DdAH: A Companhia dos Barbacinza
13 O Santuário das Cataratas Ermas
— Em que direção iremos? — perguntou Erik, quando viu o corpo de Arvel cair no chão. O draugr não os notou.
— De volta ao salão — respondeu Savos, no tom mais baixo que pôde. — Mas nossa visita a esta sala não foi em vão. Agora sei onde estamos. Esta deve ser, como disse Arvel, o túnel, Dilon Saraan, e o salão deve ser o vigésimo primeiro do lado Norte. Venham agora! De volta para o salão!
Savos Aren mal tinha dito essas palavras, quando chegou a eles um enorme barulho: um estrondoso bum que parecia vir das profundezas, fazendo tremer a rocha aos pés deles. Correram em direção à uma porta de madeira atrás deles e a fecharam, assustados. Dum, dum, retumbou o barulho outra vez, como se mãos gigantescas estivessem transformando as próprias cavernas das Cataratas Ermas num enorme tambor. Então veio uma rajada reverberando: uma grande corneta soou no salão, e em resposta ouviram-se cornetas e gritos dissonantes vindos de algum ponto distante. Ouviu-se o tropel apressado de muitos pés. Os draugrs atrás deles pareciam não dar nenhuma atenção.
— Eles estão vindo! — gritou Faendal.
— Não podemos sair — disse Kharjo.
— Presos! — disse Savos. —Por que demorei? Aqui estamos, presos, entre a morte e o assassinato. Vamos ver o que...
Dum, dum, vinha a batida dos tambores, estremecendo as paredes.
— Batam as portas e coloquem calços! — gritou Vorstag. — E segurem suas mochilas o máximo que conseguirem: ainda podemos ter uma chance de escapar.
— Não! — disse Savos. — Não devemos ficar trancados aqui dentro. Mantenham a porta Leste entreaberta! Iremos por ali, se houver uma possibilidade.
Um outro chamado estridente de corneta e guinchos agudos soou. Pés se aproximavam pelo corredor. Ouviu-se um tinido e um tropel no momento em que a Companhia desembainhava as espadas. Beldastare emanou um brilho refletindo a luz mágica das tochas. Erik empurrou a porta Leste com os ombros.
— Espere um momento. Não feche ainda — disse Savos, pulando para o lado de Erik, e aprumando-se ao máximo.
— Quem vem aqui para perturbar o descanso de Balfring, Senhor das Cataratas Ermas, e seus soldados? — gritou ele com uma voz cheia.
Houve uma torrente de gargalhadas roucas, semelhante a pedras caindo num poço; em meio ao clamor, uma voz grave se ergueu em comando. Dum, blim, dum, faziam os tambores nas profundezas. Num movimento rápido, Savos avançou para a fresta da porta aberta, colocando à frente sua mão, da qual um brilho passou a emanar. Fez-se um clarão ofuscante, que iluminou a sala e o corredor. Por um instante, o mago olhou para fora. Flechas zuniram e assobiaram pelo corredor, e ele pulou para trás.
— Draugrs, muitos deles — disse ele. — E alguns são grandes e perigosos: Senhores e Generais. Por enquanto estão parados, mas tem alguma outra coisa lá. Acho que é um grande troll das cavernas, ou mais de um. Não há esperança de escaparmos por ali.
— E não haverá esperança de nada, se eles vierem pela outra porta também — disse Erik.
— Não se ouve nada deste lado ainda — disse Vorstag, que estava parado próximo à porta Leste, escutando. — A passagem deste lado conduz por um túnel: é certeza que não conduz de volta ao salão. Mas não é bom fugir cegamente por aqui, com o inimigo bem atrás. Não podemos bloquear a porta. Não há mais chave, a fechadura está quebrada e a porta se abre para dentro. Temos de fazer alguma coisa para atrasar os draugrs primeiro. Vamos fazer com que sintam medo de Dilon Saraan! — disse ele com austeridade, tocando o gume de sua espada, Arandagon.
Ouviram-se passos pesados no corredor. Erik se jogou contra a porta e a fechou com o peso de seu corpo; então calçou-a com lâminas de espadas quebradas e lascas de madeira. A Companhia recuou para o outro lado da câmara. Mas ainda não tinham a possibilidade de fugir. Um golpe fez tremer a porta que lentamente começou a se abrir, rangendo e forçando os calços. Um braço e um ombro enormes, de pele esverdeada cobertos de larvas, lançaram-se através da fresta que se alargava. Depois um pé grande, chato e sem dedos forçou a parte de baixo, abrindo-a. Havia um silêncio mortal do lado de fora.
Erik pulou para frente e golpeou o braço com toda a força, mas a espada rangeu, resvalou e caiu de sua mão trêmula. A lâmina estava quebrada. De repente, e para sua própria surpresa, Ralof sentiu uma ira feroz se acender em seu coração. — Windhelm! — gritou ele e, avançando num salto para o lado de Erik, abaixou -se e apunhalou com seu machado o pé asqueroso. Ouviu-se um urro, e o pé recuou de sopetão, quase arrancando o machado do braço de Ralof. Gotas negras pingaram da lâmina, e caíram no chão fumegando.
Erik arremessou-se contra a porta, fechando-a de novo.
— Um para Windhelm! — gritou Vorstag. — O soldado ataca! Você tem uma boa lâmina, Ralof de Riverwood!
Ouviu-se uma pancada na porta, seguida de pancadas e mais pancadas. Aríetes e martelos batiam contra ela. A porta se partiu e foi recuando e a fresta ficou subitamente larga. Flechas entraram assobiando, mas atingiram a parede Norte, caindo no chão sem ferir ninguém. Um clangor de corneta ecoou e ouviu-se um tropel de passos, e draugrs, um após o outro, pularam para dentro da câmara.
Quantos eram, a Companhia não pôde contar. A luta foi violenta, mas os draugrs se assustaram perante a ferocidade da defesa. Faendal atingiu dois na garganta. Kharjo desmembrou as pernas de um outro que tinha subido no corpo de Arvel. Erik e Vorstag mataram vários. Quando trinta tinham caído, o restante deles fugiu tremendo, deixando os defensores ilesos, com a exceção de Erik, que tinha um corte na cabeça. Uma esquiva rápida o salvara, e ele tinha derrubado seu draugr: um golpe vigoroso a espada de Arvel. Queimava em seus olhos verdes um fogo que teria feito qualquer um recuar.
— Chegou a hora! — gritou Savos Aren. — Vamos, antes que o troll retorne! Mas no momento em que se retiravam, antes que Ralof tivesse alcançado a passagem, um enorme líder dos draugrs, maior que Savos, vestido da cabeça aos pés numa malha metálica preta com um enorme elmo com chifres de trinta centímetros, pulou para dentro da câmara; atrás dele seus seguidores se amontoavam na entrada. O rosto largo e chato era claro, os olhos como água congelada, e a língua era vermelha; brandia uma grande lança. Com um golpe de seu enorme escudo de couro, afastou a espada de Erik e o empurrou para trás, derrubando-o no chão. Abaixando-se para se defender de um golpe de Vorstag, e com a rapidez de uma serpente em seu bote, ele atacou a Companhia e investiu com a lança na direção de Vorstag.
O golpe o atingiu no flanco direito, e Vorstag foi jogado contra a parede, ficando espetado pela lança. Erik, com um grito, golpeou a haste da lança, que se quebrou. Mas justo no momento em que o draugr soltou a lança e desembainhou sua terrível espada longa das costas, Vorstag estava de pé novamente. Arandagon atingiu seu elmo. Fez-se um clarão como fogo, e o elmo se abriu em dois. O orc caiu com a cabeça partida. Seus seguidores fugiram uivando, quando Erik e Vorstag pularam para cima deles.
Dum, dum, continuavam os tambores nas profundezas. A voz poderosa fez-se ouvir outra vez, num estrondo.
— Agora! — gritou Savos. — Esta é a última chance. Corram! Erik colocou o braço de Vorstag por cima do seu, e ajudou-o a atravessar o caminho. Uma armadilha de machados que se balançavam surgiu na frente deles; tamanha era a ira de Savos que ele criou um campo de força com muito esforço para que a Companhia passasse. Os outros o seguiram, mas Kharjo teve de ser arrastado por Faendal: apesar do perigo, ele insistia em rosnar e rugir como uma pantera furiosa para os draugrs.
— Eu estou bem — disse Vorstag. — Posso andar. Ponha-me no chão!
Erik quase o deixou cair de tão surpreso. — Pensei que estivesse morto! — gritou ele.
— Ainda não! — disse Savos — Mas não há tempo para indagações. Saiam, vocês todos, vão pelos corredores! Todas as luzes se acenderam. Isso é um péssimo sinal! Esperem-me alguns minutos do outro lado, mas se eu não chegar logo, continuem! Apressem-se e escolham o caminho que conduz à direita e para cima.
— Não podemos abandoná-lo aqui, segurando a passagem sozinho! — disse Vorstag, com um olhar desesperado.
— Faça o que estou dizendo — disse Savos Aren furioso. — As espadas não servem para mais nada aqui, apenas a magia salvará. Vá!
O corredor não era iluminado por nenhuma passagem de ar, e as tochas estavam tão distantes umas das outras que estava tudo muito escuro. Correram aos tropeços um longo lance de entradas, e depois olharam para trás, mas não conseguiam enxergar nada, apenas a luz avermelhada das tochas e uma luz branca de onde deixaram Savos. Parecia que ele ainda estava parado, guardando a porta fechada.
Ficaram ali, olhando para a escuridão. Ralof tinha a impressão de estar escutando a voz do mago lá em cima, murmurando palavras que desciam pelo teto inclinado com um eco sussurrante. Não podia entender o que estava sendo dito. As paredes pareciam estar tremendo. De quando em quando, as batidas dos tambores pulsavam num estrondo: dum, dum.
De repente, no topo da escada viu-se um clarão de luz branca. Depois ouviu-se um estrondo e um baque surdo. As batidas dos tambores irromperam alucinadas: dum-biun, du-dum, e depois pararam. Savos apareceu na última curva das passagens e caiu no chão, no meio da Companhia.
— Muito bem, acabou! — disse o mago, esforçando-se para ficar de pé. — Fiz tudo o que podia. Mas encontrei um inimigo à minha altura, e quase fui destruído. Mas não fiquem aqui! Vão andando! Vão andando! Onde está você, Kharjo? Venha na frente comigo! Fiquem logo atrás, vocês todos!
Foram tropeçando atrás dele, imaginando o que teria acontecido. Dum, dum, começaram de novo os tambores: agora soavam abafados e distantes, mas vinham na direção deles. Não havia outro som de perseguição, nem o pisar de pés, nem qualquer tipo de voz. Savos não fez curvas, para a direita ou para a esquerda, pois o caminho parecia conduzir na direção que ele desejava.
De quando em quando, desciam por um lance de degraus, dez ou mais, atingindo um nível inferior. Naquela hora, esse era o maior perigo, pois, na escuridão, não conseguiam ver uma descida, até atingi-la e pisar no vazio. Savos tateava o chão com Beldastare como um cego.
Ao final de uma hora, tinham avançado uma milha, ou talvez um pouco mais, e tinham descido e subido muitos lances de degraus. Quase começaram a ter esperanças de escapar. Ao pé da sétima escada, Savos parou.
— Está ficando frio! — disse ele, ofegante. — Devemos ter chegado no mínimo ao nível da saída. Acho que logo devemos procurar uma passagem para o lado esquerdo, que nos leve para o Norte. Espero que não esteja longe. Estou muito cansado. Preciso descansar aqui um pouco, mesmo que todos os draugrs existentes no mundo estejam atrás de nós.
Kharjo pegou-o pelo braço, ajudando-o a se sentar num degrau. — O que aconteceu lá em cima junto à porta? — perguntou ele. — Encontrou aquele que bate os tambores?
— Não sei — respondeu Savos. — Mas de repente me vi enfrentando algo que nunca tinha visto. Não pude pensar em mais nada a não ser lançar um encantamento para fechar a porta. Conheço muitos, mas para fazer esse tipo de coisa direito, é preciso tempo, e mesmo assim a porta pode ser arrombada. Enquanto fiquei ali, pude ouvir vozes de draugrs do outro lado: pensei que a qualquer momento eles forçariam a porta e a abririam. Não pude ouvir o que diziam; pareciam estar conversando na sua língua horrenda. Tudo o que entendi foi lah munax, que significa “mago cruel”. Nesse momento, alguma coisa entrou na câmara — senti quando atravessava a porta, e os próprios draugrs ficaram amedrontados e quietos. A coisa pegou a argola de ferro, e então sentiu meu encanto e minha presença. O que era não posso adivinhar, mas nunca senti desafio tão grande. No contra-encanto ele usou a Voz, e era muito poderosa, e uma força atravessou a porta. Quase me destruiu. Por um instante, a porta fugiu ao meu controle e começou a abrir! Tive de pronunciar uma palavra de Comando. Isso foi pressão demasiada. A porta se partiu em pedaços. Alguma coisa escura como uma nuvem estava bloqueando toda a luz que vinha de dentro, e eu fui jogado para trás, e caí escada abaixo. Todas as paredes desmoronaram, e acho que o teto também. Receio que Balfring esteja enterrado bem fundo, e talvez alguma outra coisa esteja enterrada lá também. Não sei dizer. Mas pelo menos a passagem atrás de nós foi completamente bloqueada. Ah! Nunca me senti tão exausto, mas já está passando. E você, Vorstag? Não tive tempo de dizer isso, mas nunca fiquei tão feliz na vida como no momento em que ouvi sua voz. Receava que fosse um Guardião da Alvorada corajoso, mas morto, que Erik estava carregando.
— E eu? — disse Vorstag. — Estou vivo, e inteiro, eu acho. Estou machucado, mas as armaduras da Guarda da Alvorada são feitas com muitas runas e encantamentos, suficientes até para defender-me deste mal.
Agora os tamores continuavam de novo. Logo Kharjo falou. Seus olhos enxergavam bem na escuridão. — Eu acho — disse ele — que há uma luz ali adiante. Mas não é a luz do dia. É azul. Que poderia ser?
— Lah munax! — murmurou Savos — Imagino se é isso que eles estavam dizendo: que os andares inferiores estão cobertos de uma mágica cruel? Achei que eu era o mago a quem se referiam. Mesmo assim, só nos resta ir em frente.
Logo não havia mais dúvidas quanto à luz, e todos podiam vê-la. Estava faiscando e brilhava nas paredes da passagem diante deles. Agora podiam enxergar o caminho: à frente, a estrada subia com grande inclinação, e a alguma distância estava uma porta; da soleira dela, vinha a luz brilhante.
O ar ficou muito frio.
Quando chegaram à porta, Savos a abriu, fazendo um sinal para que os outros esperassem. Enquanto ficou ali parado além da abertura, eles viram seu rosto iluminado por uma luz azul. Recuou rapidamente.
— Existe algum tipo de maldade nova aqui — disse ele — feita para nos receber, sem dúvida. Mas sei onde estamos: atingimos o Santuário das Cataratas Ermas, o nível imediatamente atrás das saídas. Este é o Terceiro Salão das Cataratas Ermas, e a saída está perto: ali, na saída Norte, à esquerda, a menos de um quarto de milha. Do outro lado da Ponte, subindo uma escada larga, indo por uma estrada ampla e inacabada de terra, e para fora! Mas venham olhar!
Espiaram para fora. Havia uma grande muralha de obsidiana, mas ela estava destruída e arruinada. Diante deles, subindo uma escadaria, estava um outro salão cavernoso. Era mais alto e bem mais comprido que aquele no qual tinham dormido. Estavam perto do canto Leste: no lado Norte, o salão avançava mergulhando na escuridão. No centro se erguia uma fila dupla de pilares de pedra. Estavam esculpidos como copas de árvores enormes, e os ramos sustentavam o teto, terminando num trançado de ramificações menores. Os troncos eram lisos e pretos, mas um brilho azul se espelhava nas suas laterais. Na direção oposta, no chão, ao pé de dois grandes pilares, uma enorme fissura se abrira. Dela emanava uma luz azul e violenta, e de vez em quando chamas lambiam a borda e se enrolavam nas bases das colunas. Mechas de fumaça preta pairavam no ar quente.
— Curiosamente essas luzes não se acenderam, diferente das outras — disse Savos. — Agora vamos esperar que o fogo fique entre nós e o inimigo. Venham! Não há tempo a perder!
No momento em que o mago falava, escutaram de novo as batidas de tambores que os perseguiam: dum, dum, dum. Atrás dele, além escadas, vieram gritos e toques de cornetas. Dum, dum: os pilares pareciam vibrar e as chamas tremiam.
— Agora, para a última corrida! — disse Savos. — Se o sol estiver brilhando lá fora, ainda poderemos escapar. Sigam-me!
Virou à esquerda e se apressou através do chão liso do salão. A distância era maior do que parecera. Enquanto corriam, escutaram a batida e o eco de muitos pés vindo atrás deles. Ouviu-se um grito agudo: tinham sido vistos. Seguiu-se se um tinido e peças de aço batendo. Uma flecha assobiou sobre a cabeça de Ralof.
Erik riu. — Eles não esperavam por isso — disse ele. — O fogo cortou-lhes o caminho. Estamos no lado errado!
— Olhem para a frente — gritou Savos. — A plataforma está perto. É perigosa, pois o próprio Balfring deve ter acordado de seu sono. É o trabalho do Devorador de Mundos.
De repente, Ralof viu adiante um abismo escuro. No fim do salão, tudo desaparecia e caía numa profundidade desconhecida. Flechas caíam em meio ao grupo. Uma atingiu a ombreira de Vorstag e, encontrando resistência, ricocheteou no ar. Uma outra perfurou o capuz de Savos e ficou ali, como uma pena preta. Ralof olhou para trás. Viu um enxame de figuras negras: parecia haver centenas de draugrs. Brandiam lanças e cimitarras que brilhavam azuis como o gelo. Dum, dum, batiam os tambores, cujo som ia ficando cada vez mais alto, dum, dum.
Faendal se virou e preparou uma flecha, embora a distância fosse grande demais para seu pequeno arco. Puxou a corda do arco, mas sua mão caiu, e a flecha escorregou para o solo. Ele deu um grito de desespero e medo. Dois grandes Generais apareceram. Mas não foram os generais que encheram o elfo de medo. A multidão de draugrs se abriu, e se amontoou do lado, como se eles próprios estivessem com medo. Alguma coisa vinha atrás. Não se podia ver o que fosse: era como uma grande sombra, no meio da qual havia uma forma escura, talvez humanóide, mas menor; poder e terror pareciam estar nela e ao seu redor.
A figura veio para a extremidade do fogo e a luz se apagou, como se uma nuvem tivesse coberto tudo. Então, com um movimento rápido, pulou por sobre a fissura. As chamas azuis bramiram para saudá-la, e se ergueram à sua volta; uma nuvem negra rodopiou subindo no ar. O seu corpo esquelético fulgurava com uma aura azul de mágica. Da mão direita emanava algum encantamento arroxeado e terrível; na mão esquerda trazia um cajado mágico, e em sua ponta uma esfera que emanava toda aquela luz azul ele erguia, e era terrível e poderoso.
— Ah! Ah! — gritou Faendal. — Um Sacerdote Dracônico! Um Sacerdote Dracônico vem vindo pela escada em nossa direção!
Kharjo olhou com os olhos esbugalhados. — O Servo do Devorador de Mundos — gritou ele, deixando cair a maça e cobrindo o rosto.
— Um Sacerdote Dracônico! — murmurou Savos Aren. — Agora eu entendo. — Perdeu o equilíbrio e se apoiou na espada. — Que má sorte! E eu já estou exausto!
A figura escura, envolvida em magia, corria em direção a eles. Os draugrs gritavam e avançavam para a passarela de pedra. Então Erik levantou sua corneta e a tocou. Forte o desafio soou e retumbou, como o grito de muitas gargantas sob o teto cavernoso. Por um momento os draugrs estremeceram e a figura esquelética parou. Então os ecos se extinguiram de repente como uma chama apagada por um vendaval, e o inimigo avançou outra vez.
— Para fora! — gritou Savos, recobrando as forças. — Fujam! Balfring está com os outros! Este é um inimigo além das forças de qualquer um de vocês. Preciso proteger a saída. Fujam!
Vorstag e Erik não obedeceram ao comando, e ainda ficaram onde estavam, lado a lado, atrás de Savos Aren na extremidade oposta da ponte. Os outros pararam bem na passagem na ponta do salão e se viraram, incapazes de deixar seu líder sozinho, enfrentando o inimigo. Ralof, Faendal e Kharjo recuaram e foram para a plataforma; o túmulo de Balfring estava quebrado, e nele havia somente uma pedra lisa e triangular, esculpida a fundo. A Pedra Dracônica, pensou Ralof, e a agarrou.
O Sacerdote Dracônico alcançou o Santuário. Savos Aren parou no meio do arco, e empunhou com força sua Beldastare, fria e branca. O inimigo parou outra vez, enfrentando-o, e a sombra à sua volta se espalhou como duas grandes asas. Levantou o cajado, e um longo raio foi ao teto, que tremeu. E então, quando Savos olhou e analisou a figura, tremeu e quase caiu para trás. Era seu antigo inimigo, o qual invadira as fortalezas no Labyrinthian anos atrás, e pensou ter aprisionado para sempre pelo preço da vida de dois de seus amigos. Morokei estava ali, pois aquele era seu cajado, que tinha enfrentado e derrotado toda a Companhia do Colégio de Winterhold que foi caçá-lo. Mas Savos ficou firme.
— Você não pode sair daqui, Morokei — disse ele. Os draugrs estavam quietos, e fez-se um silêncio mortal. — Sou um servidor de Magnus, e com a mágica concedida por ele controlo a chama do Devorador de Mundos. Você não pode passar. O fogo da sombra não vai te ajudar, Morokei. Volte para o sono, e volte para o seu descanso eterno. Não pode continuar. Bo rigir wah praan, Morokei. Zu’u ferd hi rigir ko foraan do Magnus!
O Sacerdote Dracônico não fez sinal de resposta. O fogo nele pareceu se extinguir, mas a escuridão aumentou. Avançou devagar para a plataforma até aonde a Companhia havia chegado recuando, e de repente saltou a uma enorme altura, e seus braços se abriram, e seu manto escuro fez ainda mais sombra, mas ainda se podia ver Savos, brilhando na escuridão; parecia pequeno, e totalmente sozinho: uma figura azulada e curvada, como uma árvore encolhida perante o início de uma tempestade.
Saindo da sombra, o cajado lançou terríveis raios azuis em direção a Savos. As mãos de Savos emanaram um brilho branco em resposta. Houve um estrondo e um golpe de fogo branco. O Sacerdote Dracônico caiu para trás e seu contra-encanto falhou, queimando a mão decomposta.
O mago se desequilibrou na ponte, deu um passo para trás e mais uma vez ficou parado. — Você não chegará a Skuldafn! — disse ele.
Num salto, o Sacerdote Dracônico avançou para cima da ponte. O cajado zunia e chiava. E então falou, num tom zombeteiro, e sua voz eram muitas almas falando, havia sombra e escuridão nela, e um medo cresceu em todos quando a ouviu.
— Hi funt, Aren. Fah lingrah hi lost gegrun zey ko dii siifur govoldeim, nuz nu zu'u fent krii hi, ahrk hiif dii in. Hi fent ni helt zey, fah hi fahdon los dilon. — Depois de um tempo, flutuando no ar, ele aproximou o rosto coberto por uma máscara de prata de Savos e sua voz foi ouvida novamente. — Tu não respondes, velho amigo. Devo falar-lhe em tua própria linguagem gutural? Você apenas enfrenta a tua própria falha novamente. Dreh hi yah wah geblaan fos hi vust ni?
— Ele não pode ficar sozinho! — gritou Vorstag de repente, correndo de volta ao longo da ponte. — Talos! — gritou ele. — Estou aqui, Savos!
— Solitude! — gritou Erik, correndo atrás dele.
Nesse momento, Savos levantou as mãos e, gritando bem alto, atirou um meteoro de luz no teto de pedra da caverna. Suas mãos acinzentadas queimaram com o poder excessivo. Um lençol de chamas brancas se ergueu. A pedra estalou. Bem sob a cabeça de Morokei se quebrou, e a pedra sobre ele começou a se romper.
Com um grito horrendo, as pedras caíram sob o Sacerdote Dracônico, e sua sombra azulada mergulhou na escuridão, desaparecendo. Mas no momento em que Savos atingiu o teto, Morokei brandiu o cajado e um turbilhão de raios azulados perfuraram o corpo de Savos. Ele perdeu o equilíbrio e caiu, agarrando-se em vão à pedra da pequenina ponte sob um riacho dentro da caverna e seus olhos começaram a ficar pretos ao invés de vermelho e sua pele a perder a cor acinzentada, e percebeu que Morokei havia ligado as duas almas. — Tire-os daqui, Vorstag! — gritou ele, e morreu.
As chamas azuis se apagaram, uma escuridão vazia dominou o ambiente. A Companhia ficou presa ao solo, horrorizada, olhando para o corpo do mago. Os draugrs contornaram a pedra e avançaram. Vorstag sentiu uma força em sua garganta, e a Voz saiu involuntariamente.
Fus
E então os draugrs tremeram e caíram, conforme a Voz de Vorstag se espalhava e exercia uma força contra todos eles. No momento em que Vorstag e Erik voltavam correndo, o resto da pedra começou a ruir e cair. Com um grito, Vorstag os despertou.
— Venham! Vou conduzi-los agora! — chamou ele. — Devemos obedecer à última ordem dele. Sigam-me!
Avançaram alucinadamente, subindo aos tropeços a escada atrás da porta. Vorstag na frente, Erik atrás de todos. No topo ficava uma passagem ampla e que produzia ecos. Por ela fugiram. Ralof corria apenas porque Erik segurava sua roupa e o empurrava, pois sem ele não seria capaz de nada além de berrar o nome do amigo aos prantos. Olhou para o lado e viu que todos estavam chorando. Dum, dum, dum, os tambores batiam atrás, lamentosos agora, e lentos; dum!
Continuaram correndo. A luz aumentava diante deles; grandes fendas se abriam no teto, correram mais rápido. Passaram para dentro de um caminho de terra, claro com a luz do dia, que entrava pela saída no lado Norte. Atravessaram-no correndo. Passaram pela saída, um mero buraco de terra, e de repente se abriram diante deles o grande Lago Ilinalta, um arco de luz fulgurante refletia em suas águas.
Havia uma guarda de bandidos agachada nas sombras atrás das pedras, que se erguiam dos dois lados, mas tudo estava se arrebentando e destroçando. Vorstag derrubou ao chão o capitão deles, que estava em seu caminho, e o resto fugiu de medo de sua ira. A Companhia passou pelos ladrões correndo, e não deu atenção a eles. Correram para fora da saída e desceram o barranco pedregoso.
Assim, finalmente, depois de perdidas todas as esperanças, viram o céu aberto e sentiram o vento batendo em seus rostos. Não pararam até alcançarem uma boa distância das pedras. A Passagem da Canela se estendia ao redor. A sombra da montanha se projetava sobre a passagem, mas ao Leste havia uma luz dourada sobre a terra. Não passava uma hora do meio-dia.
O sol brilhava; as nuvens estavam altas e brancas.
Olharam para trás. A boca da saída das Cataratas Ermas bocejava sobre a sombra da montanha. As batidas dos tambores retumbavam, fracas e distantes sob a terra: dum. Uma fumaça fina e preta subia no céu. Não se via mais nada; o vale ao redor estava vazio. Dum. Finalmente, a tristeza tomou conta deles, que choraram por muito tempo: todos em pé e quietos, e Ralof atirados ao chão. Dum, dum, as batidas dos tambores foram ficando mais fracas, até que não se ouviu mais nada.
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