continuei até a Cervejaria.

Vorstag olhou para Saadia admirado. — Você tem um coração valente — disse ele. — Mas foi tolice sua!

— Eu não sei — disse Saadia. — Não foi coragem nem tolice, eu acho. Mal pude me controlar. Parecia que eu estava sendo arrastada para algum lugar. De qualquer modo fui, e de repente ouvi vozes perto da cerca. Uma delas murmurava; a outra cochichava, ou chiava. Não pude entender nada do que falaram. Não me aproximei mais, porque meu corpo inteiro começou a tremer. Então fiquei apavorado, e voltei, e já ia fugir para casa quando alguma coisa veio atrás de mim e eu... eu caí. Mas não tenho idéia do que houve. Tive um sonho feio, do qual não me recordo. Fiquei em frangalhos. Não sei o que aconteceu comigo.

— Eu sei — disse Vorstag. — Compulsão. Os vampiros devem ter passado pelo portão em segredo. Agora vão saber tudo o que aconteceu, pois provavelmente visitaram Nazeem; e provavelmente aquele nortenho também era um espião. Pode ser que aconteça alguma coisa, antes que deixemos Whiterun.

— O que vai acontecer? — disse Saadia. — Eles vão atacar a estalagem?

— Não, acho que não — disse Vorstag. — Ainda não estão todos aqui. E, de qualquer modo, não é assim que eles agem. Na solidão e no escuro são mais fortes; não vão abertamente atacar uma casa onde haja luzes e muitas pessoas — pelo menos até que estejam desesperados. Mas o poder deles está no terror, e alguns aqui em Whiterun já estão sob as suas garras. Eles vão obrigar esses infelizes a fazer algum serviço maldoso: Nazeem, alguns daqueles estranhos, e talvez o porteiro também. Eles trocaram palavras com Harrold no portão, na sunda-feira. Eu estava vigiando. Harrold estava pálido e tremia quando o deixaram.

— Parece que temos inimigos por todo lado — disse Ralof. — Que devemos fazer?

— Fiquem aqui, e não vão para seus quartos! É certeza que eles já sabem onde vocês devem dormir. Vamos ficar todos juntos, e bloquear essa janela e a porta. Mas primeiro Saadia e eu vamos trazer sua bagagem.

— Bem, senhores — disse Saadia. — Amassarei os lençóis e colocarei uma almofada deitada em cada cama. E farei uma bela imitação de sua cabeça com um tapete de lã dourada, Sr. Ralof — acrescentou ela, sorrindo.

Ralof riu. — O disfarce parece perfeito! — disse ele. — Mas o que vai acontecer quando eles descobrirem tudo?

— Vamos ver — disse Vorstag. — Espero que consigamos defender nossa fortaleza até amanhã.

— Boa noite a todos — disse Saadia, e saiu para fazer o que havia dito. As mochilas e o resto da bagagem foram empilhados no chão da sala. Empurraram uma poltrona baixa contra a porta e fecharam a janela. Espiando lá fora, Ralof viu que a noite ainda estava clara. Secunda pendia clara sobre as encostas da colina de Whiterun. Então ele fechou e bloqueou as pesadas folhas interiores da janela, cerrando depois a cortina. Vorstag reavivou o fogo e apagou as velas.