Naquela noite, a Companhia foi chamada outra vez ao salão do Jarl Balgruuf, e ali o Jarl e sua corte os cumprimentaram com belas palavras. Finalmente, Balgruuf falou da partida deles.

— É chegada a hora — disse ele — em que aqueles que desejam continuar a Demanda devem endurecer seus corações e deixar esta terra. Aqueles que não mais desejam prosseguir podem permanecer aqui, por um tempo. Mas quer fiquem quer partam, a paz não pode ser assegurada. Pois chegamos agora ao limiar de nosso destino. Aqui, aqueles que desejarem podem esperar a aproximação da hora em que ou os caminhos do mundo se abrirão de novo, ou os convocaremos para a luta suprema de Whiterun. Então poderão voltar às suas terras, ou ir para a morada duradoura daqueles que caem na batalha.

Fez-se silêncio. — Todos resolveram partir — disse Farengar, olhando nos olhos deles.

— Quanto a mim — disse Erik — meu lar fica adiante, e não lá atrás.

— Isso é verdade — disse Balgruuf, — mas toda a Companhia vai com você para Solitude? Isto já é certo, eu imagino?

— Ainda não decidimos nosso caminho — disse Vorstag. — Depois de Whiterun, não sei o que Savos pretendia fazer. Na verdade, acho que nem ele tinha um propósito definido.

— Talvez não — disse Balgruuf —, mas mesmo assim, quando deixarem este lugar, não poderão mais esquecer a divisão das estradas. De que lado vão viajar? O caminho para Solitude fica deste lado, no Oeste; mas a estrada da Demanda fica deste outro lado, no Leste, na margem mais escura. Que estrada pegarão agora?

— Se meu conselho for acatado, iremos pelo Oeste, e pelo caminho de Solitude — respondeu Erik. — Mas não sou o líder da Comitiva.

Os outros não disseram nada, e Vorstag parecia preocupado.

— Vejo que ainda não sabem o que fazer — disse Balgruuf. — Não é meu papel fazer essa escolha em seu lugar; mas vou ajudá-los como puder. Alguns entre vocês sabem lidar com barcos: Faendal, cujo povo conhece o veloz Rio Xylo, Erik de Solitude, e Vorstag, o viajante.

— E um khajiit! — rosnou Kharjo. — Nem todos nós achamos que um barco é como um cavalo xucro. Meu povo mora também às margens do Rio Xylo, e muitas vezes meus antepassados cruzaram aquele rio.

— Isso está bem — disse Balgruuf, — então providenciarei barcos para a sua Companhia, e enviarei homens para aprontá-los no Lago do Rio Karth. Devem ser pequenos e leves, pois se avançarem muito pela água haverá lugares onde serão forçados a carregá-los. Os barcos podem fazer com que sua viagem seja menos penosa durante um certo trecho. Apesar disso, eles não vão ajudá-los a decidir: no fim, devem abandoná-los e ao Rio, e rumar para o Oeste — ou para o Leste.

Vorstag agradeceu a Balgruuf várias vezes. A doação dos barcos o consolou por vários motivos, e não menos por agora poderem postergar por mais uns dias a decisão sobre qual caminho seguir. Os outros, da mesma forma, pareciam mais esperançosos. Quaisquer que fossem os perigos à frente, parecia melhor subir flutuando a larga correnteza do Rio Karth para enfrentá-los, do que prosseguir num caminho penoso com as costas arcadas.

— Prepararemos tudo, e vocês serão esperados nas margens do Rio Karth antes do meio-dia de depois de amanhã — disse Balgruuf. — Enviarei pessoas pela manhã para que possam ajudá-los nos preparativos da viagem. Agora desejamos-lhes uma boa noite e um sono tranqüilo.

— Boa noite, meus amigos! — disse Farengar. — Durmam em paz! Esta noite, não sobrecarreguem seus corações pensando no melhor caminho. Pode ser que as trilhas nas quais cada um de vocês devem pisar já estejam diante de seus pés, embora talvez não consigam enxergá-las. Boa noite!

A Companhia saiu e voltou para o pavilhão. Faendal os acompanhou, pois aquela deveria ser a última noite deles em Whiterun, e apesar das palavras de Farengar todos queriam ficar juntos para planejar a viagem. Por um longo tempo, debateram sobre o que deveriam fazer, e sobre o melhor modo de tentar atingir seus propósitos em relação ao dragão; mas não chegaram a decisão alguma. Ralof apenas falou que o objetivo em Whiterun estava concluído, que era entregar a Pedra Dracônica à Farengar. Estava claro que a maioria deles desejava ir primeiro até Solitude e escapar, pelo menos por um tempo, do terror do Devorador de Mundos. Estariam dispostos a seguir um líder através da província e para dentro da sombra de Skuldafn; mas Erik não dizia nada e Vorstag ainda estava dividido.

Seu próprio plano, enquanto Savos Aren ainda estava com eles, era ir com Erik e, com sua espada, ajudar a libertar Solitude. Pois ele acreditava que a mensagem dos sonhos era um chamado, e que tinha chegado finalmente a hora em que o herdeiro dos Imperadores da Terceira Era deveria se apresentar e lutar contra Alduin pelo comando. Mas nas Cataratas Ermas o fardo de Savos passara para seus ombros, e ele sabia que não podia agora abandonar a tarefa do dragão, se Ralof finalmente se recusasse a acompanhar Erik. Apesar disso, que ajuda poderia ele ou qualquer um da Companhia prestar a Ralof, a não ser caminhar ao seu lado para dentro da escuridão?

— Irei para Solitude, mesmo que vá sozinho, pois este é meu dever — disse Erik, e depois ficou calado por um tempo, sentado com os olhos fixos em Vorstag, como se tentasse ler os pensamentos dele. Finalmente falou de novo, numa voz suave, como se estivesse discutindo consigo mesmo. — Se você quer apenas destruir o dragão furtivamente, como foi demandado mas não explicado, — disse ele — então não haverá muita utilidade na guerra e nas armas, e os homens de Solitude não poderão ser de grande ajuda. Mas se você deseja destruir a força armada do Devorador de Mundos, então é tolice avançar pelos domínios dele sem armas; é tolice jogar fora... — parou de repente, como se tivesse percebido que estava pensando em voz alta. — Seria tolice jogar fora vidas, quero dizer — terminou ele. — É uma escolha entre defender um lugar forte e caminhar abertamente para os braços da morte. Pelo menos é assim que vejo as coisas.

Ralof percebeu algo novo e estranho no olhar de Erik, e olhou-o fixamente. Estava claro que o pensamento de Erik divergia de suas últimas palavras, seria tolice jogar fora: o quê? a Espada de Uriel Septim? Ralof olhou para Vorstag, mas este parecia estar mergulhado em seus próprios pensamentos, e não fez sinal de que prestara atenção às palavras de Erik. E assim a discussão terminou.

Pela manhã, enquanto arrumavam sua sumária bagagem, vieram soldados vestidos da mesma armadura com um manto amarelo a cobrindo com seus elmos, que faziam todos eles parecerem uma mesma pessoa cheia de clones, e os convidaram para escoltá-los para o Estado do Reino. Depois da refeição matinal, a Companhia disse adeus aos portões da Cidade. Tinham um peso nos corações, pois o lugar era lindo e tinha se tornado para eles como sua própria casa, embora não fossem capazes de contar os dias e noites que passaram ali. Enquanto pararam um pouco para olhar a água cristalina sob a luz do sol, Peragon veio andando na direção deles, atravessando a relva amarela da clareira. Ralof o cumprimentou com alegria.

— Estou voltando das Fronteiras do Norte — disse o elfo — e estou sendo enviado para ser o guia da Companhia novamente. A Tumba de Hamvir está cheia de vapor e nuvens de fumaça, e as montanhas estão inquietas. Há rumores nas profundezas da terra. Se algum de vocês tivesse pensado em voltar para casa pelo Norte, não conseguiria passar por ali. Mas venham! Seu caminho agora é pelo Sul.

Conforme passaram através de volta por todos os caminhos que percorrem desde a saída das Cataratas Ermas, viram que os caminhos verdes estavam vazios; mas no alto das árvores muitas vozes murmuravam e cantavam. Eles por sua vez estavam em silêncio. Finalmente Peragon os conduziu, indo para o extremo sudoeste, onde as montanhas faziam fronteiras com Cyrodiil; assim foram passando e deixando para trás a cidade dos cavaleiros. Então saíram da estrada pavimentada e tomaram uma que seguia em frente, descrevendo curvas através de florestas sinuosas cobertas de sombra prateada, sempre conduzindo-os para frente, para o Sul e para o Oeste, em direção às margens do Rio Karth.

Tinham viajado por um dia, e o meio-dia da manhã seguinte já chegava, quando atingiram as margens de um Lago que banhava uma grande ilha. Passando por uma abertura, de repente saíram da região arborizada. Adiante se deitava um longo gramado verde, salpicado de douradas flores que reluziam ao sol. O Lago rolava suas águas caudalosas, profundas e escuras.

Nas margens mais adiante, a floresta ainda prosseguia na direção Oeste, até onde a vista podia alcançar, mas toda a região das margens estava vazia e desolada. Na margem do Lago, a alguma distância acima do encontro das correntezas, via-se um ancoradouro de madeira. Ali estavam ancorados muitos barcos e barcaças. Alguns estavam pintados com cores claras, e brilhavam como prata, ouro ou verde, mas a maioria deles eram brancos ou cinzentos. Três pequenos barcos cinzentos tinham sido preparados para os viajantes, e nestes os soldados colocaram seus mantimentos.

— Venham! — disse Peragon. — Está tudo pronto agora para vocês. Entrem nos barcos! Mas tomem cuidado no início!

— Prestem atenção a essas palavras — disse um dos soldados, enquanto ajudava Ralof a entrar. — Esses barcos são de construção leve, e são espertos e diferentes dos barcos de outros povos. Não afundarão, não importa quanto os carregarem, mas são teimosos se forem mal conduzidos. Seria bom que se acostumassem a embarcar e desembarcar, aqui onde existe um ancoradouro, antes de partirem correnteza abaixo.

A Comitiva se dividiu da seguinte forma: Vorstag e Erik num barco; Ralof no outro, e no terceiro foram Faendal e Kharjo, que tinham agora se tornado grandes amigos. Neste último colocaram a maioria dos mantimentos e das mochilas. Os barcos eram movimentados e dirigidos com remos curtos, que tinham lâminas largas em forma de folha. Quando tudo estava pronto, Vorstag os conduziu num teste, subindo o Rio Karth. A correnteza era forte e eles avançavam devagar.

Ralof ia sentado na proa, agarrado às bordas e olhando ansioso para a margem que se distanciava. A luz do sol, brilhando na água, ofuscava seus olhos. Quando passavam além dos limites do Lago, as árvores se aproximavam da beira do rio. Aqui e ali, folhas douradas voavam e flutuavam na correnteza ondulada. O ar estava muito claro e calmo. E tudo estava quieto, a não ser pelo canto alto e distante das cotovias.

— À medida que seguirem subindo o rio — disse Peragon —, perceberão que as montanhas vão desaparecer, e que estarão entrando numa região desolada. Ali o Rio corre num vale rochoso por entre altas charnecas, até que finalmente, depois de muitas milhas, chega à alta ponte, que nós chamamos de Ponte do Dragão. Ali ele estende seus braços ao redor das encostas íngremes da cidade, desviando-se para grandes uma área escura para entre os lugares que antigamente eram conhecidos como Forgulnthur. Aquela é uma região de pântanos morosos, onde o rio se torna tortuoso e muito dividido. Ali, por meio de várias desembocaduras, recebe as águas do Mar das Assombrações. Erik, e quem quer que o acompanhe à procura de Solitude farão bem em deixar o Rio Karth antes de Forgulnthur e desembarcar no Moinho de Solitude, antes que o Rio atinja os pântanos. Aos que não vão, não penetrem muito fundo no Reino de Forgulnthur, pois lá habitavam males que vocês já tiveram o desprazer de conhecer. Mas não há dúvida de que Erik e Vorstag não precisam desta advertência.

— Realmente ouvimos falar de Forgulnthur em Solitude — disse Erik. — Mas o que ouvi me parecia ser, quase tudo, contos de velhas avós, como aqueles que contamos a nossas crianças. Tudo o que fica ao Leste de Solitude está agora para nós tão distante que a imaginação pode voar livremente. Há muito tempo, Forgulnthur fazia divisa com nosso reino, mas há muitas gerações de homens nenhum de nós visita aquela região, para poder provar se são verdadeiras ou falsas as lendas que chegaram até nós, vindas de anos longínquos. Eu próprio já estive algumas vezes em Forgulnthur, mas nunca entrei nas ruínas. Quando fui enviado como mensageiro, passei por ali. Uma viagem longa e cansativa. Calculo que tenha viajado quatrocentas léguas, e isso levou muitos meses, pois perdi meu cavalo perto das Cavernas de Verdevera. Depois daquela viagem, e da estrada que trilhei com esta Companhia, não duvido muito que consiga encontrar um caminho através de Forgulnthur, e deste Rio também, se houver necessidade.

— Então não preciso dizer mais nada — disse Peragon. — Mas não despreze a tradição que vem de anos longínquos; talvez as velhas avós guardem na memória relatos sobre coisas que alguma vez foram úteis para o conhecimento dos sábios.

E então a noite chegou, e nos barcos, sendo levados pelas correntezas, todos dormiram. Ralof foi acordado por um psiu de Kharjo. Descobriu que estava deitado, bem agasalhado, sob altas árvores de casca cinzenta num canto silencioso da floresta, na margem Oeste do Rio Karth. Tinha dormido toda a noite e a manhã cinzenta estava escura por entre os galhos nus. Kharjo se ocupava em fazer uma fogueira ali perto.

Partiram de novo antes que o dia se abrisse. Não que a maioria dos membros da Companhia estivesse ansiosa por correr em direção ao Norte: estavam satisfeitos porque a decisão, que deveria ser tomada o mais tardar quando chegassem à Ponte do Dragão, pôde ser postergada por alguns dias, e deixavam que o Rio os conduzisse em seu próprio passo, pois não queriam correr em direção aos perigos que os esperavam, qualquer que fosse o caminho que decidissem tomar no final. Vorstag permitiu que acompanhassem a correnteza como desejavam, poupando as forças para o cansaço que viria. Mas insistiu que pelo menos partissem cedo a cada dia, e que viajassem até o anoitecer, pois sentia em seu coração que o tempo urgia e temia que o Devorador de Mundos não tivesse ficado parado enquanto a Comitiva havia permanecido em Whiterun, ainda mais com a morte de um dragão, seu mais poderoso servo já revelado.

Apesar disso, não se viu qualquer sinal de inimigos naquele dia, nem no dia seguinte. As horas enfadonhas e cinzentas se arrastavam sem qualquer surpresa. Quando o terceiro dia de jornada terminava, a região começou lentamente a mudar: as árvores rarearam e desapareceram por completo. Na margem Leste à esquerda deles, viram encostas compridas e informes erguendo-se em direção ao céu; tinham uma aparência escura e seca, como se o fogo as tivesse varrido, não deixando qualquer folha verde: um deserto hostil sem nem uma árvore quebrada ou rocha escarpada que aliviasse o vazio.

Nem mesmo Vorstag sabia dizer que pestilência ou guerra, ou que feito maléfico do Inimigo tinha desolado toda a região daquela maneira. Do lado Oeste, à direita deles, a região também não tinha árvores, mas era plana, e em vários pontos coberta com amplos trechos de capim marrom, e cheia de montanhas. Desse lado do Rio, viram passar florestas de grandes juncos, tão altos que os impediam de enxergar a Leste, enquanto os pequenos barcos passavam roçando suas bordas trêmulas. As plumas escuras e ressecadas pendiam e se lançavam no vento frio e leve, sussurrando suave e tristemente. Aqui e ali Ralof conseguia ver de relance, através de aberturas por entre os juncos, extensos prados e, mais além, colinas ao pôr-do-sol, e mais longe ainda, no horizonte, uma linha escura, na qual desfilavam as cordilheiras das montanhas Não se via sinal de seres vivos em movimento, a não ser pássaros. Destes havia muitos: pequenas aves assobiando e piando nos juncos, mas que dificilmente eram vistas.

Uma vez ou outra os viajantes, ouviam o agito alvoroçado de asas de cisnes, e olhando para cima viram um grande bando deles cruzando o céu.

— Cisnes! — disse Ralof. — E dos grandes!

— Sim — disse Vorstag —, e são cisnes negros.

— Como toda esta região parece vazia, ampla e melancólica! — disse Ralof. — Sempre imaginei que, conforme se viajasse para o Norte, tudo ficasse mais gelado e alegre, e pudéssemos ver flocos de neve.

— Mas ainda não viajamos tanto para o Norte, e não há neve em Solitude — disse Vorstag. — Estamos longe do mar. Aqui o mundo é quente até que chegue de repente o inverno, e ainda podemos encontrar neve outra vez.

Ralof olhava inquieto de uma margem para outra. Antes, as árvores lhe pareceram hostis, como se escondessem olhos secretos e perigos à espreita; agora ele desejava que as árvores ainda estivessem lá. Sentia que a Companhia estava desprotegida demais, flutuando em pequenos barcos abertos, em meio a uma região descoberta, num rio que era a fronteira da guerra.

Nos dois dias seguintes, enquanto avançavam, sempre para o Norte, essa sensação de insegurança cresceu em toda a Companhia. Durante um dia inteiro, eles pegaram seus remos e avançaram depressa. As margens passavam deslizando. Logo o Rio se alargou e ficou mais raso; praias compridas e pedregosas se deitavam ao Leste, e havia bancos de areia e cascalho na água, de modo que era preciso conduzir os barcos com cuidado. As Terras de Solitude surgiam em descampados desertos, sobre os quais soprava um ar frio do Leste. Do outro lado, os prados tinham-se transformado em ladeiras de grama ressequida em meio a uma região de brejos e moitas de capim. Ralof teve um calafrio ao pensar nos gramados e fontes, no sol claro e nas suaves chuvas de Whiterun. Pouco se falava e ninguém ria nos barcos. Cada membro da Companhia estava ocupado com seus próprios pensamentos.

O coração de Faendal corria sob as estrelas de uma noite de verão em alguma clareira de Valenwood, em meio a florestas de faias; Kharjo, em sua mente, manuseava ouro e sonhava com ele acordado. Erik agora resmungava consigo mesmo, algumas vezes mordendo as unhas como se alguma inquietação ou dúvida o consumisse, outras vezes agarrando um remo e aproximando seu barco do de Faendal. Havia muitos pássaros em volta dos penhascos e das pontas rochosas, e durante todo o dia bandos de pássaros formaram círculos no ar, negros contra o céu claro.

Enquanto descansavam no acampamento naquele dia, Vorstag observava os vôos cheio de dúvidas, imaginando se alguém não estivera fazendo alguma maldade, e se a notícia da viagem deles não estava agora se propagando no ermo. Mais tarde, quando o sol se punha e a Companhia se movimentava, fazendo os preparativos para uma nova partida, ele distinguiu um ponto preto contra a luz que se apagava: um grande pássaro voando alto e distante. Às vezes desenhando círculos no céu, outras voando lentamente para o Sul.

— O que é aquilo, Faendal? — perguntou ele, apontando para o céu ao Norte. — Seria, como imagino, uma águia de Solitude?

— Sim — disse Faendal. — É uma águia do Oeste, uma águia caçadora. Pergunto-me o que isso significa. Ela está longe das montanhas.

— Não vamos partir até que escureça completamente — disse Vorstag.

Chegou a oitava noite daquela jornada. Era silenciosa e parada: o vento soturno do Leste tinha parado. A lua crescente tinha caído cedo no poente, mas o céu no alto estava claro, e embora longe ao Norte houvesse grandes cadeias de nuvens que ainda brilhavam pálidas, no Oeste as estrelas cintilavam claras.

— Venham! — disse Vorstag. — Vamos arriscar mais uma jornada noturna. Estamos chegando a um trecho do Rio Karth que não conheço bem, pois nunca viajei pela água nestas partes antes, não entre este ponto e as corredeiras do Reduto de Bruca. Mas, se meus cálculos estiverem certos, as corredeiras ainda estão muitas milhas adiante. Mesmo assim, encontraremos lugares perigosos antes até de chegarmos lá: rochas e ilhotas de pedra na correnteza. Devemos manter uma vigilância rigorosa e evitar remar rapidamente.

Ficou ao encargo de Ralof, no barco da frente, a função de vigia. Ele se deitou com a cabeça para frente, espiando na escuridão. A noite ficou escura, mas as estrelas acima estavam estranhamente claras, e a superfície do Rio reluzia. Era quase meia-noite, e eles já estavam navegando havia algum tempo, quase sem usar os remos, quando de repente Ralof soltou um berro. Apenas a alguns metros adiante, formas escuras assomaram na correnteza e ele escutou a água veloz num turbilhão. Havia uma corredeira que levava para a esquerda, em direção à margem Leste, onde o canal estava desobstruído. Enquanto eram arrastados para o lado, os viajantes puderam ver, agora muito próxima, a espuma clara do Rio batendo contra os rochedos pontudos que saíam das águas como uma fileira de dentes. Os barcos estavam todos amontoados.

— Ei, Vorstag! — gritou Erik, quando seu barco bateu no da frente. — Isto é loucura! Não podemos desafiar as corredeiras à noite! Mas nenhum barco pode sobreviver nas de Bruca, seja de noite seja de dia.

— Para trás! Para trás! — gritou Vorstag. — Vire! Vire se conseguir. — Mergulhou o remo na água, tentando deter o barco e fazê-lo voltar. Meus cálculos estavam errados — disse ele a Erik. — Não sabia que tínhamos chegado tão longe: o Rio Karth corre mais rápido do que eu pensava. As Corredeiras de Bruca já devem estar bem próximas.

Com grande esforço, detiveram os barcos e os viraram; mas no início só conseguiram avançar muito lentamente contra a correnteza, e todo o tempo eram trazidos para mais e mais perto da margem Leste, que agora assomava escura e agourenta na noite.

— Todos juntos, remem! — gritou Erik. — Remem! Ou seremos levados para os bancos de areia. — Enquanto ouvia isso, Ralof sentiu o barco onde estava raspar numa pedra.

Nesse momento, ouviu-se o zunido de cordas de arcos: muitas flechas negras assobiaram sobre suas cabeças, e algumas caíram no meio deles. Uma quase atingiu Ralof entre os ombros e ele cambaleou para frente com um grito, deixando cair seu remo. Uma outra foi repelida pela ombreira metálica de Vorstag, e uma terceira ficou espetada na borda do segundo barco, perto da mão de Faendal. Ralof julgava poder divisar figuras negras correndo de um lado para o outro sobre os longos montes de pedra que jaziam sobre a praia Leste. Pareciam estar muito perto.

— Algo terrível se aproxima de nós! — gritou Faendal, num lapso.

— Draugrs? — gritou Kharjo, mas não responderam.

— Coisa do Devorador de Mundos, com certeza — disse Peragon. — E também escolheram um bom lugar. O Rio parece decidido a nos levar direto para os braços deles!

Todos se inclinaram para frente, colocando mais força nos remos. A cada momento esperavam sentir a mordida das flechas com penas pretas. Muitas zuniam acima de suas cabeças ou caíam na água ali perto; mas ninguém mais foi atingido. Estava escuro, mas não escuro demais para os olhos noturnos e vermelhos que espreitavam dentre as árvores, e sob o brilho das estrelas a Companhia provavelmente ofereceria um alvo fácil aos astutos inimigos, se a cor cinzenta dos barcos de Whiterun não derrotasse a malícia dos arqueiros de Skuldafn.

Continuaram lutando, remada após remada. Na escuridão, era difícil ter certeza de que estavam realmente se movendo; mas devagar a força da água em redemoinho foi amainando, e a sombra da margem se apagou dentro da escuridão. Finalmente, pelo que podiam julgar, estavam no meio do Rio outra vez, e haviam recuado os barcos afastando-se bastante das rochas salientes. Então, viraram os barcos para o Oeste e os conduziram com toda sua força para a margem. Sob a sombra de arbustos curvados sobre a água, pararam para tomar fôlego.

Faendal soltou seu remo e pegou o arco que havia trazido de Valenwood, pois o que lhe fora oferecido em Alta Hrothgar na partida da Companhia havia sido quebrado. Então pulou para a praia e subiu alguns passos na margem. Puxando a corda e encaixando nela uma flecha, ele se voltou, espiando por sobre o Rio na escuridão. Do outro lado ouviam-se gritos agudos, mas não se podia ver nada.

Ralof levantou os olhos para o elfo que se erguia imponente acima dele, observando a noite e procurando um alvo em que pudesse mirar. A cabeça escura estava coroada pelas estrelas brancas que reluziam contra os lagos escuros do céu. Mas agora, levantando-se e navegando do Sul, as nuvens avançavam enviando batedores escuros para os campos estrelados. Um terror repentino dominou toda a Companhia.

— Y’ffre! — suspirou Faendal ao erguer os olhos. No momento em que falava, uma forma escura e vermelha, como uma nuvem mas que não era uma nuvem, pois movia-se muito mais rápido, surgiu do negrume do Norte, correndo em direção à Companhia, vedando toda a luz conforme se aproximava. Logo se definiu como uma grande criatura de olhos vermelhos e rosto pintado da mesma cor, porém mais negra que os abismos da noite. Vozes selvagens se ergueram para saudá-la, do outro lado do Rio. Ralof sentiu um calafrio repentino percorrendo seu corpo e apertando seu coração; teve uma sensação gelada e mortal na região do pescoço, como a lembrança de um velho ferimento. Agachou-se como se estivesse tentando se esconder.

De repente, o grande arco de Valenwood cantou. A flecha, impulsionada pela corda, zuniu no ar. Ralof olhou para cima. Quase em cima dele, a forma negra guinou. Ouviu-se um grasnado alto e rouco, no momento em que a criatura caiu, desaparecendo dentro da escuridão da praia Leste. Tudo estava limpo outra vez. Na escuridão, podia-se distinguir um tumulto de muitas vozes distantes, praguejando e lamentando, e então silêncio. Depois disso nenhuma lança ou grito veio do Leste naquela noite.

Passado algum tempo, Vorstag conduziu os barcos de novo correnteza acima. Foram tateando o caminho ao longo da margem por uma certa distância, até que encontraram uma baía pequena e rasa. Algumas árvores baixas cresciam ali, perto da água, e atrás delas subia uma margem rochosa e íngreme. Ali a Companhia decidiu parar e esperar a chegada da aurora: seria inútil tentar prosseguir à noite. Não fizeram acampamento, nem acenderam o fogo, mas ficaram deitados e encolhidos nos barcos, que estavam ancorados uns perto dos outros.

— Louvados sejam o arco de Glonagoth e a mão e o olho de Faendal — disse Kharjo, enquanto mastigava um pedaço de troll-doce. — Aquele foi um belo tiro no escuro, meu amigo!

— Mas quem poderia dizer o que o tiro atingiu? — disse Faendal.

— Eu não — disse Kharjo. — Mas fico feliz em pensar que a sombra não se aproximou mais. Não gostei dela nem um pouco. Pareceu-me semelhante demais à sombra nas Cataratas Ermas — a sombra do Sacerdote Dracônico — finalizou ele, num sussurro.

— Não era um Sacerdote Dracônico — disse Faendal. — Era algo mais estranho e sobrenatural. Acho que era... — Parou neste ponto, e ficou em silêncio.

— Acha o quê? — perguntou Erik ansioso, inclinando-se em seu barco, como se tentasse olhar o rosto de Faendal.

— Eu acho... Não, não vou dizer. O que quer que fosse, sua queda enfraqueceu nossos inimigos.

— É o que parece — disse Vorstag. — Apesar disso, não sabemos onde estão, quantos são, e qual será seu próximo passo. Nenhum de nós deve dormir esta noite! A escuridão está nos escondendo agora. Mas quem pode dizer o que o dia revelará? Mantenham suas armas ao alcance das mãos!

— Vejam — disse Peragon, quebrando o silêncio, alguns minutos depois. — O que é aquilo no céu? Não é uma águia caçadora!

Faendal sorriu. — É uma águia mensageira; torçamos para que carregue boas mensagens, pois não tivemos muita sorte ultimamente.

A águia era reluzente e parecia dançar no céu, descendo numa velocidade esplendorosamente lenta. Seu bico era negro e gasto, mas não era uma águia de osso, pois suas penas eram amarronzadas. Ela pousou perto do barco de Ralof, que tentou a tocar. Assustada, pousou no ombro de Vorstag, que parecia já conhecer – e conhecia, pois era uma águia de Alta Hrothgar, que muitas léguas viajara na procura do Guardião da Alvorada e sua Companhia. Vorstag leu a carta com certo pesar nos olhos, mas um alivio tremendo.

— Que pena — disse ele. — Esta é uma mensagem de Einarth, um dos Barbacinza, para todos nós. Mas está atrasada, ou não. Vou ler para vocês, pois está em versos, como Einarth costuma escrever todas as suas mensagens:

Guardião da Alvorada, esperança renovada

Ralof de Riverwood, a bravura retomada

Com estes parte Kharjo, viajante vendedor

E o filho de Glonagoth, no arco seu esplendor

Savos Aren, velho mago, guia e bom amigo

Chega a hora em que a Companhia ruma ao perigo

Absorvida foi a alma de Mirmulnir, o dragão

E a prova de sua linhagem o Ronaan provará então

Pois a corneta de nosso Mestre há muito foi enterrada

E devem retorná-la, para que a cerimônia seja realizada

No coração de Forgulnthur, o reino envelhecido

Devem descer e procurar o artefato esquecido

A Corneta de Jurgen Chamavento devem retornar

Fortificar as esperanças, o Dovahkiin há de guiar

Procurem Ustengrav, que a Companhia dividirá

Entrem e desçam os túneis, pois a Corneta está lá

Faendal se mexeu em seu barco. — Esta é uma decisão que devemos tomar imediatamente, então — disse ele —, se devemos continuar com Erik para Solitude ou virar para Leste e não rumar para Skuldafn, mas para Ustengrav, que fica em Forgulnthur, terra do Devorador de Mundos.

— Talvez sim — disse Vorstag. — Mas será difícil encontrar a trilha para Ustengrav, pois este local não é conhecido por mim. E precisamos achar a trilha, se vamos passar por Forgulnthur. Nenhum de nós gostaria de ficar perdido por aquelas terras secas e horríveis.

— Não vejo por que precisamos ir por Forgulnthur agora — disse Erik. — Se Solitude está à nossa frente, podemos abandonar esses barquinhos assim que chegarmos à Ponte do Dragão, e avançar para o Norte até chegar aos moinhos, que podemos atravessar chegando assim à minha terra.

— Podemos, se estivermos indo para Solitude — disse Vorstag. — Mas isso ainda não foi decidido. E um caminho desses pode ser mais perigoso do que parece. Não recebemos nenhuma notícia de Solitude, que eu saiba, desde a sua partida. Eu não abandonaria nossos barcos até que fosse necessário. Pelo menos, o Rio Karth é uma trilha que não se perde.

— Mas o Devorador de Mundos se apoderou da margem Leste com seus servos, e Forgulnthur estará rodeada de armadilhas e espiões — objetou Erik. — E mesmo que você passe o Portão de Ustengrav e volte ileso, que vai fazer depois? Atravessar todas as léguas dali até a Alta Hrothgar com tal artefato em tão pouca segurança?

— Não! — respondeu Vorstag. — Em vez disso, diga que iremos levar nossos barcos pelo caminho antigo até os pés do Lago Yorgrim, e ali continuar pela água. Não sabemos se encontraremos uma Solitude segura ou não, e nossa ida pode ser em vão, mas não é sábio negligenciar uma demanda dos Barbacinza; principalmente quando estamos todos reunidos neste mesmo propósito, unicamente. Digo que devemos ir para Ustengrav.

Erik relutou muito em aceitar essa escolha; mas quando ficou claro que Ralof seguiria Vorstag, aonde quer que este fosse, acabou cedendo. — Não é costume dos homens de Solitude abandonar seus amigos necessitados — disse ele. — E vocês vão precisar de minha força, se chegarem à Ustengrav. Irei até as ruínas, mas não além daquele ponto. Não podem me fazer passar pelas Terras do Regicida. Ali, quando retomarmos esta Corneta, rumarei para meu lar; sozinho, se minha ajuda não angariar a recompensa de algum companheirismo.

Peragon, entretanto, disse que só iria com eles até as margens de Ustengrav, e então voltaria a pé para Whiterun, visto que eles ainda teriam de fazer mais uso dos barcos. O dia avançava e o nevoeiro tinha subido um pouco. Decidiu-se que Vorstag e Faendal deveriam avançar imediatamente ao longo da margem, enquanto os outros permaneceriam perto dos barcos. Vorstag esperava encontrar algum caminho pelo qual pudessem ir, carregando os barcos e a bagagem, até atingir as águas mais calmas além das Corredeiras.

— Os barcos de Whiterun não afundam, talvez — disse ele. — Mas isso não quer dizer que poderíamos atravessar os pântanos a salvo. Ninguém jamais fez isso. Nenhuma estrada foi feita pelos homens de Haafingar nesta região, pois mesmo nos dias gloriosos seu reinado só descia o Rio Karth, não ia para o Leste. Mas há uma passagem em algum lugar da margem, e espero poder encontrá-la. Não pode estar destruída, pois barcos leves costumavam viajar saindo de Morthal, subindo até o Mar, e ainda faziam isto há alguns anos, quando os draugrs de Forgulnthur começaram a guardar a passagem.

— Raramente vi em minha vida um barco subindo de Morthal, e os draugrs não espreitam na superfície, mas às vezes alguns resistem ao sol e andam e se escondem nos pântanos — disse Erik. — Se você for em frente, o perigo ficará maior a cada milha, mesmo que consiga encontrar um caminho.

— O perigo nos espera em todas as estradas que conduzem ao Norte — respondeu Vorstag. — Esperem-nos por um dia. Se não voltarmos nesse prazo, saberão que de fato o mal nos atingiu. Então devem escolher outro líder e segui-lo da melhor maneira possível.

Foi com o coração pesado que Ralof viu Vorstag e Faendal subindo a margem íngreme e desaparecendo dentro da névoa, mas seus temores se mostraram infundados. Apenas duas ou três horas tinham-se passado, e mal chegava o meio-dia, quando as figuras sombrias dos exploradores apareceram outra vez.

— Está tudo bem — disse Vorstag, descendo a margem. — Há uma trilha que leva a um olhadeiro da Ponte do Dragão, e lá tem uma ponte. A distância não é grande: os pântanos estão bem ao nosso lado, e eles têm apenas algumas milhas de comprimento. Não muito além deles a água acaba, e só há margens. Lá será fácil encontrar Ustengrav. Nossa tarefa mais difícil será levar os barcos e a bagagem através da passagem da ponte. Nós a encontramos, mas ela fica a uma boa distância desta margem. Podemos ter muito trabalho para remar correnteza acima e mesmo assim não encontrá-lo por causa do nevoeiro. Receio que devamos abandonar o Rio agora, e nos dirigir para essa passagem da melhor forma que conseguirmos.

— Isso não seria fácil, mesmo que todos fôssemos homens — disse Erik, olhando confidentemente para Vorstag.

— Mesmo assim, vamos tentar, sendo todos homens ou não — disse Vorstag, olhando para Faendal e Kharjo.

— Vamos, sim — disse Kharjo. — As pernas de um homem ficam para trás numa estrada difícil, enquanto um khajiit continua, mesmo que o peso que carrega seja duas vezes maior que o do seu próprio corpo, Príncipe!

A tarefa acabou se revelando realmente difícil, mas no fim foi desempenhada. Os mantimentos e bagagens foram retirados dos barcos e trazidos ao topo da margem, onde havia um espaço plano. Depois os barcos foram arrastados para fora da água e carregados. Eram muito menos pesados do que qualquer um esperara.

Ralof conseguiu, sozinho, carregar seu barco ao longo da planície. Não obstante, era preciso a força de dois homens para levantar e arrastar os barcos pelo terreno que agora a Companhia deveria atravessar. O caminho subia, distanciando-se do Rio: uma região deserta, de pedras calcáreas cinzentas, com muitos buracos escondidos pelo mato e pelos arbustos; havia moitas de espinheiros, e pequenos vales abruptos; aqui e ali encontravam-se poças lamacentas alimentadas pelas águas que desciam dos planaltos na região mais interna.

Erik e Vorstag carregaram os barcos um de cada vez, enquanto os outros iam aos tropeços atrás deles, levando a bagagem. Finalmente tudo foi transportado e colocado na passagem. Então, sem muita dificuldade, a não ser por urzais espalhados e muitas rochas caídas, foram indo para frente, todos juntos. Levaram horas até que chegassem a uma pequena cabana. A tarde curta já passara e um crepúsculo apagado e nublado se formava.

Sentaram-se perto da água, escutando o rugido rápido e confuso dos pântanos que agora estavam bem próximos na névoa; estavam cansados e sonolentos, e tinham os corações melancólicos como o dia que morria.

— Bem, aqui estamos, e aqui passaremos mais uma noite — disse Erik. — Precisamos dormir, e mesmo que Vorstag pretendesse atravessar o Portão de Ustengrav à noite, estamos todos cansados demais — exceto, sem dúvida, nosso vigoroso khajiit.

Kharjo não respondeu. Estava caindo no sono ali mesmo, sentado.

— Vamos descansar o máximo possível agora — disse Vorstag. — Amanhã devemos viajar durante o dia outra vez. A não ser que o tempo mude de novo e nos engane, teremos uma boa chance de escapar sem sermos vistos por quaisquer olhos nos pântanos Leste. Mas esta noite dois devem montar guarda juntos, fazendo revezamento: três horas de descanso e uma de plantão.

Na cabana, acharam um homem morto e seu fiel companheiro canino ao seu lado. Vorstag, que estava no plantão, o enterrou e alimentou o cachorro com algumas cenouras. Naquela noite, não aconteceu nada pior que um chuvisqueiro rápido, uma hora antes do nascer do dia. Logo que estava completamente claro, eles partiram levando o cachorro que se chamava Meeko, o que agradou bastante a Ralof, e assim que partiram começou a chuviscar. Cobriram os barcos com peles, para evitar que se alagassem, e continuaram; através daquela cortina cinzenta que caía, quase nada podiam ver à frente ou em volta. Entretanto, a chuva não durou muito. Lentamente, o céu foi ficando mais leve e, de repente, as nuvens se desmancharam, e suas franjas soltas rumaram para longe, descendo o Rio para o Sul. O nevoeiro desapareceu. Diante dos viajantes abria-se uma região pantanosa, com águas paradas e escuras. A terra era branca e cheia de árvores com raízes explícitas. Agora iam depressa acompanhando a margem, com pouca esperança de parar ou desviar, não importava o que encontrassem à frente. Sobre eles via-se uma alameda de céu azul-claro claro.

Ralof, olhando para a frente, viu na distância uma grande rocha se aproximando: parecia um grande pináculo ou pilar de pedra. Alto, íngreme e agourento, erguia-se vandalizado na margem Leste. Uma pequena abertura apareceu entre eles, e o pântano levou os barcos naquela direção.

— Olhem o Altar de Talos! — gritou Vorstag. — Vamos passar por ele em breve. Mantenham os barcos em fila e o mais separados que puderem. Estes pântanos são íngremes.

Quando Ralof foi levado na direção deles, o Altar de Talos assomou como uma torre vinda ao seu encontro. Parecia-lhe um gigante, uma figura grande e cinzenta, silenciosa mas ameaçadora. Então percebeu que de fato era desenhado e moldado: o trabalho e o poder de antigamente tinham trabalhado nele, que ainda conservava, através do sol e da chuva de anos esquecidos, as formas poderosas da escultura original.

Sobre um pedestal alicerçado nas regiões pantanosas, erguia-se um grande rei de pedra: ainda, com olhos turvos e cenhos gretados, voltavam-se para o Oeste. As duas mãos seguravam o cabo de uma espada pequena, nada parecida com aquela que Vorstag carregava, e a espada apontava para uma serpente sob seus pés; sobre sua cabeça via-se um elmo e uma corôa, já se desintegrando. Guardião silencioso de um reino há muito desaparecido, tinha ainda grande força e majestade. Dominado pelo medo e pela admiração, Ralof se encolheu, fechando os olhos e não ousando olhar para cima, enquanto o barco se aproximava. Até Erik abaixou a cabeça quando os barcos passaram, frágeis e fugazes como pequenas folhas, sob a sombra duradoura de Talos, Ysmir, o Dragão do Norte. Assim adentraram o reino de Forgulnthur.

Lá adiante estava o céu pálido. As águas negras rugiam e reverberavam, e um vento gritava sobre eles. Ralof escutou Peragon, resmungando à sua frente: — Que lugar! Que lugar horrível! Assim que sair deste barco, nunca mais vou molhar meus pés numa poça outra vez, muito menos num rio!

— Não tenha medo! — disse uma voz estranha atrás dele. Ralof se voltou e viu o Encapuzado, que ao mesmo tempo não era o Encapuzado, pois o Guardião da Alvorada marcado pelo tempo não estava mais lá. Na popa estava Vorstag, filho de Rorstag, imponente e ereto, guiando o barco com movimentos habilidosos; seu capuz jogado para trás, e os cabelos castanhos esvoaçando no vento, uma luz em seus olhos: um rei retornando do exílio à sua própria terra. — Não tema! — disse ele. — Por muito tempo quis contemplar as figuras de Tiber Septim, meu antepassado. Sob suas sombra Vorstag, o Dragonborn e Ronaan, filho de Rorstag, da Casa de Uriel, Filho de Pelagius, herdeiro de Tiber Septim, nada tem a temer!

Então a luz em seus olhos se apagou, e ele falou para si mesmo: Como queria que Savos estivesse aqui! Como meu coração anseia pela Cidade Imperial e pelas muralhas de minha própria cidade! Mas para onde devo ir agora? A fenda era comprida e escura, e repleta do ruído do vento e da água veloz, e dos ecos nas rochas. Inclinava-se um pouco na direção do Oeste de modo que, num primeiro momento, tudo adiante estava escuro; mas logo Ralof viu um espaço de luz à sua frente, sempre crescendo. Rapidamente se aproximou e de repente os barcos foram lançados através dele, saindo para um espaço amplo e claro.

O sol, já há bastante tempo distante do meio-dia, brilhava num céu de ventania. As águas confinadas se espalhavam dentro de um lago longo e oval, salpicado por várias ilhazinhas de areia, cheia de caranguejos gigantes. Finalmente atrás deles viram o ponto mais alto de Forgulnthur, que não tinha a altura nem do portão de Whiterun, pois Forgulnthur era um reino subterrâneo. À Sul e a Oeste, viram algumas cabanas e uma grande abertura no chão, contornada por uma visível muralha pequena.

A Companhia agora descansou um pouco, flutuando para o Sul na correnteza que atravessava o meio do pântano. Comeram um pouco e depois pegaram de novo os remos e se apressaram em seu caminho. As encostas das colinas a Oeste caíram na escuridão, e o sol ficou redondo e vermelho. Aqui e ali, uma estrela nebulosa aparecia. O lago rugia com uma voz possante. A noite já se deitava sobre as águas velozes quando os viajantes chegaram finalmente à sombra das colinas. O décimo dia de viagem chegava ao fim. As Terras de Morthal estavam atrás deles. Agora estavam em Ustengrav. O último estágio da Demanda estava diante deles.