Ao acordar, Ralof se viu deitado numa cama. Num primeiro momento, pensou ter perdido a hora, depois de um sonho desagradável que ainda pairava no limiar de sua memória, Ou, quem sabe, estivera doente? Mas o teto parecia estranho; era plano, de pedra negra, com vigas esplendidamente entalhadas. Ficou deitado por mais um tempo, olhando para a luz do sol projetada na parede, e escutando o som do vento forte.

— Onde estou, e que horas são? — disse ele em voz alta para o teto.

— Na Casa de Arngeir, e são dez da manhã — disse uma voz rouca e velha. — Estamos na manhã do dia 24 de caifrio, se quiser saber.

— Savos! — gritou Ralof, sentando-se. Ali estava o velho mago, sentado numa poltrona próxima à parede escura.

— Sim — disse ele. — E você tem sorte por estar aqui, também, depois de todas as coisas absurdas que fez desde que saiu de casa.

Ralof se deitou de novo. Sentia-se bem demais para discutir, e de qualquer forma não julgava que levaria a melhor numa discussão. Estava inteiramente acordado agora, e a lembrança da viagem retornava à sua mente: o “acidente” na Bandeira da Égua, e a loucura de atacar o rei vampiro naquele valezinho embaixo da Torre Valtheim Norte. Enquanto pensava em todas essas coisas e tentava em vão recordar sua chegada a Alta Hrothgar, houve um longo silêncio, apenas quebrado pelas suaves baforadas do cachimbo de Savos, que soprava fumaça branca através do imenso quarto.

— Onde está Vorstag? — perguntou Ralof finalmente. — Tudo bem com aquele elfo, o Gwilin?

— Sim, estão sãos e salvos — respondeu Savos. — Gwilin ficou aqui até que o mandei descansar um pouco em sua própria casa, cerca de uma hora atrás.

— O que aconteceu no Lago Geir? — perguntou Ralof. — Parece que tudo estava de alguma forma tão embaçado; e ainda está.

— De fato. Você estava começando a se transformar num rei vampiro — respondeu Savos Aren. — O ferimento estava finalmente vencendo-o. Mais algumas horas e não poderíamos mais ajudá-lo, você seria uma criatura da noite, muito mais poderosa do que qualquer um ao seu alcance. Mas existe uma certa força em você, meu querido soldado! Demonstrou isso muitas vezes. Eu gostaria que tivesse resistido à tentação de atacar o rei vampiro nas Torres Valtheim.

— Parece que você já sabe de muita coisa — disse Ralof. — Não comentei com os outros sobre a tentação. Em primeiro lugar, foi horrível demais, e em segundo, havia outras coisas para pensar. Como é que você sabe sobre isso?

— Conversamos longamente durante seu sono, Ralof — disse Savos suavemente. — Não foi difícil para mim ler sua mente e sua memória. Não se preocupe! Embora eu tenha dito “coisas absurdas” agora há pouco, não foi essa a minha intenção. Tenho você em alta conta — e os outros também. Não foi pouca coisa chegar até aqui, passando por tantos perigos, e ainda no meio de uma horrível transformação.

— Jamais teria conseguido sem Vorstag — disse Ralof. — Mas precisávamos de você. Eu não sabia o que fazer sem sua ajuda.

— Eu me atrasei — disse Savos. — E isso quase foi nossa ruína. Mas, mesmo assim, não tenho certeza. Talvez tenha sido melhor assim.

— Gostaria que me contasse o que aconteceu.

— Tudo a seu tempo! Você não deve falar e se preocupar com nada hoje. São ordens de Arngeir.

— Mas conversar me faria parar de pensar e imaginar, que são coisas muito cansativas — disse Ralof. — Estou plenamente acordado agora, e lembro muitas coisas que precisam ser explicadas. Por que você se atrasou? Tem de me contar pelo menos isso.

— Logo vai ouvir o que quer saber — disse Savos Aren. — Vamos ter um Conselho, logo que você estiver restabelecido. Por agora, só direi que fui mantido prisioneiro.

— Você? — gritou Ralof.

— Sim, eu, Savos Aren — disse o mago solenemente. — Há muitos poderes no mundo, trabalhando para o bem e para o mal. Alguns são maiores que eu. Contra alguns, minhas forças ainda não foram medidas. Mas minha hora está chegando. O Guardião de Skuldafn e seus servos vampirescos se manifestaram. A guerra está se formando!

— Então você já sabia dos vampiros — antes que eu os encontrasse?

— Sim, sabia que eventualmente Nahkriin acharia aliados deste porte. Eles servem não diretamente a Alduin, mas a Nahkriin, o Guardião de Skuldafn. Desses eu sabia da existência. Na verdade, mencionei-os uma vez a você, pois os Sacerdotes Dracônicos são os amaldiçoados por Alduin, comandantes de exércitos de inúmeros homens sob o comando de seus deuses, os dragões, e agora foram trazidos de volta à vida por alguma magia além dos conhecimentos de qualquer mortal. Mas não sabia que eles tinham novamente se levantado, ou teria fugido com você de imediato. Só tive notícias deles depois que o deixei em meio-ano; mas essa história deve esperar. Por enquanto, fomos salvos do desastre, por Vorstag.

— Sim — disse Ralof. — Foi ele quem nos salvou. No entanto, tive medo dele no começo. Alguma parte de mim nunca confiou de verdade nele, eu acho. De qualquer forma, não até que encontramos Gwilin.

Savos sorriu. — Já soube tudo sobre Vorstag — disse ele. — Agora não restam mais dúvidas.

— Fico contente — disse Ralof. — Pois me afeiçoei muito a Vorstag. Bem, afeiçoei não é bem a palavra. Quero dizer que ele me é muito caro, embora seja estranho, e às vezes austero. Na verdade, ele sempre me faz lembrar você. Não sabia que um viajante podia ser assim. Eu pensava, bem, eu pensava que eles eram só grandes, e bastante corajosos. Mas também não sabemos muito sobre os homens viajantes em Riverwood, a não ser talvez sobre os moradores de Whiterun, como a gentil e estúpida Hulda.

— Nem sobre esses você sabe muita coisa, se você acha que a velha Hulda é estúpida — disse Savos Aren — Ela é muito sábia em seu próprio terreno. Pensa menos do que fala, e mais devagar; no entanto, ela é capaz de enxergar através de uma parede de tijolos em tempo (como dizem em Whiterun). Mas restam poucos em Tamriel como Vorstag, filho de Rorstag. A raça dos descendentes das linhas de Tiber Septim está quase no fim. Pode ser que esta Crise dos Dragões seja a última aventura deles.

— Quer mesmo dizer que Vorstag faz parte da linhagem dos antigos Imperadores da Terceira Era? — disse Ralof surpreso. — Pensei que tivessem todos desaparecido há muito tempo, pensei que ele fosse apenas um guardião.

— Apenas um guardião! Nem de longe — gritou Savos — Meu querido Ralof, Vorstag já teve muitos títulos além de Guardião da Alvorada, e é isto que ele é: um dos últimos remanescentes no Norte desse grande povo, os Septim do Centro-Oeste. Já me ajudaram antes; e vou precisar da ajuda deles no futuro; agora chegamos a Alta Hrothgar, mas o mundo ainda não está a salvo.

— Acho que não — disse Ralof. — Mas, até agora, meu único pensamento foi chegar até aqui, e espero que não precise ir mais além. É muito agradável apenas descansar. Tive um mês de exílio e aventura, e acho que para mim chega. Até pra me juntar ao Rei Ulfric novamente teria que considerar um pouco. Nenhuma guerra já foi tão trabalhosa e arriscada.

Ficou quieto e fechou os olhos. Depois de uns momentos, falou de novo. — Estive calculando — disse ele — e a soma dos dias não bate com a data de 24 de caifrio. Deveria ser dia 21. Devemos ter chegado ao Lago Geir no dia 20.

— Você falou e pensou mais do que devia — disse Savos Aren. — Como estão seu pescoço e braço?

— Não sei — respondeu Ralof. — Não sinto nada: o que é uma melhora, mas — ele fez um esforço — posso mexer um pouco o braço de novo. Sim, sinto-o voltar à vida. Não está gelado — acrescentou ele, tocando a mão esquerda com a direita.

— Ótimo — disse Savos. — Está se recuperando depressa. Logo estará bom de novo. Arngeir o curou: cuidou de você vários dias, desde que foi trazido para cá.

— Dias?

— Bem, quatro noites e três dias, para ser exato. Os homens o trouxeram do Lago Geir para Ivarstead na noite do dia 20, e foi aí que você perdeu a conta, pois no dia 21, subimos com você os Sete Mil Passos. Estivemos terrivelmente ansiosos, e Gwilin quase não deixou o seu lado, dia ou noite, a não ser para levar recados. Gwilin é um mestre das curas, mas as armas dos vampiros são mortais. Para lhe dizer a verdade, eu tinha muito pouca esperança, pois suspeitava que havia ainda algum resquício de veneno no ferimento cicatrizado. Mas não foi encontrado até ontem à noite. Então Arngeir removeu-o. Estava circulando bem fundo, e estava afundando cada vez mais.

Ralof tremeu, lembrando a dentada cruel e os olhos negros do rei vampiro, que desaparecera numa nuvem de morcegos. — Não se assuste! — disse Savos Aren. — Já passou. O veneno foi retirado. E parece que você reluta em morrer. Conheço fortes guerreiros entre as pessoas nobres que teriam rapidamente sido vencidos por aquele veneno, que você carregou consigo por dezessete dias. Teriam sucumbido ao desejo de poder e se transformado em reis vampiros.

— Que mal queriam me causar? — perguntou Ralof. — O que os vampiros estavam tentando fazer?

— Tentaram perfurar seu pescoço com o sangue de um vampiro rei, que permanece no ferimento e se impregna por todo corpo antes de transformá-lo. Se tivessem conseguido, você teria ficado como um vampiro rei, muito poderoso, apenas mais fraco do que o seu criador e sob o seu comando. Teria se transformado num vampiro sob o domínio de Molag Bal, e estes raramente tem um senso de justiça grande o suficiente para permanecer fiel às suas convicções. Se uniria facilmente ao Devorador de Mundos, e teríamos em você como um rei vampiro um inimigo muito poderoso.

— Ainda bem que não percebi esse perigo terrível! — disse Ralof em voz baixa. — É claro que estava mortalmente apavorado, mas, se soubesse mais, não teria ousado nem me mover. É incrível eu ter escapado!

— Sim, a sorte ou o destino o ajudaram — disse Savos Aren —, para não falar na coragem. A veia de seu pescoço não foi atingida, e apenas o músculo foi perfurado, e isso foi porque você resistiu até o último momento. Mas você escapou por um fio, como se diz.

— Que me diz de Alta Hrothgar e dos Barbacinza? Alta Hrothgar é um lugar seguro?

— Sim, atualmente, até que todo o resto tenha sido conquistado. Os Barbacinza podem temer o Devorador de Mundos, e podem evitar sua presença, mas nunca mais irão escutá-lo ou servi-lo. E aqui em Alta Hrothgar ainda vivem alguns dos maiores inimigos dele: os Sábios, senhores do Caminho da Voz, de além dos mares mais distantes. Eles não temem os vampiros, pois sua Voz é muito mais forte do que qualquer um deles, embora eles apenas usem-na para a paz.

— Pensei ter visto uma figura branca que brilhava e não se apagava como as outras. Então era um Barbacinza?

— Não. Provavelmente era Gwilin. Por um momento você o viu usando um poder espiritual élfico. Ele é um elfo da floresta que vive há muito tempo, e já aperfeiçoou seus poderes de cura durante os anos que serviu na Guarda da Alvorada. Ele estava controlando aqueles tigres. Na verdade, existe um poder em Alta Hrothgar capaz de resistir à força de Skuldafn, por um tempo: e em outros lugares ainda moram outros poderes. Existe poder, também, de um outro tipo em Riverwood. Mas todos esses lugares logo vão se transformar em ilhas sob um cerco, se as coisas continuarem a se encaminhar desse modo. O Devorador de Mundos está lançando toda sua força. Mesmo assim... — disse ele, levantando-se de repente e empinando o queixo para frente, o que fez com que sua barba acompanhasse o movimento, reta e dura, como arame eriçado. — Mesmo assim, devemos conservar a coragem. Logo você estará bem, se eu não exaurir suas forças com tantas conversas. Você está em Alta Hrothgar, e não precisa se preocupar com nada no momento.

— Não tenho coragem alguma para conservar — disse Ralof. — Mas não estou preocupado no momento. Apenas me dê notícias de meus amigos, e me conte o fim do episódio no Lago Geir, como já pedi várias vezes, e vou ficar satisfeito por enquanto. Depois disso vou dormir mais um pouco, eu acho; mas não conseguirei fechar os olhos antes que você me conte a história até o fim.

Savos Aren levou a poltrona até o lado da cama, e olhou Ralof demoradamente. A cor voltara às suas faces, e os olhos estavam claros, plenamente acordados e atentos. Estava sorrindo, e parecia que quase tudo ia bem com ele. Mas, aos olhos do mago, uma leve mudança se operara, como se o envolvesse um toque de palidez, especialmente notável na mão esquerda, que estava para fora do cobertor.

“Até isso deve esperar”, disse Savos Aren para si mesmo. “Ele ainda não está nem a meio caminho da recuperação total, e como ficará no fim nem mesmo Arngeir pode dizer. Nenhuma transformação para o mal, eu acho. Pode ser que se transforme num vampiro comum, e podemos buscar a cura disso”.

— Sua aparência está esplêndida — disse ele em voz alta. — Vou arriscar uma história curta sem consultar Arngeir. Mas bem curta, veja bem, e então você deve dormir de novo. Foi isto que aconteceu, pelo que pude entender: os vampiros vieram direto na sua direção, assim que você fugiu. Não precisavam mais dos cavalos como guias: você tinha se tornado visível aos seus olhos, já estando no limiar do mundo deles. E também seu sangue os atraía. Seus amigos pularam de lado, para fora da estrada, ou teriam sido pisoteados pelos cavalos. Sabiam que nada poderia salvá-lo, se o cavalo branco não pudesse fazê-lo. Os vampiros eram rápidos demais para serem alcançados, e estavam em número muito grande para serem enfrentados. A pé, nem mesmo Gwilin e Vorstag juntos poderiam resistir ao exército de um rei vampiro todo de uma vez. Quando o vampiro rei e os seus acompanhantes passaram, nossos amigos correram atrás deles. Perto do Lago existe uma pequena reentrância ao lado da estrada, coberta por algumas árvores raquíticas. Lá Vorstag acendeu rapidamente uma fogueira, e Gwilin concentrou toda a sua força para convocar aqueles tigres e usá-los ao seu favor, e então os vampiros teriam de lidar com qualquer um que tivesse ficado do lado do lago onde estava. O momento em que Gwilin ordenou que os tigres atacassem chegou; e ele saiu correndo, seguido por Vorstag e os outros, com tochas flamejantes. Preso entre fogo e água, e vendo Gwilin se revelar em sua ira, o vampiro rei se intimidou, e os cavalos ficaram alucinados. Trinta foram massacrados pelos tigres; os outros foram arremessados para dentro da água pelos próprios cavalos em desespero, e vencidos.

— E este foi o fim do vampiro rei? — perguntou Ralof.

— Não! — disse Savos Aren. — Os cavalos devem ter sucumbido, e neste momento os vampiros devem estar mortos no fundo do lago. Mas os vampiros não são assim tão facilmente destruídos, daqui a uns dias acordarão e nadarão para a superfície. Entretanto, não há mais nada a temer por enquanto. Eles provavelmente desapontaram Alduin, e o Devorador de Mundos usará de outros artifícios mais poderosos. Seus amigos atravessaram depois que não haviam mais vampiros, e encontraram você deitado, com o rosto virado para baixo, no topo da margem, e em cima de um machado quebrado. O cavalo estava montando guarda ao lado. Você estava pálido e frio; recearam que estivesse morto, ou coisa pior. O povo de Ivarstead encontrou-os carregando-o lentamente até a vila.

— Gwilin estava controlando aqueles tigres? — perguntou Ralof.

— Gwilin os comandou — respondeu Savos. — Eventualmente, os elfos da floresta podem convocar a ajuda dos animais e das bestas das florestas, e pode usá-los em ira quando há uma grande necessidade de se proteger. Assim que o rei vampiro cavalgou para dentro da água, o primeiro tigre saiu da floresta. Se é que posso dizer isso, acrescentei uns toques próprios: você pode não ter notado, mas o lago tomou uma proporção muito mais profunda, e havia muitas pedras que rolavam e se esfacelavam. Por um momento, pensei termos liberado uma ira muito intensa, e que poderíamos perder o controle da enchente, que os carregaria para longe. Existe uma grande força nas águas formadas pela neve das montanhas.

— Sim, agora tudo volta a minha mente — disse Ralof. — O rugido tremendo. Pensei que estivesse me afogando, com meus amigos, inimigos e tudo mais. Mas agora estamos salvos!

Savos Aren olhou rápido para Ralof, que agora fechara os olhos. — Sim, estão todos a salvo por enquanto. Logo haverá uma festa e divertimento para comemorar a vitória no Lago Geir, e todos vocês estarão lá, em lugares de honra.

— Esplêndido! — disse Ralof. — É maravilhoso que Arngeir, Gwilin e esses grandes senhores, os outros barbacinzas, para não mencionar Vorstag, prestem-se a tanto trabalho e demonstrem tamanha gentileza.

— Bem, existem muitas razões para isso — disse Savos, sorrindo. — Eu sou uma boa razão. Alduin é outra: você é um dos únicos vivos que viu o dragão. E você trás notícias de Ulfric Stormcloak, que é um velho amigo dos Barbacinzas.

— Meu rei! — disse Ralof sonolento. — Pergunto-me onde estará, reinando de seu orgulhoso trono de pedra em Windhelm. Gostaria que estivesse aqui e pudesse saber de tudo que aconteceu. Iria rir de tudo, e sentir muito orgulho. Ragnar, o Vermelho! E os vampiros correndo de seu nome! — Com isso, adormeceu profundamente.

Ralof agora estava a salvo, no monastério dos Barbacinza na Alta Horthgar. Essa casa era, como Ulfric Stormcloak tinha dito muitas vezes, “uma casa perfeita, para quem gosta de comer ou dormir, de contar histórias ou de cantar, ou apenas de se sentar e pensar nas coisas, ou ainda para quem gosta de uma mistura agradável de tudo isso, mas principalmente para aqueles de coração puro que desejavam o poder do Norte, o Thu’um”. A simples estada ali representava uma cura para o cansaço, o medo ou a tristeza.

Quando a noite ia chegando, Ralof acordou de novo, e percebeu que não sentia mais necessidade de dormir ou descansar, mas queria comida e bebida, e provavelmente um pouco de cantoria e histórias depois. Saiu da cama e descobriu que quase podia usar o braço como sempre fizera. Encontrou, estendidas à sua espera, roupas limpas de tecido verde, que lhe caíam de modo perfeito. Olhando no espelho, assustou-se ao ver uma imagem de si mesmo muito mais magra do que a que recordava: a imagem era notavelmente parecida com aquela do jovem soldado jurado à Ulfric Stormcloak, que costumava passear com o rei nas muralhas de Windhelm em guarda, mas os olhos o observavam pensativamente.

— Sim, você viu uma ou duas coisas desde que espiou através de um espelho pela última vez — disse ele para seu reflexo. — Mas, desta vez, o encontro foi feliz! — Espreguiçou-se e assobiou uma melodia.

Nesse momento, saiu do grande quarto para se aventurar na grande Alta Hrothgar. O salão da Alta Hrothgar estava cheio de pessoas: homens e elfos na maioria, embora houvesse alguns convidados diferentes. Arngeir, como era de costume, sentou-se numa cadeira grande na cabeceira de uma mesa comprida sobre o tablado; perto dele, de um lado sentou-se Wulfgar, um outro Barbacinza, e do outro, Savos Aren.

Ralof olhou-os admirado, pois nunca tinha visto pessoalmente Arngeir, celebrado em muitas histórias. Sentados à direita e à esquerda, Wulfgar, e até mesmo Savos, que julgava conhecer tão bem, revelaram-se senhores de dignidade e poder.

Savos era mais baixo que os outros dois, mas seus longos cabelos brancos, a vasta barba prateada e os ombros largos conferiam-lhe a aparência de algum rei sábio de antigas lendas. Em seu rosto negro-azulado envelhecido, adornado por grossas sobrancelhas brancas, os olhos vermelhos pareciam ser feitos de uma labareda escura, prontos a se acender em chamas a qualquer momento.

Wulfgar era alto e ereto; o cabelo crespo era grisalho e saía além de seu capuz acinzentado, o rosto fechado e idoso, temerário e cheio de sabedoria; os olhos eram brilhantes e agudos, a Voz não poderia ser ouvida; em sua fronte se alojava a sabedoria; na boca,a força.

O rosto de Arngeir parecia eterno, ora mostrando a aparência muito mais jovem do que a dos outros Barbacinzas, ora com um olhar que parecia o de um idoso, analisando tudo pensativamente, embora nele se inscrevesse a memória de muitas coisas, alegres e tristes. Os cabelos e a barba não eram grisalhos como o dos outros Barbacinzas, mas eram de um loiro dourado e claro como os raios de sol, e sobre a cabeça via-se o mesmo capuz que cobria a cabeça de todos os outros Sábios; os olhos eram cinzentos como uma noite clara, e neles havia uma luz como a das estrelas. Parecia venerável, como um rei coroado com muitos invernos, e ao mesmo tempo vigoroso como um velho capitão, além do auge da força. Era o líder dos Barbacinza, poderoso entre elfos e homens.

No meio da mesa, diante de tapeçarias tecidas penduradas na parede, havia uma cadeira sob um dossel, e ali se sentava uma mulher bonita de se olhar. Era jovem, e ao mesmo tempo não era. As tranças de seu cabelo escuro não tinham sido tocadas pela neve, e os braços brancos e o rosto claro eram perfeitos e suaves, e a luz das estrelas estava em seus olhos brilhantes, amarelos como uma chama tão ardente que Ralof se sentiu encalorado; apesar disso, parecia-se com uma rainha, e seu olhar era cheio de ponderação e sabedoria, como o olhar de alguém que conhece muitas coisas que os anos trazem. O traje era rubro-negro, com estilizadas partes de couro cobrindo um manto avermelhado e envelhecido. Foi assim que Ralof viu aquela que poucos mortais viram: Serana, a filha do terrível Harkon Volkihar, através da qual, dizia-se, a figura idealizada por Mara tinha chegado à terra. E ela era chamada de Oiorielle, o que significa beleza eterna em ayleidun, e ela era a senhora eterna de seu povo. Tinha permanecido muito tempo no velho castelo de seu pai, uma ilha a norte de Solitude, além do Mar, e só então retornara à Tamriel, à chamado de Savos Aren.

Ralof nunca tinha visto uma criatura tão adorável, nem imaginado em sua mente; ficou surpreso e embaraçado ao ver que tinha um lugar reservado à mesa de Arngeir, entre todas essas pessoas, tão importantes e belas. Embora tivesse uma cadeira adequada, e estivesse erguido por várias almofadas, sentiu-se muito pequeno, e fora de lugar, mas esse sentimento logo passou. O banquete foi animado, e a comida, tudo o que sua fome poderia desejar. Demorou um pouco até olhar em volta de novo, ou simplesmente se virar para os vizinhos.

À direita de Ralof estava um khajiit de aparência importante, luxuosamente vestido. A juba, espetada e dividida, era branca e acinzentada, assim como a pelagem de seu rosto. Tinha orelhas muito maiores do que a dos outros khajiits, e cada uma levava três brincos de ouro que brilhavam. Usava uma roupa avermelhada, confeccionada nas terras de Solstheim pelos elfos negros. Ralof parou de comer para olhá-lo.

— Bem-vindo seja! — disse o khajiit, virando-se na direção dele, com um sotaque característico, arrastado e rouco do povo tigre. Depois realmente levantou-se da cadeira e fez uma reverência. — Dro’marash às suas ordens — disse ele, e fez uma reverência ainda maior.

— Ralof de Riverwood, às suas ordens e de sua família — disse Ralof corretamente, levantando-se surpreso e espalhando suas almofadas pelo chão. Estaria eu certo em supor que o senhor é aquele Dro’marash, um dos grandes viajantes que passou uma temporada inteira em Windhelm, na Vela do Salão, após uma grandiosa viagem de sete meses por toda a província?

— Perfeitamente certo — respondeu o khajiit, recolhendo as almofadas e educadamente ajudando Ralof a se ajeitar de novo na cadeira. — E eu não pergunto, pois já me disseram que você é um dos mais confiáveis soldados do forte Ri’Ulfric Stormcloak. Permita-me felicitá-lo por sua recuperação.

— Muito obrigado — disse Ralof.

— Ouvi dizer que passou por estranhas aventuras — disse Dro’marash. — Todas elas... Tenho pensado muito no motivo que traria um soldado veterano numa viagem tão longa. Mas talvez eu não deva perguntar tantas coisas, uma vez que Arngeir e Savos Aren não parecem dispostos a falar sobre o assunto.

— Acho que não falaremos disso, pelo menos por enquanto — disse Ralof educadamente. Percebeu que, mesmo na Alta Hrothgar, o assunto do dragão não era objeto de conversas casuais; de qualquer modo, queria esquecer seus problemas por um tempo. — Mas estou igualmente curioso — acrescentou ele — em saber o que traz um khajiit tão importante a um lugar tão distante das Estradas de comércio.

Dro’marash olhou para ele. — Se não ouviu sobre isso, acho que também não falaremos do assunto por enquanto. Mestre Arngeir vai nos reunir a todos em breve, eu acredito, e então ouviremos muitas coisas. Mas há muitas outras histórias que podem ser contadas.

Conversaram durante todo o resto do banquete, mas Ralof ouviu mais do que falou; as notícias sobre Riverwood, exceto pelo assunto do dragão, pareciam pequenas, distantes e sem importância, enquanto Dro’marash tinha muito a contar sobre os acontecimentos das regiões entre Riften e Dawnstar. Ralof soube que até mesmo a pacífica cidade de Dawnstar estava enfrentando problemas com constantes sonhos ruins que eram compartilhados por toda a cidade. Perguntou-se se o alcance de Alduin era assim tão grande, e que motivos teria o Devorador de Mundos para aterrorizar o norte.

— Na verdade — disse Dro’marash —, se não fosse pelo bom povo de Dawnstar, a passagem de Winterhold até Morthal teria há muito tempo se tornado impossível. São homens valorosos, e mantêm aberto o Farol do Gelobrilho e a Estrada Vermelha. Mas cobram muito caro — acrescentou ele, balançando a cabeça. — E, como todos os outros jarls, o Velho Skald não morre de amores pelos khajiits. Ainda assim, são confiáveis, o que já é muito nos dias de hoje. Em nenhum outro lugar existem homens tão amigáveis conosco como os homens de Morthal. São um povo bom, os de Morthal, embora não tenha escapado das sombras da época, pois a cidade está assolada por essa praga vampírica. A neta de Garding Velhocorvo, o Navegador, os governa: Idgrod filha de Torbis, filho de Garding. É uma jarl muito forte, e seu reino agora alcança regiões ao extremo Sul e Leste de Morthal.

— E o que tem a contar sobre seu próprio povo? — perguntou Ralof.

— Há muito o que contar, coisas boas – e ruins — disse Dro’marash. — Mas a maioria é boa: até agora tivemos sorte, mas não escapamos da sombra desta época, assim como o povo de Morthal. Se realmente deseja escutar sobre nós, terei prazer em contar acontecimentos. Mas me interrompa quando ficar cansado! As línguas dos khajiits não param quando falam de seus assuntos, como dizem por aí.

E, com isso, Dro’marash embarcou num longo relato dos feitos heróicos dele e de sua caravana por toda a província Estava deliciado por ter encontrado um ouvinte tão educado; Ralof não mostrava sinais de cansaço, e não tentou mudar de assunto, embora na verdade tenha ficado bastante perdido em meio àqueles nomes estranhos de pessoas e lugares de que nunca tinha ouvido falar antes. Entretanto, ficou interessado ao ouvir que havia prosperidade brotando e dinheiro entrando em Skyrim, e que agora Ri’saad controlava todas as caravanas, e este estava agora velho (tendo ultrapassado seu ducentésimo qüinquagésimo aniversário), sendo venerável e fabulosamente rico, e era bom com todos aqueles sob seu serviço. Dos cinco companheiros que acompanhavam Ri’saad na aventura dos Fantasmas na Tempestade, dois ainda estavam com ele: Atahbah e Ma’randru-jo.

— E qual é a sua caravana? — perguntou Ralof.

Uma sombra cobriu o rosto de Dro’marash. — Ela está destituída — respondeu ele. — Foi principalmente por causa de Ahkari que eu vim até aqui buscar o aconselhamento dos que moram em Alta Hrothgar. Mas vamos falar de coisas mais alegres nesta noite.

Dro’marash começou então a falar das viagens de seu povo, contando a Ralof sobre suas grandes viagens além das fronteiras de Skyrim. — Andamos demais — disse ele. — Mas em distância não podemos nos comparar a nossos pais, dos quais vários segredos de viagem se perderam, e a manufaturação de nossos próprios produtos também. Fazemos boas armaduras e espadas afiadas, às vezes, mas não podemos reproduzir malhas ou lâminas como aquelas feitas em Elsweyr. Superamos os dias antigos apenas na venda e nos lucros. Mas sinto saudades de minha terra, como todos os outros que vieram com Ri’saad. Você precisava ver os aquedutos de Elsweyr, Ralof, e as pirâmides e as cidades imensas! Deveria ver as estradas pavimentadas com pedras de várias cores! E os salões e ruas feitas em cavernas sob a terra, com arcos entalhados como árvores; e os terraços e torres sobre as encostas das dunas! Então veria que não ficamos de braços cruzados!

— Irei até lá para ver tudo, se puder — disse Ralof. — Ulfric ficaria muito surpreso se o seu povo pudesse nos auxiliar na guerra com conselhos e armamento. São um povo muito generoso, os khajiits.

Dro’marash olhou para Ralof e sorriu. — Você gostava muito de seu rei, não é? — perguntou ele.

— Sim — respondeu Ralof. — Encontrá-lo de novo me traria mais alegria do que ver todas as torres e palácios do mundo.

Finalmente o banquete chegou ao fim. Arngeir e Serana se levantaram e se afastaram pelo salão, e o grupo os seguiu na devida ordem. As portas foram abertas, e todos seguiram através de um corredor largo, passando por outras portas, chegando a um outro salão. Nesse lugar não havia mesas, mas uma fogueira bem acesa queimava numa grande lareira, em meio a dois pilares entalhados.

Ralof se viu andando ao lado de Savos Aren — Este é o Salão Principal — disse o mago. — Aqui poderá escutar muitas canções e histórias — se conseguir ficar acordado. Mas, a não ser em dias importantes, o salão fica vazio e quieto, e aqui ficam os Barbacinzas, que não apreciam muito a presença alheia, e usam o monastério para pensar e refletir.

O fogo fica sempre aceso, durante todo o ano, mas quase não há outra fonte de luz. Quando Arngeir entrava e se encaminhava para o lugar preparado para ele, os menestréis bardos de Ivarstead começaram a executar uma música suave. Lentamente o salão se encheu, e Ralof olhava com prazer os muitos rostos bonitos que se reuniam; a luz dourada do fogo brincava naquelas faces e dançava em seus cabelos. De repente notou que Gwilin estava lá e conversaram por alguns minutos.

De repente, Gwilin olhou para o lado. — Ah! Finalmente você está aí, Ronaan! — gritou ele.

— Vorstag! — disse Ralof. — Parece que você tem um monte de nomes. Ronaan e Encapuzado, que surpreendente.

— Bem, Encapuzado é um que nunca escutei — disse Gwilin. — Por que o chama assim?

— Chamam-me desse modo em Whiterun — disse Vorstag rindo. — E foi assim que fui apresentado a ele.

— E por que você o chama de Ronaan? — perguntou Ralof.

— O Ronaan — disse Gwilin. — Sempre o chamam por esse nome aqui. Mas não cabe a nenhum de nós saber a língua dos dragões, e sei pouco dela, mas o suficiente para saber que é a tradução para guardião: ro-naán. Mas este não é o momento para aulas. — Voltou-se para Vorstag —: Onde esteve, meu amigo? Por que não participou do banquete? A Senhora Serana estava lá.

Vorstag olhou para Gwilin com um ar sério. — Eu sei — disse ele. — Mas sempre preciso colocar a diversão de lado. Angrenor e Andurs retornaram das estradas sem ser esperados e enviaram novidades que eu queria saber imediatamente.

— Bem, meu querido companheiro — disse Gwilin. — Agora que ouviu as notícias, não pode me ceder uns minutos? Quero sua ajuda numa coisa urgente. Arngeir disse que essa minha canção precisa ser terminada antes do fim da noite, e eu me enrosquei num pedaço. Vamos até um cantinho, para dar os retoques finais.

Vorstag sorriu. — Então venha, deixe-me ouvi-la!

Ralof ficou sozinho por uns momentos, pois Savos estava muito ocupado conversando a sós com Arngeir. Estava solitário e se sentia bastante abandonado, embora em sua volta o pessoal de Alta Hrothgar estivesse reunido, o que era um evento muito raro. Mas as pessoas próximas a ele estavam em silêncio, prestando atenção à música das vozes e dos instrumentos, e não se davam conta de mais nada. Ralof começou a escutar.

Num primeiro momento, a beleza das melodias e das palavras misturadas, embora pudesse entendê-las bem pouco, envolveram-no numa espécie de encanto, logo que começou a prestar atenção nelas. Parecia quase que as palavras tomavam forma, e visões de terras distantes e de coisas brilhantes que ele nunca sequer imaginara se abriram diante dele; o salão iluminado pela fogueira se tornou semelhante a uma névoa dourada sobre mares de espuma que suspiravam sobre as margens do mundo.

Então, o encantamento ficou cada vez mais semelhante a um sonho, até que Ralof sentiu que um rio interminável de ouro e prata passava por ele, múltiplo demais para ser compreendido; tornara-se parte do ar que pulsava ao redor, e o encharcava e afogava. Rapidamente afundou sob aquele peso brilhante, entrando num mundo profundo de sonho.

Ali vagou por muito tempo num sonho de música que se transformava em água corrente, e depois, de súbito, numa voz. Parecia ser a voz de Gwilin cantando versos. Indistinta no início, mas depois as palavras corriam nítidas.

Houve Hromir

Filho de Hrorgar,

Convocado à corte de Vjindak para contas prestar

Este era filho de Vjinmore, Rei de Nevescura

‘Grande conjurador de mágica,

O ordeno a viajar para Aelfendura,

Pois seus bravos guerreiros ameaçam minha propriedade

E conjuram seus primos, demônios

Que aterrorizam a minha Cidade’

Houve Hromir

Filho de Hrorgar

Que à Vjindak de Nevescura pôs-se a falar

‘Pelo Cajado de Gelo

Com certeza ajudá-lo me alegraria

Mas numa missão já estou designado, eu diria

Beber doze garrafas de sopro-de-dragão

E deitar-me com quatro mulheres então

Portanto com tristeza devo recusar’.

O Rei, entretanto, não chegou a admirar

O espírito alegre de Hromir e pôs-se a falar

‘Por tua Honra tu deves apoiar meu comando

E reclamar a espada que o gelo está enterrando

De teu companheiro Darfang que ajudar-me jurou

E embarcou na missão, e me desapontou’.

Hromir o olhou e Hromir pôs-se a dar risada

‘Agora eu sei, meu Rei, que tu faz uma piada

Meu bom amigo Darfang não te desapontaria

E em missão como essa, em combate não cairia’

‘Mas a vida de teu amigo perdura

O que lhe digo é que ele se juntou aos Reis de Aelfendura

E por isso trouxe uma terrível desonra

Para ele mesmo e para ti, que a minha ordem abandona’

Hrormir então não pôde acreditar

Nas palavras que o Rei continuava a falar

E ainda assim sabia que o Rei não mentia

Então por vinte e três dias, Hrormir viajaria

Para a Terra da Noite, o Reino do Medo

Onde a plebe andava sempre com uma vela

Sabendo que o mal espreitava em segredo

Lá, com uma tocha em mãos, Hrormir entrou

E pelas assombradas vilas ele passou

E no mal que lá habitava, medo Hrormir causou

E por trás dos Portões de Aelfendura olharam os reis

Os Três Reis do Escuro riram, riram os três

Ao ver o Hrormir, grande e poderoso,

E convocaram seu Campeão, Darfang o Majestoso

‘Meu bom companheiro’, Hrormir gritou

E pelos Salões da Noite Darfang ele chamou

‘Não acredito em meus ouvidos, se é verdade o que ouço

Que tu te juntaste ao Mal, vivendo neste calabouço

E viraste as costas a Honra, viraste as costas a Irmandade!’

‘Hrormir’, gritou Darfang, nos olhos a maldade

‘Se tu fores agora, hei de lhe oferecer minha piedade

Pois se não, um de nós há de morrer, pois passei a te odiar’

Mas Hromir estava pronto para com ele batalhar

E ecoando nos Salões da Noite, tilintaram então

Darfang e sua espada, Hromir e seu cajado,

Por dias tilintaram, com muita destruição

Grandes guerreiros e magos também

Os bons companheiros batalharam além

Podem ter lutado por mais de dois anos

Se em Aelfendura o sol pudesse brilhar

Para o Tempo que batalharam fosse possível contar

Hrormir e Darfang, qualquer um amigo

Poderiam ter tão fácil vencido o conflito

Se Hrormir não tivesse visto através da escuridão

As lágrimas nos olhos de Darfang, e tristeza em seu coração

E então viu Hromir que a sombra de Darfang não era sua

E com seu Cajado de Gelo Hromir acertou

Não Darfang, mas a sua sombra, e sua sombra gritou

‘Alto, Homem Mortal’

E a sombra logo virou a feiticeira

Curvada e horrível, em traje e capuz

Sussurrou com maldade, a sombra traiçoeira

‘Homem Mortal que Hromir é chamado

A alma de seu bom companheiro me deu muito agrado

Mas eu posso trocá-la, se tanto desejar

Pois os dois tem braços fortes, mas só um sabe pensar

E disso meus filhos, os Reis da Noite, eles vêm a precisar

Num Campeão de Aelfendura, se preciso convocar’

Hromir o Bravo nem sequer respirou

Quando ousadamente sua decisão ele tomou,

‘Bruxa sombria, tu que libertes Darfang, amigo meu

E então, só então, poderá usar-me como se fosse teu’.

A bruxa só fez rir e Darfang libertar

‘Por tua honra, Hromir, fizeste isto’, disse ela

‘Mas agora, tu não deves ter honra, nem poupar a mazela

Mortal, és agora o Campeão dos Reis da Terra Escura

E deve ser a arma para expandir Aelfendura

E acima de tudo, amar a mim e além

Pois sou tua bruxa sombria, e tua esposa também

Pela ida de sua honra, e sacrifício do seu companheiro

O nobre Darfang tomou a sua adaga

Tentou, em arrependimento, perfurar-se por inteiro

Mas Hrormir segurou a mão de seu Irmão sussurrou

‘Não, bom companheiro, não tire a sua vida

Aguarde por mim, entretanto, na estalagem da vila’

E então Darfang o Majestoso deixou o castelo

Enquanto Hromir tomou as garras envelhecidas

E as beijou, e elogiou, como se fossem garridas

‘Bruxa sombria, a ti eu hei de jurar

Que eu, Hromir o Bravo, suas palavras negras vou honrar

E ajudarei os Reis do Escuro a expandirem sua ambição

E proclamarei sua linhagem como a que reinará então

E prometo amá-la, e linda achá-la

Hrormir e a Bruxa Sombria se retiraram então

Com muito incentivo para os Quartos da Escuridão

E lá Hromir beijou os seus lábios enrugados

E fê-la dormir, todos seus medos afastados

E então veio a doce Kynareth, e soprou o bom Vento

De todas as colinas e florestas, espantou o Lamento

E o carinhoso toque de Dibella fez as flores desabrocharem

E a Terra Negra de Aelfendura virou um jardim

Para todos contemplarem

Os servos acordaram e viram que a terra já não era escura

Perceberam que Nocturnal não comandava mais Aelfendura

E através das outrora escuras ruas da cidade

Vieram os gritos de celebração, a chama da posteridade

Então na luz da escuridão mais escura,

Nocturnal, senhora das sombras, deixou Aelfendura.

E depois de beberem doze garrafas de sopro-de-dragão,

E deitarem-se com quatro mulheres então

Retornou Darfang para Nevescura,

Com Hromir, filho de Hrongar

Campeão de Aelfendura.

O canto parou. Ralof abriu os olhos e viu que Gwilin estava sentado em seu banco, em meio a um círculo de ouvintes, que sorriam e aplaudiam.

— Agora é melhor escutarmos de novo — disse um nobre.

Gwilin se levantou, fazendo uma reverência. — Estou lisonjeado, Arbjorn — disse ele. — Mas seria muito cansativo repetir tudo.

— Não cansativo demais para você — responderam ele, rindo. Sabemos que nunca se cansa de repetir seus próprios versos. Mas, falando serio, não podemos responder sua pergunta ouvindo só uma vez!

— O quê? — gritou Gwilin. — Vocês não sabem que partes são minhas, e quais sãos as do Ronaan?

— Não é fácil diferenciar entre dois escritores — disse o homem.

— Bobagem, Arbjorn — retrucou Gwilin. — Se você não consegue fazer distinção entre um homem e um elfo, então seu discernimento é mais pobre do que eu imaginava. São diferentes como ervilhas e maçãs.

— Talvez.

— Não vou discutir com você — disse Gwilin. — Estou com sono depois de tanta música e cantoria. Vou deixar que adivinhe, se quiser.

Levantou-se e veio em direção a Ralof. — Bem, terminou — disse ele em voz baixa. — Saiu melhor do que eu imaginava. Não é sempre que me pedem para cantar de novo. O que achou?

— Hromir era muito esperto — disse Ralof sorrindo.

Ralof parou por um momento, olhando para trás. Arngeir estava em sua cadeira, e o fogo brilhava em seu rosto como a luz do sol sobre as árvores. Perto dele estava sentada a Senhora Serana. Para sua surpresa, Ralof viu que Vorstag estava ao lado dela; não usava mais sua capa marrom, e parecia vestido apenas em sua armadura marrom de couro e malha, com um broche brilhando em suas mãos. Os dois conversavam, e de repente pareceu a Ralof que Serana virou-se na sua direção, e a luz flamejante e amarela daqueles olhos caiu sobre ele, e, mesmo vindo de longe, penetrou seu coração.